Capítulo 2 – Ecos do Passado 1

1396 Palavras
O amanhecer seguinte trouxe uma luz suave sobre Istambul. Da sacada do hotel, Valéria observava o sol se erguer sobre o estreito do Bósforo. O som distante das orações, os barcos deslizando na água, e o aroma do café turco que subia do restaurante formavam uma sinfonia de calma e expectativa. Mas dentro dela, o coração batia acelerado. Tinha sonhado com Arkan. Não com beijos ou palavras — mas com aquele olhar intenso, que parecia atravessá-la. Sonhou com o toque breve das mãos, com a voz dele dizendo seu nome como se o transformasse em promessa. E, ao acordar, sentiu um frio na barriga que não ousava admitir nem para si mesma. “Concentre-se, Valéria”, murmurou, vestindo-se para a reunião da manhã. Mas não era tão simples assim. O rosto de Arkan se infiltrava em cada pensamento, como uma melodia que se recusava a ir embora. Na sede da Demir Holdings, o clima era diferente daquele do dia anterior. Os corredores estavam mais silenciosos, os olhares mais atentos. Assim que entrou na sala de reuniões, Valéria notou a presença de uma mulher que ainda não conhecia. Elegante, imponente, vestida com um tailleur branco que exalava poder. Os cabelos loiros estavam presos em um coque perfeito, e o batom vermelho desenhava um sorriso frio. — Miss Mancinni, — disse a mulher, estendendo a mão — sou Elif Karahan. Diretora de Relações Públicas do grupo. Valéria retribuiu o aperto de mão. — Prazer em conhecê-la. O nome não lhe era estranho. Ela lembrava de tê-lo lido em uma das matérias sobre Arkan. A ex-noiva escandalosa do magnata turco. Um arrepio percorreu sua espinha. Arkan entrou logo em seguida, cumprimentando a todos com a serenidade habitual. Quando seus olhos cruzaram com os de Valéria, houve uma faísca — breve, mas inegável. Elif notou. E o brilho gelado em seus olhos foi suficiente para transformar o ambiente. Durante toda a reunião, Elif demonstrou domínio do espaço, sempre interrompendo Valéria de forma sutil — um comentário aqui, uma ironia ali, sempre acompanhada de um sorriso ensaiado. Arkan manteve a postura neutra, mas Valéria percebeu o leve tensionar de sua mandíbula. Ao final, quando todos se levantaram, Elif se aproximou de Arkan. — Querido, — disse ela, em turco, num tom íntimo demais para o contexto — precisamos conversar sobre o evento de gala de amanhã. Valéria não entendeu as palavras, mas entendeu o gesto. O modo como Elif se inclinou levemente, como se o espaço entre eles ainda lhe pertencesse. Arkan apenas respondeu, seco: — Depois, Elif. Estou ocupado. Mas o veneno já havia sido lançado. Mais tarde, Valéria estava no café do prédio, revisando documentos, quando ouviu passos se aproximando. Era Arkan. — Preciso pedir desculpas — disse ele, parando diante dela. — A reunião foi... desagradável. Ela levantou o olhar, contendo um sorriso irônico. — Parece que sua equipe é... bastante competitiva. Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos. — Elif não deveria estar ali. Ela não faz mais parte da diretoria executiva, mas insiste em participar das decisões de relações públicas. — Ex-noiva, certo? — disse Valéria, sem rodeios. Arkan a encarou, surpreso com a franqueza. — Imagino que tenha lido sobre isso. — Li — respondeu ela, cruzando os braços. — E também percebi que ela ainda não superou. Ele desviou o olhar por um instante. — Elif é... complicada. O relacionamento terminou há anos, mas ela não aceita. E, francamente, minha família nunca facilitou as coisas. Valéria inclinou a cabeça. — Seu pai ainda apoia essa união? — Apoia. — O tom dele era amargo. — Ele acredita que alianças empresariais devem ser seladas por conveniência, não por emoção. Houve um silêncio breve entre os dois, cheio de subentendidos. Valéria sabia o que era viver sob expectativas — o peso de ser sempre perfeita, sempre racional. Mas também sabia o que era se perder tentando atender às exigências dos outros. — E o que você acredita, Arkan? — perguntou, por fim. Ele a olhou diretamente, e por um instante, a intensidade daquele olhar pareceu aquecer o ar ao redor. — Acredito que emoção é a única coisa que ainda me faz sentir humano. — E depois de uma pausa, acrescentou, num tom mais baixo: — E ultimamente, sinto mais do que deveria. Valéria sentiu o coração vacilar. O ar entre eles pareceu vibrar. Mas, antes que pudesse responder, a voz de Elif cortou o momento: — Arkan, precisamos conversar. Ele se afastou com um suspiro contido, olhando para Valéria uma última vez antes de seguir a ex-noiva pelo corredor. O escritório de Arkan era amplo e silencioso, com janelas que revelavam o mar ao longe. Elif entrou e fechou a porta atrás de si, o salto ecoando no piso de mármore. — Você está brincando com fogo — disse ela, aproximando-se. — Essa mulher não é como as outras, Arkan. Ela pode arruinar tudo. — O que está insinuando? — perguntou ele, frio. — Que ela está aqui para conseguir algo. Talvez o contrato, talvez você. Mas vai destruir sua reputação, e eu não vou permitir. Arkan se levantou, imponente. — Cuidado, Elif. Está passando dos limites. Ela riu, com ironia. — Ah, querido... você realmente acha que pode amar alguém como ela? Uma estrangeira? Uma funcionária que depende da aprovação de um conselho? Seu pai nunca aceitará. — Meu pai não dita mais a minha vida. — Não? — Ela se aproximou, o olhar ardente. — Então por que ainda vive tentando provar algo a ele? O silêncio dele foi resposta suficiente. Elif tocou o braço dele, suavemente. — Você não precisa se enganar. Ela vai embora quando o contrato acabar. E você... ficará aqui, sozinho, como sempre. Ele se afastou bruscamente. — Saia da minha sala, Elif. Ela hesitou, mas saiu. Quando a porta se fechou, Arkan respirou fundo, tentando recuperar o controle. Mas no fundo, sabia que ela tinha tocado num ponto sensível. Porque, por mais que tentasse negar, parte de si ainda temia perder o que nunca teve coragem de assumir: um amor que o tornava vulnerável. À noite, Valéria caminhava pelas ruas próximas ao hotel. O vento frio agitava seus cabelos, e as luzes refletiam nas vitrines das lojas. Tentava esquecer o olhar de Arkan, a presença de Elif, o caos que começava a se formar em torno de algo que nem sequer existia oficialmente. Parou em frente a uma floricultura ainda aberta. Rosas vermelhas decoravam a vitrine. Por impulso, entrou e comprou uma única rosa. Não sabia exatamente por quê. Talvez porque lembrava dele. Talvez porque, no fundo, queria acreditar que ainda era capaz de sentir algo bonito. Ao voltar ao hotel, encontrou um envelope sob sua porta. Dentro, um cartão. “Para lembrar que o que é verdadeiro resiste ao tempo. — A.D.” E junto ao cartão, uma rosa idêntica à que ela acabara de comprar. Valéria ficou parada, o coração disparado. O destino, ou algo maior, estava jogando com ela — e ela não sabia se queria vencer ou se deixar perder. Na manhã seguinte, os jornais turcos estampavam uma manchete: “CEO ARKAN DEMIR É VISTO JANTANDO COM EXECUTIVA BRASILEIRA EM ENCONTRO ROMÂNTICO.” A foto era nítida: os dois na varanda do Bosporus Palace, sob o pôr do sol. O título insinuava mais do que mostrava. Valéria sentiu o chão sumir. O telefone tocou. Era a diretoria da GlobalTrade. Explicações, repreensões, alertas sobre reputação. Poucos minutos depois, Arkan apareceu no hotel, o rosto sério. — Eu já vi as manchetes. — Isso pode destruir minha carreira, Arkan! — disse ela, nervosa. — Eles vão achar que dormi com o cliente para conseguir o contrato. — Eu vou resolver isso. — A voz dele era firme. — Alguém vazou essa informação. E eu sei quem foi. — Elif? — sussurrou Valéria. Ele não respondeu — e o silêncio dele foi confirmação suficiente. Enquanto ele partia para confrontar a ex-noiva, Valéria ficou olhando a cidade pela janela, sentindo o peso do que começava a acontecer. Não era apenas um jogo de negócios. Era algo muito mais perigoso. E, apesar de tudo, ela sabia — já era tarde demais para voltar atrás. Porque, mesmo em meio ao escândalo, à raiva e ao medo, seu coração batia um nome: Arkan. E ele, pela primeira vez na vida, estava disposto a enfrentar o mundo inteiro por uma mulher.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR