Abro o diário.
“Depois desse dia, não existia mais Louisa sem Heitor, ou Heitor sem Louisa, nos tornamos inseparáveis, primeiro como melhores amigos, contávamos tudo um para o outro, dividíamos sonhos, incertezas e alegrias. Eu sempre fui apegada a detalhes, estão ele passava a maior parte do tempo ouvindo.
E parecia gostar.
Isso fazia meu sangue ferver e urrar por ele.
Inevitavelmente nos tornamos namorados. Ele me buscava todos os dias para irmos juntos à faculdade, a proximidade com ele me deu mais quatro amigos. Arthur, Rodrigo, Diego e André.
E com as minhas amigas, nos tornamos um grupo grande, volumoso e barulhento.
Heitor começou a sorrir mais, a falar mais. Nós passamos a conversar o tempo todo. Quando não estávamos juntos, estávamos mandando mensagens e ele me ligava todos os dias antes de dormir.
Parou de fazer tudo aquilo que é considerado errado pela sociedade. Beber, fumar, festejar até cair... Obviamente festejamos juntos. Muito ainda. Mas de forma saudável.
Nada contra quem segue esse estilo de vida :)”
Mal posso imaginar meu pai fumando, bebendo ou festejando.
Mas se está escrito. Deve ser verdade.
“Eu mudei ele, mas ele também me mudou, eu era muito caseira, - aquele dia no Pub foi mera coincidência, foi o destino, se não tivéssemos ido, Nádia não conheceria Rodrigo, e eu não conheceria ele.
Não gosto nem de imaginar como seria minha vida sem ele.
Enfim, comecei a ir em festas com o pessoal, e adorar. Me pegava ansiando pela próxima. Fiquei mais alto confiante, e posso dizer que perdi a timidez.”
Minha mãe tímida. Quem diria.
“Nosso relacionamento foi perfeito desde o início.
‘Você é a minha luz’, ‘eu renasci’, são frases que repetia para mim, tanto que ficaram entranhadas dentro de mim, e sinceramente, não posso imaginar um dia de minha vida sem ele.
Meus pais são ótimos, sempre foram, e o acolheram com todo o amor quando o apresentei como meu namorado.
O tratavam como filho. E outra parte do meu Heitor foi curada”
Noah desce as escadas correndo e diz:
- Vou fazer o chá! Quer pizza?
Levanto os olhos do diário
- Não to fome.
- Você não comeu nada hoje. Vai querer pizza ou açaí? – Pergunta.
- Hmmm.
- Pizza, você fudeu sua garganta gritando embaixo da água.
- Como você sabe disso?
- Você é previsível demais Cecília, vou pra cozinha.
Previsível. Tão bom saber que alguém me conhece a ponto de me achar previsível.
Volto para o diário:
“Heitor costumava dizer que ama a forma como não pensa em coisas ruins quando está comigo. Não consigo imaginar o que ele quer dizer com isso, eu nunca penso em coisas ruins.
Mas gosto de ser o bálsamo de alguém, ainda mais se esse alguém é o homem que eu amo. Percebi que o amava quando ele apareceu em minha casa com aquele buque de flores.
Escrevo esse diário em forma de história, sou uma mulher muito sonhadora, e porque – se Deus me abençoar com filhos, gostaria que eles soubessem sua origem, (sim, confio que serei Louisa Ferri daqui uns anos). Eu sou uma mulher particularmente curiosa. Torço para que sejam como eu, curiosos, inconformados.”
Interrompo minha leitura, meus olhos se enchem de lágrimas, as seco e respiro fundo.
A mamãe! A senhora tinha que deixar minha vida tão preto e branco?
Com certeza minha mãe é razão das cores em minha vida, eu sou tão ranzinza. Tão insuportável. Não sei o que vou fazer sem ela.
Nada.
Eu também não penso em coisas ruins quando estou com ela.
Será que é por isso que papai se recusa a conversar?
Se ela foi a cura dele, será também sua ruína?
Me recuso a imaginar a possibilidade de perder os dois.
Respiro novamente para acalmar meu coração e volto para a leitura, preciso terminar pelo menos essa parte.
“Terminamos a faculdade no mesmo ano, eu comecei a fazer pós-graduação, e Heitor se enfiou em uma biblioteca e passava horas estudando para concursos públicos.
Um dia, resolvemos criar uma tradição, só nossa, todo dia 13 de qualquer mês, seja o dia que for, viajaremos para uma cidade perto para conhecê-la. Sim, qualquer cidade, escolhemos no mapa e vamos até lá, almoçamos e andamos pela cidade.
Se não tiver nada para fazer lá, o que seria o caso de cidades pequenas, voltamos logo. Senão, aproveitamos o lugar.
Mas sempre damos um jeito de aproveitar o lugar da melhor forma.
É tão bom ter essa coleção de memórias, sou tão nova, e parece que já vivi tanto.”
Sim, eles realmente fazem isso. Até hoje. As vezes adaptam para dias que meu pai não tem audiência ou algo assim, mas eles fazem questão de viajar juntos todo dia 13, eu não fazia ideia de para onde iam.
“Quando estávamos visitando a cidade número nove, um ano depois, havíamos encontrado uma cachoeira, acho que Heitor pesquisou antes – o que era contra as nossas regras – mas dei um desconto. Porque em meio ao nosso piquenique, ele tirou um anel, que foi da minha finada sogra, do bolso, e me fez o pedido.
Lembro-me exatamente da euforia que senti enquanto agarrava o pescoço do meu homem e gritava: sim, sim, sim, sim, mil vezes sim!
Fizemos todos os preparativos dentro de quatro meses, Heitor usou parte de sua herança e comprou uma casa muito boa para nós. Fizemos tudo juntos, desde a escolha da casa, com quatro quartos, sempre pensamos em filhos e nunca menos de dois, mobiliamos cada um de acordo com nosso gosto e nos casamos.
Logo ele assumiu seu cargo na promotoria, eu trabalhava como estilista para uma loja de roupas muito renomada na cidade, dinheiro nunca foi problema para nós.
Mas esse não era meu sonho.
Eu queria ter meu próprio negócio.”
Fecho o diário, quero guardar um pouco para ler depois.
Ao mesmo tempo Noah entra na sala trazendo uma xícara de chá para mim.
Guardo o diário com cuidado, ele se tornou muito especial para mim.
- Obrigada bebê.
- De nada tata, cadê o Henry?
Meu coração dispara, ele subiu a muito tempo.
- HENRY! – Berro.
- Henry? – Chama Noah.
Começo a levantar até que ele aparece no começo da escada.
- O que foi?
- Você demorou, fiquei preocupada.
Ele franze as sobrancelhas.
- Por quê?
Não sei, penso.
- Desce logo.
- Tá, já to indo.
- Oh Noah, pega chá pra mim – pede com um sorrisinho malandro.
- Pega você seu folgado.
- Só estava testando, vai que da certo.
Reviro os olhos.
Esses dois não tem jeito.
Ficamos sentados juntos no sofá assistindo alguma coisa, sinceramente, estou preocupada demais com os meus irmãos pra assistir filme. Empurrei a pizza que o Noah me trouxe, minha garganta está tão doída que parece que eu estava rasgando minha garganta enquanto engolia.
O chá fez milagre, e me deu vontade de comer sopa.
A sopa que minha mãe faria se estivesse aqui, sim, ela com certeza faria.
Eu pediria “uma sopinha” em tom manhoso que sempre a faz se derreter, ela diria que já ia fazer, e depois traria uma cumbuca de sopa quente para mim e minha garganta ficaria melhor. Quase posso visualizar a cena, meu pai levantaria os olhos de alguém processo e sorriria diante da cena.
Depois puxaria minha mãe para o colo dele e diria que ela me mima demais.
Eu definitivamente sou a pessoa mais mimada desse planeta. Seguida pelos meus irmãos. Nossos pais são tipo pais perfeitos. Educam com amor?
Eu definitivamente não tenho vontade de fazer m***a, tipo nunca.
Pra que fumar? Só iria decepcionar meus pais e o cheiro nem é bom para valer o risco.
Pra que beber até cair? Odeio estar fora do controle.
E beber socialmente com minhas amigas e minha mãe é muito bom.
Essa enchorrada de pensamentos me atingem em cheio quando percebo, novamente, que coisas como essas jamais voltarão a acontecer. Será que a minha mãe morreu mesmo?
Minha intuição diz que sim. Eu sei que sim.
Mas será?
Talvez eles tenham errado, talvez...
- Você não vai atender? – disse Henry, estendendo meu celular. – É a tia Nádia.
Pego o celular da mão dele.
- Alô?
- Oi Ceci, tudo bem aí? – sua voz está trêmula, e percebo o quão absurdo meus pensamentos anteriores eram, será que estou em negação? – Você falou com os meninos? Contou pra eles?
- Sim – digo.
Meus olhos estão ardendo, mas não quero chorar perto dos meninos, vou aguentar o máximo possível, eles já estão abatidos demais.
- O Matteo está aqui.
- Uhum.
- Não se feche em momento como esse Cecília.
- Uhum, ele... Hã, vai voltar mais tarde.
- O velório será amanhã cedo, quer que eu te busque?
Minha garganta fecha.
- Não – sussurro. – Eu vou sozinha com eles, onde vai ser?
- Aqui na capela.
- Tá, obrigada por avisar tia.
- Seu pai se recusa a ir pra casa, não comeu nada e não disse uma palavra se quer desde que hã... Você sabe, o médico quem me disse, estou preocupada com ele Cecília. Talvez se o Noah...
- Não – corto.
- Por que não?
- Eu já disse que não, tchau tia, até amanhã.
E desligo.
Não vou deixar meu irmão ir lá agora, não vou submeter ele a mais uma decepção. Eu tenho certeza de que meu pai não vai falar com ele.
Eu sei que não.
Na verdade, ele não vai falar com ninguém. Sei disso por causa do que li naquele diário.
E tive certeza quando me lembrei de seus olhos vagos no hospital. Sem vida, contraste evidente com o homem ao qual estamos acostumados. Vida dançava nos olhos do meu pai. E esse não é mais o caso.
Hoje ele está digerindo a informação, todos estamos.
Hoje é definitivamente o pior dia da minha vida.
- O que a tia queria? – pergunta Noah.
- Nada amor, amanhã vamos a um lugar. Quer me ajudar a descer as coisas? Vamos fazer nosso ninho.
- E o papai?
- O papai quer ficar com a mamãe.
Seus olhinhos se enchem de lágrimas.
- Por que isso teve que acontecer com a gente?
- Eu não sei Noah – minha voz falha.
- A mamãe me disse que esse é o ciclo da vida, as pessoas nascem e morrem, como todas as coisas.
Olho embasbacada para o meu irmão mais novo.
E sinto vontade de sorrir. Ele sempre foi o mais diferente de nós.
O sorriso não vem, mas eu o abraço.
Enquanto eu tiver eles, tudo vai ficar bem.