Laura
Dez anos atrás...
A viagem durou seis horas, a estrada estava péssima em alguns trechos e chegamos na cidade tarde da noite, por sorte como bons adolescentes que somos, sempre andávamos com alguma coisa para beliscar, todos ficaram aliviados ao ver a fachada do hotel, por sorte ficava perto do Teresina Shopping e quando enfim terminamos de pegar as malas estávamos esgotados, o calor úmido e insuportável de Teresina evaporou a energia de todos, portanto, o fato de termos chegado tarde demais para comer não afetou ninguém, todos estavam cansados demais para ficar m*l-humorados por causa de uma refeição perdida e queríamos muito descansar, ninguém queria fazer nada além de deitar na cama, ligar o ar-condicionado e dormir até esquecer o próprio nome.
O que não seria possível já que haveria um horário a seguir para conseguirmos fazer todas as refeições sem nos atrasarmos para os jogos, mas me preocuparia com isso amanhã, não participei da divisão dos quartos, seriam 5 no total, um para a equipe da escola, que se resumia a coordenadora, dois quartos seriam para as meninas, cada um abrigaria sete jogadoras, o mesmo valia para os meninos, mas dormiriam cinco em cada quarto e um grupo deles dividiria o quarto com o treinador, engoli um xingamento quando percebi que uma das capangas de Bianca havia ficado no mesmo quarto que eu, Marina e Karen, as outras ocupantes eram inofensivas, mas havia apenas uma mosca irritante com quem eu meu preocupava, Cibele.
Cibele era uma das discipulas mais leais de Bianca e não gostava nem um pouco de mim, na verdade, ela era a mais tranquila de todas as outras do bando, desconfiava que ela era apenas uma “Maria vai com as outras” e não nutria nenhum ressentimento pessoal contra mim, mas estar de boa comigo era a mesma coisa que estar contra Bianca, portanto ela fingia não gostar de mim e não a julgava por isso, ás vezes a escola é como uma selva e temos que fazer de tudo para sobreviver.
Ainda estávamos amontoados no corredor quando Edu se aproximou, todo de preto, o cabelo um pouco bagunçado, mas não de um jeito desleixado, lindo como aqueles motoqueiros bad boys que sempre estão com o cabelo sensualmente despenteado mesmo pilotando a quase 200km por hora, nada vence seu penteado, nem mesmo um capacete, às vezes eu odiava como ele ficava bonito o tempo todo enquanto eu estava parecendo o vômito de cachorro que foi expelido, engolido e expelido novamente.
— Quer ficar com meu fone? Sei que esqueceu o seu. — Perguntou com um sorriso melindroso enquanto colocava os braços ao meu redor.
Fiquei dura como uma pilastra, depois de um silêncio chocado todo mundo começou a soltar uivos e assovios, até que o treinador veio bufando nos dar uma comida de r**o daquelas, me virei furiosa para Eduardo enquanto ele estampava um sorriso descontraído para todos, mas seus olhos passavam uma mensagem diferente.
— Me avise quando acabar de mijar no poste. — Resmunguei tirando suas mãos da minha cintura, mas ele me puxou mais para perto me inclinando para trás quase a ponto de quebrar minha coluna.
— Chame do que quiser, mas se eu tiver que quebrar os dentes de alguém não será por falta de aviso. — Ele me beijou rapidamente e colocou os fones ao redor do meu pescoço.
— Uhuuu, olha o mais novo casal de pombinhos! — Alguém conclamou, parecia com a voz do Bruno, mas não me atentei, estava envergonhada demais.
— Até amanhã, Pitchula. — Despediu-se com uma piscada de olho tão charmosa que eu estava prestes a babar.
Me recompus quando vi Bianca me fuzilando com o olhar, cercada por suas seguidoras peçonhentas, completamente desgostosas e prontas para dar o bote, nossos olhos se cruzaram e sustentei seu olhar, o que ela podia fazer, me bater? Ela até podia fazer isso, mas não durante o jogo, muito menos durante a viagem, o que ela planejasse fazer teria de esperar até nosso retorno, até lá eu iria me satisfazer com sua cara azeda, sorri, é isso que dá roubar o namorado imaginário da menina mais barraqueira da escola, me virei para Marina quando ela veio em minha direção boquiaberta e balançando as chaves na mão.
— Temos muito o que conversar. — Declarou fingindo o dobro da irritação que tinha certeza de que ela estava sentindo.
— Abra a maldita porta e deixo tu sugar o máximo de informação até que eu caia desmaiada na cama.
— Fechado. Vamos Karen, temos que desencavar todos os segredos dessa ordinária.
— Me respeita, Marina!
— Calada, quem sonega informação não tem direito de defesa!
Karen começou a rir, aos tropeços entramos no quarto, dividi o beliche com Marina, fiquei na parte de baixo, depois de um banho rápido me sentei e contei a Marina uma história resumida sobre mim e Eduardo, ela parecia mais surpresa com a minha rendição aos encantos viris dele, e não com a pegação, namoro, o rolo todo! Diabos, nem sei em que classificação nos encontramos no momento, tenho que conversar com ele sobre isso depois.
— Sabia que isso ia dar em namoro.
— É mesmo?! — Zombei me esticando na cama e abraçando o travesseiro, já me acomodando na minha posição de dormir. — E o que foi que te levou a essa conclusão? Porque até anteontem isso era impensável pra mim.
— Pra cima de mim, Laura!? — Debochou com um olhar que dizia que ela não estava para brincadeira. — Nunca mencionei nada porque não queria me meter, sempre acreditei que éramos amigas o suficiente para compartilhar coisas assim, mas parece que não.
— Nunca tive intenção de esconder, Marina. — Expliquei por que ela parecia um pouco chateada, eu ficaria se fosse o contrário. — Aconteceu rápido, e meio que cedi as investidas dele há algumas horas então...
— Mulher isso é tão Jared e Tate.
— Quem?
— Jared e Tate, aquele casal do livro que livro que li, lembra?
— O que não foi traduzido?
— Esse mesmo!
—Você já terminou? — Perguntei surpresa porque ela demorava séculos para ler os livros que indicava.
— Já, li em dois dias, se meu inglês não estivesse tão enferrujado terminaria em um, mas sabe como é né!?
— Não, não sei. — Rebati indignada. — Com certeza deve ser um livro de p*****a.
— E cinquenta tons de cinza é o quê!?
— Há toda uma história sombria por trás do Christian, tenho certeza!
— Ah tá, e o fato dele ter um passado sombrio justifica a deturpação dos desejos sexuais dele?
— Jesus Cristo, não vou me enfiar em um debate literário a uma da manhã, Marina.
— Ótimo, porque você iria perder. — Declarou com uma certeza absoluta e me abstive de rebater, não iria dar corda para aquilo porque precisava mesmo dormir. — Enfim, apesar dos pesares a história é parecida, Jared é um bad boy que faz uma porrada de cagadas com a Tate, eles eram amigos quando crianças e se odeiam na adolescência, mas tem toda aquela atração louca e...
— Chega, Marina. Já entendi. — Murmurei exasperada e joguei um travesseiro nela.
Karen se remexeu do outro lado em seu beliche e percebi uma luz refletindo em seu rosto, ela ainda estava no celular e usava fones, então não a estávamos incomodando, as outras meninas estavam terminando de se aprontar para dormir e ainda tínhamos algum tempo, mas minhas pálpebras ficavam cada vez mais pesadas.
— Acho que não irei ler um livro que romantiza o bullying.
— Não é isso. — A encarei erguendo as sobrancelhas. — Olha, me parece uma história muito próxima da realidade, quantos adolescentes sabem o que realmente sentem? Quer dizer, nós estamos descobrindo tudo, inclusive sobre nós mesmos. Então, não acho absurda uma história que retrata a descoberta do amor de dois jovens que eram amigos, depois inimigos e consequentemente amantes.
— Spoiler!
— Você disse que não ia ler!
— Pensei que estava tentando me convencer!
— Merda, não foi um spoiler comprometedor. — Justificou, bocejei, um bocejo longo e vigoroso como o de um felino. — Olha... só vai com calma tá? Foi ele quem tirou seu BV, então...
— Então...?
— Sei lá... — Ela coçou a testa, foi a primeira vez que a vi sem jeito para dizer alguma coisa. — Não vá com muita sede, há muitas botijas de onde pode beber, sabe.
— Meu Deus, Marina. Nós só... — Parei franzindo o cenho. Também não sabia como me expressar. — Só estamos curtindo o momento, é só um lance...
— Não é não, gata. — Ela se levantou e puxou a coberta da cama de cima. — Ainda lembro o olhar de psicopata dele quando a professora sorteou o Herbert para ser seu parceiro no baile do ABC, tínhamos oito anos e nunca esqueci do rosto dele quando a professora anunciou os nomes, me deu arrepios.
— Para com isso, foi coisa de criança, tudo é intenso quando somos menores, uma vez quebrei um brinquedo dele e ele chorou horrores e disse que me odiava, talvez daí tenha nascido nossos problemas, ele começou a ser bem babaca depois disso.
— Não foi depois disso, foi depois que você disse que gostava do Herbert.
— O quê? — Perguntei me levantando e batendo a cabeça na cama de cima, me sentei enquanto meu couro cabeludo ardia e Marina se acabava de rir enquanto se deitava na cama.
— Olha, aquele cara sempre esteve de olho em você, Ana. Antes mesmo de sabermos resolver contas com mais de duas casas decimais — Ela suspirou. — Só, toma cuidado. — Alertou e se virou para parede, dez minutos depois ela estava roncando.
Fiquei pensando naquela época, Herbert nunca mais falou comigo depois do baile, mudamos de escola e eu fiquei arrasada, na época eu m*l vi Eduardo no baile, ele e os pais foram para a cerimônia é claro, eles são meus padrinhos e alugaram o vestido numa daquelas lojas que trabalham com trajes sociais, era de um tecido que me dava coceira, tinha uma parte branca e rendada no peito, era rodado com estampas num padrão de rosas brancas sobre um tecido vermelho, era bonito e incômodo, como toda roupa de criança tende a ser.
Aquele foi meu último ano na escola da Tia Karolina, estudei lá do jardim de infância até a alfabetização, depois disso fui para uma escola pública e Eduardo e Marina foram para o Santa Isabel, mas eu nunca mais tive notícias de Herbert, nossas mães se conheciam e eles moravam no único prédio residencial do nosso bairro, mas além de um vislumbre dele na igreja aos domingos, não tivemos contato.
Isso era obra de Edu? Não.
Me recuso a acreditar que uma criança de nove anos tenha tanto poder de persuasão, meu celular vibrou embaixo do travesseiro, abri as mensagens sorrindo, por falar no diabo...
— Está acordada?
— Estou.
— Posso te perguntar uma coisa? — Meu coração começou a bater mais rápido.
— Pode.
— Estamos namorando?
Santa Maria...
Meu coração batia enlouquecido, percebi que a única iluminação vinha do beliche de Karen, ela ainda estava acordada, provavelmente ainda ouvindo música, o celular vibrou em meu peito e quase soltei um grito.
— Laura?
— Pensei que estávamos ficando?
—Nós estamos, mas eu quero mais
Minhas tripas deram um nó, um nó cego com certeza.
Isso estava fugindo do meu controle, eu nem havia contado para minha mãe que beijei um garoto, começar um namoro parecia demais, uma mentira grande demais e não queria ter isso nas costas.
— Podemos ir com calma?
Sugeri.
Esperei alguns minutos e nada, ele deve ter ficado chateado, minhas pálpebras estavam quase se fechando quando a resposta chegou.
— Tudo bem.
Pelo tom da resposta percebi que ele não gostou nada da minha resposta, ele não costumava usar ponto final em suas frases, era uma característica curiosa, ou talvez como escritora amadora eu apenas seja obcecada com sinais de pontuação, talvez por isso tenha tentado puxar conversa.
— Qual sua banda favorita?
— Você não sabe?
— Acho que sei, mas você passou por muitas fases e não quero errar.
— Rsrs, ainda é Linkin Park e a sua?
— Não sei, Red Hot Chili Peppers?
— Uau. Você ainda tá nessa?
— Algum problema com meu gosto musical?
— Não, Pitchula... seu gosto musical é único, como você
Suspirei, eu andava suspirando muito ultimamente, a luz do celular de Karen se apagou, escutei um leve farfalhar de lenções, ela estava indo dormir.
— Queria te beijar
— Você me beijou, seu exibido.
— Queria te beijar mais...
— Onde?
Não foi uma pergunta maliciosa, percebi o duplo sentido apenas depois de enviar e a resposta mandou para o fundo do rio Poty.
— Em qualquer lugar que vc deixasse...
Em qualquer lugar... Minha nossa.
Tenho certeza de que ele não estava falando da parte de trás da minha orelha.
— Devo me esgueirar até seu quarto?
— Acho melhor não, Cibele está aqui e ela é amiga de Bianca, com certeza me deduraria.
— O que Bianca tem a ver com isso?
— Você sabe.
— Que merda, estou cagando para ela.
Vc não me deixou te beijar nenhuma vez no ônibus
Estou com saudade
— Se você fizer um gol amanhã, eu te beijo.
— Um gol por beijo?
— Sim, e se o gol for bonito poderá ganhar um bônus...
— Que bônus é esse?
— Saberá se for um gol digno.
— Vc é má
Sorri e me espantei ao ver que já passava das duas da manhã, trocar SMS é viciante.
— Gosto quando é má, é sexy
— Posso fazer uma pergunta?
Uma coisa ainda martelava em minha cabeça, o aviso de Marina, o momento era oportuno e precisava cortar o clima dessa conversa.
— Pode, sou seu para fazer o que quiser, Pitchula
A resposta espalhou uma onda de calor em partes que seria melhor manter quietas e não tão úmidas.
— Desde quando gosta de mim?
— Desde sempre
A resposta me deixou muda e inquieta, desde sempre, pensei numa resposta espirituosa, mas o sono chegou primeiro.
...
Logo que acordei percebi que havia algo errado, fui escovar os dentes, quando coloquei pasta na escova meu estômago embrulhou e minha boca encheu de saliva, esse é o estágio pré-vômito, ou pré-infecção alimentar, esperei até passar e escovei os dentes torcendo para ser só isso, minha mãe havia me alertado sobre não tomar água da torneira pois diziam que a água de Teresina era diferente, algum produto que colocavam na estação de tratamento ou apenas superstição, mas por via das dúvidas na pequena caixa de isopor que ela preparou haviam várias garrafas de água mineral.
Eu só bebi água de lá, coloquei a água no pequeno frigobar do quarto, ignorei o mau pressentimento e terminei de me arrumar, o nosso jogo seria no final da manhã, logo depois da partida de futsal dos meninos, portanto daria tempo de tomar café e voltar antes que o horário do almoço acabasse.
Cibele foi a primeira a sair, não disse uma palavra para mim, mas falou com as outras, quando estávamos vestidas para o café da manhã saímos do quarto em direção ao refeitório, mas quando cheguei perto das portas a ânsia me dominou, só tive tempo de me virar um pouco para o lado, mas acabei acertando a pessoa que estava passando do meu lado.
— Argh! Que nojo! — Alguém comentou.
— Tudo bem, Laura. Está tudo bem... — Marina murmurou enquanto a mão subia e descia num acariciar reconfortante nas minhas costas.
— Tudo bem uma ova! Olha o que essa vaca fez comigo!?
Consegui erguer a cabeça, e percebi que tinha vomitado em Bianca, nos sapatos dela, Marina a olhou de cima a baixo com um desprezo agudo e disse.
— Não pode culpá-la por errar, da próxima vez ela acertará o seu rosto com certeza, ela tem uma mira excelente.
Abri a boca para me defender, mas ela se inundou de saliva novamente, Bianca se afastou enojada e me curvei para a frente esvaziando complemente o que restava de alimento no meu estômago, o cheiro do refeitório estava me matando, o treinador chegou e me levou até o corredor externo, onde havia uma brisa, uma brisa quente e abafada que parecia vir das fornalhas do inferno, Picos era quente, mas Teresina era uma prévia do inferno tinha certeza, o clima era úmido e abafado, bem diferente do calor seco da minha cidade, não protestei quando ele me ajudou a sentar em um estofado de madeira no corredor, fechei os olhos quando outra náusea arrepiou minha pele, fechei os olhos e encostei a cabeça na parede.
Escutei passos apressados, abri os olhos e a coordenadora da escola estava vindo, atrás dela estava Marina e atrás desta, estava Edu, ele me olhava com um misto de preocupação e frustração, bastou uma troca de olhar para aliviar uma parte de seus sentimentos, mas esse olhar não passou despercebido a coordenadora que se virou com olhos condenatórios para ele e depois para mim.
— Você está grávida?!
Eduardo ficou vermelho, não de vergonha, mas de raiva.
Todos ficaram em silêncio enquanto aquela megera de um metro e meio me encarava, com aqueles olhos de urubu, por que a maioria das pessoas julgavam que uma adolescente passando m*l era sinal de gravidez? Por um momento pedi a Deus para mandar outro jorro de vômito, faria questão e mirar na cara insonsa dela.
— Não. — Grunhi. — Não estou grávida.
— Espero que não. — Rebateu desdenhosa, fazendo pouco para esconder sua descrença, ela desapareceu e Edu tentou se aproximar, mas o detive com um olhar, não queria que os boatos se espalhassem e se ele ficasse ali era isso que iria acontecer.
— Melhor vocês irem tomar café enquanto ainda está sendo servido.
Marina sentou-se ao meu lado e não arredou o pé, Eduardo fez uma careta teimosa, o professor provavelmente conhecendo a peça e sentindo que ele não arredaria o pé dali, colocou uma mão no ombro dele, num gesto paternal, era uma relação reconfortante que ele tinha com todos os jogadores dos times da escola, pelo menos era assim que eu via, mas talvez eu só fosse carente de atenção paternal.
— Vá tomar café, eu e a coordenadora vamos cuidar dela, prometo.
Ele não iria, belisquei Marina e ela me encarou com as sobrancelhas erguidas, numa pergunta gritante de "O QUÊ?" tentei não fazer careta ao indicar Edu com o queixo, a boca dela se abriu em choque, mas ela se recuperou em seguida e como boa amiga que entende tudo apenas com o olhar ela se levantou e segurou Edu pelo braço.