Laura
Dias atuais
Sabe o que não te contam sobre a vida adulta? Sobre as dúvidas.
Ninguém fala sobre os permanentes questionamentos que temos a respeito do nosso propósito no mundo. Esse é o meu melhor? Onde quero estar daqui a alguns anos? Quando estarei satisfeita com as minhas conquistas? O quanto é suficiente...?
Quantos amigos são o ideal para manter?
A qualidade de tais amizades é importante?
Tenho bens materiais suficientes?
Devo trabalhara ponto de não cuidar da saúde...?
Quando irei me sentir totalmente bem resolvida com as minhas questões pessoais? E quando estarei total e completamente realizada com o meu trabalho? Aos 30, 40 ou 60 anos?
Não tenho resposta para a maioria dessas perguntas, e acredito que não há uma resposta correta e padronizada e mesmo quando há, não é garantia de satisfação, cada um é cada um, é uma frase sem sentido e completamente divergente, mas é uma frase que diz muito, nunca me considerei depressiva ou fragilizada emocionalmente, mas descobri que sou traumatizada.
Descobri na terapia que não confio em ninguém por que sempre resolvi tudo sozinha, é um instinto de sobrevivência, uma armadura de aço que vesti e da qual não consigo me despir, também não considero as opiniões da minha mãe válidas, principalmente sobre relacionamentos, porque nunca respeitei a sua escolha sobre o meu pai, nunca encontrei nele as qualidades que ela diz que um dia viu, e mesmo que ele as tenha possuído de fato, nunca compreendi essa dívida de gratidão que ela tem com ele, para mim nada justifica os anos de abuso, nem a ausência ou o completo desinteresse sobre a vida das filhas.
Eu não entedia como uma mulher ainda bonita e inteligente o suficiente para aprender uma profissão aos 28 anos e tirar seu sustento dela, continuava ao lado de um homem que não era provedor, educador e muito menos acolhedor, ou seja, não era companheiro, amigo, amante e nem pai, ele sempre usava e abusava do título paternal, ficava ressentido quando não era realizado um churrasco no dia dos pais ou quando esquecíamos o aniversário dele -o que aconteceu a primeira vez quando eu tinha 15 anos e não foi esquecimento, sabia que dia era, mas eu estava me vingando por que ele havia esquecido do meu, e os 15 anos de uma garota, por mais avessa e indiferente e pouco feminina que seja, ainda é uma data especial.
O fato é, as escolhas da minha mãe me afetaram de uma forma que eu não entendia até recentemente, nunca conversamos sobre isso, mas era uma coisa que às vezes ficava implícita nas nossas conversas por telefone, pairando como uma nuvem n***a de tempestade, o relacionamento dos meus pais impactou as minhas atitudes de formas peculiares, tão sutis que nunca percebi até que a minha psicóloga esmiuçou cada mísero relacionamento que tive, por mais breve que fosse.
Eu nunca servi comida para nenhum namorado.
Eu nunca me envolvi com alguém que bebesse mais que uma garrafa de vinho.
Eu não me envolvia com pessoas que não cuidassem da própria higiene.
Eu nunca me envolvi emocionalmente com ninguém que a minha mãe aprovasse.
Eu não deixava ninguém gritar comigo, mas ocasionalmente gritava com as eles.
Eu não deixava ninguém me chamar de desleixada, nunca.
Jamais.
Eu odiava o meu aniversário.
Sempre gostei de ser no Halloween, mas o que realmente odiava eram as comemorações, porque todos os anos presenteávamos o meu pai, mesmo quando não podíamos fazer um churrasco, tínhamos que homenageá-lo de alguma forma, mas minha mãe até mesmo esquecia o dela, lembro de uma vez ter comprado um enfeite de estante, era um cisne de porcelana que comprei com o dinheiro dela, e quando eu e Louisa entregamos, ela ficou totalmente surpresa, não aquela surpresa fingida que as mães encenam quando recebem um presente pelo qual pagaram, ela ficou surpresa por que havia esquecido o próprio aniversário, aquilo me quebrou, estilhaçou o meu coração em tantos pedaços que até hoje ele parece uma coisa remendada com durex.
Depois daquele dia eu passei a odiar comemorações de aniversário, ela sempre fazia questão de nos parabenizar primeiro, sempre se esforçava em trazer um bolinho da padaria nem que fosse para comermos apenas com algumas amigas, sempre comprava coisas para o meu pai e mandava que entregássemos para ele, mas aquela mulher havia esquecido o próprio aniversário, eu odiava o meu pai por torná-la tão relapsa, por não lembrar e não fazer questão de presenteá-la, odiava mais por fazê-la esquecer de si mesma.
Eu não falo com ele há nove anos, e não sinto culpa nenhuma.
Não sei por que sempre me vejo envolvida em questões profundas quando escrevo e quando escuto determinadas músicas, é quase como se os meus problemas me inspirassem a escrever, nessa parte faz sentido que Eduardo funcione como inspiração por que ele sempre foi sinônimo de problema para mim, já estou quase finalizando o capítulo dez da continuação do meu terceiro livro quando uma brisa quente sopra da janela, os meus olhos se desviam da tela do computador apenas o suficiente para apreciar a lua, sempre adorei admirar a noite, o céu fica tão lindo e misterioso, há um silêncio tenso e abafado nos meus fones no intervalo para a música ser repetida.
Havia um motivo para não ter voltado aqui por dez anos, o motivo tinha nome, sobrenome, quase 2 metros de altura e coxas suculentas demais para o próprio bem dele, e é graças a ele que estou escrevendo há uma hora, deixei um roteiro para os próximos 25 capítulos, praticamente finalizei o segundo volume da trilogia, e tive ideias sobre o encerramento no terceiro livro, a minha mãe tinha razão, ele me inspira.
As ideias jorram do meu cérebro como um gêiser, a música funciona apenas para clarear a minha mente e focar os meus esforços, às vezes uso fone e outras não, a única constante é que o volume tem que ser alto o suficiente para calar as vozes indesejadas, aquelas que me sabotam.
O modo repeat está ativo e Daddy issues explode nos meus ouvidos pela milésima vez, os meus dedos afoitos e furiosos teclam rapidamente tentando acompanhar o fluxo dos meus pensamentos, mesmo assim eu o sinto olhando para mim, não faço ideia de quando chegou, sei que entrou pela janela que deixei aberta, pois a porta estava trancada, e ele conseguiria atravessá-la facilmente subindo no muro que ladeia o corredor externo da área de produção da padaria.
Finalizo uma última linha de pensamento, pauso a música e me viro avaliando o quarto na penumbra da luz quente da escrivaninha, leva cinco segundos para que eu o encontre no canto escuro praticamente atrás da porta fechada do quarto, completamente vestido de preto, os braços cruzados na altura do peito e com a expressão mais furiosa que já vi em seu rosto, e então sei que simplesmente estou na merda, e tenho total culpa disso, por isso tiro os fones em silêncio e giro a cadeira para ficar de frente para ele, dar a minha total atenção é só o que posso fazer, pois ele não ficará satisfeito com nada do que tenho a dizer, inspiro fundo ao sentir a tensão que emana dele.
— Pensei que tivesse perdido esse mau hábito. — Provoquei.
Silencio.
Suspirei e me virei na cadeira, me arrepiei ao ver o olhar frio e cortante de Eduardo.
— O que está fazendo?
— Como assim? Agora? — Ele balançou a cabeça devagar negando, ainda sério.
— Por que veio, Ana Laura? Depois de tanto tempo... — Odiava quando me chamavam de Ana Laura, só quem me chamava assim era minha mãe, quando estava fula da vida comigo, Eduardo tinhas esse mesmo mau hábito, engoli a irritação e respondi, tentei responder com gentileza.
— Minha avó disse...
— O c*****o que foi... não veio por causa disso, ela diz que vai morrer há anos e isso nunca foi suficiente para fazê-la voltar.
Suspirei, ele estava certo, minha vó tinha certo talento para o drama quando queria usar como arma.
Tá certo, sem mentiras então.
— O meu plano era vir aqui, ver a minha família, ter conversas inteligentes com as minhas amigas, me exibir um pouco, mostrar o quanto sou rica, bem-sucedida e feliz. — Ele fez uma careta reprovadora. — Não tenho vergonha em admitir que me gabo disso, acho que é normal fazer coisas assim ao ter um passado infeliz.
— Não foi totalmente infeliz. Pare de falar como se o tempo em que viveu aqui fosse uma merda sem salvação.
— Não, não foi. — Dei um sorriso triste. — Isso torna tudo pior, não é? Sei que não merece porque tornou tudo mais tolerável para mim, mas ainda assim quero magoá-lo, mesmo sabendo que você foi minha rocha quando eu me senti mais fraca.
— Então deve se considerar vitoriosa, porque acabei de saber que cravou um punhal nas minhas costas. Você me magoou, sempre teve esse poder porque o meu coração sempre foi seu, e você sempre fez o que quis com ele, não n**a porque eu tenho consciência que muitas vezes usou esse sentimento para me manipular. Naquela noite...
Eu sabia a que noite ele se referia, vi a sua garganta engolir em seco, os seus lábios tremerem.
— Sim, eu traí você.
—Você... por quê? — Ele cospe a pergunta e o desprezo embutido nela me faz engolir em seco.
Eu e Eduardo temos algumas coisas em comum, dentre elas a que mais odeio é a mania de ser c***l quando estamos magoados, é como se fosse um mecanismo de defesa e as vezes fazemos até sem perceber, pelo menos comigo é assim. Odeio agir assim e odeio ainda mais quando sou vítima disso e só pelo tom dele, sei que será uma conversa dolorosa e humilhante, tento colocar um pouco de suavidade no meu tom quando finalmente respondo.
— É a minha natureza, Eduardo. — Conseguia ouvir as lágrimas na minha voz, me perguntava se ele conseguia também. — Sou uma pessoa r**m. Eu disse que era egoísta e que sempre me colocaria em primeiro lugar, avisei você... eu...
Ele se desencostou da parede, caminhou desnorteado pelo espaço pequeno entre a minha cama, a escrivaninha e a porta, parou, me olhou bem nos olhos, passou a mão nos cabelos com um desespero angustiante e me encarou com olhos úmidos.
— Por quê? — A sua voz era um fiapo rouco, aquilo me encheu de angústia, mas eu não me arrependia, faria tudo de novo, meu único arrependimento foi não ter confessado antes. — Sempre fiz tudo por você, arrisquei a minha carreira por você! E você foi lá e me acusou de algo que nem cheguei a fazer! Algo que nem sei quem fez!
— Eu sei. — Admiti num sussurro espremido. — Nunca precisei ser salva, disse várias vezes a você. — Respirei fundo, nunca havia contado a ninguém sobre aquela noite, sobre o crime que cometi. — Fui eu quem ataquei o g**o naquela noite.
— O quê? — Estremeço ao sentir o horror na sua voz, mas é tarde demais para me sentir enojada com o meu crime e envergonhada pelo julgamento alheio.
— Eu descobri o que você ia fazer, arrumei um jeito de te manter na padaria, eu atraí g**o até o terreno baldio, Gabriel também estava lá, me ajudou a cavar um buraco, mas fui eu quem bati nele, fiz tudo com a ajuda de um pedaço de p*u e não parei até que ele desmaiasse, — Ele balançou a cabeça como se não acreditasse nisso. — E quando fui levada a delegacia porque me viram na garupa de Gabriel, eu disse ao delegado que foi você e que eu apenas o atraí aquele canalha até lá.
Ele estava sem palavras, me encarava horrorizado, pálido e completamente congelado.
— Por quê? Eu teria assumido a culpa se me dissesse, não precisava disso... — Disse em desespero e percebi que havia perdido o controle quando ele passou a mão pelo rosto vermelho e gritou. — Eu sempre te protegeria, então por que fez isso comigo, p***a!?
Estremeci, odiava quando gritavam comigo, culpa transpareceu em seus olhos e ele se encostou na parede de ombros caídos e parecia completamente envergonhado e arrependido, mas eu merecia os gritos também, merecia toda aquela fúria.
— O seu pai. — Sussurrei. — Ele descobriu sobre nós, soube da proposta que recebeu do teime do Recife e que você iria pra lá participar de uma peneira, ele queria que você fosse fichado, na verdade, ele insistiu para que o delegado de prendesse e mantivesse você em cárcere durante 24 horas para que perdesse a peneira...
— Chega. — Me cortou.
— Ele me deu opções... eu escolhi...
— Chega! — ele disse com tanta raiva que me emudeceu.
— Você precisa entender que...
— Não preciso entender nada, Laura. — Sussurrou e a derrota na sua voz me fez prender a respiração me preparando inconscientemente para o golpe, é curioso como eu sempre sabia que o que ele diria a seguir iria me magoar. — A única coisa que sei é que você é mentirosa e c***l, eu teria te ajudado, acharíamos uma saída juntos, mas você escolheu isso, preferiu me tirar da sua vida e fazer as coisas sozinha, não teve um mínimo de consideração enquanto eu estava virando a minha vida do avesso para poder ser merecedor de ter você, para ganhar dinheiro o suficiente para te dar o melhor para enquanto construíamos uma vida juntos.
— Eduardo, a minha intenção nunca foi te machucar...
— Volte para Itália, Laura. — Ele cerrou os dentes, os meus olhos lacrimejaram de tal forma que ele ficou embaçado na minha visão enquanto abria a porta. — Não estou mais esperando por você, pode ir embora porque eu não quero mais olhar para sua cara, ela me dá nojo.
Eu não conseguia respirar.
Não me movi quando o ouvi bater à porta da sala, não me movi quando a porta do apartamento dele se abriu e fechou em seguida, nem na segunda vez quando ela bateu de tal forma que estremeceu os meus ossos, o meu corpo tremeu quando ouvi pneus cantando na rua e o barulho do motor da moto se afastando, aquele era o som do abandono, Eduardo estava me deixando e agora era pra valer, era a primeira vez que aquilo acontecia e me pergunto se ele se sentiu assim quando o deixei, o pensamento deixou o meu peito apertado, eu m*l conseguia respirar e percebi que merecia aquilo também.
Havia decidido lutar, mas talvez tenha causado danos demais para conseguir salvar alguma coisa entre nós, e pela primeira vez em dez anos não tinha um plano, não sabia como fazê-lo me perdoar, e mesmo que soubesse acho que não tentaria porque isso não era tudo, escondi coisas piores e se ele reagiu assim a isso, não há esperança para nós quando contar toda a verdade a ele sobre tudo o que realmente aconteceu há nove anos.
Não há esperança para mim, para nós... e desmoronei no chão, me permiti ser tomada por desespero porque tarde demais me dei conta do que era valioso e indispensável para mim, chorei e solucei com a cabeça curvada e me lamentei por ser quem eu sou, por desperdiçar tanto tempo, por não dizer a verdade antes, teria sido diferente se eu tivesse contado antes, sei disso, agora tudo estava perdido.
Mas eu era boa em me recuperar, em juntar cacos e transformar em motivação para ir em frente, mas por que agora isso parecia tão impossível?