Capítulo 4 – A Tempestade Depois do Fogo

1235 Palavras
O amanhecer chegou devagar sobre Istambul. O céu, pintado em tons dourados, parecia alheio ao caos que começava a se formar. Valéria acordou sentindo o calor da pele de Arkan ainda presente em sua memória — o toque dele, o sabor do beijo, a maneira como seus olhos haviam dito tudo o que as palavras não ousaram. Mas junto à lembrança veio o medo. Ela se levantou devagar, cobrindo-se com o lençol, observando o homem que dormia ao seu lado. Mesmo em repouso, ele parecia dominar o espaço. O rosto sereno, os traços fortes, a barba leve que sombreava o maxilar. Era impossível olhar para Arkan Demir e não entender por que o mundo o temia — e por que ela o amava, apesar disso. Quando ele abriu os olhos, o tempo pareceu parar. — Bom dia, — disse, com a voz rouca de sono. Valéria tentou sorrir. — Você devia estar no escritório. — Eu devia fazer muitas coisas. — Ele se ergueu, se aproximando. — Mas no momento só consigo pensar em você. Ela desviou o olhar, nervosa. — Isso é um problema, Arkan. — É a única coisa que faz sentido — respondeu ele, tocando o rosto dela. — Tudo o resto é ruído. Valéria segurou a mão dele, mas sua voz saiu trêmula. — O ruído também destrói. --- Horas depois, o ruído ganhou forma. Os portais de notícia repetiam a mesma manchete, agora com fotos ainda mais invasivas: “Escândalo no Bósforo: CEO turco passa a noite com executiva estrangeira.” As imagens eram nítidas demais. Um fotógrafo captara a entrada do hotel, o toque sutil entre eles, até mesmo a sombra do beijo refletida no vidro do elevador. Valéria sentiu o sangue gelar. O telefone tocava sem parar. Mensagens de colegas, da imprensa, da empresa. E, em meio ao caos, o nome de Elif Karahan voltou a aparecer nos rumores. Arkan chegou pouco depois, furioso. — Eu vou acabar com isso. — Ele jogou um jornal sobre a mesa. — Isso passou dos limites. — Arkan, pare — pediu Valéria. — Se reagir, só vai dar mais força a eles. — Quer que eu fique quieto enquanto te humilham? — Quero que pense. — O tom dela foi firme. — Já parou pra considerar que essa guerra não é só contra mim? É contra você também. Contra o que representa. Ele respirou fundo, tentando conter o impulso de agir. — Então o que sugere que eu faça? — Espere. — Ela o encarou com calma. — Deixe que as verdades apareçam por si. Mas o mundo de Arkan não era feito de espera. Era feito de domínio, ação, controle. E o fato de não poder controlar o que sentia por ela o deixava em fúria. --- Enquanto isso, Elif observava tudo de seu escritório, o olhar satisfeito. A matéria havia se espalhado exatamente como planejado. — Ele vai correr para protegê-la — murmurou, bebendo um gole de vinho. — E, quando o fizer, perderá o conselho. O assistente à sua frente hesitou. — Senhora Karahan, isso pode afetar também os contratos da sua própria empresa... — Que afetem. — Ela sorriu, fria. — O que é um império comparado ao prazer de ver um homem poderoso ajoelhar-se por amor? --- No dia seguinte, Valéria foi convocada à sede da GlobalTrade por videoconferência. A diretoria estava reunida. Rostos rígidos, olhares acusadores. — Senhora Mancinni, — começou o presidente da empresa — os eventos recentes comprometem nossa imagem institucional. Precisamos avaliar sua permanência na equipe. Valéria manteve o queixo erguido. — Não houve conduta indevida. — O problema é a aparência das coisas, não a verdade. — A frase veio como um golpe. — Talvez seja melhor que retorne ao Brasil até o caso esfriar. Ela fechou os olhos, tentando não deixar as lágrimas caírem. Sabia o que aquilo significava: afastamento disfarçado de demissão. Quando desligou, Arkan estava ali, parado à porta. — O que eles disseram? — Que eu devo ir embora. Ele caminhou até ela, segurando-a pelos ombros. — Então não vá. — E ficar como, Arkan? Como “a mulher do CEO turco”? — A voz dela quebrou. — Eu lutei a vida toda pra ser reconhecida pelo meu trabalho, não pelos homens ao meu redor. — Eu não quero te apagar, Valéria. Quero te proteger. — E eu não quero ser salva. Quero ser respeitada. O silêncio entre eles foi denso, quase doloroso. Arkan a soltou devagar, como quem reconhece a força de algo que não pode controlar. — Então lute comigo — disse ele, por fim. — Mas não contra mim. --- Enquanto isso, em uma mansão às margens do estreito, Kemal Demir recebia Elif Karahan para um jantar privado. A cumplicidade entre eles era evidente. — Você prometeu que controlaria a situação, Elif — disse Kemal, irritado. — Agora meu filho virou motivo de escândalo internacional. — Ele precisava de um choque de realidade — respondeu ela, calmamente. — E, quando tudo desabar, ele voltará para onde sempre pertenceu. Kemal a observou, intrigado. — Você ainda o ama? — Não. — O sorriso dela foi amargo. — Mas quero que ele sofra como me fez sofrer. --- Naquela noite, Valéria arrumava as malas. Cada dobra de roupa parecia pesar como uma despedida. Arkan chegou antes que ela terminasse. — Você não vai sair daqui — disse, trancando a porta. — Arkan... — Eu já perdi demais por causa do meu pai, por causa da imprensa, por causa das aparências. Não vou perder você também. Ela tentou manter a calma. — Não é assim que resolve as coisas. — Então me diga como, Valéria! — Ele estava à beira do desespero. — Porque eu não sei mais onde termina o que sinto e onde começa o que devo fazer. Ela se aproximou, tocando o rosto dele. — Às vezes, o amor não precisa vencer o mundo, Arkan. Só precisa sobreviver a ele. Ele segurou a mão dela, e por um instante, toda a raiva se dissolveu. O beijo que veio depois não foi de paixão — foi de despedida. Um beijo que dizia eu te amo, mas também eu te entendo. --- Na manhã seguinte, a notícia se espalhou: “Executiva Valéria Mancinni deixa Istambul em meio a escândalo.” As câmeras do aeroporto captaram sua partida. Nenhum repórter viu o homem de terno escuro parado à distância, observando o avião desaparecer no horizonte. Arkan Demir permaneceu ali até o último traço do avião sumir no céu. E quando finalmente virou as costas, o rosto estava diferente — frio, determinado. --- Mais tarde, em sua sala, recebeu Selim. — Está decidido, então? — perguntou o advogado. Arkan assentiu. — Quero uma investigação completa. Descubra quem pagou pelos vazamentos. Elif e meu pai estão juntos nisso, e vou expor cada um deles. Selim hesitou. — E Valéria? — Ela vai me odiar por um tempo — respondeu, com um sorriso triste. — Mas vai entender quando tudo estiver limpo. — Você está certo disso? — Não. — Ele se levantou, olhando pela janela. — Mas prefiro ser odiado por tentar salvá-la do que amado enquanto ela afunda comigo. Do lado de fora, o céu escurecia sobre Istambul. A tempestade estava longe de terminar. E, no coração do homem que sempre teve tudo, nascia uma promessa: Ele traria Valéria de volta. Não importava o que custasse.
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