| CASSIDY COOPER |
— Separei aqui na bancada os convites dos seus convidados e dos convidados do Ben, só precisa separar a quantidade de convites individuais para colocar no envelope — Gwen me põe a par de como estão os preparativos finais do casamento.
Ela é uma das pessoas que mais está animada com os preparativos. Isso porque Gwen é ansiosa, controladora e decidida. Não tinha ninguém melhor que ela para que eu confiasse essa tarefa.
— Pensei em astromélias, alecrins e em camélias no buquê, o que você acha? — Gwen sugere andando de um lado para o outro no apartamento onde moramos juntas.
— Eu gosto — assinto.
— Conversei com a cerimonialista sobre floreiras baixas. Ao todo serão oito de cada lado, somando dezesseis no total. Com a decoração em salmão, pensei em luzes amareladas. — Gwen sugere e eu apenas assinto.
— Pode ser.
Gwen se vira para mim e leva as mãos à cintura.
— O que acha do seu vestido ser verde?
— Eu gosto.
— Cassidy! — Gwen me repreende e eu foco minha atenção nela. — Você não está prestando atenção.
— Claro que estou — protesto.
— Acabei de sugerir um vestido de noiva verde — ela revira os olhos e eu suspiro.
— Desculpe.
— Tá pensando em quê? — ela se senta no sofá ao meu lado e desliga a TV que passa um reality show de culinária, o qual somos viciadas em assistir juntas sempre que estamos em casa.
— Me distraí. Só isso.
— Você tem estado tão calada — ela me olha preocupada. — Brigou com o Ben?
Na verdade, estou evitando vê-lo, apenas para que ele não note o quanto a volta de David tem tomado cada parte dos meus pensamentos.
Faz uma semana que saí correndo da consulta de pós-operatório, e desde então, não o vi mais. Mesmo sabendo onde está neste exato minuto, em casa de repouso, eu só queria ter uma desculpa para encontrá-lo e tentar fazer nosso reencontro ser diferente.
Receber seu silêncio depois de cinco anos, só me faz ter certeza de que ele me odeia.
Ao mesmo tempo, em que quero vê-lo, não sei se seria certo com Ben. Sei que o quê estou sentindo não é certo com ele e me manter distante de David é a melhor opção.
Gwen suspira.
— É o David, não é? — ela deduz e eu, sem conseguir disfarçar, confirmo.
— Ele não falou comigo. Ele nem sequer… — desisto de tentar explicar o que eu queria que tivesse feito.
David não deveria ter feito nada, é isso e ponto final.
— A boca do David tem sido um túmulo fechado desde que ele voltou. Não foi pessoal, ele só odeia os humanos agora — Gwen comenta e eu olho para ela com olhar de repreensão.
A diferença em nossa personalidade e maturidade é gritante. Então, sempre tenho que frear a língua de Gwen, que diz tudo da boca para fora. Ela tem vinte e quatro anos, e eu vinte e cinco, por esse motivo, pareço mais a irmã mais velha dela.
— Tô falando a verdade — ela levanta os braços como sinal de rendição. — Eu entendo ele. O cara ficou cinco anos sozinho em uma ilha, até eu teria preguiça de conversar — brinca. — É sério, meu irmão só precisa de um tempo.
— Foi você que contou para ele sobre o Ben? — tento saber.
— Não. Na verdade, acho que ele deduziu que você tinha outra pessoa — Gwen responde. — Ele te esperou todos aqueles dias antes da consulta.
— Você acha que ele me odeia?
Gwen balança a cabeça negativamente.
— Cass, eu não sei tudo o que se passa na cabeça do meu irmão.
Apenas balanço a cabeça entendendo a resposta nas entrelinhas.
Abro a pasta no celular de referências que Gwen separou da decoração do casamento enquanto ela se prepara para ir trabalhar.
Na época em que conheci Gwen, éramos colegas de quarto, ela começou medicina comigo, mas ficou quase três anos presa, o que é uma história longa demais para explicar sem envolver o nome de Ava, a mãe dela no meio. Quando ela saiu, acabou desistindo e indo para a área da comunicação. Hoje, Gwen trabalha em uma agência de publicidade como redatora freelancer e faz trabalho voluntário em uma ONG de adoção de animais, é lá onde ela passa mais tempo.
Dividimos um apartamento que fica a vinte minutos do meu trabalho de carro e trinta minutos do trabalho dela usando transporte coletivo.
Por mais que nosso primeiro contato tenha sido turbulento e eu tenha sido relutante a amizade dela, hoje considero Gwen como a irmã mais nova que eu nunca tive.
Não posso ignorar que isso se deu pela perda de David.
Depois do naufrágio, passei quase três anos vivendo em uma névoa sozinha, lutando para não desistir da faculdade. Quando Gwen saiu da prisão e não tinha um lugar para ficar nem grana para se manter, ela se tornou minha companhia e eu deixei ela ficar comigo até arrumar algum trabalho. Nós só tínhamos uma, a outra e até hoje, levamos isso como um lema.
Eu cuido dela, e ela cuida da organização da minha vida corrida.
Gwen sai às pressas como todos os dias atrasada, e eu fico sozinha, aproveitando para adiantar algumas coisas do casamento.
Hoje troquei o horário do meu plantão com o de Terry para conseguir fazer uma visita no espaço onde acontecerá nossa cerimônia e fazer a degustação do Buffet com Benditt.
Gwen já me ajudou muito fazendo as pesquisas e orçando tudo. Agora, preciso só decidir com meu noivo.
Benditt alinhou seu horário com o meu para resolvermos esses detalhes juntos.
Ele é sócio em um escritório de advocacia no centro de Nova York e ainda estamos decidindo onde vamos comprar nosso apartamento, já que, moro na costa sul, próximo à praia, mesmo sabendo que a probabilidade de ficarmos no centro é maior devido ao escritório dele.
Deixamos para decidir isso por último, mesmo que todos os nossos móveis já estejam onde ele mora sozinho hoje.
É óbvio que precisarei ir para lá, já que para mim, é muito mais fácil ser transferida de unidade e Benditt tem muitos clientes. Lá, é muito mais acessível para ele. Mas quero fingir que essa decisão ainda será considerada por ele, o que é mentira.
Duas batidas na porta me despertam das preocupações e eu me levanto do sofá para atender a porta para Gwen que sempre esquece os próprios óculos de grau e só se dá conta disso quando sai na rua e não enxerga o letreiro do ônibus.
No caminho até lá, como eu havia deduzido, encontro os óculos de grau dela em cima da ilha da cozinha e quando abro a porta, paraliso.
— Posso entrar? — David pergunta sem jeito e percebo que ele segura firme a bengala para se manter em pé, demonstrando seu nervosismo ao estar aqui.