O escritório de Arkan Demir estava mergulhado em silêncio, exceto pelo som distante da cidade lá embaixo.
As manchetes ainda ecoavam por toda parte: “Romance Internacional: CEO Turco e Executiva Brasileira em Noite de Paixão”.
Arkan fitava as imagens no tablet, o maxilar tenso, os olhos sombrios.
Sabia exatamente quem estava por trás daquilo.
A porta se abriu sem aviso.
Elif Karahan entrou, os saltos ecoando pelo chão de mármore. O mesmo ar de superioridade no rosto — o mesmo perfume que outrora o atraíra e agora o sufocava.
— Você me mandou chamar, Arkan? — disse ela, com falsa inocência.
Ele levantou-se lentamente, apoiando as mãos sobre a mesa.
— Foi você, não foi?
Ela arqueou uma sobrancelha. — Do que está falando?
— Da matéria. — A voz dele era cortante. — Só alguém com acesso interno às reservas do restaurante poderia saber onde estávamos.
Elif sorriu, mas os olhos dela brilharam com veneno.
— Ah, Arkan… você realmente acha que eu preciso de espionagem para saber o que anda fazendo? Essa cidade fala, meu amor. E as pessoas adoram histórias românticas.
— Isso não é uma história romântica, Elif — respondeu ele, aproximando-se. — É a destruição da reputação de uma mulher inocente.
Ela cruzou os braços, impassível. — Inocente? — riu, sem humor. — Nenhuma mulher se senta com você à beira do Bósforo e continua inocente, Arkan.
— Cuidado com o que diz.
— Ou o quê? — provocou, se aproximando. — Vai me ameaçar? Esqueceu quem o ajudou a subir? Quem apresentou seu nome às famílias que hoje o respeitam?
Arkan respirou fundo, lutando contra o impulso de perder o controle.
— Você me ajudou, sim — disse ele, em voz baixa. — Mas depois tentou me destruir.
Ela se aproximou ainda mais, o olhar ardente. — Porque você me trocou por ela. Uma estrangeira. Uma mulher que não entende o que é ser parte desse mundo.
— Talvez seja justamente isso que a torna diferente.
Por um instante, Elif ficou sem palavras.
Então, com um gesto súbito, ergueu a mão e o estapeou.
O som seco ecoou pela sala.
Arkan não reagiu. Apenas ficou parado, olhando-a com frieza.
— Nunca mais — disse, com uma calma assustadora. — Nunca mais tente me manipular, Elif. Ou eu mesmo colocarei um fim nisso, de um modo que você não vai gostar.
Ela recuou um passo, surpresa com o tom.
— Você está se perdendo, Arkan. Essa mulher vai te destruir.
— Ou talvez me salve — respondeu ele, sem hesitar.
Elif o fitou por um instante — e o ódio tomou conta de seus olhos.
Sem dizer mais nada, saiu, batendo a porta.
Enquanto isso, Valéria tentava apagar o incêndio em seu próprio campo.
Passara a manhã em ligações intermináveis com a equipe de comunicação da GlobalTrade, tentando explicar que o jantar fora estritamente profissional — o que, claro, ninguém acreditava.
Os olhares na sede, as mensagens veladas dos colegas, as redes sociais em chamas.
Era como estar no olho de um furacão.
Quando finalmente desligou o último telefonema, ouviu batidas na porta.
Abriu — e deu de cara com Arkan.
— Preciso falar com você.
— Agora? — Ela suspirou, exausta. — Acho que já falamos o bastante por hoje.
— Não, Valéria. Agora. — O tom dele não deixava espaço para recusa.
Ela assentiu, sem forças para discutir.
Ele entrou, fechou a porta atrás de si. Por um momento, ficou apenas olhando para ela — como se quisesse memorizar cada traço, cada respiração.
— Foi ela, não foi? — perguntou Valéria, a voz trêmula. — A tal Elif.
— Sim. Eu confrontei. Ela não negou.
Valéria desviou o olhar, sentindo o peso da situação.
— Ela vai continuar. Vai inventar mais, até me destruir completamente.
— Não vai. — Arkan deu um passo à frente. — Porque eu não vou permitir.
Ela riu, amarga. — E o que pode fazer, Arkan? Mandar o mundo calar a boca?
Ele se aproximou mais, até que o perfume dele preencheu o ar.
— Posso protegê-la.
— Eu não preciso de proteção — retrucou, erguendo o queixo. — Só de respeito.
Ele parou, olhando-a por um longo momento.
Então, num tom mais suave, disse:
— E acha que eu não a respeito, Valéria?
Ela engoliu em seco. — Não sei. Você é um homem acostumado a ter o que quer. E eu... eu não sou uma conquista.
— Eu sei. — A voz dele era um sussurro. — É justamente por isso que não consigo parar de pensar em você.
O silêncio que se seguiu foi quase palpável.
Valéria sentiu o coração bater contra o peito, rápido demais.
Arkan se aproximou um passo, depois outro, até que os rostos estavam a poucos centímetros.
— Diga que pare — murmurou ele, os olhos fixos nos dela. — E eu paro agora.
Mas ela não disse.
Apenas ficou ali, imóvel, sentindo o calor do corpo dele, o som da respiração mútua.
Por um segundo, o mundo pareceu sumir.
Então o telefone tocou, quebrando o encanto.
Ela recuou um passo, ofegante. — Eu... preciso atender.
Arkan respirou fundo, lutando para se recompor.
— Está bem. — Caminhou até a porta, parando antes de sair. — Mas saiba, Valéria... não vou deixar que destruam o que ainda nem começou.
E saiu.
Naquela noite, Arkan encontrou-se com Selim, seu advogado e amigo de confiança.
— A imprensa não vai soltar isso tão fácil — disse Selim. — Já estamos lidando com vazamentos em fóruns empresariais. Parece que alguém do conselho também está envolvido.
— Meu pai? — perguntou Arkan, a voz sombria.
Selim hesitou. — Kemal sempre quis te ver de volta com Elif. Ele acha que essa relação com Valéria vai manchar o nome da família.
Arkan fechou os punhos. — Se ele estiver por trás disso, vai entender que o poder dele acabou.
Selim o olhou com cautela. — Arkan, pense bem. Você está se movendo entre duas forças perigosas: Elif e seu pai. Essa mulher — ele indicou o nome de Valéria nos papéis —, ela pode ser o seu ponto de ruptura.
— Ou o motivo pelo qual eu finalmente me liberto deles.
Selim suspirou. — Só não a machuque.
— Essa é a única coisa que eu não pretendo fazer — respondeu Arkan, firme.
No dia seguinte, Valéria recebeu uma mensagem inesperada:
> “Senhorita Mancinni, venho em nome do Sr. Kemal Demir. Gostaríamos de convidá-la para um jantar de cortesia.”
Ela leu o texto duas vezes, sem acreditar.
O pai de Arkan queria encontrá-la.
Por instinto, soube que nada naquele convite era uma “cortesia”.
O jantar aconteceu em um restaurante privado, reservado, com vista para o mar.
Kemal Demir era um homem de presença imponente, olhar frio, sorriso ensaiado.
— Senhorita Mancinni, — disse ele, ao recebê-la — é um prazer conhecê-la. Tenho ouvido... muito a seu respeito.
— Espero que sejam boas coisas — respondeu ela, educadamente.
— Ah, as melhores e as piores. — Ele sorriu, mas os olhos permaneceram duros. — Meu filho parece encantado por você.
Valéria manteve a postura. — Seu filho é um homem notável.
— Notável, sim. — Ele se inclinou sobre a mesa. — Mas vulnerável quando se apaixona. E isso o torna perigoso — para si e para quem está ao redor.
— Se me convidou para me intimidar, senhor Demir, lamento. Já trabalhei com homens piores.
Kemal riu baixo, impressionado com a firmeza dela.
— Corajosa. Gosto disso. Mas vou ser claro: Arkan não pertence ao mundo das emoções. Ele pertence aos negócios. E o que você representa... é uma distração.
Valéria respirou fundo. — Se é isso que pensa, talvez devesse conversar com ele, não comigo.
— Já tentei. — O tom de Kemal tornou-se sombrio. — Mas meu filho sempre aprende da maneira mais difícil.
Ela se levantou, pronta para ir embora. — Boa noite, senhor Demir.
— Cuidado, senhorita Mancinni — disse ele, enquanto ela se afastava. — Os homens da minha família não amam sem destruir o que amam.
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Horas depois, Arkan foi até o hotel dela, irritado e preocupado.
— Por que foi vê-lo? — perguntou, assim que entrou no quarto.
— Porque ele me chamou. Achei que devia ouvir o que tinha a dizer.
— E o que ele disse?
— Que você é perigoso — respondeu, encarando-o. — Que os homens da sua família não sabem amar sem ferir.
Arkan ficou em silêncio por alguns segundos, a respiração pesada.
Depois, com um olhar vulnerável e intenso, disse apenas:
— Talvez ele tenha razão. Mas, se for pra me perder, que seja por você.
Valéria sentiu o coração tremer. Ele deu um passo à frente, e ela não recuou.
Dessa vez, quando os lábios se encontraram, não houve hesitação.
Foi um beijo profundo, quente, urgente — como se ambos soubessem que estavam cruzando um limite do qual não haveria volta.
E, pela primeira vez, o poderoso CEO turco não pensou em controle, reputação ou poder.
Pensou apenas nela.
E naquele instante, Istambul inteira pareceu se curvar ao som do inevitável:
a paixão deles havia começado — e não havia mais como detê-la.