Pré-visualização gratuita CAPÍTULO 1
“Qualquer um que tomasse o seu lugar seria um substituto fraco. Amo você, com um amor tão grande que simplesmente não pode continuar crescendo no coração, precisa saltar para fora e se revelar em toda magnitude.” — Anne Frank
O apartamento estava silencioso, as persianas da sala estavam abertas, deixando a luz do sol iluminar todo o seu interior.
Alguém já deve estar em pé!
Espiei pela porta do escritório, Álvaro digitava ferozmente concentrado no que fazia.
— Trabalhando logo cedo? — Acabei o assustando.
— Trabalhando ainda... — Sua resposta é vaga e seca.
— Você virou a noite? É algum projeto novo? — Me aproximei, apoiando-me no encosto de sua cadeira, para ver melhor o que ele desenvolvia.
— Na verdade, não é nada demais! — só então ele me olhou e eu notei quão grande estavam suas olheiras — eu apenas percebi que passaria a noite em claro te esperando, resolvi aproveitar o tempo e... acabei adiantando o trabalho de quase uma semana inteira! — Seu sorriso amarelo denuncia a falsa mansidão.
— Por que não me ligou? Isso te pouparia uma noite perdida. — Respondi indiferente.
— Para quê? Para você mentir e dizer que estava estudando?
Não ligo que ele tenha me flagrado em uma mentira. Todos mentem para o meu bem, para me "proteger". Logo, eu também posso fazer isso em meu favor!
— Então somos dois perfeitos mentirosos! — É a verdade que você quer, querido amigo? Aproximei-me para vê-lo melhor — sim, é isso que somos. Você sabia de tudo. Sabia de todos os planos de Athos e não me contou nada. Nem uma palavra sequer... — acusei.
Álvaro não mudou a expressão. Pior, continuou impassível.
— E o que mudaria se eu te dissesse alguma coisa? — Seu olhar me atravessou como estaca de gelo — você acha que Athos mudaria de ideia se eu te contasse? Diga-me Esther, depois de tudo que sofreu, depois de todos os dias difíceis que tivemos, mudaria algo nisso se eu te dissesse qualquer coisa do que Diógenes havia me contado? — A voz dele era fria. Crua.
Engoli saliva. Al realmente mudou demais e só naquele momento eu estava percebendo.
— Não. — Minha voz saiu como um fio ligeiro e fraco — não iria mudar ou diminuir meu sofrimento! — Doeu concordar com ele.
— Foi o que imaginei! — Ele voltou a trabalhar em seu notebook.
— Mas isto muda muita coisa entre você e eu! — Foi impossível esconder minha magoa.
Meu melhor amigo nem mesmo levantou os olhos para fingir que foi atingido com o que eu disse.
Esses homens da minha vida vão aprender na marra a aceitar que agora eu tomo minhas decisões.
Segurei as lágrimas e entrei no corredor para os quartos, cruzei com Hillie que vestia apenas uma camiseta velha de Al.
Ela bocejava, levantando os braços para se espreguiçar, deixando a calcinha pink minúscula a mostra, assim como mais uma de suas muitas tatuagens.
— Você já está de saída? — Perguntou, confusa. Ela ainda está dormindo. Certeza!
— Acabei de chegar! — Não me dei ao trabalho de parar para dar maiores detalhes.
Não estava a fim de conversa. Conversei uma tarde e uma noite inteira. Precisaria de no mínimo, uma semana para digerir tantas revelações.
Hillary forçou para abrir os olhos e me examinar, mas me apressei em entrar no quarto antes que ela despertasse.
— Mas... Chegando de onde?
Ignorei sua pergunta.
— Deixa ela, Hillie! — A voz de Álvaro ecoou pelo corredor.
Bati a porta, no melhor estilo adolescente que acaba de levar uma bronca dos pais.
****
Fucei minhas gavetas e encontrei meu antigo celular enrolado em algumas camisetas. Pobrezinho. Ficou abandonado aqui desde que voltei da Capital!
Para não receber ligações ou evitar qualquer contato com o mundo exterior eu preferi arrancar o chip e a bateria. Hora de reativa-lo! Remontei o celular e o coloquei para carregar, liguei o IPod e deixei Ozzy cantar a todos pulmões. Vasculhei o guarda-roupas e peguei algumas peças básicas, enfiei na mochila junto com as roupas sujas, não me importei em separar.
— Onde você vai? — Al entrou no quarto.
— Poderia bater na porta pelo menos?
— Agora temos esse tipo de formalidades por aqui? — Ele encostou na parede — vai começar a trancar a porta também?
Pensei em retrucar, mas desisti. Continuei a recolher minhas coisas.
— Está me dando um gelo? Muito maduro para quem está querendo ser tratada como adulta!
Ele está certo, Esther!
— Eu vou para a casa da minha mãe...
Respondi sem dar muita importância a presença dele, afinal, ele fez exatamente o mesmo comigo pouco minutos antes. Álvaro desligou o som e nos encaramos.
— Não fique feliz. — Disse olhando duramente em seus olhos. — Só estou com saudades. Vou passar o final de semana com ela e dar uma força com as coisas da Olga! — Ainda segurando nossa troca de olhares, religuei o som e então desviei o olhar, voltando a arrumar minhas coisas.
— Que bom... isto me traz grande alívio.
Alívio?
— Achou que eu iria ir embora? — Procurei uma sapatilha embaixo da cama. — Não mesmo! Você me convidou pra ficar... agora terá que me engolir. — O olhei mais serena, infelizmente não consigo sentir raiva dele por tanto tempo quanto gostaria. — E morar com minha mãe nessa altura do campeonato, realmente não rola!
— Poderia dizer que não me deixaria porque iria sentir muito a minha falta... — ele sorriu desfazendo a feição dura, finalmente quebrando totalmente o clima pesado entre nós.
Levantei do chão e o surpreendi com um abraço.
— Por favor não me esconda mais nada, combinado? — Pedi.
— Só se você fizer o mesmo! — Ele me apertou em seus braços.
— Eu juro! — Fecho os olhos e suspirei. Esse cara fez e faz tanto por mim. Não é justo descontar minha ira nele!
— Você tem crescido tanto, tanto... — afastou-se o suficiente para me observar — às vezes esqueço que não é mais meu moleque seboso! — Já próximo de mim, bagunçou meus cabelos. Fiz uma careta repreensiva, mas não durou mais que alguns segundos.
Rimos.
Álvaro me ajudou a terminar de arrumar minha mochila.
— Quer que eu te deixe lá?
— Não. Não vou incomodar você.
— Relaxa. Hillie vai almoçar com uma potencial cliente e parece que essa mesma mulher precisará de um modelo para a sua campanha... podemos deixar você na casa da sra. Reimann. É caminho!
— Hummm... que casal promissor! Então você vai voltar a fazer fotos de cuecas? — Dei um tapinha em seu ombro.
— Talvez... — Ele revirou os olhos.
— Tudo bem! — Coloquei minha mochila nas costas. — Vamos, sr. Cueca de Outdoor!
****
No meio do caminho decido fazer uma surpresa e peço que Al e Hillie que me deixem na cafeteria.
Hoje é sábado, o movimento deve estar pesado. Mamãe já está com a barriga bem saliente e começando a pesar, vai ficar feliz em me ver.
Entro correndo e acabo assustando dona Margarida que quase derruba uma bandeja de churros.
— Jesus, Maria e José, menina... você parece um furação!
Ela reclama, mas eu não paro para responde-la, apenas roubo um de seus churros e enfio na boca, correndo para a o escritório nos fundos.
Já me chamaram disso! Sorrio por dentro.
— Madrecita! — Entro sem bater.
— Filha! — Feliz e com certa dificuldade, mamãe se levanta da poltrona ao lado de sua mesa de trabalho.
Eu quase engasto com o churro ao perceber que ao tentar fazer uma surpresa, acabei surpreendida.
— Olá Esther! — Athos balança a cadeira da dona Lourdes, para frente e para trás, mordiscando a ponta de um lápis.
Ele está sentado à mesa, no lugar de minha mãe, como se fosse um rei imponente!
— O que ele está fazendo aqui? — Fecho a cara.
— Como assim, menina? Ele é o dono deste lugar! — Ela acaricia a barriga.
— Dono não, Lourdes! — Ele a corrige. — Sócio, apenas!
O Dono do Mundo levanta-se e sai de trás da mesa.
Ele está especialmente lindo hoje, seu cabelo ainda molhado, está mais curto e acabou diminuindo muito de seus cachos. Deve ser o corte europeu! Mas isso não tira a beleza de seus cabelos... pelo contrário, seu rosto parece mais... selvagem.
Diferente do habitual, ele veste uma camisa de lã e manga cumprida na cor creme, calça jeans escuras justa nas pernas, deixando os músculos salientes das coxas a mostras e botas marrom escuro.
Está vestido para m***r!
— Estamos revendo algumas contas... — mamãe parecia se justificar por ter sido pega no pulo. — Você sabe, logo sua irmãzinha chega e eu ficarei um tempo afastada... precisamos nos organizar!
— Mas do jeito que tem feito tudo, certamente não teremos com o que nos preocuparmos! — O deus Grego sendo o velho sedutor de sempre — sabe querida Lourdes, eu lhe devo os parabéns. — Ela piscou para ele, orgulhosa de seu feito e faceira com o elogio, enquanto eu não consegui evitar revirar os olhos. — De fato o tato administrativo é algo nato nas mulheres desta família. Ontem nossa jovem Esther foi selecionada como líder de equipe dos estagiários no escritório, tudo graças a um método de organização das contas dos nossos clientes, que ela criou. Vejo agora de onde ela roubou inspiração. — Passou o braço sobre os ombros de minha mãe, cheio de i********e auto adquirida. Ela se derrete abrindo um largo sorriso.
Sedutor barato!
— Desculpe atrapalhar vocês, eu não imaginava que estavam reunidos, melhor voltar outra hora...
— Não vá, filha. — Mamãe olhou para Athos que assentiu. Desde quando precisamos de sua autorização? — Já estamos terminando aqui, por favor fique. — Seus olhinhos cor do mar imploraram — gostaria de almoçar com você.
— Mãe, eu posso esperar lá na frente. Sem pressa. — Tranquilizei. — Vim para ficar, vou passar o final de semana com a senhora!
Pela primeira vez desde que cheguei olhei direto nos olhos de Athos. Ele parece bem confortável com a situação.
— Não há "nada" que me faça arredar o pé daqui sem antes provar suas delícias! — Aproximei-me deles e deixei um demorado beijo no rosto da minha linda e redonda dona Lourdes.
****
Infelizmente não consegui encontrar Pê, era sua folga, então aproveitei para bater papo com dona Margarida e dona Lupe, elas estavam empenhadas em me engordar de toda forma. Fizeram-me provar todas as delícias da confeitaria. Todas mesmo! Uma a uma. Para fugir das duas mulheres desenfreadas, prendi o cabelo e coloquei uma redinha sobre o curto r**o de cavalo, amarrei um avental na cintura e peguei uma bandeja. Dei uma rápida estudada no cardápio. Nada de muito diferente do que já estava acostumada, afinal, grande parte do que tem aqui, eu mesma ajudava a minha mãe fazer quando ainda usávamos a cozinha dela para produzir suas encomendas. Hora de desenferrujar! Atendi duas mesas e pedi para que dona Lupe preparasse uma rosquinha com recheio de doce de leite para que eu entregasse na terceira mesa, assim que terminasse de recolher algumas bandejas.
— Dona Lupe, onde está meu último ped...
— Essas rosquinhas me fazem perder a cabeça... — Athos lambeu os dedos, o canto de sua boca ainda tinha um pouco de açúcar para confeitos. — Assim como tudo o que a Lourdes faz! — Passou lentamente a língua no local onde restava a prova de seu crime, limpando o último vestígio do açúcar.
— Você não vai me provocar! — Deslizei para o lado de dentro do balcão e preparei o recheio de outra rosquinha.
— Essa parece estar bem recheada! — Ele sorriu descaradamente.
Não lhe dei ouvidos, entreguei o pedido ao cliente e fui para outra mesa. Athos continuava atrás do balcão, me observando.
Isso aí querido. Apenas observe!
****
O movimento, como de costume, aumentou consideravelmente próximo ao horário do almoço. Madrecita e eu nos desdobramos com o atendimento das mesas. Somos feras nisto! Dona Margarida tomou conta da cozinha e dona Lupe estava responsável pela preparação das bebidas e reposição dos salgados e doces. Athos, obviamente também quis mostrar trabalho, então se candidatou a cuidar do caixa. De dinheiro ele entende! Minha mãe começou a aparentar cansaço, embora quisesse demonstrar o contrário todas as vezes que nos cruzávamos pelo salão.
— Mãe, você está bem? — Perguntei a ela no corredor entre o salão que vai para a cozinha.
— Estou ótima, meu amor. — Apoiou as duas mãos na cintura, esticando a coluna. — Estou feliz por tê-la aqui comigo hoje!
— Eu também. — Sorri e acariciei sua barriga. — Mas seus pés estão enormes. Está na hora de dar uma descansadinha, madrecita.
— Pés inchados fazem parte da gravidez, sentada ou trabalhando eles sempre vão ficar enormes! — Era sua vez de acariciar meu rosto. — Um dia você vai entender o que eu digo! — Deslizou suas mãos sedosas por minhas bochechas.
— Espero que este dia esteja bem longe! — Não tenho talento com pessoas, quem dirá com crianças!
— Esther está certa, Lourdes. — O intruso, como sempre se metendo onde não é chamado. — Não... não sobre as crianças. Bom, não precisa demorar tanto, mas também não precisa ser para amanhã...
— Do que você está falando, cara? — Franzi a testa.
— Estou falando sobre essa linda gravidinha aqui ir colocar as perninhas para cima um pouco... — ele empurra minha mãe para o escritório. — Vamos descansar, que a minha cunhadinha não pode correr o risco de vir ao mundo estressada igual a irmã mais velha! — Me olhou por cima dos ombros, soltando uma piscadela. Eu apenas os observei, inexpressiva. Inacreditável!
— Vocês precisam se resolver... agora que tudo está bem... — minha mãe resmunga enquanto somem no final do corredor.
— É mole isto? — Comento com dona Lupe, que acaba de chegar ao meu lado, apontando na direção onde os dois iam.
Ela deu de ombros e sorrindo voltou para o que estava fazendo.
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Athos deixou o caixa e veio me ajudar com as mesas, não preciso mencionar o desastre que este homem é atendendo clientes: trocou pedidos, entregou coisas a mais e as vezes faltando. No entanto, não surpreendentemente ele ainda conseguiu fazer sucesso com as mulheres, o filho de uma boa mãe ainda arrecadou boas gorjetas e para se vangloriar, passava por mim fazendo questão de contar as notas ou se abanando com elas. Galanteadorzinho de m***a!
Ele jogou todo seu charme sobre as clientes, elogiou cabelo, unhas e até foi um pouco atirado com as mais velhas. Elas nem se davam conta de que consumiam algo diferente do que pediam. Tive que tira-lo de uma mesa praticamente pelo colarinho.
— Sr. Athos, estamos precisando do senhor na cozinha! — Chamei entre os dentes enquanto forjava um sorriso.
— Mas eu não entendo nada de cozinha! — Respondeu e voltou a falar com a senhora a sua frente.
— As rosquinhas estão pegando fogo! — Puxei sua camisa.
— Com licença belas damas, aproveitem bem esses deliciosos bolos feitos pelas mãos de fada da minha sócia.
Elas se derreteram! Mulheres! Ele, levantou-se contrariado e me questionando.
— Mas o que é? Não vê que estou no meio de um negócio? — Passou as mãos vaidosamente pelos cabelos.
— Aqui não é sua sala de reunião. — Refresquei sua memória. — Nem local para pôr seus “talentos” em prática! Se for ajudar, concentre-se apenas em servir as mesas corretamente!
— Está com ciúmes, dona Flor? — Acho que ele está tentando segurar um sorriso...
Não me dei ao trabalho de responde-lo e fui atender os novos clientes que acabaram de chegar.
— Gabriel? — O estagiário da Gonzalez Advogados sentou-se com outro rapaz.
— Olá Esther! — Ele pareceu bem surpreso em me encontrar por aqui. — Você por um acaso...
— Oh, não... não! — Pela expressão, entendi o que ele quis dizer — não vou sair do escritório. Na verdade, aqui é a confeitaria da minha mãe. Estou apenas dando uma mãozinha!
— Ah! — Expressão de alívio. — Achei que fosse perder uma colega de trabalho, nem mesmo tivemos tempo de trocar contato...
— Bom, não se preocupe com isso, segunda estarei lá! — Desconversei. — Aqui estão os cardápios, fiquem à vontade, me chamem quando escolherem! — Estendi os cardápios a cada um.
— Ei Biel, não vai me apresentar a amiga? — O rapaz moreno, cutucou o amigo ao pegar o cardápio da minha mão.
— Mas é claro! — Orgulhoso, se levantou. — Essa é Esther, a estagiária de quem te falei. — Senti um olhar cúmplice sendo trocado entre os dois. — Esther, esse é Marcos, meu amigo de faculdade.
O tal Marcos também se colocou em pé e me estendeu a mão. Pega de repente, recebi um beijo no rosto.
— Devagar amigo. — Gabriel fez careta para o colega.
— Está com ciúmes? — Marcos riu debochado.
— Gente, preciso atender outras mesas... — não estava a fim de presenciar essa rinha de meninos recém-saídos da puberdade.
— Ei, Esther. — Gabriel insistiu. — Sinto pelo que aconteceu ontem... — ele falava sobre termos sido flagrados por Dio.
— Ah, aquilo não foi nada... esqueça!
— Bem, mas como não estamos no escritório, não há problema em perguntar se estará livre hoje à noite, não é mesmo? — As bochechas dele estavam rosadas muito mais que o costume.
Meninos!
Percebi a presença de Athos que estava anotando um pedido de uma mesa poucos metros de mim. O cliente falava, mas tenho certeza que os ouvidos dele estavam em minha mesa. m***a! Se ele ouvir essa conversa, vai me causar sérios problemas. Mas ele não se preocupou com o fato de eu me incomodar com seus galanteios para cima da clientela, pelo contrário, estava se divertindo as minhas custas.
Foda-se, Athos!