| DAVID NOLAN |
Faz sete dias desde que um navio cargueiro me encontrou à deriva no mar e tudo o que passa pela porta do meu quarto, ainda é novo para mim.
Também faz sete dias que estou esperando Cassidy e meu pai, Marcius, passarem por essa porta.
Tenho esperado por isso a maior parte do tempo inconsciente, sob efeito de analgésicos. Estou me recuperando da insolação e ainda não me levantei para nada por causa da recuperação do quadril. A única coisa da qual já me recuperei foi a desidratação.
Passei por duas cirurgias. Uma no joelho e outra no quadril. Também fico vinte e quatro horas recebendo soro na veia com algumas vitaminas. Pelo que ouvi na conversa de Ava com um médico, terei alta nesta semana que iniciou.
Por mais que eu não troque muitas palavras com minha mãe, ela não sai do meu lado em momento algum. Também percebi que Ava está ansiosa para que eu melhore logo e forneça aos jornalistas um prato cheio de depoimentos em primeira mão sobre a ilha. Diferente de Gwen, que está uma pilha de nervos com os jornalistas que a perseguem onde quer que esteja, ávidos por informações sobre meu estado de saúde.
Outra pessoa que tenho visto com frequência, é a psicóloga que sempre que aparece, me pede para contar como estou me sentindo, como se ver meu corpo repleto de cicatrizes e ver que ficarei manco para o resto da vida, já não seja uma boa resposta sobre como será difícil retomar minha vida de agora em diante.
Estou inquieto.
Não consigo me lembrar qual foi a última vez que passei tantos dias deitado sem pensar no que iria precisar fazer para conseguir me alimentar.
Aliás, eu me lembro. Foi no dia que caí de uma rocha de seis metros de altura. Fiquei um dia inconsciente, quebrei o joelho e meu quadril saiu do lugar. Precisei ficar alguns dias de repouso e quase morri de fome e de dor.
— David, você precisa ficar deitado — Gwen diz, quando tento de alguma forma me sentar.
— Quando vou poder ver meu pai? — pergunto e ela para por um momento.
Gwen reparou que não mencionei Cassidy. Posso ter ficado cinco anos isolado da civilização, vivendo da forma mais primitiva que consegui para sobreviver, mas não fiquei burro.
Ela não vem, e esses sete dias foram a melhor resposta que eu poderia ter para todas as vezes em que me perguntei se ela viria ou não.
A ausência também é uma resposta e geralmente, ela quer dizer que a pessoa não se importa m***a nenhuma com você.
— Primeiro vamos cuidar de você e depois… — ela tenta repetir a frase que escutei nestes sete dias, mas eu a interrompo.
— O que aconteceu com o papai, Gwendolyn? — exijo saber.
— David — vejo os olhos dela se encherem de lágrimas, mas me mantenho firme.
— Não — faço um gesto para que Gwen nem comece com a enrolação. — O que aconteceu com o papai? Por favor, eu preciso saber o que aconteceu com vocês.
— Em 2020 vivemos uma epidemia. Um vírus vindo da China que afetava o trato respiratório fez milhões de mortos pelo mundo. — Gwen começa contando.
— O que isso tem a ver?
É claro que sei a notícia que vem em seguida, mas penso que talvez, se eu desejar que seja mentira, ele apareça por aquela porta.
— O papai contraiu o vírus e não resistiu. — Apenas assinto, travando o maxilar.
Gwen aperta minha mão e pela primeira vez, é a minha irmã mais nova quem está me dando força.
— Ele era do grupo de risco. Tinha diabete, ficou dias entubad…
— Só isso basta.
Ficamos em silêncio por alguns minutos enquanto Gwen segura a minha mão.
Ela mudou completamente de cinco anos para cá. O cabelo já não tem mais mechas loiras; agora, está em sua cor castanha natural, com suaves nuances em tom de mel. Seu rosto está mais maduro, mas o olhar âmbar, atento, de alguém que ainda apronta, continua o mesmo.
Sorrio com isso e ela me olha confusa.
— Senti sua falta. — comento.
— Aposto que senti mais — ela se gaba.
— Aposto que se eu andar pela cidade, tem uma m***a sua, feita a cada esquina — duvido.
Ela solta um riso.
— Você acha que a Cass não ficou no meu pé?
A frase dela acaba com o clima e Gwen, na mesma hora, arregala os olhos.
— Desculpa — ela diz, soltando um longo suspiro.
— Tudo bem, eu sei que ela não vem.
Duas batidas na porta interrompe nossa conversa e quando vejo quem passa por ela, seguro a mão de Gwen, dizendo nas entrelinhas que quero que ela permaneça onde está.
É Cassidy Cooper, vestida num jaleco branco.
Quando seus olhos esmeralda encontram os meus, ambos refletimos a mesma emoção e percebo que esperei cinco anos para vê-la, mas ainda assim, não estava preparado para reencontrá-la.
Ao ver Cassidy paralisada à minha frente com os olhos cheios de lágrimas, concluo que ela também pensa o mesmo.