À Primeira Vista

1805 Palavras
Darlan entrou pisando firme na casa principal do clã e nem sequer prestou atenção nas servas arrumando a sala para a refeição, subiu as escadas apressado, entrou em seu quarto, fechou a porta. O jovem parou junto à janela, olhou para o céu, passou a mão por seu cabelo loiro quase platinado, segurou as mechas nas mãos com força, gritou de raiva de seu irmão, mas não o deixaria humilhá-lo, nem ao clã. Aceitaria o casamento e seria o melhor marido possível. Caiu de joelhos sobre o tapete no chão, seu rosto se contorceu de tristeza, queria ter aceitado a proposta de seu pai, mas não aceitaria a zombaria dos irmãos. Enquanto cresciam, sempre riam dele e o tratavam como delicado por já terem percebido seu interesse por outros meninos. Arthur, quando estava no exército de seu pai, o humilhou dizendo na frente dos soldados que Darlan não era um homem inteiro e que apenas traria humilhação ao clã. Seus dois irmãos mais velhos foram em sua defesa, houve uma grande briga, logo após aquilo o pai havia feito um acordo de casamento para o primogênito, desde então, raramente encontrava o irmão. Agora ele estava acabando com sua liberdade, acabando com sua felicidade. Ouviu batidas na porta, mas não disse nada, Sauvage olhou para dentro do quarto, observando o irmão não se mover do chão, as duas onças foram as primeiras a entrar no quarto. Marrant se deitou confortavelmente sobre a cama do jovem e bufou olhando para ele. Darlan virou a cabeça olhando para o felino de pele pintada deitado sobre sua cama. Sauvage riu dizendo: — Não fique chateado com Marrant, ele apenas está tentando animá-lo. — Roubar a cama de alguém parece uma forma estranha de fazer amigos. Disse Darlan, acariciando a cabeça de Marrant, a onça-pintada abriu um grande bocejo. Sauvage se sentou ao lado do irmão no chão, questionou: — Você está bem? — Um pouco nervoso, irmãzinha. Conhecerei minha noiva daqui a pouco... — Nosso pai já lhe disse... Rezarei para ser muito feliz em sua união, meu irmão. — Obrigada, pequena. Agora, você será responsável por cuidar de nosso clã e de nossas tradições. Continue nos orgulhando, irmã. — Pode deixar, irmão. Eu sempre orarei por cada um dos membros do clã. Uma serva bateu na porta abrindo uma fresta. Foncé observou a mulher de meia-idade que lhe sorriu, como se a felina fosse uma humana, disse a Sauvage: — Sua mãe está lhe aguardando, Sauvage, venha. Mestre Darlan, precisa de algo? — Não. Sauvage e o casal de felinos deixaram o quarto, permitindo que Darlan se acalmasse antes de enfrentar seu destino. No quarto ao lado, Rose e três servas estavam aguardando a jovem, que olhou para seus dois companheiros, os três se entreolharam pensando em fugir, mas as mulheres foram mais rápidas. Marrant não ofereceu resistência quando uma serva o pegou nos braços e o colocou sobre um móvel para pentear seu pelo e colocar um enfeite em volta do seu pescoço. O macho onça adorava ser afagado por humanas jovens e belas, já sua irmã detestava quando aquilo ocorria, esperneava e tentava se soltar de todas as formas possíveis, sem propriamente ferir as servas, mas sempre dava muito trabalho, eram necessárias duas servas para arrumá-la. Rose se dedicou a cuidar da filha, saiu puxando a jovem pelo quarto dizendo-lhe: — Venha, troque esse vestido, o vermelho ficará muito melhor em você. Sauvage levantou o vestido vermelho de sobre a cama e concordou que a cor era belíssima, tirou o vestido amarelo-claro que vestia sobre as roupas de baixo, que mais pareciam uma camisa justa e calças longas com muito pano, que lembrava uma saia, ambos brancos de algodão macio, colocou a peça vermelha sobre as roupas. Sua mãe a ajudou a fechar, a roupa era muito marcada na cintura, deixando as curvas de seu jovem corpo muito evidenciadas. Rose deu uma boa olhada na filha, gostou do caimento no corpo da jovem, a sentou na frente do espelho. Penteou seu sedoso cabelo n***o, prendendo-o em um r**o de cavalo alto, que fazia um topete na frente da cabeça, olhou o reflexo da jovem, seu lindo rosto não teria nenhum fio para ofuscá-lo. Passou os dedos no pigmento vermelho que as mulheres usavam para se maquiar e passou levemente sobre os lábios dela. Todas as mulheres no quarto olharam para Sauvage, sorrindo simultaneamente, a moça estava ainda mais bela do que era, aquela cor a deixava iluminada, os olhos negros brilhantes eram como duas joias adornando aquele rosto lindo. A mãe disse, evolvendo-lhe pela cintura: — Você está muito bonita, minha filha. Parece uma princesa. Estamos todos prontos? Podemos ir? Foncé soltou-se do agarre das duas servas, soltando um esturro fraco, bufou: — Acabaremos logo com isso... Sauvage riu ao observar a irritação da felina em contraposição ao andar charmoso do macho onça, sentindo-se garboso com a tira de cetim azul presa em seu pescoço com um belo pingente. Rose abriu a porta, saindo na frente e sendo seguida pelas servas. Sauvage saiu por último, seguida pelo casal de felinos. No amplo salão do primeiro andar, Dinís estava sentado com Gustaf Merverte, patriarca do Clã Merverte e com Inês, filha do patriarca e futura noiva de Darlan. A jovem com o rosto roliço coberto de sardas era extremamente simpática, até mesmo o tom de sua voz era gentil, Dinís sorriu ao perceber isso, com certeza aquela jovem deveria ter tido sua mão preterida por sua aparência considerada pouco desejável, mas seus modos deixavam claro seu temperamento alegre e bondoso. Secretamente, gostou da escolha de Arthur para a noiva do irmão, não seria difícil para Darlan se dar bem com a jovem. Ao lado deles estavam Marcel e Henry Salazar, os dois sempre assistiam os acordos selados pelo clã de Dinís, pois a ligação entre aqueles clãs era de testemunhas da honestidade e honra implicada em cada uma de suas ações. Os Salazar eram um dos mais proeminentes clãs do culto do Rei Deus, eram respeitados e temidos pelos demais clãs, nem mesmo os crentes do Verbo Eterno tinham coragem de atacá-los diretamente, embora houvesse alguns anos que o boato de uma trama para destruí-los ganhava força, nada que os preocupasse acontecia. Além da relação próxima dos dois clãs, as terras de Henry e Dinís eram vizinhas, as terras do Clã Salazar eram circundadas as do clã de Dinís e aliados por casamento. Marcel estava em silêncio, sentado ao lado do pai que conversava animadamente com seu amigo de longa data. O jovem observava Gustaf Merverte, algo nele não lhe inspirava confiança, havia se consultado com seu oráculo consagrado ao dragão e a resposta obtida não lhe agradou. Não gostava da forma com que aquele homem tratava a filha, deixava muito claro que a jovem era apenas uma mercadoria para uma aliança que seria vantajosa. A atenção de Marcel foi tirada daquela questão quando todos se levantaram da mesa para receber a esposa de Dinís. Atrás da matriarca, algumas servas desceram parando ao lado das escadas, deixando que todos vissem uma jovem descer acompanhada de dois felinos com uma tonalidade na pelagem muito peculiar. Marcel não conseguiu disfarçar seu interesse pela jovem vestida de vermelho, aqueles olhos negros capturaram sua atenção, ele não se lembrava de tê-la visto antes, percebeu que deveria ser muito jovem, mas a beleza dela o encantou, desejou mentalmente que algum dia fosse afortunado com uma esposa tão bela e graciosa como aquela mulher, sorriu pensando em Clara, eram diferentes, sua prometida jamais seria uma mulher tão encantadora quanto aquela, suspirou resignado. Sauvage iniciou a descer escada, estava um pouco nervosa com a impressão que teriam dela, sua altura e sua pele morena eram pouco comuns naquelas terras, a deixavam insegura sobre sua aparência. Ela percebeu o sorriso orgulhoso no rosto de seu pai ao percebê-la descendo as escadas, os demais homens no salão a observavam com um misto de curiosidade e interesse, mas quando os olhos dela cruzaram com os de Marcel, a jovem não pôde deixar de sorrir, seu coração acelerou ao admirar o par de olhos de um azul muito claro, que poderiam ser confundidos facilmente com acinzentados, o homem mais bonito que a jovem já havia visto em sua vida, os cabelos tão negros quanto os dela e a pele pálida, no rosto era coberta por uma espessa e bonita barba. Sauvage ficou fascinada por aquele belo guerreiro de pé como os outros que estavam próximos da mesa, a voz de Dinís a trouxe para realidade, segurou uma de suas mãos, dizendo ao grupo de visitantes: — Permitam-me a honra de apresentá-los à minha jovem filha Sauvage... O som de um miado baixo emitido por Marrant fez Dinís rir, complementando: — Ah, sim! Seus dois belos acompanhantes: Marrant e Foncé. Foncé se sentou ao lado da cadeira que Sauvage ocuparia, observou Marcel atentamente, percebeu o interesse dele por sua jovem amiga e ronronou de contentamento ao perceber que a garota também demonstrou interesse pelo belo visitante sentado na mesa. Henry sorriu ao notar a bela jovem que fazia uma reverência contida e educada, festejou: — Até que enfim sua bela filha alcançou idade suficiente para nos agraciar com sua adorável companhia à mesa. — Sim, graças aos deuses, agora poderei presentear vocês com a presença de minha menina. Gustaf olhou para sua filha com desprezo, parabenizando: — Essa jovem lhe renderá um reino e pilhas de riqueza quando estiver em idade de lhe arranjar casamento. Dinís olhou para o patriarca do Clã Merverte com repreensão, disse para deixar claro a todos: — Exceto se minha filha desejar, jamais precisarei que ela se case. A escolha será apenas de Sauvage. Henry levanta sua taça em honra do que seu amigo havia dito: — O homem que ganhar o coração de sua filha será abençoado pelos deuses. — Com certeza, minha filha é uma joia. A inveja e a cobiça eram palpáveis nos olhos de Gustaf, aquela jovem obviamente era dona de muita educação e cultura, era absurdamente bela, até mesmo para os padrões dos clãs de Lívia, qualquer homem iria para a guerra pela hipótese de desposar a filha de Dinís, mais uma vez ficou desgostoso, suas filhas não eram providas de beleza, era sempre uma dificuldade fazer um bom arranjo de casamento, mas para Dinís seria extremamente vantajoso, desejou oferecer-lhe o que pedisse para poder cortejar a jovem à sua frente. Gustaf devorava Sauvage com os olhos, Marcel havia percebido o olhar do homem mais velho, sua expressão foi feroz, fazendo o rapaz lhe dar um sorriso desconfortável. A interação entre os homens é cessada quando Darlan aparece no alto da escada, descendo rapidamente dizendo a Dinís e os demais patriarcas: — Podemos dar início às tratativas do acordo? Gustaf responde, sorrindo e revirando os olhos: — Como desejar.
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