02 - Juliana

1390 Palavras
Juliana Narrando Mais um dia batendo ponto atrás do balcão da cafetaria. O relógio marcava seis e quarenta da manhã quando cheguei, amarrei o avental e prendi o cabelo num coque malfeito. Coloquei a toca de pano por cima. Meu horário é sempre o mesmo: das sete às dezessete. Todo dia. Domingo a domingo. Uma folga perdida no meio da semana que nunca parece descanso de verdade. O cheiro de café forte já impregnava tudo. Máquina apitando, copo batendo no pires, gente apressada reclamando do preço, da demora, da vida. Eu sorria, anotando pedido, fazendo suco. entregava por fora, a funcionária educada. Por dentro, só contava as horas pra ir embora. Quando deu cinco da tarde, minhas pernas já doíam e minha cabeça parecia pesada. Peguei minha bolsa, dei tchau pro pessoal e fui direto pro ponto. Moro no Engenho da Rainha, bem em frente ao Complexo do Alemão. Não é nada demais, mas também não é escolha. É o que dá pra manter. Zona Sul é coisa pra quem nasceu com sorte ou nunca precisou escolher entre comida e luxo. Cheguei em casa já querendo um banho quente. Aquele banho demorado, pra tentar lavar não só o corpo, mas o cansaço acumulado de viver duas vidas diferentes. Ah, esqueci de me apresentar direito. Meu nome é Juliana Santos, tenho vinte e quatro anos. Sou morena, olhos castanhos, cabelo preto, longo, uso franja. Sei lá, acho minha testa grande demais. Sou balconista de dia e garota de programa à noite. Ou como eles gostam de chamar: job, versão gourmetizada de uma realidade que ninguém quer encarar. Levar essa vida dupla não é fácil. Não é algo que eu sonhei. Não foi um dia qualquer em que acordei e pensei: vou fazer job. Não foi assim. Foi necessidade. Foi desespero. Foi conta vencendo, remédio faltando, pai preso, mãe doente. Quando se precisa ganhar dinheiro rápido, as opções diminuem. E essa foi a única porta que se abriu pra mim. Assim que entrei em casa, minha tia veio da cozinha limpando as mãos no pano de prato. — Juliana, acabaram as frutas e os produtos de limpeza. Sorri fraco. Abri a carteira, puxei duas notas de cem e entreguei pra ela sem falar nada. — Vou ali no mercado rapidinho — ela disse, já pegando a bolsa. Fui até o sofá e dei um beijo na testa da minha mãe. Ela estava sentada, com a manta fina sobre as pernas, o rosto abatido, mas tentando sorrir. — Oi, mãe, como a senhora tá hoje? — Tô bem, quer dizer, vou ficar — respondeu, com aquela esperança teimosa que ela sempre teve. Sentei ao lado dela. — Fica sim, mãe. Vai ficar. Ela segurou minha mão com força e me olhou daquele jeito que parece enxergar além do que eu digo. — Quando você vai ver seu pai? Engoli seco. — Essa semana dá. Vou folgar na quinta, aí aproveito e vou lá. Ela assentiu, satisfeita. Depois perguntou, como sempre: — E o curso? Tá indo bem? Pra minha mãe, eu faço faculdade à noite. Nunca tive coragem de contar a verdade. Nunca consegui destruir essa ilusão. Então sorri, mesmo com a garganta fechando. — Tá tudo bem, mãe. Graças a Deus. As palavras desceram rasgando por dentro. Só assim mesmo, engolindo a verdade junto com o choro. Fui pro banho. A água quente escorrendo pelo corpo me dava alguns minutos de paz. Olhei meu reflexo no espelho embaçado e respirei fundo. Ali, sozinha, eu me permitia sentir. Cansaço. Raiva. Tristeza. Medo. Quando saí do banheiro, minha tia já tinha voltado. Ajudou minha mãe a comer, deu o remédio, ajeitou os travesseiros. Depois que minha mãe se deitou, fui comer alguma coisa rápido. Mäl tinha fome, mas precisava de força. Abri o guarda-roupa e encarei as roupas separadas. As de Juliana balconista. As de Juliana da noite. Peguei o vestido, o salto, a maquiagem. Cada peça parecia pesar mais que a anterior. Coloquei tudo na bolsa, Só saiu maquiada mesmo. A roupa eu troco por ai, em posto de gasolina. Em algum banheiro fácil. Meu celular vibrou em cima da cama. Mensagem nova. — Cliente confirmado. Hotel Nacional, São Conrado. Chegada às 21h. Fechei os olhos por alguns segundos. Mais uma noite. Mais um quarto. Mais um homem que eu não sei o nome. Mais horas vendendo o corpo enquanto a cabeça tentava ir pra longe. — Você vai sair? — minha tia perguntou da porta. — Vou pro curso. — respondi, evitando olhar. Ela apenas assentiu. Não perguntou mais nada. Acho que, no fundo, ela sabe. Todo mundo acaba sabendo. Me arrumei em silêncio. Passei o perfume, ajeitei a franja, conferi a maquiagem. A Juliana da noite estava pronta. A que não pode fraquejar. A que não chora. A que finge controle. Antes de sair, fui até o quarto da minha mãe. Beijei sua testa de novo, com cuidado. — Dorme bem, tá? Ela sorriu, sonolenta. — Deus te abençoe, minha filha. Saí de casa com a bolsa no ombro e o coração pesado. O céu já estava totalmente escuro, as luzes da rua piscavam, a cidade seguia viva, indiferente. Eu caminhava pensando em como a vida me colocou ali, mesmo cansada, eu sigo. Porque parar não é uma opção. Porque alguém depende de mim. Porque sobreviver, às vezes, dói mais do que qualquer outra coisa. É mais uma noite começando. Fui direto pra São Conrado, que é longe pra caramba de onde eu moro. Do Engenho da Rainha até São Conrado são mais de trinta quilômetros, atravessando boa parte do Rio. De carro, em dia comum, dá coisa de uma hora, às vezes mais, dependendo do trânsito. Naquela noite, levei quase uma hora e meia, tempo suficiente pra minha cabeça viajar por tudo e por nada ao mesmo tempo. Fiquei olhando pela janela do carro enquanto a cidade mudava de rosto. O subúrbio ficando pra trás, os prédios ficando mais altos, as ruas mais iluminadas. Cada quilômetro parecia me afastar um pouco mais da Juliana de casa e me empurrar de vez pra noite. Quando o carro parou em frente ao hotel, respirei fundo antes de descer. Paguei a corrida, conferi o valor e mandei o comprovante pro Tubarão. No fim da noite ele sempre repassa o que gasto com transporte. Pelo menos isso é organizado. Guardei o celular, ajeitei a bolsa no ombro e desci. O hotel era imponente, daqueles que só de entrar você sente que não pertence e àquele lugar. Piso brilhando, cheiro de ambiente caro, pessoas bem vestidas circulando como se aquilo fosse rotina. Perguntei ao recepcionista onde ficava o banheiro e segui em direção aos elevadores. No banheiro, me tranquei por alguns minutos. Tirei a roupa simples da viagem e comecei a me produzir. Coloquei a cinta-liga com cuidado, o vestido vermelho que abraçava meu corpo do jeito certo e o salto alto, que sempre me deixava mais confiante, mesmo machucando depois. Uma boa dose de perfume, quase um banho inteiro, e retoquei o batom com atenção. Olhei meu reflexo no espelho. Ali, não podia haver insegurança. Só postura. Peguei o elevador e apertei o botão do 26º andar. Enquanto subia, senti aquele frio no estômago de sempre, uma mistura de ansiedade e alerta. Quando as portas se abriram, caminhei pelo corredor silencioso até o quarto indicado. Parei em frente à porta por um segundo, ajeitei o cabelo e bati. A porta se abriu, e ele apareceu. Alto. Forte. Postura de quem manda sem precisar falar muito. Olhos claros, frios e atentos, que me analisaram da cabeça aos pés sem disfarçar. Ele sorriu de canto, um sorriso lento, carregado de intenção. — Entra — disse, abrindo espaço. Assim que cruzei a porta, senti o contraste. O quarto era enorme, elegante, iluminado. Ele fechou a porta atrás de mim e, sem dizer mais nada, se aproximou. Me puxou pela cintura e me beijou com desejo, firme, intenso. Fiquei surpresa. Primeiro cliente que fazia isso logo de cara. Quando nos afastamos, meus olhos foram direto pra janela. dava pra ver a Rocinha iluminada, viva, pulsando na noite. Era linda daquele jeito contraditório, assim como o Rio. O hotel também era um charme à parte, quase um monumento. Provavelmente o mais chique da Zona Sul. Entre luxo e realidade, eu entendi que essa noite não será como as outras.
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