No velório, todos sentiram a necessidade de abraçar a mim e aos meus irmãos. Por mim, estaríamos sozinhos.
Eu não quero ver mais ninguém.
Meu pai está me fazendo sentir um misto de raiva e dó.
Ele age como se só ele tivesse perdido alguém.
Deveria ser assim?
Tudo que eu queria era estar em casa agora. Lendo o diário da minha mãe. E relendo quando necessário.
Não aqui, rodeada dessas pessoas, que sinceramente. Estão me irritando.
O Matteo está me irritando, todo preocupado comigo e m*l me dando espaço para respirar.
Tia Nádia está me irritando, ela é superprotetora demais, pergunta demais, é tudo demais.
Tia Lari é a pessoa menos irritante aqui. Ela está sentada ao lado do meu pai, chorando baixinho desde que chegou.
Essa cena é de partir o coração.
Mal consigo sentir falta da minha mãe, as pessoas não me deixam sentir.
Será que ninguém percebe que as únicas pessoas que estou suportando nesse momento são meus irmãos?
Que estão agora um de cada lado meu, agarrados tão fortemente as minhas mãos que nem as sinto mais.
Será que eles estão tirando forças de mim?
Meu pai literalmente não está colaborando.
E teve um ataque quando o caixão de minha mãe foi levado. Eu nunca havia visto tanto sofrimento na vida, as pessoas foram acompanhando o caixão, minhas tias ficaram olhando a cena enquanto os amigos do meu pai o amparavam.
Eles realmente parecem irmãos, se entendem apenas pelo olhar. Legal.
Levanto para ir e Matteo pega minha mão, para me conduzir até o cemitério.
Sei que ele está sofrendo pela morte de minha mãe, ele a conhece desde bebê, ela é madrinha dele.
Solto a mão dele, eu sei que ele quer apoiar e ser apoiado.
Mas não posso fazer isso agora.
Olho para trás e meus irmãos vem em minha direção, pego a mão de cada um deles e vamos juntos, em passos lentos dar aquele último adeus.
Eu preciso desse apoio.
Ficar perto dos meninos me energiza, me sinto firme. Como se eles fossem a luz no fim do túnel.
Papai veio embora com a gente, subiu para o quarto e não saiu mais de lá, já faz três horas. Decido subir para vê-lo. Eu fiz sopa para janta, então levo um pouco para ele.
Bato na porta. Sem resposta.
Abro a porta e sou recebida por um quarto escuro.
- Pai?
Tateio em volta em busca da luz, quando a acendo, vejo que ele está dormindo abraçado com uma roupa da minha mãe.
Saio rapidamente do quarto, vou pro meu, entro no banheiro e permito que as lágrimas venham.
Acordo com o despertador. Hoje tem aula.
Meu Deus. Pulo da cama e vou pro quarto do Noah acordar ele.
Que está dormindo, que estranho, ele sempre está acordado quando eu desço.
- Noah – sussurro. – Acorda. Ei.
Ele nem se mexe.
Chacoalho ele enquanto digo seu nome.
- GAROTO, ACORDA! – e puxo sua coberta.
- Hã? – diz, desnorteado.
Ele foca o olhar em mim.
- O que que foi Cecília?
- Tem aula, vai, se arruma.
- A gente vai pra aula?
- Por que não?
- Não sei Cecília, talvez por que a gente enterrou nossa mãe ontem?
Dou de ombros, tentando ignorar a ardência em meus olhos.
- Quer um jeito melhor de dar uma arejada do que se concentrar em outras coisas?
Ele olha para mim como se eu fosse louca e balança a cabeça.
- Sete e quinze eu estou saindo. Vou passar comprar café em algum lugar.
Eu não tinha me programado para fazer café da manhã. Minha mãe sempre faz. Fazia.
Abro a porto do quarto do Henry.
- Henry? Acorda pra aula.
Ele se senta na cama e diz:
- Acende a luz do corredor? Facilita.
Acendo e vou pro quarto do meu pai.
Bato na porta e entro.
- Pai?
Ele está do mesmo jeito que ontem. Não mudou nem de posição.
- São seis e quarenta, você vai trabalhar? – ele balança a cabeça negativamente. – Eu vou deixar os meninos na aula e vou pra faculdade.
Ele faz que sim.
Meu Deus, quando ele vai melhorar?
Vou pro meu quarto me trocar, coloco uma roupa qualquer, quando desço, os meninos já estão lá embaixo.
Dentro do carro, pergunto:
- Querem comer na padaria? Da tempo de tomarmos café juntos.
- Tanto faz – Henry.
- Pode ser – Noah.
Vou dirigindo distraidamente até que Noah diz:
- Mamãe faz falta até nas pequenas coisas, ela sempre acordava a gente, e quando descíamos, o café estava pronto.
Está aí a resposta de porque ele estava dormindo.
Escuto ele fungar.
Pego sua mão.
- Ela era demais – digo.
- A melhor mãe – acrescenta Henry.
Paro na padaria e nós descemos.
Noah e Henry pedem o querem e eu fico com um café, não tenho fome de manhã.
Hoje eles estão bem melhores, ontem o baque foi muito grande. Chegar e ver nossa mãe imóvel dentro de um caixão é demais, mesmo assim, estava linda, como sempre foi. Mesmo com os hematomas.
Ouvi dizer que o homem que atropelou minha mãe estava bêbado e foi preso no local. Ainda não consegui processar o que sinto em relação a ele.
Era de se esperar que ficássemos em casa igual meu pai, tenho certeza de que faz parte do luto. Mas não posso assistir a vida passar e não fazer nada, alguém tem que ajudar os meninos a voltarem a vida normal.
Quando eles terminam de comer eu me levanto e pago a conta no caixa, em seguida vamos pro carro.
Paro na frente da escola e digo:
- Prontos?
- Uhum – diz Noah. – Você vai buscar a gente?
Droga, eu não sei nem que horas eles saem, nunca vim buscar eles antes. Quem será que fazia isso?
- Sim, que horas vocês saem?
- Meio-dia – diz Henry, pulando do carro.
Ele bate a porta e vai entrando na escola.
- Sem tchau? – resmungo.
- Ele é assim mesmo tata, boa aula, beijo.
E sai andando.
Minha faculdade fica aqui perto, então vou bem devagar até lá. Estou no segundo ano de direito, pois é, segui os passos de meu pai.
Deixo meu carro no estacionamento e subo direto de elevador até o segundo andar e vou pra minha sala. Meus melhores amigos – que eu ignorei todos esses dias, correm em minha direção e me abraçam ao mesmo tempo.
- Nós estávamos preocupados! – Diz Ayumi.
Quando eu conheci ela, meu primeiro pensamento foi: ela é a japonesa mais linda do planeta. Ok, eu odeio ela.
Mas depois conheci o Nicolas – e tivemos uma ligação instantânea, nós temos as mesmas ideias, sempre. Que, obviamente, é apaixonado pela Ayumi desde sempre. Ele havia se aproximado dela para conquistá-la, não para virarem amigos. Então ela vivia por perto.
Uma coisa levou a outra, porque eu e ele somos grudados desde o primeiro ano. Ela é a pessoa mais empática do mundo inteiro, então duvido que não saiba as intenções dele, mas esse é um assunto que conversamos separadamente. E eu, por incrível que pareça, não faço leva e traz. Embora torça muito pelo casal.
- Você poderia ter atendido essa m***a de telefone – ok, Nicolas está m*l-humorado.
Mais uma prova que somos feitos das mesmas coisas.
Dou de ombros.
- Eu não estava a fim de falar com ninguém.
- Eu liguei pro Matteo – admite Ayumi. – Ele disse que era melhor dar espaço.
Garoto esperto, podia ter feito o mesmo.
- É exatamente disso que preciso. Espaço.
Digo e vou pro meu lugar habitual. Mas tem uma bolsa em cima da minha mesa. Não tem lugares marcados, mas esse lugar é meu. Ponto.
Ninguém se senta no meu lugar.
Pego a bolsa e coloco uma carteira a frente e me sento.
Nicolas se senta ao meu lado na fileira da direita e Ayumi na frente dele.
Começo a ler as mensagens que eu recebi deles e dou risada das do Nic.
“Você quer me irritar?”
“Você quer né? Ah se quer”
“Você não conseguiu perceber que te liguei 15 vezes p***a?”
“Cecília Ferri, sua patricinha esnobe. Atende essa m***a. Agora!”
“Ok, não atenda, e faça o favor de não olhar mais na minha cara”
Mostro celular pra ele:
- Dramático.
Ele me mostra do dedo do meio.
Passo para as da Ayumi.
“Oi amiga, como você está? Vamos fazer alguma coisa hoje?”
Essa foi na quinta.
“Ei, aconteceu alguma coisa? Fala comigoooo”
“Oi, fiquei sabendo da sua mãe, qualquer coisa, me liga”
Meus olhos começam a querer queimar quando uma sombra recai sobre mim e a dona da mochila me encara.
- Eu estava sentada aí.
- Estava? – olho para a cadeira em que estou sentada. – Acho que não. Eu teria percebido.
- É sério, eu estava aí.
- Eu também estou falando sério. Eu estou aqui.
- Não sabia que os lugares eram marcados – diz com deboche.
Dou um sorrisinho cínico para ela.
- Agora sabe.
Ela bufa e vai pro outro lado da sala. A sigo com o olhar até ela se sentar num lugar idêntico ao meu. Do outro lado.
Ela me olha com raiva e eu dou mais um sorrisinho.
- Você não tem jeito – diz Ayumi.
Ela não gosta muito dessas coisas. Já eu, estou feliz em ter sentido euforia. É sério, essa cacofonia de sentimentos ruins não é para mim. Ainda mais quando estou reprimindo todos.
- Minha garota – Diz Nicolas.
- A vida ela...
Ayumi me ignora e se vira e diz:
- Você só gosta de ver o circo pegando fogo.
- Você não? – retruca ele.
Ela franze a sobrancelha e parece pensar por um momento.
- Na verdade não.
- Ah vocês dois!
O professor de direito penal entra na sala e começa a tagarelar.
Estou feliz em sair daquela casa. Respirar ar puro.
Tudo em casa lembra a mamãe.
Aqui as pessoas me olham com dó, mas eu sei que logo vai passar, meus amigos são ótimos e os outros também. No intervalo vou encontrar com Matteo e tudo vai parecer normal por um tempo.
É disso que eu preciso. Colocar as ideias no lugar.
Pensar nos últimos acontecimentos, na nossa adaptação, em como ajudar o meu pai...
Chega disso.
Me concentro na aula.