| CASSIDY COOPER |
— Você está fugindo. — Ergo os olhos para Samantha, que adentra minha sala antes que eu chame o próximo paciente.
Dou um gole no meu café já frio e engulo o líquido com certa dificuldade. Engulo a verdade, gelada e amarga.
— Não entendi. — Respondo, e ela encolhe os ombros, sentando-se na cadeira à minha frente.
— Cass, já se passaram sete dias. — Ela toca minha mão por cima do mouse, chamando minha atenção para ela.
— Eu sei, Sam. — Respondo com certa frieza. — Os enfermeiros estão cuidando dele. O retorno pós-operatório é hoje. Não esqueci.
Samantha bufa, revirando os olhos enquanto prende os cabelos loiros em um coque.
— Você sabe que pode se abrir comigo, não sabe?
— Eu não posso simplesmente entrar naquele quarto e dizer a ele que estou noiva de outro, quando passou cinco anos repetindo para si mesmo que o nome da namorada dele é Cassidy. Sam, eu preciso seguir as orientações da psicóloga. É tudo recente demais. A preocupação agora é com a saúde dele. Owen está confiando em mim. Não posso decepcioná-lo ou serei afastada, e essa é a última coisa que quero agora, na fase final da minha residência.
O hospital tem poucos médicos traumatologistas. A equipe de Owen conta comigo, Garret e Terry para atender no plantão de emergências, pós-operatórios e consultas médicas. A maioria dos residentes opta pela ortopedia, deixando nossa escala completamente apertada.
Foi o cirurgião Terry quem realizou a cirurgia de David, mas ele divide a maioria dos plantões com Garret nas emergências. Os pós-operatórios e consultas de rotina são todos direcionados a mim. Samantha também é residente há pouco tempo, então consigo transferir alguns pacientes para ela.
Esses três meses que faltam para o meu casamento têm me sobrecarregado demais. Preciso terminar minha residência para pedir transferência, já que, depois do casamento, vou morar no centro de Nova York.
David ficará aos cuidados do médico de cada plantão, e seu retorno pós-operatório está agendado para hoje, provavelmente para uma possível alta, no dia em que Garret e Terry estarão no pronto-socorro, revezando os plantões da manhã e da tarde.
— Sam, posso falar cinco minutos com a Cass? — Owen bate à porta, e ela assente na mesma hora, se retirando.
Owen não se senta; vai direto ao ponto.
— Preciso saber como você está.
— Estou bem, obrigada.
Ele revira os olhos.
— Você entendeu a quem me refiro. Conversei com a psicóloga e com o Conselho sobre seu caso e o paciente David Nolan. Expliquei a eles que vocês namoravam, mas que a situação agora é outra. Contei que você está noiva e que não há nada que implique seu julgamento profissional no diagnóstico e tratamento dele. Sendo assim, a psicóloga acredita que não haverá problemas em você atendê-lo, desde que assine um termo de ética médica. — Dito isso, ele me estende uma folha. — Cassidy, você me garante que está bem para atendê-lo?
— Já disseram para ele? — Pergunto.
— Ele não é nenhum bobo. — Owen responde, e deduzo que nem foi preciso darem a notícia a ele sobre meu noivado.
— O relatório médico dele já está no sistema? — Owen assente.
— Certo. Tenho só mais um paciente e já subo para o quarto. — Digo, enquanto assino o termo de ética médica.
Owen se inclina sobre minha mesa e me observa por alguns minutos.
— Se achar que não vai conseguir, me avise.
Assinto.
— Eu vou conseguir. — Garanto, e ele aperta meu ombro antes de sair da sala.
— Não me decepcione.
***
O último paciente da minha agenda veio para a entrega de exames: uma densitometria óssea e um raio-X. Como eu suspeitava, ele, aos sessenta e cinco anos, está com um quadro de osteoporose.
Por ser uma doença sem cura, receito alguns medicamentos, suplementação de cálcio e vitamina D. Também o oriento sobre a prática de exercícios físicos e entrego um encaminhamento para a nutricionista e o reumatologista, que irão acompanhá-lo no restante do tratamento, já que não há necessidade de intervenção cirúrgica.
Quando me vejo sozinha na sala novamente e olho o relógio, percebo que os vinte minutos que eu tinha para subir até o quarto de David estão se esgotando.
Abro seu histórico médico no computador. A desidratação foi completamente resolvida, e a insolação, após uma semana, atingiu um estágio mais estável, permitindo uma possível alta. Só preciso avaliar os pontos da cirurgia.
Enquanto espero o elevador subir até o andar correspondente, tento controlar minha respiração, mas o ar parece insuficiente, raso, preso em algum lugar entre meus pulmões e minha garganta. Meus dedos apertam o estetoscópio pendurado no pescoço, então, num impulso, o coloco nos ouvidos e posiciono o diafragma contra o peito. O som do meu coração reverbera alto, descompassado, acelerado como se tentasse me avisar que estou prestes a cruzar uma linha da qual talvez não consiga voltar.
A porta do elevador se abre com um som suave, mas o impacto é ensurdecedor. Meu corpo inteiro se enrijece.
Saio em passos hesitantes, cada um mais pesado que o anterior, como se estivesse atravessando um campo minado de lembranças. Tento bloquear os flashes do passado, mas eles surgem contra minha vontade.
David sorrindo para mim sob o sol de uma tarde qualquer, David murmurando promessas ao pé do meu ouvido, David entrelaçando os dedos nos meus cabelos antes de partir para sempre.
Ou pelo menos, antes de eu acreditar que ele tinha partido para sempre.
Um nó se forma em minha garganta, apertado e latejante. E então percebo.
Meus olhos já estão transbordando.
A urgência toma conta de mim, e sem me dar conta, acelero os passos, quase correndo pelo corredor. Meu coração bate tão forte que ameaça rasgar minha caixa torácica. Meus dedos formigam quando levanto a mão para bater à porta, mas o gesto se torna apenas um toque leve antes que eu a empurre e entre.
E então, o ar é arrancado dos meus pulmões.
Gwen está sentada ao lado de David.
Meu corpo paralisa, e tudo ao redor parece se dissolver em um silêncio ensurdecedor.
Por um instante, a realidade se fragmenta. Eu não estou mais ali, naquele hospital, vestindo um jaleco e carregando uma prancheta. Estou há cinco anos no passado, esperando David voltar para casa. Estou há cinco anos vestindo luto por alguém que nunca morreu.
Uma lágrima escapa, deslizando pelo meu rosto até o queixo.
Engulo em seco, forçando-me a permanecer ali, a não me virar e fugir como meu corpo implora. Os olhos de David, que antes estavam em Gwen, agora estão fixos em mim. Surpresos.
O ar-condicionado sopra um vento frio contra minha pele quente, e um calafrio percorre minha espinha. Me abraço instintivamente, tentando conter o tremor que ameaça tomar conta de mim.
— Vim dar sua alta — informo, minha voz soando baixa, quase hesitante.
— Oi, Cass! — Gwen me cumprimenta, tentando soar animada, mas sua expressão entrega que ela sente o peso da situação. — Vou esperar lá fora.
— Gwen, fica — David segura a mão dela, impedindo-a de se levantar.
Aquela simples ação é como um golpe. O peito aperta e algo dentro de mim se contorce, mas mantenho minha postura.
— Preciso que ela espere lá fora — peço, e Gwen me encara por um instante antes de assentir e se retirar.
A porta se fecha, e o silêncio que se instala entre mim e David é cortante.
Ele desvia o olhar de mim, fixando-se em um ponto qualquer no teto. Eu, por outro lado, não consigo evitar analisá-lo.
A manta branca cobre seu corpo, mas o contorno dos ombros ainda revela a estrutura forte que sempre teve. O braço esquerdo está conectado ao cateter, os cabelos cresceram e agora estão presos em um coque, com algumas mechas desbotadas. A barba, mais cheia, foi recentemente aparada, deixando seu rosto visível. Está abatido, sim, mas ainda carrega aquela força inconfundível.
O mesmo David.
E, ao mesmo tempo, um completo estranho.
Engulo em seco e começo a organizar o material no carrinho auxiliar com gaze, tesoura, faixa e antisséptico.
— Vou dar uma olhada nos seus pontos, certo? — aviso, tentando soar profissional, tentando me prender à única coisa que ainda posso controlar: o trabalho.
Poderia chamar um enfermeiro, mas não quero ficar de braços cruzados. Não quero dar espaço para a tempestade dentro de mim tomar forma.
Visto as luvas e me aproximo, mantendo um cuidado excessivo ao tocar nele, como se qualquer contato pudesse desencadear algo imprevisível.
— Me avise se doer — peço, mas ele não responde.
Apenas me deixa fazer meu trabalho.
Removo o curativo do joelho com delicadeza, expondo a pele cicatrizando. Molho o algodão no antisséptico e deslizo com precisão pelo local da sutura. Ele não reage, nem mesmo uma contração involuntária.
Ele não demonstra nada.
O silêncio pesa, sufoca.
— Os pontos estão bem — informo, tentando ignorar a forma como minha voz ameaça vacilar. — Sem sinais de inflamação, nem muito frouxos, nem muito apertados. Basta manter os cuidados com a cicatrização e a limpeza em casa.
Minhas mãos tremem. O frio do ar-condicionado não é o culpado. Sei que ele percebe, mas David continua imóvel, impassível.
E então, sem que eu consiga evitar, uma lágrima escapa e cai.
Não no chão.
Na pele dele.
Meu coração para.
— Me desculpe — sussurro, pegando uma gaze para limpar o local, como se pudesse apagar aquele momento.
Termino o curativo o mais rápido que posso, minha visão começando a turvar.
— Vou passar os cuidados pós-operatórios e receitar os analgésicos para a senhora Nolan — murmuro, minha voz agora meramente um fio.
Então, sem dar tempo para qualquer reação, me viro e saio da sala.
Ando rápido pelo corredor, sentindo as lágrimas se acumularem, nublando minha visão. O peito aperta como se estivesse sendo comprimido por um peso invisível.
Abro a primeira porta que vejo — a de um quartinho de produtos de limpeza — e entro apressada, fechando-a atrás de mim.
Agarro o jaleco e o estetoscópio, arrancando-os de mim como se pudessem aliviar algo. Mas nada alivia.
Agacho-me no chão frio, abraçando os joelhos, tentando recuperar o fôlego.
Cinco anos.
Cinco anos sobrevivendo à ausência dele. Cinco anos me convencendo de que estava bem, de que seguir em frente era a única opção.
Mas agora ele está aqui e, pela primeira vez, percebo a verdade c***l que tentei ignorar.
Eu não sei se realmente superei sua ausência.
Levo a mão à barriga, fecho os olhos com força, tentando conter o choro, tentando conter o pânico crescente.
Sei que parte dessa avalanche emocional vem da gravidez, das mudanças hormonais. Mas também sei que não é só isso.
Não vou conseguir lidar com isso por muito tempo.
Não posso fingir que nada está acontecendo.
Porque nada, absolutamente nada entre mim e David, teve um ponto final.
Algumas pessoas dizem que tragédias são uma forma de encerrar uma história.
Mas não são.
Tragédias são testes.
E, no fim, a resposta quase sempre é a mesma: você acha que superou algo... até esse algo estar na sua frente de novo.