A primeira coisa que Laura sentiu foi o cheiro.
Um perfume amadeirado misturado com ervas. Um cheiro forte, diferente do mofo do orfanato ou beco onde ela tinha desmaiado. Ela estava deitada algo macio, aconchegante.
Ela abriu os olhos devagar, piscando algumas vezes para ajustar a visão. O teto era branco, o ventilador girava lento no alto. Além do perfume, sentiu um cheiro de limpeza - algo que lembrava flores, talvez. Assim que a sua visão normalizou, ela tentou se levantar, porém sentiu muita tontura e Coringa correu para ajudá-la.
— Calma — disse uma voz masculina, rouca, grave, próxima.
Ela virou o rosto devagar e viu o homem de pé, ao lado do sofá, segurava nas suas costas e no seu braço. Por um breve segundo, achou que fosse o rapaz que viu aparecer no beco, antes de desmaiar. Ele parecia menos assustador naquele momento, mas ainda carregava algo perigoso no olhar.
Tinha barba rala, pele bronzeada e um corpo forte coberto por tatuagens. A mais visível era a palavra HAHA no pescoço, como se zombasse do mundo inteiro. Estava recobrando as memórias e então perguntou:
— Onde eu tô? — a voz de Laura saiu baixa, quase um sussurro.
— Tá segura — ele respondeu, sem se mover. — Aqui é minha casa. Te encontrei no beco, agora a noite, tentavam atacar você. Tu apagou e te trouxe pra a minha casa.
Ela levou a mão à testa, tentando lembrar. Foi então se sentiu a dor no rosto, na mandíbula e soltou um gemido de dor. Olhou ao redor e a casa parecida de novela. A sala era grande, toda branca com poucos detalhes cinzas. Uma TV enorme na parede, uma mesinha de vidro no centro. O tapete era cinza no chão, passava a impressão de fofinho.
— Por que… você me trouxe pra cá?
Ele deu de ombros, desviando o olhar.
— Porque se eu não trouxesse, tu não acordava mais. Mesmo que eu mande na favela, muita gente r**m circula à noite.
Laura ficou em silêncio por um instante. Sentiu o estômago revirar de fome e ansiedade.
— Obrigada.
Ele assentiu, sem sorrir.
— Tem comida na cozinha. Quando quiser levantar, eu te mostro.
Ela observou-o com mais atenção. Era bonito, mas não de um jeito comum. Havia algo no rosto dele — talvez no corte rente do cabelo, no jeito como os músculos se moviam mesmo quando estava quieto, ou no olhar que parecia carregar segredos demais.
— Qual seu nome? — ela perguntou.
Ele hesitou. E então disse com firmeza:
— Vinicius. Mas ninguém aqui me chama assim. — Ele apontou para a própria tatuagem — Me chamam de Coringa.
Laura arqueou uma sobrancelha, surpresa. Ela não entendia dos vulgos e nem tinha muitas referências.
— Coringa? Por quê?
Ele deu um sorriso torto, quase cínico.
— Porque eu rio enquanto o mundo pega fogo.
Ela não soube o que responder. Estava confusa, cansada, com medo e, ao mesmo tempo… estranhamente segura.
— Eu sou Laura — disse, baixinho. — Fiz dezoito anos semana passada. Tive que sair do orfanato. Não tenho para onde ir.
Ele a encarou por um tempo. O olhar dele se suavizou um pouco.
— Aqui ninguém entra à-toa. Mas… você não é ameaça.
Laura engoliu seco. Era difícil entender o que estava acontecendo. Só sabia que, nessa primeira noite, não iria passar na rua sozinha.
— Eu não vou te causar problema — ela disse, sincera. — Eu só… preciso de um tempo. Só preciso de um lugar para ficar.
Vinicius assentiu.
— Fica aqui por enquanto. Se quiser ir embora depois, ninguém te segura.
Ela encarou os olhos dele por mais um instante. Havia algo nos dois — uma dor silenciosa, uma solidão escondida — que parecia reconhecer uma à outra. Talvez, naquele momento, sem saber, duas vidas partidas tinham começado a se juntar.
Ele ajudou a Laura se levantar, segurando na cintura dela - estava com medo que ela desmaiasse e a guia para a cozinha.
— Quer comer o que? Tem pão, frios.. Podemos fazer um lanche na chapa. - Coringa tinha uma voz rouca.
— Pode ser. Eu aceito. - Laura falava baixo, enquanto observava a cozinha.
O espaço era grande, todos os armários feitos sob medida e com detalhes prata. Tinha uma mesa grande de pedra no meio, com 8 cadeiras. Ao canto, tinha um bancada de pedra cinza, da mesma cor da mesa junto com 4 banquetinhas. A cozinha era toda branca, limpa, com cheiro de lar.
Ele foi pegando as coisas do armário - copos, talhares, pratos. Abriu a geladeira e meu coração parou - estava lotada de coisas. Aquelas comidas que só vemos em propagandas de supermercado. Organizou em cima da mesa e eu comecei a montar meu lanche - ele foi ligar a chapa.
— O que tu fazia por aqui? - Ele puxava assunto com ela.
— Eu preciso de um lugar para morar. Tenho pouco dinheiro. Me falaram que uma casa na favela era barata. - Laura respondia com a voz baixa, por mais se sentisse segura, ainda tinha medo daquele cara.
— Ta certo. Quando tu quiser ir, eu posso te mostrar algumas casas. - Ele falava, mas sua voz tremia de hesitação.
— Combinado. Obrigada pela ajuda. - L aura agradecia enquanto tomava um gole do refrigerante.
Os lanches ficaram prontos e eles ficaram ali sentados, comendo com calma.
Coringa não queria admitir, porém algo em Laura mexia com ele. Não igual aquela v@dia mexeu, era um jeito diferente. Em um lugar que não lembrava que existia - um lugar que talvez sua mãe, estivesse.
Laura observava ele de canto de olho, ficava com receio de olhar nos olhos diretos. Apesar de ter gostado dele, j[a tinha visto notícias na televisão, de como as coisas funcionavam na favela. Era perigoso. Ela não queria arriscar. Não agora.
— Uau, eu precisava disso. - Laursa disse dando risada, depois de comer três lanchinhos feitos.
— Que dragão.. ta maluco. - Coringa brincou e Laura olhou sério para ele, virando a cabeça.
— Que encantador... - Laura resmungou mostrando a lingua para ele.
Coringa colocou tudo na pia e chamouLaura para mostrar o quarto onde ela poderia dormir.
— Pode ficar nesse quarto, ninguém nunca dormiu aqui. Meu quarto é aquele no final. - Coringa explicava para ele e as vezes, ela se distraia com a voz dele.
Coringa saiu e foi até o seu quarto, assim que voltou entregou uma camiseta, uma cueca e uma tolha.
— Pra você dormir, é tudo novo. Tem escova no gaveta do banheiro e você pode ligar a TV, fecho? - Coringa finalizou e assim que Laura concordou, ele saiu fechando a porta.
O quarto era enorme - como tudo na casa. A cama era king size, com edredom preto. Tinha um cabeceira do lado da cama com um abajur. Ao lado, um guarda-roupa que ocupava mais da metade da parede facil. E a janela, tinha uma vista maravilhosa da cidade. Era possível ver o morro, as luzes, a pista la na barreira - mesmo de longe. A lua era perfeita, grande, brilhante.
Laura se sentiu em casa por uma fração de segundos. O banheiro tinha um chuveiro grande, box de vidro e o cheiro de limpeza exalava. Ela ligou a água quente e entrou de baixo, toda a dor do corpo, o medo, foi embora e ela se sentiu protegida. Escovou os dentes e vestiu a roupa que ele entregou - ficou igual um vestido nela.
Assim que deitou, ficou olhando a lua e seu pensamento foi para Coringa. Sentiu que ele tinha uma dor no peito, assim como ela. Mas não iria ultrapassar os limites. Pegou no sono, pensando na voz dele. No toque dele.