Depois de uma rápida negociação entre os clãs, as mulheres foram convidadas a deixarem os homens sozinhos à mesa. Sauvage acompanhou a mãe e a cunhada para uma pequena sala onde as mais velhas conversavam animadas.
Sauvage estava alheia à conversa, sentada junto de uma das janelas, observava atentamente Marcel conversando na sala com os outros homens. O jovem não parecia interessado na conversa, o viu pedir licença levantando-se da mesa e saindo pela porta lateral da sala. Sauvage sabia bem onde ele deveria ter ido, ao bosque e desejava segui-lo e observar o belo visitante. Foncé levantou a cabeça vendo Sauvage pedir licença para as duas mulheres mais velhas, cantarolou:
— Perseguiremos o humano bonito agora?
— Pelo amor dos deuses, vocês duas são deploráveis, onde está a vossa educação?
O par de onças seguiu Sauvage para fora, a garota quase correu sobre a grama tentando localizar Marcel nos arredores da casa principal. Foncé fareja o ar localizando o cheiro do visitante, piscou um dos olhos verdes para Sauvage, que entendeu imediatamente seguindo com cuidado. Foncé responde ao irmão:
— Temos educação! O humano é muito interessante para não ser admirado mais um pouco... Agora, fique quieto, não queremos que ele nos perceba.
Os três encontraram Marcel sentado sobre a colina observando o bosque iluminado pela lua, parecia estar pensativo. Sauvage meneou a cabeça para o lado observando Marcel iluminado pela luz da lua, suspirou encantada com o quanto ele era forte e belo, desejou aproximar-se dele para conversar um pouco, queria ouvir a voz dele. Suas sobrancelhas se franziram ao ver uma das mulheres de seu clã, o cabelo loiro avermelhado esvoaçante, conhecia bem aquela mulher, era Clara, a viu chegar debruçando-se sobre o corpo dele. Marcel a abraçou beijando seus lábios, deitando-se com ela na grama e ouviu um grito baixo da mulher, ouviu a voz masculina questionar:
— Por que demorou tanto?
— Foi difícil despistar minha mãe...
Marrant revirou os olhos, vendo a decepção no rosto de Sauvage e constatou:
— Ah! O noivo de Clara...
— Você sabia, Marrant?
O macho onça levantou-se dando de ombro para a irmã, voltando para dentro da casa principal, dizendo desinteressado:
— Não reconheci o humano... Todos se parecem tanto...
O olhar de tristeza de Sauvage não passou despercebido pelo felino, sentiu-se culpado por não alertar que aquele homem já estava comprometido, precisava sair dali, podia ter evitado aquela ilusão por parte da jovem. Sauvage ficou observando o casal apaixonado, conversando e trocando carícias deitados sobre o monte. Ela sorriu constatando que jamais teria a atenção de um homem como aquele, aos olhos dele deveria parecer apenas uma criança alta e desengonçada, até mesmo devia parecer esquisita e nada delicada. Pensou novamente nas mulheres de seu clã e na mãe, uma mulher pequena e delicada, muito diferente dela, baixou a cabeça envergonhada por imaginar que em algum momento aquele homem tão bonito poderia ter um mínimo interesse por sua pessoa.
Levantou-se sendo seguida por Foncé, que nada disse, já imaginando o que a jovem deveria estar pensando, a onça fêmea estava acostumada a ver Sauvage menosprezar sua própria beleza, acreditando que nenhum homem seria capaz de se interessar por ela.
Sauvage andou calmamente para dentro da casa principal, andou até a cozinha, que naquela hora estava vazia. Foncé procurou seu irmão, deixando a jovem sozinha no corredor tranquilo. Uma voz masculina chamou a atenção de Sauvage:
— Então foi aqui que você se escondeu?
Sauvage olhou sobre seu ombro, ergueu a sobrancelha surpresa por ver Gustaf falando com ela como se a conhecesse toda a sua vida. Estreitou os olhos, questionou educadamente:
— Acredito que tenha se perdido, apenas volte pelo corredor, vire à esquerda e estará na sala de jantar.
Gustaf deu um passo na direção de Sauvage, tentando parecer ameaçador, mas percebeu que ela era mais alta que ele, revirou os olhos percebendo frustrado que ela não se intimidaria com sua aproximação, disse sorrindo:
— Não estou perdido... Estava procurando você.
— E o que deseja?
Ele sorriu, fazendo os lábios formarem uma linha fina, deu um passo na direção de Sauvage, levou uma de suas mãos até a altura do seio esquerdo dela. O olhar dela foi incrédulo ao ouvi-lo dizer:
— Quero mostrar a você o quanto desejo beijar os seus lábios... Tocar esse belo corpo.
O som alto de um esturro de onça fez Gustaf se assustar olhando para os lados procurando o par de onças que sempre estavam por perto daquela jovem, nem sequer percebeu quando ela deu um tapa, forte demais para uma jovem, em sua mão quase o fazendo bater com as costas na parede do corredor, ele observou com uma careta Sauvage sair intempestiva pelo corredor e foi atrás da garota, não permitiria que escapasse sem provar aqueles lábios. A jovem já estava perto da sala de jantar, Gustaf correu até ela, segurou seu cotovelo, puxando a para si, ela se virou com o punho fechado, pronto para socar seu rosto, quando a voz grave e alta foi ouvida por ambos:
— Gustaf, o que está acontecendo aqui? Espero que não esteja importunando a filha do senhor Dinís.
Gustaf bufou revirando os olhos por ser surpreendido pelo irritante filho do patriarca Salazar, virou-se para ele, dizendo:
— Não me insulte, meu jovem, sou um homem honrado...
— Claro, Gustaf Merverte. Todos conhecemos a sua honra.
O olhar raivoso de Marcel impediu que o patriarca Merverte respondesse algo. Marcel era muito mais alto que ele, seu corpo musculoso mais parecia uma montanha. Ele estava visivelmente irritado, o que lhe tornava um oponente letal, Gustaf apenas saiu do local rapidamente indo para onde sua filha estava. Marcel e Sauvage o observaram desaparecer na casa.
Sauvage voltou sua atenção para Marcel que deu dois passos em sua direção, ela percebeu confusa que precisava olhar para cima para falar com aquele homem, não se lembrava de ver alguém mais alto do que ela, os olhos azuis de Marcel se fixaram nos dela, questionou:
— Você não deveria ficar a sós com aquele homem, é perigoso para uma jovem delicada como a senhorita.
Sauvage quase riu com aquela afirmação, o tranquilizou:
— Ele admitiu estar me espreitando na casa de meu pai, apenas essa atitude já diz que não é confiável. Agradeço sua proteção e preocupação, senhor Salazar.
Sauvage fez uma reverência muito educada, baixando seus olhos, não conseguindo mais sustentar aquele contato visual, não tinha interesse em manter uma conversa mais extensa com o noivo de uma das mulheres de seu clã, então saiu lentamente da frente dele. Marcel analisou a mudar sua atitude de corajosa como um guerreiro para educação de uma jovem de berço, como o que era e sorriu discretamente pegando uma de suas mãos. Ele percebeu a expressão surpresa no rosto da jovem, beijou galante o dorso de sua mão, dizendo:
— Boa noite, senhorita.
Sauvage não conseguiu achar sua voz para responder nada, fez outra reverência e subiu rapidamente até seu quarto, entrou encontrando o par de felinos deitados sobre sua cama, os dois a olharam simultaneamente, levantando as cabeças curiosos, ela pediu evitando rir como uma criança que ganhava um doce enquanto tirava o vestido vermelho:
— Vamos dormir? Estou cansada...
O casal de onças nada disse, apenas lhe dando espaço para se deitar entre eles na cama. Sauvage suspirou constatando que Marcel era perfeito para ela, mesmo assim jamais ficariam juntos, abraçou o travesseiro contra a cabeça, fechando com força os olhos sentindo o coração acelerar ao lembrar da intensidade de seu olhar e do calor de seus lábios sobre sua pele.
No andar de baixo, Marcel não pôde deixar de observar a jovem desaparecendo no andar de cima da casa, sorriu observando-a ainda inebriado com sua reação a ele, deu meia volta do pé da escada, indo em direção aonde seu pai e Dinís se encontravam, embora aquela noite não fosse capaz de se concentrar em mais nada além daquele par de olhos negros hipnóticos.