CAPÍTULO 2

3014 Palavras
— Eu pretendo passar um tempo com a minha mãe, mas... — saquei o celular do bolso do meu jeans. — Me passe seu telefone, eu te ligo. — Caprichei na dicção quando vi pelos cantos dos meus olhos que Athos se aproximava. — Esther, você pode vir até a cozinha? — Parou ao meu lado. Por mais que tentasse transparecer desinteresse através da voz fria, eu sabia que por dentro, ele ardia de ciúme. — Claro. — Ousei ser sarcasticamente simpática — assim que eu terminar de tomar estes pedidos. — Mordi o lábio inferior. Queria parecer inocente... mas nem tanto. Gabriel engoliu seco, me olhando como se eu fosse uma barra de chocolate. Ah não, cara. Tenha a decência de disfarçar sua excitação! — Eu quero que você venha, AGORA... — o irritado athos segurou firme em meu cotovelo ao falar entre os dentes. O olhei repreendendo seu ato e ele recuou imediatamente. — Por favor! — Fingiu educação. — Mas, o que foi? — Revirei os olhos, ele estreitou os dele. — Qual a urgência? — Corta essa. Não se faça de inocente, porque isso você não é, há um bom tempo! — As rosquinhas estão pegando fogo! — Usou minha desculpa esfarrapada contra mim. — O quê? Mas é claro que não estão! — Por favor, Athos. Você pode fazer melhor! — Mas vão estar, se você não vier em um segundo. — Você sabe que ele pode atear fogo neste lugar, em Gabriel e em você se o tirar do sério! Não pague para ver! Mas não o deixaria saber que me intimidava. Me aproximei e lancei um sorriso de lado. Pedi licença aos rapazes e sai com a certeza de que eles sequer prestaram atenção no que estava acontecendo nas fuças deles, as tenho certeza de que estão olhando para o meu traseiro. — Isso foi ridículo da sua parte! — Grunhi, contrariada. — Acabei de aprender com uma amiga... — O que você quer? — Perguntei de pronto, cortando seus joguinhos. — Quero que você vá ajudar Lupe com a reposição. O movimento caiu então eu assumo o atendimento! — Ele acabou de me dar uma ordem? — Mas eu... nem terminei de atender aquela mesa... — Eu termino pra você! — Calmamente ele se prontificou, como se estivesse indiferente ao fato de ter acabado de presenciar um flerte entre Gabriel e eu. Athos e calma são mais antagônicos que água e óleo. — Mas... — Isso é uma ordem, não um pedido. Vá para o balcão! — Sim, ele está me dando uma ordem! — Athos, isso é infantil! — Protestei. — Cada um usa as armas que tem! Pode me chamar de criança se quiser... mas aqui, eu sou o sr. Criança Grande. — Arqueou uma de suas delineadas sobrancelhas. — Já entendi! — Fiz uma careta e lhe entrego a bandeja e o tablet usado para retirar os pedidos. Ele estava querendo me dizer que ele tinha o poder. Vá a m***a com seu poder! Não sou sua empregada. Não aqui! — Boa menina! — Ele quase sorriu quando mostrei o dedo do meio, antes de lhe dar as costas. Athos caminhou até a mesa de Gabriel e eu fiquei de prontidão esperando pelo barraco. Precisava estar por perto para tirar o pobre Gabriel daquelas mãos. Pela primeira vez meu colega de trabalho reconheceu nosso "patrão". Ele então se levantou um tanto confuso e estendeu a mão para Athos. De onde estava, consegui ver a firmeza do toque do sr. Irritadinho. Gabriel por sua vez, esfregou as mãos pelas calças como se as estive secando, visivelmente nervoso. E eu o entendia completamente, Athos não tinha a melhor fama naquele lugar. Só esperava que Gabriel ignorasse o fato de que Athos e eu um dia tivemos um relacionamento. Seria constrangedor demais! Ao contrário do que pensei, o Dono do Mundo aparentemente estava sendo amistoso e deu até um tapinha no ombro de Gabriel, o tranquilizando. Entendi que estava explicando o motivo pelo qual estava aqui, mais precisamente atendendo mesas! Ufa! Athos agindo como adulto! Cheguei a sentir orgulho dele, mesmo sabendo que sua atitude era apenas para me contrariar. O deus Grego faz as anotações no tablet e instantaneamente o pedido apareceu na tela do monitor. Eu corri para preparar o que Gabriel e seu amigo acabaram de pedir. Quando Athos chegou ao balcão, os lanches naturais e dois chás gelados já estavam pontinhos. Você está no meu território, baby. E eu sou muito boa no que faço! Ele apenas me olhou enquanto retirava a bandeja, voltando para a mesa sem dizer nada. Nenhuma provocação. Nenhuma piadinha ou xingamento. Nada. Os rapazes agradeceram e Athos retornou satisfeito, girando a bandeja no ar com um grande sorriso na sua cara de descarado. — Mais alguns clientes satisfeitos. Somos uma bela dupla, Flor! — Passou por mim, atrás do balcão — em todos os sentidos! — Sussurrou em meu ouvido. — Mas nossa melhor parceria sempre foi na cama! — Deslizou os dedos da minha nuca até minhas costas, fazendo um rastro sensual. Meu corpo traidor correspondeu fazendo cada pelo erigir e eu agradeci a Deus por estar de sutiã. — Imagino como deve estar por dentro dessa sua calça jeans... — sua voz ativou meus sentidos, meu corpo estava esquentando e senti minhas veias dilatarem. — É por isso que não dou a mínima para o seu joguinho, usando aquele bostinha para me atingir. Porque é por mim que você fica toda molhada e com os m*****s mais duros que pedra. — Um risinho vencedor escapou de seus malditos lábios. — Conheço seu corpo, não preciso toca-lo para saber o que ele deseja. — Sua voz era sensual demais para o meu controle físico. Salivei sem conseguir me mexer. Fazia muito tempo que não tínhamos esse tipo de contato. d***a de corpo delator, eu sei que sentimos falta deste homem, mas não precisamos deixar isto claro para ele! — A propósito: ele está demitido! — Como passe de mágica, toda a sedução que ascendia entre nós, se dissipou num piscar de olhos, sua voz agora era áspera e vaidosa. Antes que eu me virasse para lhe dizer umas boas grosserias ele já havia sumido cozinha a dentro. — Você não pode fazer isto! — O segui. — Não só posso, como já fiz! — Respondeu com naturalidade. — Já fez? — Parei no meio do caminho, sem entender. — Bem, se ele for tão esperto quanto é paquerador irá entender o que eu quis dizer quando lhe instrui a comparecer no departamento pessoal na primeira hora da segunda feira! Sentou-se sobre a mesa, dando os ombros indiferente. Aproveitou para roubar um pedaço de torta de limão da bandeja ao seu lado, enquanto se deliciava com minha ira. — Mmmm... você já provou isso? — Falou com a boca cheia — Deus do céu. Isso é orgástico! — Fechou os olhos e fez cara de prazer. Metaforicamente entendo direitinho o sabor que ele está sentindo! — Saia já dessa mesa. — Dona Margarida, que acabou de entrar, o expulsou com um pano de prato. — Isso não é a mesa da sua casa, onde já se viu? — Ela esbravejou e ele se encolheu, depois pulou feito um gato assustado. — E pare de comer tudo que vê pela frente... assim não há confeito que chegue! — A amiga de mamãe estava mesmo brava, mas como todas, foi facilmente engambelada pelo Dom Juan de araque que a abraçou pela cintura farta e a encheu de beijos. Ambos ignoravam minha inútil presença. — Preciso saber o que meus clientes estão consumindo, linda Margarida. Entenda isto como um teste de qualidade. Ele faz questão de continuar a me ignorar. Bufei e sai pisando duro! Não acredito que ele fez isso. Não acredito! Precisava falar com Gabriel, tentar encontrar uma maneira de reverter ou minimizar o que Athos acabará de fazer. Ele iria me odiar e com toda razão. Entrei no salão e não o encontrei. Passei os olhos rapidamente pelo lugar, mas havia apenas três mesas ocupadas. — Dona Lupe — Fui até o caixa — a senhora sabe dos dois rapazes que estavam naquela mesa? — Apontei onde Gabriel estava sentado. — Acabaram de sair, minha filha! — Respondeu enquanto contava um maço de dinheiro. Baixei os olhos. Por minha causa, um cara legal e gente boa acabava de perder o emprego e a oportunidade de estagiar no melhor escritório de advocacia do País. Só Deus sabe o estrago que isso ria causar em sua futura carreira. O mínimo que Athos devia fazer era lhe entregar uma boa carta de referências. — Ah, ia me esquecendo! — Ela me cutucou. — Mas ele deixou isto aqui, ó! — Entregou-me um guardanapo dobrado. Ousado! Admirei sua coragem, mas avaliei o pedaço de papel com cautela antes de pegar da mão dela. — Quer que eu jogue fora? — Ela olhou na direção da cozinha. Quero! Sei do que se trata e também sei que nunca ligaria para ele mesmo! — Não, Dona Lupe. — Instintivamente peguei o guardanapo de sua mão. — Me dê isto aqui! — Rapidamente enfiei o papel no bolso traseiro da minha calça. Não vou deixar essa história assim! Não posso! Gabriel não podia pagar pelos caprichos de Athos... e meus, também! **** No final da tarde Moisés entrou pela porta com algumas sacolas de lojas de bebê. — Olá srta. Esther, tudo bem? — Me cumprimentou, desajeitado. — Deixa disso, homem! — Bati levemente em seu ombro — daqui a pouco você será meu padrasto, vai esquecendo essa coisa de formalidades comigo! Ele sorriu encabulado. — Sua mãe está? — Está sim. Lá no escritório fingindo estar descansando! — É uma workaholic incorrigível! — Deixou os ombros caírem. — Sei bem como é... mas você terá que pôr um freio naquela mocinha quando Olga nascer... Athos saiu da cozinha, limpando a mão no avental. Ele mastigava algo. O estômago deste homem é um buraco n***o! — Moisés, meu amigo! — Cumprimentou o motorista — imagino que tenha tido bastante trabalho hoje... — se referiu as sacolas. — Ainda estou um pouco perdido... — ergue as sacolas. — Nunca imaginei que itens infantis fossem tão... peculiares! — Eu vejo! Bom, e meu carro está pronto para essa noite? — Perguntou despretensioso. Essa noite? Mas onde ele vai “essa” noite? — Revisão em dia... limpo, aspirado e encerado! Do jeito que o senhor gosta! — Moisés parece se orgulhar de seu trabalho. Olho dele para Athos e ainda espero saber o que haveria de tão importante “essa” noite, para que precisasse polir o carro. — Obrigado, Moisés! — Nenhuma pista. — Senhor! — O namorado da minha mãe quase fez uma reverência. — Esther! — Discreto, nos deixou em direção ao escritório. Athos e eu ficamos frente a frente, sem saber como me portar ou o que dizer, mudo o apoio de uma perna a outra. Que silêncio cortante! — Então... você vai sair “esta” noite? — Dispenso os rodeios. — Sim! — Mas ele não me deu a******a para especular. — Bom! — Fingi não me interessar. — Bom! — Ele repetiu. — Divirta-se, então! — O deixei sozinho, sem conseguir disfarçar minha frustração. **** As duas últimas horas de trabalho foram de pura calmaria. Athos parou de me importunar, manteve-se distante e pouco falou comigo. Isso me incomodou demasiadamente. De certo arrumou algo bem mais importante para fazer e esqueceu de suas promessas amorosas para mim! Menos m*l, assim minha consciência ficaria tranquila para fazer o que eu quisesse, tipo: ir para a casa da minha mãe, ajudar a decorar quarto de bebê, enquanto ele estaria, sabe-se lá por onde. Ruminar sobre isso me deixava em um mau humor gritante. Moisés levou mamãe mais cedo para casa, pois só assim ele conseguia força-la a ficar um pouco quieta, ele ficou de voltar para nos buscar. — Acho que terminamos por hoje! — Dona Margarida jogou o pano sobre o balcão da cozinha. — Moisés acaba de estacionar. Acredito que podemos ir fechando tudo para adiantar. — Respondi. — Não vejo a hora de colocar meus lindos pezinhos de princesa na salmoura, enquanto tomo um belo mojito! — Dona Lupe calçou suas sandálias de dedo. — Senhoras, podemos ir quando quiserem! — Moisés entrou. — Athos, estamos indo... — dona Margarida com seu vozeirão de uma legítima espanhola, gritou por ele. Rapidamente ele saiu do escritório e nos fez um sinal para esperar. — Está tudo certo, meninas. Obrigado pelo dia de hoje! — Abraçou e beijou com vontade o rosto de cada uma das senhorinhas assanhadas. Por minha vez, fugi de seu contato, fingindo buscar algo no fundo da minha mochila. — Moisés, por favor, deixe essas duas agradáveis senhoras em casa! — Disse, se encaixando entre as duas roliças amigas da minha mãe. Ele as abraçou pela cintura, chegando a ser engraçado o modo como elas ficavam fogosas perto dele. Poderiam ser discretas! Fecho os olhos e balanço a cabeça. Ei! Ele disse duas? Acho que perdi até a carona. Resolvi usar o pouco de dignidade que me restava sem dar na cara a minha frustração. Soltei os cabelos e passei os dedos entre eles, soltando os fios. — Boa noite pessoal, também estou indo nessa! — Joguei a mochila nas costas. Ao atravessar a porta, senti minha mochila pender para trás. — Que brincadeira de mau gosto! — Virei para Athos que puxava a alça da minha mochila. — Você poderia me fazer cair, sabia? — Estava cansada demais para suas provocações. — Eu jamais a deixaria cair! — Seus olhos escureceram. — Fala... — cruzei os braços e bati os pés, impaciente esperando pela lorota que viria a seguir. Athos apertou o controle do alarme e vi as luzes de sua Land Rover acenderem do outro lado da rua. Sem pedir, tirou a mochila de minha mão e a jogou sobre o ombro, com a mão livre ele segurou firmemente a minha. — Vamos! — Me puxou. — Aonde você pensa que vai me levar? Quem disse que eu quero ir com você? E o pessoal... vão embora como? — Joguei o peso do meu corpo para trás, forçando-o a me arrastar. — Moisés irá leva-las. — Ele apontou com a cabeça para o SUV estacionado logo atrás. — Como ele trouxe os dois carros? — Ele deixou um dos carros aqui, antes de ir às compras para minha cunhadinha. Fez tudo de táxi. Você não repara nas coisas? O cara de p*u ainda tinha a audácia de fingir indignação. — Eu estava trabalhando, não tive tempo pra cuidar da vida alheia. — Bem, como minha vida é você... estou indo cuidar dela agora! — Abriu a porta traseira e jogou minha mochila no banco. Sem soltar minha mão, me conduziu ao lado do passageiro abrindo a porta para mim. — Não vou entrar! — Fiquei estática. — Não me faça usar outros meios. — Vai me bater? — Retruquei com desdém. — Talvez seja isto que esteja lhe faltando... — Teria coragem? — Estarrecida, arregalei os olhos. Ele estreitou os dele. — Você realmente não sabe das coisas que eu sou capaz quando me convém... — Na boa, vou pegar um táxi! — Abri a porta traseira para pegar minha mochila. Como uma cobra que dá o bote, Athos me pegou pelo meio da cintura prensando-me contra o carro. — Você vem comigo! — Rangeu os dentes. — Nem que eu tenha que arrastá-la pelos cabelos... e você sabe que eu não me preocuparei em fazer isto... As duas mulheres saíram da confeitaria acompanhadas de Moisés, alegremente atravessam a rua nos dando tchauzinho de longe. Falso, Athos me abraçou pelos ombros e sorriu de orelha a orelha, jogando um beijo e dando tchauzinho feito Miss. — Você é um cachorro! — Pisei em seu pé. — Entre nessa p***a de carro! — Ele rosnou sem desfazer o rostinho de bom moço. Com má vontade, entrei e bati a porta com força. Ele sentou ao volante, calmamente colocando o cinto e depois deu partida. — Lembra-se na primeira vez que você esteve em casa? — Seu olhar era vago — estava arrastando sua mochila, vestida um pouco parecida como agora, os cabelos bem maiores, mas tão revoltos quanto... você entrou na minha casa, invadiu minha cozinha, me enfeitiçou com seu tempero e roubou meu coração! — Senti seu olhar, mas eu não retribui, ao contrário, virei o rosto para a rua. — Naquele dia eu quis que você ficasse. Eu quis que você fosse minha e preenchesse a minha casa de vida. — Bem... — respirei fundo e soltei com força. — Você quase conseguiu... — Me dê uma chance de reconquistar nosso amor e verá que dessa vez não irá se arrepender! — Ele segura em meus dedos com suavidade — vamos recomeçar do zero, ok? Quer jantar comigo, agora? — Seu tom é educado, quase que uma suplica. — Onde? — Olho para minha calça velha e All Stars surrados. — Você já viu minhas condições? — Como da primeira vez, você poderia cozinhar para mim... — seus olhinhos de menino desmamado brilharam. — Você disse que queria recomeçar e está querendo fazer como da primeira vez? — Louco. — Não. Não, como da primeira vez! — Ele beija meus dedos. — Desta vez a dispensa está cheia, mandei Moisés comprar tudo que você gosta. E claro, assim poderá criar um belo cardápio para nós. — Você come feito um cavalo. Principalmente quando está nervoso! — É como estou agora. — Nervoso? — Sim! — Assumiu sem reservas. Baixei meus olhos e fitei seus dedos acariciando os meus. — E com muita, muita fome também! **** Athos dirigiu concentrado. Com o canto dos olhos eu o observava. A entonação da palavra "fome" não saia de meus pensamentos. Ele não estava falando no sentido literal! Pode acreditar! Deixo escapar um ligeiro sorriso. Touché, Esther!
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