05 - NA PRAIA

2193 Palavras
| CASSIDY COOPER | • P a s s a d o • Eu tinha dezoito anos quando vi David Nolan pela primeira vez. Havia passado em medicina e me mudado para a costa sul de Nova York em Long Island. Eram cinco da tarde. Estávamos reunidos ao redor de uma fogueira, cantando músicas, bebendo, se conhecendo e a única coisa que eu queria, era voltar para a minha acomodação no campus e descansar a cabeça antes da primeira semana de aulas. Só eu sabia o quanto tinha me esforçado para passar e ganhar uma bolsa 100% em medicina e naquele momento, fazer amizades poderia esperar. Naquele grupo de seis pessoas, eu só sabia o nome de duas, Trevor e Gwen. Isso porque Trevor tinha interesse em ficar comigo e Gwen estava sendo a ponte entre nós dois. Eu não queria ser taxada como a chata do grupo, então deixei Gwen se aproximar, mesmo ela sendo a última pessoa no mundo da qual eu seria amiga íntima. Ela era falante, intrometida e tinha mania de te expor no meio das pessoas. Mesmo sabendo que não era de propósito, por mais que Gwen quisesse me enturmar no grupo, eu não queria. Estava focada demais no que havia ido fazer em Long Island, e não seriam amizades de barezinhos que tirariam meu foco. O ponto positivo é que eu amava a costa, mas quando a companhia não é favorável até o melhor lugar do mundo se torna um saco. Fui despertada desses pensamentos quando vi todos se levantarem empolgados e correrem para a beira do mar, tirando suas roupas. Fiquei apenas olhando toda a cena, o mar estava muito agitado, então preferi ficar onde estava, mas quando Gwen olhou para o lado e não me viu, acenou com a mão me chamando para ir até lá também. Recusei na mesma hora. A insistência dela, chamou atenção dos garotos que correram em minha direção e me obrigaram a entrar na água. Me ergueram e me carregaram até lá. — Se solta, Cass! — eles disseram e a primeira onda bateu no meu joelho, me fazendo cair de quatro na água. Ofeguei, perdendo o equilíbrio e fui puxada com a onda que recuou. Todos estavam descontraídos demais para notar quando eu engoli água salgada e outra onda me arrastou, me submergindo. Foi aí que ele apareceu. Passou por todos eles, os empurrou de sua frente e me ergueu. — Gwen, vamos para casa, agora. — essa foi a primeira frase que ouvi sair dos lábios dele. Houve silêncio entre todos ali e quando outra onda bateu em nós, ele me ergueu e me manteve de pé. Algo que nunca vou esquecer, é que ao contrário da minha pele gelada, a dele estava quente quando ele me puxou pela cintura, e diferente do meu corpo que tremia, o dele era como uma rocha. — Você está bem? — ele perguntou baixo, para que só eu pudesse ouvir, tão próximo ao meu rosto que o mínimo de aproximação faria nossos lábios se chocarem. Apenas assenti e firmei os pés no chão novamente, mas ao ver outra onda quebrando próxima de nós, saí imediatamente dali. — O que está fazendo, seu i****a? — Gwen indagou para ele que pegou no braço dela e a levou dali, como uma criança, enquanto com a outra mão, me guiava para a margem da praia onde a maré não alcançava. — Quer que eu te leve para algum lugar? — ele perguntou e eu neguei, sentando-me ali mesmo, na areia, com as roupas encharcadas, meus cabelos ruivos grudados no rosto e um nó na garganta que só iria se desfazer quando eu me permitisse cair no choro de raiva. Eu não tinha uma toalha, não tinha sequer comprado um secador para usar no campus e teria que voltar na caminhada, pingando água salgada. — Eu vou ficar bem. Só me desequilibrei — tranquilizei, notando que os outros se aproximavam de mim, preocupados, me constrangendo ainda mais. — Quer que eu te leve para casa? — Trevor se aproximou, se oferecendo e eu apenas assenti. *** — Cass, desculpa pela brincadeira… — Trevor quebrou pela primeira vez o silêncio enquanto dirigia, me dando uma breve olhada. — Tudo bem, Trevor — me esforcei para sorrir. — Eu já disse, só me desequilibrei — mais uma vez o tranquilizei, segurando firme a toalha que ele havia emprestado para eu me aquecer até chegarmos no campus. Esse era o primeiro diálogo que estávamos tendo, mas Gwen já tinha se encarregado de me contar tudo o que eu precisava saber para não querer nada com ele. Trevor era filho único de uma família de empresários. Em seus dezenove anos, já tinha seu próprio automóvel. Um Jeep vermelho. Tomava bomba para ter músculos maiores do que sua estatura permitia parecer natural e já tinha ficado com todas as garotas da sua turma em uma só noite de trote. Eu era a presa que Trevor achava ser a mais difícil de se tragar e por mais que ele fosse bonito, educado e poderia me dar o que eu quisesse, eu o achava o garoto mais fútil do campus e acredito que fazer o papel de mocinho para ele naquele momento, estava sendo uma ótima forma de me impressionar. Eu sabia que ele não ia desistir de mim até que tivesse o que queria e eu não estava com nem 1% de vontade de começar um jogo daquele em plena primeira semana de aula. Sabia que se eu desse o que ele queria, estaria livre para pensar nos meus estudos e Gwen me deixaria em paz. — Pode parar aqui — dei as instruções para que ele parasse em frente ao estacionamento e nem tivesse o trabalho de precisar manobrar o carro lá para dentro, mas ele tocou minha coxa e sorriu. — Faço questão. Já está escurecendo e você pode pegar um resfriado. Vou te deixar mais perto do seu quarto. — ele não pediu, simplesmente disse que faria isso e fez. Entrou no estacionamento e parou o carro, contornando o veículo para abrir a porta para mim, mesmo que eu já tivesse aberto e com o pé para fora para descer. — Obrigada, Trevor. — agradeci. — Posso te acompanhar até seu quarto? — Ah, sim, claro — aceitei e caminhei na frente. Trevor fez questão de andar ao meu lado e ajustar a toalha no meu ombro. — Já sabe quem é sua colega de quarto? — Ele puxou assunto. — Acho que ela se muda hoje — respondi e quando parei na porta, ele continuou parado olhando para mim, como se esperasse seu pagamento pelo cavalheirismo. — A Gwen me falou sobre você — comecei, me preparando mentalmente para sentir a língua dele, que na noite anterior havia beijado mais de dez garotas. Torci mentalmente para que nenhuma delas tivesse sífilis. — E ela te disse o quê? De repente a voz dele não era mais de Trevor-bonzinho e sim de Trevor-galanteador. Ele colocou as mãos na porta atrás de mim, ao meu redor, deixando-me ilhada e eu me esforcei para não fechar os olhos, fortemente esboçando repúdio. Era só um beijo. Um beijo para me deixar tranquila pelo resto da minha formação. — Ela disse que você estava interessado em me conhecer — respondi, mantendo a concentração e o foco para acabar logo com aquilo. — Cass, eu não acho que precise te conhecer para ter certeza do que eu quero. Querer te conhecer anularia a vontade que estou de você desde a primeira vez que te vi. Meu pavor aumentou e eu me arrepiei de nojo e frio. Ele interpretou a ação como uma resposta positiva à sua frase e avançou na minha boca, mas a porta atrás de mim, abriu bruscamente para dentro, fazendo com que eu cambaleasse para trás e Trevor batesse a cabeça na minha. — Cass? — era Gwen com o rosto molhado pelas lágrimas. Quando me virei, dei de cara com Gwen na porta e o rapaz da praia logo atrás. Foi esse o primeiro nome que dei para David. Quando vi que Gwen estava chorando e ele estava lá a sós com ela, arqueei a sobrancelha. — Ele bateu em você? — perguntei na mesma hora e vi ele soltar um riso descontraído. — Gwen, seu namorado bateu em você? — perguntei novamente adentrando no quarto, mas ao me lembrar de Trevor, me virei para ele novamente. — A gente pode se falar mais tarde? — ele assentiu e eu bati a porta na cara dele aliviada. O namorado da Gwen notou meu alívio e ergueu a sobrancelha. — De nada — ele disse e eu grunhi. — Não respondeu a minha pergunta. — Cruzei os braços para ele e vi os dois gargalharem da minha cara. — Namorado? — Gwen disse, balançando a cabeça. Por um minuto vi ela esquecer o motivo por estar chorando. — Já acharam que eu era o pai dela, agora namorado… Deus me livre — ele respondeu, se levantando da minha cama e só aquela hora percebi que ele era muito mais alto que eu me lembrava na praia Mais de 1,80 de altura diante dos meus 1,65. Dei um passo para trás. — David, por favor, não conte para o papai — pediu Gwen. Ele e ela voltaram de repente ao assunto em que estavam, e eu corei. David reparou e cruzou os braços. — Namorado? — mais uma vez ele disse de modo brincalhão e eu dei as costas. — Vou tomar um banho — anunciei, sentindo meu rosto corar. Tomei um banho demorado para dar a eles tempo suficiente para encerrar a discussão e após desligar o chuveiro e através da porta perceber estar tudo em silêncio, abri uma brecha por ela e encontrei David sentado na cama de Gwen. — Posso falar com você? — ele perguntou e eu assenti. — Você pode sair para eu me vestir primeiro? — perguntei e ele assentiu, se levantando e deixando o quarto. Procurei com rapidez um vestido qualquer e enrolei os cabelos ruivos em uma toalha, visto que iria demorar mais do que o normal para desembaraçá-los depois deles terem entrado em contato com o sal do mar. Abri a porta e fiz um gesto para que ele pudesse entrar novamente. — Preciso falar com você sobre a minha irmã, Gwen. — ele começou. — Pode falar — incentivei. — Desculpa minha irmã ter atrapalhado seu momento íntimo com aquele cara. Soltei um leve riso com a seriedade dele. — Não era um momento íntimo. Eu só ia ficar com ele, para ele me deixar em paz. — Na minha idade, geralmente quando quero que alguém me deixe em paz, eu digo isso com todas as letras, ao invés de beijar a pessoa. — Iríamos falar da Gwen ou de mim? — rebati, cruzando os braços. David ergueu a sobrancelha, surpreso com a minha grosseria e antes que eu fosse me desculpar, ele continuou. — A Gwendolyn é minha irmã mais nova. Só tem dezessete anos. Ela é imatura, irresponsável e se deixa levar pela lábia de qualquer um que elogia os olhos dela. O que houve hoje mesmo na praia, entrar bêbada no mar, foi só uma prova das besteiras que ela é capaz de fazer quando não está sendo supervisionada por alguém responsável. — E por que está me falando isso? — Porque você será a colega dela de quarto e por mais que não precise estar aqui, ela quer mostrar aos meus pais que é algo que não é: responsável. Você pode ficar de olho nela? Encolhi os ombros. — Para alguém que beija as pessoas apenas para ser deixada em paz, não me considero alguém responsável para cuidar de alguém — dei de ombros na tentativa de dizer que não podia fazer isso. — E eu sou apenas um ano mais velha que ela, então provavelmente sou alguém imatura, irresponsável, e beijo rapazes apenas para que me deixem em paz. David pareceu não entender, então usei outra forma de dizer isso. — Olha, eu estudei muito para vir para cá, a última coisa que quero é me responsabilizar por alguém quando nem tempo para isso planejo ter. Em resposta, David apenas me estendeu um papel com um número anotado. — Pode então me ligar se ver algo de errado? — ele mais uma vez insistiu e enquanto eu encarava seu número, suspirei. — Não é melhor conversar com seus pais sobre isso? — É o que vou fazer, mas você pode me ligar se ver algo de errado? — ele repetiu. Assenti, soltando um suspiro. — Me ligue também ao invés de precisar beijar muitos garotos apenas para que eles te deixem em paz. Acredite, aquele dinossauro não será o único — ele me lançou uma piscadinha e eu soltei um leve riso, revirando os olhos. — Acho que posso me cuidar sozinha — agradeci, amassando o papel. — Eu sei que sabe, Cass. Sei que sabe. A primeira vez que ouvi ele dizer essa frase, m*l sabia que viveria cinco anos apenas tentando sobreviver sem ele.
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