Esse é o ciclo da vida

1643 Palavras
E meu estoque se encontra nulo. - Pai? – Digo mais alto. Respiro fundo de novo. Cada um reage de um jeito. Cada um reage de um jeito. Pego o telefone e ligo para tia Nádia. - Ceci? - Tia – minha voz sai rouca, é claro que sim, acabei de berrar pro hospital inteiro ouvir. - Estou indo. Me sento ao lado do meu pai e espero. Tia Nádia sempre me entendeu só pelo tom de voz ou pelo olhar. Ela sempre sabe o que dizer e como dizer, as vezes tenho a impressão de que ela enxerga a minha alma. E é por isso que eu a amo tão incondicionalmente. Meu celular toca. Skatista chato – é o que está escrito no visor. Olho novamente para o meu pai. Parece tão errado eu ter um amor quando meu pai acabou de perder o dele. Penso em não atender, mas sei que preciso, levanto e dou uns passos para longe do meu pai. - Matteo? - Oi linda, tudo certo? Por que você está demorando aí? A pizza chegou. Ouvir a voz dele faz minha garganta dar um nó e penso que não vou conseguir falar. E acho melhor as crianças terem uma boa refeição antes de contar para eles. - Oi amor, tudo bem. Come com eles, estou indo pra casa. - Cecília? – Percebo o estranhamento em sua voz. Sei que cometi um erro quando o chamei de amor. Mas não estou nem aí, logo, logo vou jogar uma bomba naquela casa. - Come com eles, daqui a pouco estou aí. Tchau! E desligo. Tia Nádia está vindo em minha direção com os braços abertos. Espero as lágrimas virem, mas elas não vêm. Corro em sua direção e a abraço, sinto seu corpo magro tremer e ela soluça, sei que ela já percebeu o que aconteceu. - Tudo bem meu amor? Tio Rodrigo já está me puxando para os braços dele, quero chorar, quero gritar, mas nada sai de dentro de mim. Simplesmente não consigo chorar. Me afasto e vejo que eles estão chorando, o semblante dos dois é de extrema preocupação. Tia Nádia está afastando o cabelo do meu rosto. - Vai ficar tudo bem, querida, a tia está aqui. - Cadê os meninos? O Matteo está com você? E seu pai? – Pergunta tio Rodrigo. - O pessoal já está vindo pra cá – Tia Nádia me informa. - Os meninos estão em casa com o Matteo, meu pai está logo ali, virando o corredor. Vamos para lá, novamente meu pai m*l olha para nós. De repente me sinto bem em não ter trazido os meninos. Eles não entenderiam nada dessa situação. Nem eu entendo por que meu pai se recusa a falar. Pensar neles me causa um desconforto, parece errado eu estar longe deles agora. E quero ficar ao lado deles. Toda hora. Pra sempre. - Preciso ir pra casa – digo. - Tudo bem, nós ajudamos o seu pai resolver tudo. Faço que sim. - Você consegue dirigir? – Pergunta Tio Rodrigo. Olho para o meu pai novamente. Tudo que eu queria é que ele olhasse para mim e dissesse que tudo ficaria bem. Mas ele não olhou e nem vai olhar. Nem agora, nem depois. Digo que sim e murmuro um “obrigada”. Dou as costas a eles e quando viro o corredor, paro, pois escuto Tio Rodrigo dizer: - Isso é demais pra ele Ná. - Eu sei – ela responde. Paro onde estou e olho para os dois. Tia Nádia está agarrada ao marido chorando silenciosamente. Mas seu corpo tem espasmos tão fortes que me assusto. Por que parece que a amiga da minha mãe está sofrendo mais do que eu? Vou rapidamente para o carro e dirijo pra casa. Assim que estaciono o carro, Matteo vem em minha direção e me abraça com força. Me agarro a ele e deixo seu abraço me envolver, tento deixar as emoções virem à tona, mas nada acontece, parece que não sinto nada. Quando me afasto vejo que seus olhos estão vermelhos e sei que ele está segurando as lágrimas. - Cadê os meninos? Eles comeram? - Sim, estão lá na sala, te esperando. - Enche a jacuzzi pra mim? – Ele me olha com estranhamento, mas faz que sim e se afasta, indo em direção dos fundos. Entro em casa. Assim que olho em direção aos meus irmãos, parece que o mundo cai em cima de mim. A cena é de cortar o coração. Os dois estão na sala vendo qualquer idiotice na televisão, sorrindo, afinal, eles pensam que a mãe vai melhorar a qualquer momento. Estão com a boca roxa de açaí. A cena é tão perfeita, que deveria ficar assim, intocada para sempre. Se desse para colocar uma moldura, e enquadrar, é o que eu faria. Quem sabe quando vou ver esses sorrisos de novo? Penso em minha mãe e no que ela está perdendo. E isso me destrói por um momento. Na verdade, foi uma questão de segundos, porque do fundo do meu coração, acredito que estrelas devam enxergar lá do céu, e isso me acalenta. Se alguém puder ser uma estrela, esse alguém é Louisa Ferri. Mas esse momento também acaba. Porque meus olhos se encontram com os de Noah, e como sempre, não é preciso palavras entre nós. Seus lindos olhos se enchem de lágrimas. Henry me vê na porta e diz: - O que aconteceu? Olha pro Noah. - Noah o que foi? Noah se levanta e corre em minha direção, quase me derruba quando seu corpo colide com o meu... - Ceci p***a! O que aconteceu? – Henry grita. Como ele consegue ser tão boca suja? Olho para ele e digo: - Por favor, não me faça dizer as palavras. Seus olhos se enchem de lágrimas. - A mamãe morreu? Faço que sim, e ele também corre para mim, e dessa vez é embalado por mim e pelo Noah, nós três nos abraçamos e choramos juntos. - E agora Ceci? O que nós vamos fazer? – Diz Noah. - Vai ficar tudo bem amor. - Você tem certeza de que ela morreu? – Ele pergunta. E por um momento penso em dizer que não. Mas meu coração foi dilacerado, e esse buraco criou uma espécie de vazio, que só posso associar com a morte da minha mãe. Eu sei que ela morreu. - Queria poder dizer que não. Mas sim. Isso só faz com que chore mais. - Ceci? - Matteo chama – fiz o que você pediu. - Já esquentou? Ele assente. Olho pros meninos. - Vamos para a jacuzzi? Noah se afasta e me olha com as sobrancelhas franzidas. - Que p***a de jacuzzi Cecilia, você ta loca? - Não fala assim com a sua irmã cara – Matteo me defende. Levanto a mão para ele em um sinal de: deixa comigo. - Água quente acalma os nervos. Eu estou indo. Dou as costas a ele e vou para a jacuzzi. Henry vem silenciosamente atras de mim. Noah murmura um: - Psicopata. A mãe dela morre e ela vai pra jacuzzi. Paro onde estou e pego o que vejo pela frente. É uma frigideira. Arremesso nele e saio porta a fora. Ele está gritando alguma coisa, mas não me importo. Vou até o banheiro e coloco um maiô qualquer que deixo aqui embaixo, entro na jacuzzi de e afundo até cobrir meus ombros. Quando meu corpo para de ter calafrios, vou pro meio e afundo até o rosto, e grito. Sozinha é quando as emoções vêm. E eu as aceito de braços abertos. Choro, e grito, e choro, ar. Afundo, grito, choro, choro, choro. Ar. Alguém entra. É Henry. Ele também está chorando. Ele vem pro meu lado e me abraça. Logo Noah aparece de sunga e entra também. Se afundando. - Você me acertou – diz. - Não to nem aí – digo, minha voz sai quase inaudível. E minha garganta dói. Logo Matteo aparece, mas não quero ele aqui. Eu não quero que ele me veja assim. - Sua mãe está te esperando no hospital – forço a voz e minha garganta queima. Ele olha do celular para mim e faz que sim. - Fiquem bem, volto a noite. E sai. Não estou nem aí se ele tiver acabado de falar com a mãe dele, eu quero ficar com meus irmãos. Só com eles. - Tenho que admitir, essa ideia me pareceu i****a na hora, mas me sinto melhor – diz Noah. - Não me sinto melhor, me sinto péssima – sussurro. Meu corpo está mole e cansado, quem sabe, talvez, eu consiga ter um boa noite de sono. Seus olhos se enchem novamente de água. O nervosismo bate só de pensar em vê-lo desmoronar de novo, então digo: - Você faria um cházinho mim? – um indício de careta surge em suas feições – para minha garganta? Apelar funciona com ele. Sempre. Ninguém mandou ele ser o sentimentalista. - Claro – diz. - Vamos subir pra tomar banho então, encontro vocês daqui a pouco aqui embaixo. - Ceci? – Diz Henry. - Oi amor? - Não quero dormir sozinho hoje. - Tudo bem... - Nem eu – Diz Noah. - Vou fazer um cantinho na sala pra gente, aí dormimos juntos. Subimos para tomar banho, me lavo rapidamente e desço com o diário, nenhum deles apareceu ainda e estou me mantendo longe do celular. Ler as palavras da minha mãe vão me distrair, e é disso que eu preciso no momento. E estar com seu diário me causa uma estranha sensação de que ela não se foi, que a qualquer momento vai chegar do trabalho e vamos juntas para a cozinha fofocar e tomar vinho. Sim, isso com certeza vai deixar saudades. As pequenas lembranças são as mais perigosas. Meros detalhes.
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