—Você sabe que vai ficar estranho se toda vez que me ver; fugi, se esconder ou fingir que não me viu, não sabe? —questionou ele me fazendo parar no meio do caminho —Vão começar a se questionar por que age tão estranha perto de mim.
—Eu não faço nada disso —discordei me voltando para ele.
—Não faz? —insistiu ele com um sorriso debochado.
—E não tem ninguém aqui para ver que não quero ficar sozinha contigo —continuei ignorando o que ele disse.
—Então não quer ficar sozinha comigo? —me olhou interessado —Por que isso?
—Quem disse que não quero ficar sozinha com você?
—Não foi o que acabou de dizer? —questionou ele sorridente. Por que estava de tão bom humor essa manhã? Esse i****a.
—Não! —respondi irritada —Apenas quis dizer que...
Não sabia o que dizer e ele sabia disso, já que seu sorriso aumentou.
—Quis dizer...? —insistiu ele quando fiquei em silêncio.
—Ah, cala a boca —disse irritada e ele riu.
—Você ainda é tão fácil de irritar —disse ele. O sorriso em seu rosto sumiu e quando me olhou novamente, estava sério —Mas estava falando sério. Se continuar toda tensa sempre que estou por perto, vão começar a questionar.
—Eu não fico tensa quando está por perto —discordei e ele apenas me encarou —Não fico!
—Não é o que parece —disse ele —E eu não sou o único que percebe isso, se quer saber. Gabriel te observa muito. Talvez ele pense que é apenas porque não me conhece, mas não acha que isso vai ficar um pouco estranho depois de um tempo?
Não respondi. Não sabia o que dizer. Sabia que não agia tão natural como gostaria e que Gabriel não demoraria a me questionar sobre o porquê de, aparentemente, não gostar de seu irmão, mesmo que a verdadeira razão nunca lhe passe pela cabeça.
—Podemos só tentar nos dar bem? —perguntou ele. Não sabia o que responder.
—Ok —concordei depois de um tempo em silêncio.
—Estou indo correr —disse ele e me encarou —Me acompanha?
Concordei. Ele sorriu como um menino que recebeu o melhor presente de natal e isso aqueceu meu coração. Desde que nos encontramos, essa era a primeira vez que o via sorri genuinamente. Isso me deixava feliz. Eu não deveria me sentir feliz por isso. Era uma péssima ideia me aproxima dele. Sabia disso. Mesmo assim, me vi o seguindo para fora.
Coloquei os sapatos e nos alongamos, antes de começar uma caminhada leve que logo se tornou em uma corrida. Não conversamos. Acho que nem conseguiria. Não costumava correr, apenas caminhava de vez em quando, mas não queria dar o braço a torcer e pedi para parar, então apenas me esforcei para manter o ritmo dele.
Quando chegamos a praia, a areia tornava a corrida muito mais cansativa, por isso não aguentei mais e pedir para diminuímos um pouco. Ele concordou e voltamos a caminhar.
—Não sabia que gostava de correr —comentei depois de consegui recuperar um pouco do meu fôlego.
Não lembrava de ele ser muito de exercício físico. Aliás, educação física era a única matéria que ele não se saía tão bem na escola, mas apenas quando o professor insistia em dar aula prática, já que na teórica tirava de letra.
—É um hábito que desenvolvi com o tempo —respondeu ele sem parecer nenhum pouco cansado —Quando cheguei ao Canada, precisava me distraí um pouco e uma amiga me incentivou a começar, acabei pegando gosto. É muito bom para pensar, colocar os pensamentos em ordem.
Senti um gosto amargo na boca.
—Entendi —respondi meio seca. Ele me encarou —O que foi?
—Nada não —disse ele e sorriu, como se soubesse algo que ninguém mais sabe —Essa minha amiga se chama Eduarda. Ela foi a primeira brasileira que encontrei fora, sabia? Ela me ajudou muito no começo.
—Que bom —comentei olhando para meus pés.
—Sim, foi muito bom —disse ele ainda com o sorriso no rosto, que já estava começando a me irritar —Ela também é a dona da casa que estou morando.
—O Gabe me contou —comentei e finalmente o sorriso em seu rosto desapareceu. Algo que eu disse pareceu o incomodar, mas eu não sabia o que.
—Entendi —disse ele. Voltamos a ficar em silêncio, mas sentia um clima pesado entre nós, como se algo precisasse ser dito. Isso era desconfortável. Ele também parecia se sentir, pois não demorou a quebrar o silêncio —Como você e Gabriel se conheceram?
—Uma garota do trabalho me convidou para o aniversário dela. Normalmente, não gosto de ir nesse tipo de evento —comentei lembrando daquele dia —Ela insistiu muito que eu fosse, nem sei o porquê. Não éramos muito próximas. Acabei cedendo e fui. No meio de toda aquela gente, encontrei seu irmão e ficamos conversando por toda a festa. Ao final, ele pediu meu número e desde então não largou mais do meu pé —abri um sorriso caloroso —Nada muito interessante e emocionante, mas foi assim que nos conhecemos.
—Há quanto tempo estão juntos?
—Três anos —respondi e o olhei de lado —E você? Está namorando?
—Não —respondeu ele. Odiei o alívio que senti ao escutar sua negativa —Não tenho tempo para namoros no momento —seus olhos encontraram os meus — Você o ama?
De novo essa pergunta. Por que ele insistia em me perguntar isso? E por que parecia tão difícil responder? A resposta era simples, um “sim” o respondia.
—Por que isso de novo? —questionei e fiz sinal para paramos um pouco. Estava cansada —Pensei que que já tivéssemos resolvido.
—Você não me respondeu —disse ele.
—E por que se importa tanto?
—Porque se você o ama, eu tenho que desisti de você —disse ele calmamente. Não parecia ter noção do que estava dizendo.
—Você desistiu de mim a muito tempo, Daniel —comentei observando as ondas do mar, indo e voltando.
—Prefiro que me chame de Guilherme —disse ele.
—Sua família não te chama assim. Seria estranho se eu chamasse —ele não respondeu e continuei —Podemos ser amigos, se quiser, mas você precisa parar de falar dessas coisas. Eu estou com o Gabriel e não quero magoa-lo. Você também não deveria querer magoa-lo. Ele é seu irmão e ama você.
—Eu sei —suspirou cansado.
Ficamos em silêncio, apenas aproveitando a brisa da manhã. Estava tudo tão silencioso e calmo. Isso era incrível. Queria poder ficar aqui para sempre, mas não podia.