Edu
Dias atuais...
As batidas insistentes na porta não conseguiram me derrotar, fazia dias que ignorava os berros de Gabriel e dos outros, Laura tentou por uns dois dias, mas não teve sucesso também, não queria ver ninguém, já estava acabando a segunda garrafa de Whisky, há quantos dias mesmo que estava trancado aqui? Não importa, conhecendo-a bem ela já devia estar a meio caminho da Europa, não devia ter mandado a embora, devia ter escutado o que ela tinha a dizer, ao menos devia ter escutado e depois...
Ouvi um estrondo, como se um saco de trigo tivesse caído numa pilha de panelas, será que algum funcionário caiu enquanto carregava um saco de trigo ou um caldeirão de massa? Grunhi.
Levantei chutando os lençóis, não fazia ideia de que horas eram, mas pela escuridão do apartamento já devia passar das 18h com certeza, não queria falar com ninguém, mas alguém pode ter se machucado lá embaixo, não me importei de sair apenas com um short de pijama, funcionários machucados ou precisando de um adiantamento, são coisas que estariam além das habilidades da minha gerente, mas Ivone sabia que não devia deixar ninguém subir, então... quem diabos estava na minha sacada?
Ouvi uma discussão acalorada, vozes sussurradas e irritadas.
— Que inferno, seu frango do c*****o me empurra, estou escorregando!
— Você é pesada pra c****e!
— Vai logo! Antes que ele apareça e me empurre sacada abaixo.
Não acredito, abri as portas de supetão e não havia ninguém além de Laura pendurada na grade do guarda corpo, havia uma bolsa no chão, mas meus olhos não conseguiam desgrudar daquela cena, ela me olhou alarmada e xingou.
— O que está esperando, seu cretino!? Me puxe antes que o i****a do seu amigo me deixe cair!
Amigo? Me aproximei e me inclinei para puxá-la, vi Gabriel embaixo dela tentando empurrá-la para cima, estava completamente coberto de trigo enquanto se equilibrava em cima de baldes de margarina, havia um monte de trigo no chão do corredor e caldeirões espalhados.
— Irei descontar essa merda da sua parte dos lucros no bar, i****a do c*****o!
— Estou ajudando na entrega da sua comida, desgraçado! — Rebateu em desespero, acho que Laura devia mesmo pesar um pouco mais de 60 kg, mas ela tinha razão, ele era um frango.
Fiquei tentado a deixá-la pendurada apenas para prolongar o sofrimento dele, mas ela podia se machucar se caísse no corredor lá embaixo, o usávamos de deposito então só havia baldes e baldes de margarina, sacos de trigo e outros ingredientes.
A puxei para cima de uma só vez, ela apoiou o pé no guarda-corpo e se impulsionou para cima de mim, me surpreendi por ela ainda ser tão ágil, mas vacilei quando a segurei contra meu corpo e ela me encarou com as bochechas coradas, provavelmente por causa do esforço em ficar pendurada, fiz uma vistoria em busca de arranhões e me arrependi imediatamente, meu p*u acordou em meio ao torpor da bebida.
Ela estava de pijama, um maldito pijaminha perturbador com estampa de unicórnios.
Descalça, linda como um arco-íris no céu depois de uma tempestade de verão.
Não posso ter nenhum momento de paz, não é Deus?
— Tem saca-rolhas?
Mordi a língua para não fazer um trocadilho obsceno, percebi que estava segurando-a com uma força que deixou meus braços dormentes, lamentei muito não ter colocado uma cueca, fazia dias que usava aquele pijama, estava um farrapo humano Meu Deus, e ela estava gloriosa, com os cabelos presos no alto e cachos bem definidos se soltando e emoldurando o rosto bochechudo, isso era humilhante, mas eu a empurraria porta a fora antes que acontecesse algo mais vergonhoso.
— Laura, se queria aliviar sua consciência ao saber se eu estava vivo antes de ir embora era só ligar. — Suspirei dramaticamente com a mentira deslavada. — No entanto, eu preferia que não ligasse, mas não precisava inventar uma desculpa tão ridícula pra invadir meu apartamento
— Não inventaria desculpas nem para trepar com você, quanto mais para vir te ver. Tenho um trabalho a fazer e preciso de vinho.
Resmungou ao se livrar de mim e entrou no apartamento ignorando os xingamentos de Gabriel.
— Ei, seus putos! Eu preciso de um banho, uma ajudinha aqui, por favor!?
— Vá se lavar no corredor, e arruma essa bagunça antes de sair!
Ignorei seus protestos e entrei em casa, ainda estava chocado com a atitude de Laura, não posso dizer que fiquei verdadeiramente incomodado com a invasão, era só perturbador ter a garota que sempre amei invadindo meu apartamento e andando tranquilamente por minha cozinha, descalça e à procura de utensílios domésticos, como se ela morasse aqui e eu fosse um marido muito desleixado com a organização... Marido, a menção da palavra disparou sentimentos que eu vinha tentando afastar nos últimos dias, mas não podia deixar de notar o quanto aquilo parecia... certo.
Estava na merda.
Tudo era péssimo, pensar nela era péssimo, pensar em nós era um purgatório.
Era tudo muito perturbador, ela estava fazendo de novo, invadindo minha vida e confundindo minha cabeça... antes que pensasse a respeito do que estava fazendo, recuei e tranquei a porta, com receio de que alguém nos interrompesse, Gabriel parou de berrar xingamentos lá embaixo, fui para a cozinha onde ela agora vasculhava as gavetas da bancada em busca do saca-rolhas, eu acho.
— Segunda gaveta, no canto esquerdo. — Indiquei e percebi que minha língua estava pesada, bebi demais, puxei um banco para me sentar na bancada de granito, ela sorriu quando abriu a gaveta.
Entrei no jogo, poderia fingir por alguns minutos que ela não havia cravado um punhal nas minhas costas, pelo menos até ela me dizer o que estava fazendo aqui, uma coisa interessante sobre Laura era que ela era uma criatura rabugenta e encrenqueira, mas ela era péssima em resolver conflitos, tinha certeza de que ela tinha assuntos m*l resolvidos desde o ensino médio, ela era rancorosa e não sabia se desculpar, eu sempre associei isso ao fato de que ela estava quase sempre certa em alguma discussão, mas com o passar dos anos aprendi que pedir desculpas não quer dizer exatamente que você é o errado da situação.
Me perguntava se Laura havia aprendido essa lição nesse tempo em que morou fora, o que será que ela viu? Quais aventuras viveu? Quais os obstáculos que venceu...? Queria saber tanta coisa, ainda tínhamos tanto o que compartilhar, mas isso era passado, e precisava saber o que ela estava fazendo aqui.
— Laura...
— Essa é a melhor época para visitar Verona, sabia? — Mencionou como se lesse meus pensamentos. — Em julho e agosto está muito cheio, em setembro começa a esvaziar, mas em outubro é perfeito, há apenas os turistas retardatários, aqueles de fim de temporada.
Congelei no lugar enquanto ela terminava de sacar a rolha da garrafa, com apenas um único e perfeito furo, aquela era uma habilidade cirúrgica, ela era muito boa abrindo garrafas de vinho.
Não queria falar a respeito da cidade que prometi levar ela um dia, o lugar que era para ser nosso e que ela foi sozinha ou talvez com um maldito italiano, talvez até fosse um descendente dos Montequios... eles existiam mesmo ou era só ficção, não me lembrava acho que era culpa do whisky.
— Contudo, nunca consegui ir. — Se virou à procura de taças enquanto o vinho respirava, quando não encontrou o que queria pegou dois copos no escorredor, encheu um com água do filtro e voltou para a bancada. — Sempre comprava passagens, montava itinerários maravilhosos e no fim desistia, acho que ainda guardo todas as anotações na gaveta da minha mesa na biblioteca de casa, sempre inventava uma desculpa qualquer... está muito quente, estará muito cheio ou... qualquer coisa.
Ela não estava olhando para mim quando escorregou o copo de água em minha direção, passou a encarar o copo de vinho com uma careta, provavelmente me amaldiçoando por não ter taças em casa, mas não bebo muito vinho, prefiro a boa e velha cerveja ou whisky.
— Sempre comparei nós dois com os casais sobre os quais lia, começou com Romeu e Julieta, depois Catherine e Heathcliff, ocasionalmente Elizabeth e Darcy, quando sentia saudades e imaginava o nosso reencontro, a nossa história se transformava no romance de Anne Elliot e do Capitão Wentworth... — Ela sorriu ainda sem olhar para mim e provou um pouco do vinho enquanto se debruçava sobre a bancada ficou desenhando círculos imaginários com o dedo no granito. — Essa foi uma péssima escolha de pedra, granito é poroso, derramar vinho aqui seria desastroso.
— Acho que deve ter experiencia nisso. — Comentei cedendo a gentileza e bebendo a água, eu precisava mesmo ficar sóbrio, e o mais rápido possível, bebi um pouco da água, para minha surpresa meu estômago não embrulhou.
— Ah, tenho sim.
— Sabe, tem uma coisa curiosa sobre escritores... — Ah, uma mudança repentina de assunto.
Ainda ficava perplexo com a facilidade com que as mulheres saltavam de um assunto para outro e com Laura isso era mais atordoador, porque às vezes ela era direta como um míssil, e outras vezes ela ficava rodeando como um felino tentando cansar a presa para abatê-la.
—Digo isso com base nos que conheço pessoalmente, a maioria deles escrevem sobre elementos pessoais, coisas sobre a própria vida, pelo menos em seus primeiros trabalhos, é mais fácil falar de algo que já conhece, assim não tem que se aprofundar tanto na pesquisa de campo, só dar um retoque aqui e ali... espere um pouco. — Ela foi em direção a geladeira, a abriu sem o menor constrangimento e começou a vasculhar o lugar se abaixando e deixando em destaque as pernas torneadas e definidas, ela ainda tinha belas coxas e aquela bunda... Deus, a b***a dela ficava sensacional naquele short.
Ela fechou a geladeira com uma careta, levava nas mãos cebola, peito de frango, batatas e cenoura, acho que não encontrou o que queria, fiz uma nota mental para abastecer a geladeira com coisas que ela gosta e amassei a nota mentalmente e a joguei pela janela, bebi mais um pouco de água, o que diabos estava passando pela minha cabeça?
Massageei as têmporas, estava um pouco entorpecido e constantemente minha mente estava oscilando para assuntos nada apropriados, quando foi a última vez que comi ela? Fazia tanto tempo... Fiquei tentado a me estapear, estava voltando a pensar besteiras, ela colocou os ingredientes na bancada e partiu para os armários, abrindo e fechando portas, se esticando e me fazendo agonizar com a contração das panturrilhas e das coxas ao tentar alcançar um compartimento alto, percebi que ela estava em busca de petiscos, ela tinha uma boquinha nervosa quando bebia, me levantei enquanto ela miseravelmente tentava alcançar um pote com amendoim japonês.
Whisky, amendoim, vinho e Laura de pijaminha de unicórnios? Péssima combinação.
Me levantei e fui até onde ela estava, fique atrás dela apreciando aquele corpinho pequeno e delicioso, sua cabeça batia na altura do meu peito, ela ficaria na posição ideal para alcançar minha boca se eu a colocasse escarranchada em minha cintura, grunhi de frustração e ela se assustou quando peguei o pote e entreguei a ela, em seguida peguei uma panela de pressão, uma cumbuca de porcelana e coloquei em cima do granito poroso que ela censurou, voltei a me sentar rigidamente e completamente incomodado com a pressão em minha virilha, precisava acabar com aquilo logo, o t***o estava me matando.
— Enfim, voltando ao assunto... quando as nossas vidas estão uma merda, a escrita fluí, a escrita flui muito bem com tristeza, com raiva... com amargura. — Ela despejou um punhado de amendoim na cumbuca e ficou encarando, incerta, percebi que estava ganhando tempo, talvez finalmente estivesse perto de descobrir o que ela estava fazendo aqui. — Quase parei de escrever por um tempo, por cinco anos tudo que escrevi era sombrio e denso demais para ser explicado em palavras, meus livros não eram aprovados pela editora, as coisas não iam bem e foi quando iniciei o meu segundo romance...
Ela estava dando voltas de novo, e eu não estava a fim de ouvir.
— Isso é impressionante e tudo, mas já deu, Laura. — A cortei sem muito tato, mas ela nem se importou.
— Eu comecei a escrever depois daquele dia... — ela ergueu os olhos brilhantes de lágrimas e percebi que estava encarando a cumbuca para evitar o choro. — Aquele dia que o meu pai me esqueceu na escola.
Eu me lembrava, foi uma das últimas lembranças de nós dois felizes na infância, não exatamente felizes, mas sem voar no pescoço um do outro.
— A minha mãe me levou pra padaria por que não tinha onde me deixar, ele apareceu quase no mesmo instante, lembra? Ele começou a berrar com ela, todos os funcionários saíram pra assistir, vocês ainda moravam no apartamento pequeno em cima da padaria antiga, você apareceu na escada e a minha mãe pediu pra você me levar lá pra cima, mas como as crianças arteiras que éramos, só subimos alguns degraus e ficamos ouvindo na escada, ele ameaçou bater na minha mãe... foi só aí que você me levou pro seu quarto e derramou o seu balde de brinquedos, me deixou brincar com aqueles soldadinhos e com aquele coelhinho que ficava subindo e descendo numa barriquinha de algodão doce colorida enquanto tocava uma musiquinha, nós brigamos por esse brinquedo quando tínhamos uns sete anos, depois disso você nunca me deixou brincar com ele, mas naquele dia deixou, era uma musiquinha bem sombria, daquelas que se usam em filmes de terror bizarros que envolvem crianças e parque de diversões, mas ouvimos ela á tarde toda.
Aquele barulho era um gatilho pra mim, depois desse dia me lembrava das vezes em que a mãe dela tinha que levá-la pro trabalho, toda vez que ouvia aquela musiquinha eu me lembrava dela, de quando a ensinei o jeito certo de comer tortuguitas, de quando compartilhávamos batons de chocolate brancos, pão de creme recém-saído do forno e leite com Nescau.
— Não sabia que se lembrava disso. — Comentei ao notar o silêncio, ela havia começado a preparar o frango, já havia cortado a cebola, a batata, a cenoura e nem percebi, eu estava mesmo bêbado.
— Eu me lembro, me lembro de muitas coisas. — Sussurrou limpando uma lágrima da bochecha, ela acendeu o fogo colocou a panela, depois colocou a cebola e depois de um tempo o frango, uma chaleira apitou e percebi que estava fervendo água, ela colocou o frango na panela e pigarreou limpando a garganta. — Me desculpe Eduardo, é até mesmo ridículo falar isso depois de tudo que fiz, sei que o que aconteceu foi muito grave e vou consertar, irei na delegacia confessar o que fiz e...
— Você ainda não entendeu, não é? — A observei engolir em seco, os olhos atentos e ao mesmo tempo confusos. — Não me importo com a denúncia, iria fazer aquilo de qualquer forma, o seu erro foi apenas esconder de mim e fazer tudo com Gabriel pelas minhas costas.
Partiu meu coração dizer isso, ver ela chorando tornava tudo pior, por que as coisas nunca eram fáceis conosco, por que meu Deus?
— Vocês me traíram, Laura. f**a-se a denúncia, a garota que eu amo e meu melhor amigo me traíram, esse é o ponto.
— Não queria que você visse, Eduardo. — Sussurrou esfregando os olhos com força, ela jogou a água na panela e a fechou, me endireitei no banco e cruzei os braços porque eles estavam inquietos perto dela, queria abraçá-la e limpar suas lágrimas.
— Visse o que?
— A podridão em mim. — Esclareceu, não entendi, suas mãos se espalmaram na pedra diante de mim e ela me olhou no fundo dos olhos, com os olhos e nariz vermelhos. — Eu ia matar aquele desgraçado, ia bater nele até rachar a cabeça e o cérebro vazar do crânio como a clara escapa de um ovo quebrado, sabia que perderia o controle e não queria que visse isso.
— Laura.
— Me deixe terminar. — Pediu quando fiz menção de me levantar. — Aquele desgraçado mexia comigo desde que eu tinha 12 anos, sempre jogando piadinhas, me emboscando nas esquinas, me secando a cada vez que me via. Quanto tempo levaria até que ele conseguisse me encurralar num lugar deserto para me estuprar? Quanto tempo até ele invadir minha casa? Eu estava cansada de andar olhando por cima do ombro, de não vestir as roupas que gostava com medo de encontrar com ele na rua, pensei que depois que ele soubesse do nosso namoro ele deixaria quieto, mas tudo piorou, Gabriel me avisou que você percebeu que ele mexia comigo, e o que ia fazer, ele se ofereceu para me ajudar se eu mantivesse você de fora por causa da proposta do time.
— A decisão não era de vocês. — Resmunguei amargurado, tentando não gritar para não a assustar como da última vez.
— A decisão era minha sim, você estava fazendo isso para me proteger, eu não podia permitir, mas não contava com a interferência do seu pai.
Ela riu cheia de amargura, sabia que a relação dela com meu pai havia se rompido depois que foi embora para o exterior e até onde eu sei eles ainda não se falaram, nem uma única vez.
— Naquela época eu subestimei a aversão dele sobre nosso namoro, ele me odiava, só escondia muito bem.
— Meu pai nunca te odiou, ele vive se gabando do seu sucesso, do quanto é determinada e inteligente e bem-sucedida.
— Eu só não era bem-sucedida naquela época — Ela me olhou com um olhar tão cru e sombrio que fiquei quieto. — Mas, mesmo sendo a mais inteligente e obstinada, mesmo assim ele não me aprovou. Ele me procurou uns 15 dias depois, disse que tinha as filmagens e que poderia destruir meu futuro se quisesse, nem ouvi o que ele tinha a dizer. Então ele me contou da dívida de jogo que o meu pai adquiriu, ele disse que me daria o dinheiro e ajudaria minha família, ainda assim eu recusei. — Ela engoliu em seco e começou a entrelaçar as mãos, o próximo passo seria roer as unhas, ela estava realmente nervosa.
— E o que te fez mudar de ideia?
— Ele ameaçou você, disse que não daria mais um centavo sequer, tiraria o carro e a moto. — Ela suspirou e desviou o olhar quando a panela começou a chiar. — Disse que falaria com quem conhecesse na cidade e impediria você de arrumar qualquer emprego que fosse, ele iria garantir que não conseguisse um emprego nem para limpar banheiros no açougue municipal, então eu aceitei.
— Você aceitou. — Sussurrei decepcionado, estava disposto a tudo por ela naquela época, a nossa situação era péssima, estávamos a ponto de fugir de casa, eu estava planejando fugir e ia contar tudo a ela quando arranjasse tudo. — Poderíamos ter dado um jeito, juntos iriamos conseguir, tudo ia...
— Tudo ia dar certo no final? — Ironizou erguendo a sobrancelha. — Isso não é um conto de fadas, Eduardo. Minha mãe trabalhava para o seu pai, nossas escolas eram pagas por ele, até mesmo a bolsa no cursinho foi uma cortesia dele, os b***s que eu tinha para ganhar uma grana por fora...? Tudo tinha a mão dele, então como iriámos sobreviver sem dinheiro e sem a possibilidade de um emprego? Ele iria ferrar com todos para me atingir, vi isso nos olhos dele, Edu.
Era verdade.
No fundo eu sabia que ela estava certa, mas aquela parte adolescente de mim, aquela que foi abandonada e deixada para sofrer a dor de um término ainda protestava e berrava que havia outros meios, mas sei que meu pai teria me ferrado e minha mãe não poderia ter feito nada, no casamento e no resto ela contribuía com a mão de obra, mas o dinheiro era gerenciado por ele e até completar 21 anos eu não poderia nem mesmo receber a herança que meu avô me deixou, então em termos simples, estávamos de mãos atadas.
— E depois, o que aconteceu? Por que não entrou em contato comigo?
— Bem, eu tentei. Mas quando me mudei para Teresina eu ainda dependia dele, e ele tratou de garantir que eu não conseguisse contato, trocou meu telefone, não conseguia contato no seu número, não conseguia falar com nenhum dos seus amigos, depois de arranjar um emprego eu me esforçava para guardar algum dinheiro para pagá-lo, mas era difícil, mesmo trabalhando a grana era apertada, eu tinha que comer e pagar o aluguel.
— Não acredito que sua mãe não te ajudou. — Protestei indignado, Laura me olhou como se eu fosse um i*****l.
— Minha mãe não sabia, ela nunca soube. — Ela soltou um suspiro exausto e serviu-se de mais vinho. — Mas o azar não dura para sempre, no último ano da faculdade a minha história havia se tornado famosa na plataforma de escrita, com a ajuda da professora Beatriz consegui vender meu primeiro livro e por um bom dinheiro, usei tudo para pagar seu pai, depois me inscrevi num programa que recrutava enfermeiros para o exterior, fiz um curso intensivo para aprender italiano, depois de me livrar da dívida contei a minha avô quando ela foi à cidade para um acompanhamento médico, ela me aconselhou a ir para o exterior e o final você já sabe.
— E depois? — Incitei, minha voz estava rouca, de tristeza e pesar por tudo que ela passou sozinha, ela não sabe que meu pai me mandou pra outra cidade, não sabe que ele me isolou lá na casa dos parentes dele, estávamos ambos isolados do mundo e impedidos de procurar um ao outro, e nem estávamos longe, apenas três horas e meia de carro, mas para quem não tinha recursos era como se estivéssemos a um oceano de distância. — Porque não me procurou depois, ainda não tinha acabado.
— Essa é a parte boa, quando você foi jogar no exterior tive um vislumbre de notícias suas, peguei o primeiro voo pra Barcelona, foi difícil, mas graças a minha irmã consegui seu contato e marquei um encontro através do seu empresário...
— Gabriel... — Sussurrei horrorizado, naquela época eu só pensava no futebol, ainda estava sem falar com meu pai e por tabela perdi contato com minha e meu irmão, Gabriel cuidava de praticamente tudo na minha vida, mas isso foi uns três anos depois que saí de Picos. — Ele sabia que estava atrás de mim?
— Ah ele sabia sim, e tratou de deixar claro que você não queria ver nem se eu aparecesse nua e com uma taça da champions league. — A garrafa acabou, ela sibilou e me olhou surpresa ao ver que tinha acabado com o vinho sozinha, conferiu o relógio e desligou o fogo, enquanto ela esperava o vapor sair, eu ruminava sobre o quão perto estivemos um do outro, totalmente ignorantes sobre essa proximidade... tão perto e tão longe, me exaltei quando a panela voltou a chiar ritmicamente. — Fui aos jogos, vi seu primeiro gol pelo time, ele tentou até me impedir disso, mas um dia ele apareceu no hotel em que estava hospedada e disse que me levaria até você, achei estranho, mas eu estava desesperada então o segui mesmo assim. Fui uma i****a.
— Como assim, para onde ele te levou?
— Para uma suíte de luxo em Madrid, você estava com o quê... — Ela fez uma cara pensativa e senti meu corpo gelar, meu Deus... Não. — Umas cinco mulheres?
Puta que pariu.
Ela viu aquilo?
— Laura...
— Não tem importância, você era solteiro e podia fazer o quiser sem dar quaisquer justificativas, o que me magoou de verdade foi ver Bianca entre elas, de todas as pessoas... Por que ela?
Perguntou com um sussurro quase inaudível, conseguia sentir a mágoa dela, Bianca ferrou com ela tantas vezes quando éramos mais jovens, fez um inferno durante nosso ano de namoro e... merda. Como diabos mesmo Bianca me convenceu a deixar ela subir pro quarto? Não me lembro de quase nada daquela noite, mas me lembro de ter recusado suas investidas, cada uma delas!
— Eu sei que é ridículo dizer isso dependendo do que você viu...
— Ah, não vi nada demais, apenas você fodendo uma morena enquanto ela fazia um boquete em uma loira peituda, e outras duas loiras se pegavam num canto, elas eram bem bonitas...
Meu estômago revirou, não tinha importância? Deus do céu, se eu visse ela fazendo algo parecido com algum cara furaria meus olhos com palitos de dentes, que inferno, não consigo nem pensar... a observei, ela estava rindo tão maliciosamente que percebi que ela também deve ter tido suas aventuras, não queria saber dessa merda.
— Eu não transei com Bianca.
— Você não pode saber, deve ter metido seu p*u em tantas que nem se lembra...
— Eu não fiz isso! — Rebati irritado e bati na bancada. — Não com ela!
— Não importa... — Disse ao se afastar para desligar o fogo.
— p***a! Pare de falar essa merda, se não importa por que diabos estamos tendo essa conversa, c*****o?
— Tem razão... — Concordou de má vontade, ela ficou ereta e seu olhar estava determinado. — Queria contar minha versão e me desculpar, já fiz isso.
Declarou ao pegar a garrafa, ela a colocou na pia, depois lavou o pote enquanto eu esperava, o que diabos ela estava fazendo? Ela colocou a cumbuca na bancada serviu o frango, era uma imitação de canja só que sem arroz, saiu detrás do balcão me deu uma colher, a segurei tenso e sua mão segurou meu braço com tanta suavidade que tive que olhar para confirmar que ela estava mesmo me tocando, ela sorriu um pouco.
— Sinto muito, de verdade... — Ela falava sinceramente.
Vi em seus olhos, no sorriso triste e cansado, suas mãos subiram pelo meu ombro numa carícia passageira, ela se virou para ir embora, mas quando sua mão ameaçou deixar meu ombro a segurei pelo pulso, ela me olhou surpresa, meu coração saltou ao notar o quão surpresa ela estava, Laura não esperava ser perdoada, ela iria aceitar tão facilmente que havia acabado? Eu fui mesmo tão convincente quando brigamos? Meu peito ficou carregado.
— Onde pensa que vai? — Sussurrei com a voz baixa e rouca que ela adorava ouvir, a puxei para o espaço entre minhas pernas e a beijei.