Capítulo 4

5043 Palavras
Entrei em casa com o terno do meu pai em uma mão e meu celular na outra. - Coloca no quarto do meu pai, por favor – entreguei o terno para a governanta e subi as escadas digitando no celular. Você consegue me passar informações do proprietário de um carro com a seguinte placa: OJH 2520?? Perguntei para Marcus. Depende. Para que vc quer? Procure as informações e vc vai saber para quê. Eu quero tudo que você puder encontrar. O que eu ganho com isso? Eu paro de chamar seu carro de lata velha. Vai chamar ele de um clássico? Vou. Fechado. Sorri e joguei o celular em cima da cama. Fui até o banheiro e encarei meu cabelo no espelho. Fiz uma careta para ele. - Como você se arma assim no dia que eu esbarro com a encarnação da beleza? – falei – Seu traidor! Entrei debaixo do chuveiro, ainda pensando nele. No corpo dele. No rosto dele... Aquele homem simplesmente era perfeito. Quer dizer, pelo menos por fora ele parecia perfeito. Mas quem é que se importava com o lado de dentro quando eu só queria me divertir e ir embora no outro dia? Terminei o banho e verifiquei meu celular, esperando pela resposta de Marcus, mas só tinha uma mensagem de Ana me perguntando se eu iria para a academia. Suspirei e respondi que sim. Eu não tinha mais nada para fazer mesmo. Botei um macacão de malhar e fui para a academia. Voltei uma hora e meia depois. Já eram seis horas e meu pai já estava em casa. Subi para o meu quarto e tomei outro banho. Conferi a conversa com Marcus, mas não havia nada novo ainda. Desci para jantar e esbarrei com ele na mesa, conversando com meu pai. - O que está fazendo aqui? – perguntei para ele. - Vim jantar com vocês – ele disse – Por que? Não posso? Revirei os olhos. - Me recuso a responder isso. Me sentei na mesa de frente para Marcus enquanto eles continuavam conversando sobre algo chato que não me interessava. Botei minha comida no prato e o fitei, doida para que ele virasse para mim e eu pudesse perguntar o que tinha conseguido. Mas ele não me olhou. Quando cansei de esperar, chutei ele por baixo da mesa. - Ai! – ele me olhou – Por que você fez isso? Fechei os olhos e suspirei fundo. Às vezes ele podia ser tão inteligente quanto uma pedra. - Foi sem querer – forcei um sorriso e me levantei. - Onde você vai, amor? – meu pai perguntou. - Levar meu prato para a cozinha. - Ah... – ele se voltou para Marcus e continuou a conversar. Parei atrás dele e balancei a mão no ar, para chamar atenção de Marcus. Ele me olhou e eu apontei para a cozinha, depois saí. Tomara que ele tenha entendido o recado dessa vez, pensei. Coloquei meu prato dentro da pia e esperei por ele. Ele chegou logo em seguida, com o próprio prato sujo. Dei um tapa no braço dele. - Você está meio agressiva ultimamente, hein?! – ele brincou e colocou o prato dentro da pia. - E aí? Você conseguiu o que eu te pedi? - Talvez... – ele disse e começou a lavar os pratos. - Como assim, talvez? Ele riu. - Quem é Pedro Flegler? – sorri. - Você conseguiu? - Quem é Pedro Flegler? – ele repetiu. - Um cara que eu conheci hoje – falei – Onde estão as informações que eu te pedi. Ele estreitou os olhos para mim, tirou do casado uma folha e me entregou. Era uma ficha com todos os dados dele, inclusive o número e o lugar onde morava. Dei um pulo e um abraço em Marcus. - Você é o melhor! – eu disse. - Eu sei – ele sorriu de lado – Agora me diz, o que ele tem que te interessou tanto? - Quem interessou a quem? – meu pai entrou na cozinha e olhou para mim – Do que vocês estão falando? - Nada – eu disse e, rapidamente, coloquei a ficha por dentro da minha blusa sem que ele visse. - De homens, pai – meu irmão disse. Dei um pisão no pé dele – Ai! Quer parar de me machucar? Olhei de cara feia para ele. - Homens? – meu pai se aproximou e me encarou – Namorados? Eu ri. - Não, definitivamente não – me virei para a pia e fingi que lavava a louça – Vocês assistiram ao jogo ontem? – tentei mudar de assunto. - Talvez futuro namorado – Marcus continuou. Fechei os olhos e respirei fundo, me segurando para não voar em cima dele. - Futuro namorado? – meu pai perguntou – Você está gostando de alguém, querida? Me virei para ele. - Não, pai. Não se preocupe – me apressei – Não tem ninguém. É só o Pedro que está inventando... quer dizer, Marcus! É só o Marcus que está inventando coisas – droga! - Quem é Pedro? – meu pai perguntou. - Ninguém – eu disse. - O carinha dela – Marcus falou na mesma hora que eu. Olhei para ele de cara feia. - Você está gostando desse rapaz, querida? – meu pai perguntou. - Não, meu Deus! Não! – levantei as mãos – Gente, vamos parar de falar sobre isso. Por favor. Me virei de costas e voltei a fingir que lavava a louça. - Meu amor, se você estiver gostando de um rapaz, não tem problema nenhum – meu pai continuou – Eu não tenho ciúmes. Aliás, se você nunca namorou porque achou que teria problemas comigo... - Não, pai – me virei para ele de novo – Nada a ver. Nada a ver! - Então por que você nunca namorou? – ele perguntou. Marcus riu do meu lado e eu suspirei. - Por nada, pai – eu disse – Vamos apenas dizer que eu não gosto de compromissos. - É porque ela não se contenta só com um hom... – Marcus começou a dizer, mas eu pisei com força em seu pé de novo – Ai! - É só porque eu não me contento com um homem que não seja bom o suficiente para mim – disse rapidamente – Só isso. Nada mais – forcei um sorriso. Ele me encarou de maneira estranha e depois olhou de mim para Marcus e de Marcus para mim. - Tudo bem, é que... – ele começou. - Vamos mudar de assunto, não é pessoal?! – eu disse e bati palma – Que tal a gente falar do jogo de futebol? Meu pai me olhou e riu. - Não acho que ela queira falar sobre isso – ele disse para Marcus. - Eu tenho certeza – Marcus respondeu. - Tudo bem – meu pai disse – Então eu vou dormir. Boa noite para vocês. Ele se aproximou de mim e me deu um beijo no rosto. - Boa noite, pai – eu disse. - Boa noite – Marcus disse ao meu lado e me encarou, com um sorriso de lado. Dei um soco em seu estômago e ele se curvou, gemendo de dor. - Por que você fez isso? – ele perguntou. - Porque você merece – me virei e saí da cozinha. - Boa noite, maninha! – ele gritou – Eu te amo! Virei o rosto para ele e levantei o dedo do meio em sua direção. Ele riu ainda mais. Subi para o meu quarto e tranquei a porta para que ninguém me incomodasse. Peguei a ficha dentro da blusa e comecei a ler. Resumidamente, ele tinha vinte e um anos e estava no último semestre do curso de direito na faculdade. Morava sozinho em um apartamento em um dos lugares mais perigosos da cidade e, o principal, tinha um celular! Salvei o número dele no meu celular e guardei a ficha. Sorri enquanto fitava os oito dígitos. - Acho que meu carro vai ter outro problema amanhã. ... Marcus estacionou o carro ao lado do meu. O capô estava aberto e eu estava inclinada, olhando as peças que não significavam nada para mim. Marcus se aproximou de mim e me encarou. - Qual é a emergência? – ele perguntou. - Você sabe de alguma peça aqui que, se for danificada, não vai causar um estrago tão grande ao ponto de eu não conseguir chegar na oficina? Ele revirou os olhos e cruzou os braços. - Eu não acredito que vim aqui só para isso – ele resmungou – Podia ter me perguntando pelo celular. - Para de reclamar e me ajuda – eu disse. Ele bufou. - Que tal você fechar esse capô e estragar outra coisa? - Tipo o que? – perguntei. - Tipo aquela torneirinha mágica que fica embaixo do carro que faz gasolina vazar caso seja furada. Sorri e dei um beijo rápido em sua bochecha. - Eu te amo – eu disse – Você é um gênio. - É, eu sou. Fechei o capô do carro. - Sabe o que vai me fazer te amar mais ainda? – dei um grande sorriso em sua direção. Ele revirou os olhos. - Tá, eu furo para você. Eu ri. - Você é dez – virei de costas – Já volto. Saí correndo para dentro de casa. Invadi o escritório do meu pai, que estava sentado atrás da mesa, digitando algo em seu computador. - Pai, você teria dinheiro para me emprestar? – perguntei. - Para emprestar? – ele curvou uma sobrancelha. Eu poderia começar uma discussão sobre procurar um emprego, mas eu não estava no pique agora. Tinha coisas mais importantes para fazer. - Me dar – corrigi. Ele riu. - Quanto você quer? – ele abriu a carteira. - Acho que cem está bom. Ele me estendeu duas notas de cem reais. - Fica com duzentos – ele falou – E não vá fazer nenhuma besteira. Ele riu. - Quem? Eu? – bufei e virei de costas – Claro que não. Fechei a porta e fui até meu quarto. Peguei o celular em cima da cama e procurei o nome dele na agenda, clicando em chamar. Ele atendeu no segundo toque. - Alô – a voz grave soou e eu quase esqueci o que eu tinha que dizer. - Ah... oi! – comecei – Meu nome é Giovana e eu estive na oficina onde você trabalha ontem. A garota do Jaguar vermelho, lembra? - Hm... Lembro – ele respondeu. - Ótimo – eu disse – Quer dizer... É que meu carro está vazando... Está vazando gasolina do meu carro! – suspirei. Como eu era retardada – Enfim, eu posso levar ele na oficina para você dar uma olhada? - Hã... Pode – ele respondeu – Sem problemas. Sorri e suspirei aliviada. - Ótimo – eu disse – Pode ser agora? - Pode – ele fez uma pausa – Só uma pergunta... - O que? - Como você descobriu meu número? Abri a boca para responder, mas fechei de novo. E agora? O que eu iria dizer? - Hm... – falei a primeira coisa que passou pela minha cabeça – Peguei no cartãozinho da oficina. Ele riu do outro lado da linha. - A gente não tem um cartãozinho. - Hm... – estalei a língua – Talvez vocês devessem ter um cartãozinho. Ele riu. - É... Talvez. - Então tá... – eu disse – Estou indo aí agora. Desliguei o celular quando ele disse tchau. Eu deveria ter pensando em uma boa resposta para essa pergunta. Mas não tinha uma resposta melhor que o cartãozinho da oficina, tinha? Provavelmente não. Dei de ombros e coloquei o celular e o dinheiro no bolso da calça jeans. Abri meu guarda-roupa e peguei uma blusa de manga comprida, folgada, que deixava a barriga à vista. Desci e encontrei Marcus entrando no carro para ir embora. - Você fez? – perguntei. - Lógico – ele fechou a porta e abriu a janela – Dê um oi para o Pedro por mim – ele sorriu e foi embora. Entrei no carro e acelerei em direção a oficina. Cheguei lá em quinze minutos. Pedro parecia já estar esperando por mim. Ele estava encostado em seu carro com as mãos nos bolsos, já com a camiseta preta sem manga que ele usou no dia anterior. Ele parecia mais gato do que nunca. Saí do carro e bati a porta. - Olha só quem voltou! – Pleyson disse, me encarando com um sorriso malicioso no rosto. Tinha algo verde no dente da frente dele. Fiz uma careta. - Tem um pedaço de alface no seu dente – eu disse. Pedro riu enquanto ele fechava a cara e se retirava, talvez para ir no banheiro conferir seus dentes. Olhei para Pedro. Devo ter encarado seu sorriso perfeito por muito tempo, porque ele pigarreou e desviou o olhar. - E então.... – ele começou – Qual é o problema dessa vez? Ele foi em direção ao carro. - Gasolina vazando. Ele se agachou e deu uma olhada embaixo do carro. Olhei para a b***a dele e fiquei encarando. Meu Deus, aquele homem tinha sido feito sob medidas. - É, eu estou vendo – ele disse. Eu também, pensei, enquanto encarava sua b***a. - Parece que você conseguiu furar a mangueira – ele levantou o rosto para mim – Um mistério, realmente. Sorri. - Tudo é possível – eu disse. Ele se levantou. - Até descobrir meu número em um bilhete premiado? – ele perguntou. - Até isso – confirmei. Ele sorriu. - Não vai me dizer como conseguiu meu número? - Uma mulher nunca revela seus segredos. Ele deu um passo para trás e se escorou no meu carro, botando as mãos nos bolsos da calça. - Poxa, então eu acho que você vai ter que procurar outro mecânico para consertar isso pra você – ele me encarou. Sorri e levantei as sobrancelhas. - Que jogo sujo – eu disse. - Pois é... Me aproximei dele, até estar bem na sua frente. - Por que a gente não faz o seguinte... – encarei ele – A gente sai na sexta à noite e eu te conto como eu descobri o seu número. Que tal? Ele sorriu. - Ou a gente pode fazer o seguinte – ele tirou as mãos dos bolsos e cruzou os braços – Você me conta e em troca eu arrumo o seu carro. Fiz uma careta. - Prefiro a minha proposta. - E se eu não quiser aceitá-la? – ele perguntou. - Bem, então eu vou ter que pedir para o Pleyson arrumar meu carro... – suspirei – E depois vou ter que ir embora e levar a resposta para a sua pergunta junto comigo. Ele me fitou, parecendo ponderar meu convite. - Acho que eu posso viver com esse mistério – ele falou, por fim. Sorri e dei de ombros. - Você quem sabe... Ele me fitou novamente, pensando na minha proposta. No final, ele sorriu. - Tudo bem – ele disse por fim – Combinado. Abri um grande sorriso. - Você não vai se arrepender – eu disse. - Tenho minhas dúvidas – ele falou – Agora, eu preciso arrumar o seu carro. Dei um passo para trás, sorrindo, dando espaço para que ele pudesse passar. Observei enquanto ele pegava algumas ferramentas dentro de uma caixa e depois entrava debaixo do carro. Ele ficou com as pernas para fora, abertas bem na minha direção. Dei uma olhada no pacote de frente dele e suspirei. Deus não tinha falhado naquela parte também. - Foi você que furou a mangueira? – Pleyson brotou ao meu lado, me dando um susto. - Ai! – resmunguei – Qual é o seu problema? - Muitos – ele disse – Começando pelo meu nome. Lancei um olhar estranho para ele e comecei a rir, não me contendo. - Não estou achando graça – ele disse. - Eu sei – tentei parar de rir – Desculpa. É que seu nome é hilário. Ele me lançou um olhar feio. - Tão hilário quanto o seu cabelo? Engoli o riso e fechei a cara para ele. - Não estou achando graça – eu disse. - Eu também não – ele falou e se afastou. Olhei para Pedro embaixo do carro novamente. Pelo menos eu tinha fugido da pergunta dele. - Você não respondeu – ele brotou ao meu lado de novo, me fazendo dar outro pulo – Foi você quem furou a mangueira? Encarei ele de cara feia. - Não é da sua conta – eu disse. Ele sorriu. - Eu nunca tinha visto nenhuma delas ir tão longe – ele falou – Já vi uma correndo só de calcinha e sutiã aqui na frente, mas isso... – ele riu – Isso é demais. Enruguei a testa. - Uma mulher correu só de calcinha e sutiã na frente da loja para chamar atenção dele e eu fui longe demais porque furei a mangueira do meu carro? – balancei a cabeça na negativa enquanto ele ria – Meu Deus, eu acho que você tem o senso do ridículo um pouco distorcido. Ele continuou rindo. - Do que você está rindo? – Pedro saiu debaixo do carro e encarou Pleyson. Ele balbuciou alguma coisa, tentando responder, mas não conseguiu, então deu as costas e saiu. Pedro me encarou. - Do que ele está rindo? Dei de ombros. - Não faço a mínima ideia – eu disse – Por falar nele, de onde tiraram esse nome? Ele riu. - Não faço ideia – ele apontou para o meu carro – Está pronto. - Já? – ele sorriu. - Foi só uma mangueira furada. Estreitei os olhos e estalei a língua. - Da próxima vez eu quebro o motor – ele riu – Quanto eu te devo? - Se você me disser como descobriu o meu número, a gente fica quite – ele falou. Estreitei os olhos para ele. - A gente ainda sairia sexta à noite? – perguntei. - Não. Balancei a cabeça e fingi pensar na proposta. - Interessante – eu disse – Mas acho que vou perguntar o preço para o Pleyson. Virei de costas e fui até onde Pleyson estava, ainda rindo sozinho de uma piada que eu não conseguia entender. - Será que você é capaz de me dizer quanto eu devo? – perguntei. Ele continuou rindo. - Cin... cinquenta – ele finalmente disse. Lancei um olhar estranho para ele e me voltei para Pedro, que estava no mesmo lugar em que o tinha deixado. Peguei uma nota de cem da carteira e entreguei a ele. - Ele disse que custou cem? – ele perguntou, com a testa enrugada. - Não, ele disse que custou cinquenta – respondi – Mas os outros cinquenta eu já deixo pago para a próxima vez. Sorri para ele e fui em direção ao Jaguar. Fechei a porta e abri o vidro. Fitei ele, que me encarava de volta, e dei um tchauzinho. - Até sexta. ... Terminei de fazer a trança no meu cabelo e suspirei de alívio. Eu tinha ficado exatamente meia hora fazendo aquilo. Passei batom vermelho e me encarei no espelho. Argolas grandes, regata branca, ou melhor, transparente, com um casaquinho igualmente transparente por cima. Calça jeans e, lógico, salto alto. Se tinha uma coisa que não podia faltar era um belo par de saltos. Alguém bateu na porta e, mesmo sem minha permissão, a abriu. - Hei, mana. Eu... – Marcus me encarou – Onde você vai? - Sair. - Sair para onde? – ele me olhou dos pés à cabeça – Um encontro? – ele riu. Revirei os olhos. - Sim – respondi. Ele riu ainda mais. - Ah, fala sério... Me virei para ele e o encarei, séria. Ele continuou rindo por mais um tempo até perceber que eu estava falando sério. - Pera aí, isso é sério? – ele perguntou. - Sim. Ele me encarou, chocado. - Meu Deus, acho que é o fim do mundo – ele olhou para cima e fez cara de assustado, com se o teto fosse desmoronar sobre ele a qualquer momento. - Haha! – cruzei os braços – Sempre tem uma primeira vez, não é? - Nem sempre – ele se escorou no batente da porta e cruzou os braços – É o mecânico? Não respondi. - Uau, eu tenho que conhecê-lo. Para conseguir te arrastar para um encontro... – ele arregalou os olhos e balançou a cabeça. - Na verdade, sou eu quem está arrastando ele para um encontro. Ele levantou uma sobrancelha para mim. - Você? Peguei a pequena bolsa em cima da minha cama e me dirigi até a porta. Parei ao lado dele e inclinei a cabeça. - Vamos dizer que ele é um cara difícil – falei. - Com você? – ele pareceu não acreditar. - Eu estou indo a um encontro – disse – O que você acha? Ele riu. - Ah... essa eu quero só ver. Primeiro cara que te dá um fora. - Ele não me deu um fora – me apressei em corrigir. - Mas ele quer, aposto – dei de ombros. - Você sabe que eu não aceito não como resposta. - A pergunta é: ele sabe disso? Inclinei a cabeça e estalei a língua. - Vai saber – dei um sorriso – Agora eu tenho que ir. Passei por ele e segui pelo corredor, ele veio bem atrás de mim. - Você vai fazer algo amanhã de noite? – ele perguntou. - Não – olhei para ele – Por que? - Quero trazer uma pessoa aqui – ele falou e desviou o olhar. Entrei na frente dele e parei, barrando seu caminho. Curvei uma sobrancelha e dei um sorriso malicioso. - Uma garota? Ele revirou os olhos. - O que você acha? - Qual é o nome dela?! – perguntei empolgada. - Melissa. - Vocês estão namorando sério? Ele pareceu parar para pensar na minha pergunta. - Sim – ele disse por fim – Nos conhecemos há dois meses e começamos a sair. Abri a boca, chocada. - E você não disse nada para mim? - Estou dizendo agora. - Eu não acredito que não disse nada para mim – cruzei os braços – Dois meses saindo com alguém e você não contou nada? - Da última vez que eu estava saindo com uma garota, você infernizou minha vida por causa disso. E nós só estávamos saindo há uma semana. - Eu não infernizei a sua vida – me defendi. - Você comprou um par de alianças e me disse para dar para ela. - Mas vocês estavam namorando! - A gente só estava saindo e só durou duas semanas – ele me olhou de cara feia. - Não foi por minha causa – me apressei. - Foi por sua causa. Você ficou me infernizando uma semana para eu trazer ela aqui e, quando eu finalmente trouxe, você fez ela sair correndo. Fiz biquinho. - Eu só estava tentando ser gentil – falei. - Você estava era tentando botar medo nela para ela nunca mais voltar, só porque você achou que ela tinha cara de v***a. Ele desviou de mim e continuou andando. Fui atrás dele. - Mas ela tinha cara de v***a! – eu disse. - E a Melissa? – ele perguntou. - Não sei, não conheço ela ainda – olhei de lado para ele – Ela tem cara de v***a? Ele bufou. - Está vendo só porque não trouxe ela antes? - Não, não estou vendo. Ele começou a descer os degraus depressa. Acompanhei seu ritmo. - Porque eu realmente gosto dela – ele se virou para mim – E eu não quero que você a faça ir embora só por achar que ela tem cara de v***a ou de pobre. Fiz cara de ofendida. - Eu nunca a faria ir embora só porque ela tem cara de pobre. Ele bufou novamente e revirou os olhos, se virando e voltando a descer as escadas. - Eu desisto – ele disse. - Hei! – corri atrás dele e segurei seu braço – Hei, eu só estou brincando! – abri um sorriso para ele – Se você gosta tanto dessa garota, eu não vou fazer nada. Você sabe que eu te amo e que eu só quero o seu bem. Ele me fitou em silêncio e depois suspirou. - Você promete? – ele perguntou. - Prometo – levantei o mindinho e sorri. Ele tentou não rir, mas não conseguiu. Levantou o mindinho e enlaçou no meu também. - Você é demais – ele disse. - Sou mesmo. A porta da frente se abriu e meu pai entrou, parecendo cansado depois de um dia de trabalho. - Oi para vocês – ele disse e tirou o casado, o pendurando ao lado da porta – Onde vocês vão? - Eu vou para casa – Marcus disse – Giovana vai... - Sair com as amigas – disse rapidamente, antes que ele dissesse encontro e eu tivesse que entrar nesse assunto com meu pai novamente. - Vai voltar tarde? – ele me perguntou. - Não. Umas onze horas estou de volta. - Tudo bem. - Então tá... – me virei para Marcus e dei um abraço nele – Até amanhã. Fui até meu pai e dei um beijo em sua bochecha. - Tchau – eu disse. - Se cuida – ele falou. Fechei a porta enquanto Marcus começava a contar sobre a garota que iria levar para jantar. Saí em disparada para o meu carro e acelerei. Cheguei na pizzaria vinte minutos depois. Foi quase impossível achar uma vaga e depois quase impossível entrar naquele lugar. Tinha gente para todos os lados que você olhava, andando, conversando alto, rindo, sentando em cima de você... Ele não podia ter escolhido um lugar melhor? Pensei. Eu tinha sugerido um bar que eu costumava frequentar e era ótimo, mas ele se recusou. Tentei insistir, mas ele disse que ou seria no lugar que ele queria ou não seria em lugar nenhum. Tive que ceder. Revirei os olhos enquanto lembrava disso. Difícil era eufemismo. Depois de muito custo, finalmente o achei sentado em uma mesa, de costas para mim. Ele estava com uma camiseta de mangas cumpridas e gola em V. Das vezes que eu o tinha visto, ou ele estava usando uma daquelas ou a que usava para trabalhar. Não que eu estivesse reclamando, ele ficava muito bem nelas, ainda mais levando em consideração o medalhão que ele usava no pescoço. Ele estava olhando o cardápio. Me joguei na cadeira de frente para ele e lhe lancei um sorriso. - Boa noite – eu disse. Ele levantou os olhos para mim e deu um pequeno sorriso de lado. Era aquele sorriso que queria dizer “só estou sendo educado”. - Achei que você não viria mais – ele falou. - Bem que você queria – eu disse. O garçom chegou nessa hora e nos cumprimentou. Ele era alto e magro, tinha cabelos escuros e olhos claros. Nada muito interessante. - Boa noite – ele disse e me fitou, sorrindo – Posso ajudá-los? Pedro abaixou o menu e olhou para mim. - Vai em frente – ele disse – Escolhe você. Sorri e me voltei para o garçom. - Calabresa – eu disse. - Algo para beber? – ele perguntou enquanto anotava o pedido e alternava o olhar do seu caderninho para o meu rosto. - Um coquetel de morango com álcool – falei. - O mesmo para você? – ele perguntou para Pedro, mas nem se deu o trabalho de se virar para ele. Não tirou os olhos de mim em nenhum momento. - Eu não bebo – ele respondeu – Só um guaraná já está ótimo. - Tudo bem – o garçom terminou de anotar e me lançou um sorriso – Já volto. Olhei para Pedro, que me fitava. - Não bebe... – apoiei os cotovelos na mesa – De que espécie de planeta você veio? – estreitei os olhos para ele. Ele sorriu. - De um que você nunca ouviu falar – ele pegou o copo de água na sua frente e tomou um gole. Encarei ele, sorrindo. Ele estava me saindo melhor que a encomenda. Não sabia que seria tão divertido ter um desafio assim na minha frente, mas eu estava adorando. Ele me fitou e apontou para o meu cabelo. - Está diferente. - Resolvi deixar ele comportado hoje. Ele olhou o penteado por um tempo sem falar nada, depois disse: - Gosto mais do outro jeito. Ergui uma sobrancelha. - Jura? – perguntei e ri – Eu não ouço muito isso. Ele deu uma risada que claramente saiu forçada. Uau, ele era mesmo nível hard. - Então... – me endireitei na cadeira e me curvei um pouco para frente – Que tal a gente se conhecer um pouco? - Acho que você já sabe bastante sobre mim – ele apoiou os braços na mesa e se curvou para frente, estreitando os olhos para mim – Onde conseguiu meu número? Sorri. - Se eu te contar agora você vai poder sair daqui a qualquer momento – falei. - Esse é o plano – ele sorriu cinicamente. - Então vamos deixar essa parte para o final – retruquei. - Esse não foi o acordo. - Não teve um acordo. Ele me encarou, ponderando sobre o assunto. Sustentei seu olhar até que ele resolveu desviá-lo. - Tudo bem – ele se encostou na cadeira e cruzou os braços – Então o que vai ser? - Perguntas e respostas? – ergui uma sobrancelha. - Não gosto de jogos – ele respondeu. - Okay – me encostei na cadeira e cruzei os braços também, assim como ele – Então você me pergunta o que quer saber sobre mim e eu respondo, como duas pessoas normais acabando de se conhecer. Ele me fitou em silêncio por um tempo, talvez pensando em algo que quisesse saber sobre mim. - Quantos anos você tem? – ele perguntou. - Dezoito – respondi. Ele balançou a cabeça na positiva, parecendo esperar outra resposta. Esperei que ele continuasse com as perguntas, mas ele se calou. - É só isso? – perguntei, por fim – Só tem essa pergunta? - Não preciso saber de mais nada sobre você – ele respondeu. Forcei um sorriso, tentando não demonstrar que ele estava atingindo meu ego. - Ótimo, então eu pergunto para você – me inclinei sobre a mesa de novo e o fitei – Você tem namorada? - Eu não estaria aqui se tivesse, estaria? – ele ergueu uma sobrancelha. - Hm... – fingi pensar em outra pergunta, mas só fingi mesmo. Eu já tinha todas elas na ponta da língua – Orientação s****l? Ele riu e apoiou os braços na mesa novamente. - Eu não sou gay, se é isso o que você quer saber. Encarei ele profundamente, sem desviar o olhar. Ele não era do tipo que se intimidava. - Mas não parece do tipo que se envolve – comentei. - Eu me envolvo com as pessoas certas – ele pegou o copo de água e deu mais um gole. - E o que seria as pessoascertas? Ele se inclinou sobre a mesa com um pequeno sorriso nos lábios. Seu rosto bem próximo do meu agora. - As pessoas que não tem encrenca escrito na testa – ele falou. Ergui as sobrancelhas e sorri, curiosa. Peguei o copo de água dele e dei um gole, deixando uma gota escorrer pelo meu lábio inferior de propósito. - Eu tenho encrenca escrito na testa? – suguei a gota d’água com a língua. Ele fitou minha boca intensamente, parecendo pensar no que responderia. Ficou assim por alguns segundos, até responder: - Em caixa alta. Sorri e sustentei seu olhar em cima de mim. Parecia que estávamos jogando para ver quem cedia primeiro. A nossa bolha de silêncio foi estourada pelo garçom, que chegou com as bebidas. - Com licença – ele disse. Pedro se afastou e eu fiz o mesmo. - Obrigada – falei, quando ele terminou e me lançou um sorriso enorme. Tomei um gole do meu coquetel. O sabor estava ótimo, mas o álcool muito leve. - Acho que ele está interessado em você – Pedro disse e meneou a cabeça para o garçom, que estava atendendo a mesa ao lado, mas olhando em minha direção. Voltei meu olhar para Pedro e o fitei, ainda com o canudo na boca. - Pena que eu estou interessada em outra pessoa – eu disse. Ele sorriu e bufou. - Você não presta – ele disse. - Já ouvi isso antes.
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