Capítulo 3 – O Preço da Verdade

1541 Palavras
O escritório de Arkan Demir estava mergulhado em silêncio, exceto pelo som distante da cidade lá embaixo. As manchetes ainda ecoavam por toda parte: “Romance Internacional: CEO Turco e Executiva Brasileira em Noite de Paixão”. Arkan fitava as imagens no tablet, o maxilar tenso, os olhos sombrios. Sabia exatamente quem estava por trás daquilo. A porta se abriu sem aviso. Elif Karahan entrou, os saltos ecoando pelo chão de mármore. O mesmo ar de superioridade no rosto — o mesmo perfume que outrora o atraíra e agora o sufocava. — Você me mandou chamar, Arkan? — disse ela, com falsa inocência. Ele levantou-se lentamente, apoiando as mãos sobre a mesa. — Foi você, não foi? Ela arqueou uma sobrancelha. — Do que está falando? — Da matéria. — A voz dele era cortante. — Só alguém com acesso interno às reservas do restaurante poderia saber onde estávamos. Elif sorriu, mas os olhos dela brilharam com veneno. — Ah, Arkan… você realmente acha que eu preciso de espionagem para saber o que anda fazendo? Essa cidade fala, meu amor. E as pessoas adoram histórias românticas. — Isso não é uma história romântica, Elif — respondeu ele, aproximando-se. — É a destruição da reputação de uma mulher inocente. Ela cruzou os braços, impassível. — Inocente? — riu, sem humor. — Nenhuma mulher se senta com você à beira do Bósforo e continua inocente, Arkan. — Cuidado com o que diz. — Ou o quê? — provocou, se aproximando. — Vai me ameaçar? Esqueceu quem o ajudou a subir? Quem apresentou seu nome às famílias que hoje o respeitam? Arkan respirou fundo, lutando contra o impulso de perder o controle. — Você me ajudou, sim — disse ele, em voz baixa. — Mas depois tentou me destruir. Ela se aproximou ainda mais, o olhar ardente. — Porque você me trocou por ela. Uma estrangeira. Uma mulher que não entende o que é ser parte desse mundo. — Talvez seja justamente isso que a torna diferente. Por um instante, Elif ficou sem palavras. Então, com um gesto súbito, ergueu a mão e o estapeou. O som seco ecoou pela sala. Arkan não reagiu. Apenas ficou parado, olhando-a com frieza. — Nunca mais — disse, com uma calma assustadora. — Nunca mais tente me manipular, Elif. Ou eu mesmo colocarei um fim nisso, de um modo que você não vai gostar. Ela recuou um passo, surpresa com o tom. — Você está se perdendo, Arkan. Essa mulher vai te destruir. — Ou talvez me salve — respondeu ele, sem hesitar. Elif o fitou por um instante — e o ódio tomou conta de seus olhos. Sem dizer mais nada, saiu, batendo a porta. Enquanto isso, Valéria tentava apagar o incêndio em seu próprio campo. Passara a manhã em ligações intermináveis com a equipe de comunicação da GlobalTrade, tentando explicar que o jantar fora estritamente profissional — o que, claro, ninguém acreditava. Os olhares na sede, as mensagens veladas dos colegas, as redes sociais em chamas. Era como estar no olho de um furacão. Quando finalmente desligou o último telefonema, ouviu batidas na porta. Abriu — e deu de cara com Arkan. — Preciso falar com você. — Agora? — Ela suspirou, exausta. — Acho que já falamos o bastante por hoje. — Não, Valéria. Agora. — O tom dele não deixava espaço para recusa. Ela assentiu, sem forças para discutir. Ele entrou, fechou a porta atrás de si. Por um momento, ficou apenas olhando para ela — como se quisesse memorizar cada traço, cada respiração. — Foi ela, não foi? — perguntou Valéria, a voz trêmula. — A tal Elif. — Sim. Eu confrontei. Ela não negou. Valéria desviou o olhar, sentindo o peso da situação. — Ela vai continuar. Vai inventar mais, até me destruir completamente. — Não vai. — Arkan deu um passo à frente. — Porque eu não vou permitir. Ela riu, amarga. — E o que pode fazer, Arkan? Mandar o mundo calar a boca? Ele se aproximou mais, até que o perfume dele preencheu o ar. — Posso protegê-la. — Eu não preciso de proteção — retrucou, erguendo o queixo. — Só de respeito. Ele parou, olhando-a por um longo momento. Então, num tom mais suave, disse: — E acha que eu não a respeito, Valéria? Ela engoliu em seco. — Não sei. Você é um homem acostumado a ter o que quer. E eu... eu não sou uma conquista. — Eu sei. — A voz dele era um sussurro. — É justamente por isso que não consigo parar de pensar em você. O silêncio que se seguiu foi quase palpável. Valéria sentiu o coração bater contra o peito, rápido demais. Arkan se aproximou um passo, depois outro, até que os rostos estavam a poucos centímetros. — Diga que pare — murmurou ele, os olhos fixos nos dela. — E eu paro agora. Mas ela não disse. Apenas ficou ali, imóvel, sentindo o calor do corpo dele, o som da respiração mútua. Por um segundo, o mundo pareceu sumir. Então o telefone tocou, quebrando o encanto. Ela recuou um passo, ofegante. — Eu... preciso atender. Arkan respirou fundo, lutando para se recompor. — Está bem. — Caminhou até a porta, parando antes de sair. — Mas saiba, Valéria... não vou deixar que destruam o que ainda nem começou. E saiu. Naquela noite, Arkan encontrou-se com Selim, seu advogado e amigo de confiança. — A imprensa não vai soltar isso tão fácil — disse Selim. — Já estamos lidando com vazamentos em fóruns empresariais. Parece que alguém do conselho também está envolvido. — Meu pai? — perguntou Arkan, a voz sombria. Selim hesitou. — Kemal sempre quis te ver de volta com Elif. Ele acha que essa relação com Valéria vai manchar o nome da família. Arkan fechou os punhos. — Se ele estiver por trás disso, vai entender que o poder dele acabou. Selim o olhou com cautela. — Arkan, pense bem. Você está se movendo entre duas forças perigosas: Elif e seu pai. Essa mulher — ele indicou o nome de Valéria nos papéis —, ela pode ser o seu ponto de ruptura. — Ou o motivo pelo qual eu finalmente me liberto deles. Selim suspirou. — Só não a machuque. — Essa é a única coisa que eu não pretendo fazer — respondeu Arkan, firme. No dia seguinte, Valéria recebeu uma mensagem inesperada: > “Senhorita Mancinni, venho em nome do Sr. Kemal Demir. Gostaríamos de convidá-la para um jantar de cortesia.” Ela leu o texto duas vezes, sem acreditar. O pai de Arkan queria encontrá-la. Por instinto, soube que nada naquele convite era uma “cortesia”. O jantar aconteceu em um restaurante privado, reservado, com vista para o mar. Kemal Demir era um homem de presença imponente, olhar frio, sorriso ensaiado. — Senhorita Mancinni, — disse ele, ao recebê-la — é um prazer conhecê-la. Tenho ouvido... muito a seu respeito. — Espero que sejam boas coisas — respondeu ela, educadamente. — Ah, as melhores e as piores. — Ele sorriu, mas os olhos permaneceram duros. — Meu filho parece encantado por você. Valéria manteve a postura. — Seu filho é um homem notável. — Notável, sim. — Ele se inclinou sobre a mesa. — Mas vulnerável quando se apaixona. E isso o torna perigoso — para si e para quem está ao redor. — Se me convidou para me intimidar, senhor Demir, lamento. Já trabalhei com homens piores. Kemal riu baixo, impressionado com a firmeza dela. — Corajosa. Gosto disso. Mas vou ser claro: Arkan não pertence ao mundo das emoções. Ele pertence aos negócios. E o que você representa... é uma distração. Valéria respirou fundo. — Se é isso que pensa, talvez devesse conversar com ele, não comigo. — Já tentei. — O tom de Kemal tornou-se sombrio. — Mas meu filho sempre aprende da maneira mais difícil. Ela se levantou, pronta para ir embora. — Boa noite, senhor Demir. — Cuidado, senhorita Mancinni — disse ele, enquanto ela se afastava. — Os homens da minha família não amam sem destruir o que amam. --- Horas depois, Arkan foi até o hotel dela, irritado e preocupado. — Por que foi vê-lo? — perguntou, assim que entrou no quarto. — Porque ele me chamou. Achei que devia ouvir o que tinha a dizer. — E o que ele disse? — Que você é perigoso — respondeu, encarando-o. — Que os homens da sua família não sabem amar sem ferir. Arkan ficou em silêncio por alguns segundos, a respiração pesada. Depois, com um olhar vulnerável e intenso, disse apenas: — Talvez ele tenha razão. Mas, se for pra me perder, que seja por você. Valéria sentiu o coração tremer. Ele deu um passo à frente, e ela não recuou. Dessa vez, quando os lábios se encontraram, não houve hesitação. Foi um beijo profundo, quente, urgente — como se ambos soubessem que estavam cruzando um limite do qual não haveria volta. E, pela primeira vez, o poderoso CEO turco não pensou em controle, reputação ou poder. Pensou apenas nela. E naquele instante, Istambul inteira pareceu se curvar ao som do inevitável: a paixão deles havia começado — e não havia mais como detê-la.
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