Se passavam algumas horas do horário do almoço, desde aquele dia que conheceu a filha de Dinís, Marcel ia às tardes naquele clã com a desculpa de ver sua prometida, passava horas observando a jovem treinando com o pai e os homens até que Clara descobrisse sua presença e viesse arrastá-lo de sua contemplação.
Estava na sala de refeições olhando para fora, podia imaginar seu futuro ao lado daquela mulher, a casa cheia de crianças, de preferência várias meninas belas como ela e um ou dois meninos com aqueles olhos negros, robustos como ele, morreria de ciúmes das filhas, mas seria o homem mais feliz que existiria. Ele suspirou com seus sonhos, neles era o marido mais devotado e assistiria todos os poentes do sol daquela janela, ela lhe sorriria e ele a beijaria, fazendo juras de lhe dar o que sonhasse em suas mãos.
Um suspiro frustrado abandonou seus pulmões, lembrando-se da promessa que havia feito para o pai de Clara. O velho homem havia morrido há muito tempo e em seu leito de morte pediu que tomasse conta de Clara e sua irmã, coisa que um guerreiro de valor como ele prontamente aceitou. Henry jamais foi favorável que cumprisse sua promessa, dizia abertamente não gostar da jovem, dizia possuir amantes, que não tinha honra e que não era mulher a altura dele, muitas vezes ouviu rumores que ela e seu pai eram amantes e deitavam-se por suas costas.
Pela primeira vez em sua vida desejou acreditar naqueles boatos, desejou dar fim ao seu compromisso. Além disso, havia ouvido o que Dinís havia dito, a filha apenas se casaria se fosse de sua vontade, não teria como convencê-lo a dar a mão de Sauvage para ele, mesmo sendo o futuro patriarca do Clã Salazar, olhou para o céu pedindo que o Rei Deus lhe fizesse sábio, precisava lutar contra a paixão que tomava conta de seu peito, se achava velho demais para uma jovem tão bela que logo estaria cercada de pretendentes. Sem que Marcel percebesse, Henry entrou na sala e sentou-se em uma cadeira ao seu lado, questionou:
— O que está fazendo com que suspire como uma donzela?
— Estou suspirando?
Pergunta ele incrédulo.
— Sim, incessantemente. O que aconteceu com você, meu filho?
— Nada que eu possa mudar...
— O que isso significa?
Perguntou Henry erguendo uma sobrancelha, seus olhos iguais aos do filho se estreitaram curiosos. Marcel respondeu:
— Minha vontade está sendo provada.
Henry pensou um instante, lembrou-se que o filho se tornou mais silencioso desde a noite que havia conhecido a filha de Dinís e que do nada passou as tardes fora, quando estava em casa ficava sonhando acordado e suspirando, questionou:
— Sauvage é o nome da sua provação, não é?
Marcel olhou por um instante para o pai riu abaixando a cabeça, perguntando:
— É tão óbvio assim?
— Quer que proponha um noivado a Dinís?
— Pai... Ele não tem interesse em casá-la... Sou muito velho para ela...
— Bobagem, sua mãe tinha a mesma idade quando a pedi em casamento.
— Era outra época...
— Você é um Salazar, que clã não gostaria de ter sua filha casada com você, me diga? Se desejar, desfaço aquele noivado infeliz com Clara... Falaremos com Dinís e antes que o ano termine estará casado com sua bela donzela.
Marcel observou a expressão satisfeita no rosto do pai que o assistia se levantar calmamente partindo para a fortaleza de Dinís para ver Sauvage treinar.
Na fortaleza de Dinís, Clara se arrumava aguardando a chegada de Marcel, tinha certeza de que logo a data de sua união com ele seria oficial, agora ele vinha diariamente até a fortaleza. Ela andou calmamente por volta de onde os soldados treinavam, observava um dos guerreiros do clã, seu cabelo dourado curto estava banhado pelo suor, admirou o corpo esculpido e sentou-se na grama, pensou que aquela noite seduziria aquele homem e se divertiria naquele belo corpo.
No outro extremo do pátio, Sauvage treinava com Dinís, um dos homens de confiança do patriarca a fazia enfrentar um adversário atrás do outro, às vezes dois simultaneamente. O patriarca Bienveillant percebeu a chegada de Marcel e foi pessoalmente encontrá-lo, quando o jovem Salazar desceu do cavalo, ele sorriu dizendo:
— Devo entender que logo teremos outro casamento em meu clã?
Marcel ergueu as sobrancelhas, questionando:
— O quê?
— Não veio ver Clara? Está vindo diariamente nos últimos tempos, logo irá fazer o pedido a ela, acredito?
Os olhos de Marcel se perderam no terreno onde os homens treinavam, observava Sauvage lutando, os movimentos dela eram rápidos e acrobáticos, finalizava rapidamente seus adversários. Ele nem sequer ouviu o que Dinís havia questionado, os olhos verdes do patriarca Bienveillant seguiram para onde ele olhava e voltou-se para Marcel sorrindo:
— Veio lutar, então?
Marcel olhou-lhe um pouco perdido e respondeu:
— Eu poderia?
— Claro... Não se preocupe em machucá-la, apenas tente não ser nocauteado por minha filha.
— Eu não gostaria que ela soubesse que sou eu...
— Vista um capacete fechado, senhor Salazar.
Disse Dinís se divertindo ao ver Marcel indo se preparar para lutar com sua filha, balançou a cabeça negativamente, constatando que lhe agradaria se algum dia Sauvage desejasse um casamento com Marcel, gostava do jovem, era honrado e possuía uma ótima família, olhou para o outro lado do pátio vendo Clara observando sua nova vítima, algum dia teria de conversar com Marcel sobre o comportamento de sua prometida, já que Henry não possuía coragem para isso.
Marrant estava deitado próximo ao local onde Sauvage lutava, achava maçante aquela rotina da jovem humana, mas tinha que admitir que ela era ótima naquelas lutas. Um cheiro familiar chegou ao seu olfato, viu um homem muito grande se aproximar para lutar, o macho onça não pôde deixar de rir, reconheceria o cheiro daquele humano em qualquer lugar, depois do erro que havia cometido, disse a Sauvage:
— Bata com força nesse grandão na sua frente, não gosto dele.
Sauvage sorriu discretamente para ele, mas faria o que seu amigo havia pedido, gostava do brilho em seus olhos quando as lutas se tornavam acaloradas. Marcel se aproximou, ficando no alcance da visão da jovem, viu aquele belo par de olhos negros o analisando atentamente e iniciou os movimentos, ela se movia como um predador, atenta a qualquer movimento de sua parte, ele girou o corpo, movendo a espada ao seu redor, a viu saltar duas vezes, na terceira ela se esgueirou pelo chão, prendendo um de seus pés com suas pernas, golpeando a parte de trás de seu joelho com a espada de treinamento, fazendo Salazar despencar no chão. Ela se levantou rapidamente batendo em suas costas com a espada, depois em seu capacete, Marcel segurou uma de suas pernas, mas ela pisou em sua mão, logo montando sobre suas costas, apoiou a espada sob seu queixo e usou o peso de seu corpo para apertar o pescoço dele.
Marcel tentava se virar e derrubá-la, mas quanto mais se debatia, mas ela o apertava, estava engasgando-se sem ar começando a tossir e ouviu Sauvage dizer:
— Desista ou acabará se machucando.
Marcel não podia acreditar haver sido dominado tão facilmente, o capacete caiu de sua cabeça. Clara, que observava as lutas, viu todos os homens observarem a disputa entre Sauvage e um homem que ela dominava sob seu corpo, gritou assustada correndo até os dois:
— Marcel? O que está fazendo com ele? Pare, vai matá-lo.
Clara tentou se aproximar, mas os homens não permitiram. Sauvage estreitou os olhos para a mulher à sua frente, não entendeu o motivo da expressão de medo no rosto dela, então sentiu o corpo do guerreiro amolecer, com certeza ele havia perdido os sentidos.
O som de surpresa dos homens foi ensurdecedor. Dinís veio rapidamente olhar o que havia acontecido, tirando Sauvage de cima do corpo de Marcel. Foi apenas quando se afastou que a jovem percebeu o que havia feito, Clara correu até ele gritando para Dinís que a filha dele era selvagem e mais uma série de coisas sem o menor cabimento, quando os homens do Clã Bienveillant viraram o jovem Salazar sobre o chão para poder respirar, ouviram ele rindo e se engasgando com o rosto todo vermelho e Clara chorando agarrada a ele, todos os guerreiros riram de se sacudir. Dinís não pôde deixar de gargalhar, abraçando a filha dizendo:
— Parabéns, minha menina, são poucos os guerreiros que podem dizer que conseguiram derrubar Marcel Salazar em um combate.
Sauvage estava visivelmente desconfortável ao observar o olhar intenso de Marcel para ela, estendeu sua mão para ele, mas Clara a afastou com um tapa, a expressão de Salazar foi mortal para a jovem, que entendeu que deveria se afastar. Ele se levantou com dificuldade, dizendo a Dinís:
— Talvez eu precise daquele seu vinho agora, senhor.
Dinís riu, vendo-o se levantar como um velho, pegou seu braço indo para dentro da casa, mas antes de entrar, ordenou a Sauvage:
— Venha conosco, filha.
— Sim, pai.
Disse a jovem, sendo seguida por um Marrant que gargalhava com a situação. Dinís levou Marcel a uma varanda e pediu que as servas trouxessem vinho e alguma comida, deixou Sauvage fazendo companhia ao jovem Salazar. O silêncio entre os dois era constrangedor, a garota olhava para fora alheia aos olhos de Marcel que a devoravam ainda com mais intensidade.
Tudo o que Marcel conseguia pensar era jogá-la sobre aquela mesa, arrancar dela as roupas e pegá-la por trás, enquanto enrolava seu longo cabelo n***o no punho, poderia ouvir os sons dos gemidos dela enquanto morderia seus ombros e sua nuca e se moveria descontrolado dentro dela, a faria implorar para permitir seu prazer. Ele foi tirado de suas fantasias pela ereção quase estourando em suas calças, ajeitou-se na cadeira para que seu volume não chamasse a atenção dela, a ouviu dizer envergonhada:
— Eu não fazia ideia, me perdoe.
— Não há do que se desculpar, eu quis ser seu adversário.
O olhar dela pareceu confuso, ele sorriu apontando para algum lugar na barba. Sauvage estreitou os olhos, aproximando-se um pouco da bela barba n***a e espessa para ver se o havia ferido, mas para sua surpresa Marcel a puxou para junto de seu rosto, virando-se na direção dela e beijou seus lábios, deixando-a surpresa. Ele riu dizendo:
— Agora sim, aceito seu pedido de desculpas, senhorita.
— O quê?
Ele sorriu ainda mais ao ver a expressão perdida no rosto dela, enquanto com os dedos tocava os lábios beijados. O som da voz aguda de Clara procurando por Marcel ecoavam pela sala de entrada, Sauvage olhou para dentro da casa e se levantou, não tinha interesse em encontrar Clara, mas antes de ir aproximou-se novamente de Marcel, dessa vez ela mesma colando os lábios nos dele, permitindo que ambos explorassem a boca um do outro antes que Sauvage partisse, deixando Marcel perdido em suas sensações e sorrindo com o que havia acabado de acontecer.