Laura
10 anos atrás...
As pessoas costumam dizer que é impossível saber o que se passa dentro da casa de cada um.
Mas na minha rua a minha casa era única que não se enquadrava nisso, a essa hora a cidade inteira sabia que eu não iria na viagem, o meu pai gritava aos quatro ventos que eu não iria, que a filha dele jamais dormiria for de casa, muito menos iria fazer isso em outra cidade com um monte de moleques... a filha dele não era uma vagabunda ou uma sem-vergonha sem pai e mãe, a filha dele era diferente... o que isso quer dizer?
Eu beijei um menino.
Eu fiquei nua na frente desse menino.
Eu deixei que esse menino me tocasse -de formas que sei que o meu pai não toca a minha mãe, diacho, eles nem mesmo dormem juntos - e tudo isso no mesmo dia.
Então, o que sou? Uma p**a? Não, uma p**a é paga para fazer o que faz, eu não fui paga.
Não que eu queira dinheiro, mas fiz tudo isso de graça, com o primeiro menino que se aproximou de mim, isso me torna pior, algo dois níveis abaixo de p**a, deveriam criar um palavrão terrível para me classificar.
Eu era uma desgraçada mentirosa, meu pai tinha razão, abri minhas pernas para um menino e nem foi preciso dormir fora de casa, foi em plena luz do dia, ele tinha razão, foi com esforço que ergui a cabeça, a minha mãe encarava-me com um olhar de quem sabia que eu escondia algo, desviei o olhar e resignei-me a encarar o relógio da parede com a seleção de 1998 do time do Corinthians.
Eu queria que ele parasse de gritar.
Eu queria que o relógio parasse, se não eu iria me atrasar.
Eu queria que o tempo passasse rápido, que a cachaça fizesse efeito e o meu pai fosse dormir logo.
Eu queria acabar com isso e ir para a viagem.
Merda, eu só queria que ele parasse de gritar.
Gostaria de dizer que sou uma pessoa introspetiva por que gosto de ficar em casa e sozinha, até gosto de ficar sozinha, mas dizer que gosto de ser solitária o tempo todo? Isso seria uma mentira, mas se eu quisesse sair, ir às festas como as adolescentes da minha idade, ir à casa das amigas, dormir fora... se eu quisesse essas coisas, teria de enfrentar brigas como esta, e faço de tudo para evitar brigas como esta, ou para evitar fofocas que causariam brigas como esta. Portanto, eu me tornei introspetiva e solitária, porque é mais fácil ser assim.
— Ela é minha filha, p***a! — berrou e bateu a mão contra a porta que balançou com um barulho horrível.
Foi impossível não me encolher onde estava sentada numa cadeira de macarrão, tentei controlar a minha raiva, tentei não fazer cara feia enquanto encarava o homem atarracado que me encarava com olhos escuros e furiosos, iguais aos meus, ou melhor, os meus olhos eram iguais aos dele.
Engoli a raiva e tentei me acalmar enquanto as minhas mãos tremiam, precisava manter uma expressão de filha obediente se quisesse permissão para viagem, a minha mochila ja estava pronta e precisava sair em meia hora ou iria perder o ônibus.
— Eu sou um moleque por acaso?! — comecei a preparar os ouvidos, ele iria começar com aquele discurso de novo, odiava esta parte, foi quase impossível não abraçar as pernas e balançar o corpo, mas percebi que não estava no controle quando a minha perna ganhou vida e começou a bater contra o chão esverdeado e encerado. — Eu sou um homem!
Meu Deus, faça ele parar.
Faça ele parar.
Faça ele parar.
Faça ele...
Uma pancada soou através da porta, a minha mãe se levantou e antes que abrisse a porta completamente minha avó entrou, uma mão na bengala e a outra se apoiando na minha irmã, que tinha olhos tão arregalados e brilhantes que parecia prestes a chorar.
— Que d***o de zuada é essa, Dito?
Dito, era o apelido de Benedito.
Benedito Macedo da Silva, o mais velho de seis irmãos e irmãs, marido e pai, um ex-mecânico, atualmente servente de pedreiro e ocasionalmente caçador, a maior parte do ano para ser precisa, ele é um problema quando está bêbado, e ele bebe com frequência, não abundantemente, mas basta uma gota de álcool e ele virava um bicho, uma outra pessoa, mais bruto, mais ignorante e agressivo.
Eu o odeio a maior parte do tempo, quando ele está bêbado é pior, odeio a forma como ele denegre a minha mãe, odeio os pensamentos e ordens machistas que ele impõe a nós e odeio ainda mais o fato da minha mãe ficar calada, inanimada, e ainda casada com ele depois de anos aturando isso.
Algumas crianças têm pesadelos a respeito da separação dos pais, eu sonhava com a separação dos meus, mas minha mãe nunca faria isso, ela continuaria aguentando, aguentando e eu odiava que ela era tão resistente, odiava por que de acordo com seus princípios uma mulher deve manter o seu casamento, não importa se seu marido é um bêbado insuportável e vive a suas custas como um parasita, até que a morte os separe é assim que vocês irão viver, entendo isso hoje, mas ainda não compreendo.
Ela me dava tantos conselhos: Seja independente e não dependa de um homem.
Não deixe um homem gritar com você.
Não deixe um homem te desrespeitar.
Não deixe um homem te bater.
Não arrume um homem que beba.
Ela só praticava um desses conselhos, o meu pai nunca bateu nela ou em nós, mas se pudesse escolher eu pediria por uma surra física ao invés da surra de palavras que ele dava na minha mãe todos os dias quando ela chegava do trabalho, ás vezes começava por um motivo bobo, a louça suja, uma roupa que estava há muito tempo de molho, alguma parafernália dele que havia sumido, um arroz queimado, tudo era motivo para esculhambar minha mãe quando ela chegava exausta do trabalho, mesmo assim ela ainda cozinhava, colocava a comida no prato e servia nas mãos dele, ficava com muita raiva daquilo, fico com raiva o tempo todo.
Eu estava sempre com raiva quando ele estava em casa, só ficava em paz quando ele saía pra caçar no interior e ficava na mata por meses a fio, meses que significavam paz e liberdade para nós.
A sua presença significava, gritaria, brigas e raiva.
Quando fazíamos algo bom, notas boas e coisas do gênero éramos filhas dele, um deslize e nos tornávamos apenas filhas da nossa mãe.
Meus olhos lacrimejaram, a minha garganta oscilou quando a minha avó deu outro passo, a cara fechada prestes a cuspir ordens que eu sabia que ele obedeceria, parecia que o meu coração havia criado asas de tão leve.
— Está surdo é? — Perguntou incisivamente. — Que escândalo é esse? A rua toda está ouvindo!
— Mamãe, volte lá pra baixo isso é assunto meu!
— Agora é assunto de toda a rua. Ande, desembucha!
— Ele não quer deixar Laura ir à viagem pra Teresina.
A minha avó me encarou, olhou o meu pai, e pude jurar que ele se empertigou com o olhar fulminante dela.
— Pegue as suas coisas e vá antes que se atrase. — o meu coração deu um solavanco.
— Ela não vai pra lugar nenhum!
— Ela vai sim! — protestou batendo a bengala no chão e congelei no meio do movimento de me levantar da cadeira.— Essa menina estuda, trabalha, faz cursinho, cuida de nós e ainda arrumou tempo pra ganhar esse campeonato. Você não assistiu nenhuma partida, ao menos sabe o esporte que ela pratica?
Silêncio.
Ele não sabia.
Ele não sabia nem a data do meu aniversário, muito menos o esporte que praticava, ele bufou, saiu da sala pisando duro e passando a mão na cabeça.
— Foi o que pensei. — Disse resignada e se virou para mim. — Pegue as suas coisas e vá, boa sorte menina.
Eu corri e peguei a minha mochila, me despedi da minha mãe, irmã e da vovó e quando desci as escadas encontrei meu pai sentado numa cadeira na ponta da calçada da casa debaixo com uma garrafa pet de 2 litros de água, ainda com gelo dentro, ele olhava pra frente e bufava indignado, estava furioso.
— A Bênção pai.
Pedi, ele ignorou-me e eu me odiei por ainda tentar arrancar alguma aprovação dele, por que os filhos sempre buscavam a aprovação dos pais de alguma forma? Odiava isso, odiava tentar agradá-lo quando ele apenas fazia toda a família sofrer.
Quando ele estava assim nada o amolecia, suspirei indignada e subi a ladeira correndo, eu precisava me apressar se não…
Congelei quando cheguei ao topo, do outro lado Eduardo encarava-me de braços cruzados e com uma expressão fechada, estava encostado na picape enquanto olhava para frente, para o barranco perto da ladeira, quatro casas abaixo estava a minha casa, percebi seus dedos cravados nos bíceps, a mandíbula tensa, parecia prestes a quebrar, qual o problema? Ele conseguiu ouvir a discussão daqui de cima?
Ele piscou como se estivesse saído de um transe, o rosto impassível ao me encarar, ele me avaliou rapidamente e grunhiu ao fazer uma careta que não consegui interpretar.
— O que está fazendo aqui?! — Cuspi
— Você estava demorando, fiquei preocupado... Laura... eu...
— Preocupado? — Bufei sentindo aquela onda de raiva se avolumar dentro de mim, crescendo e crescendo. — Qem tu acha que é? Que direito tem de vir aqui atrás de mim? Eu não te dei essa liberdade! — Berrei e estremeci quando a onda de ódio arrebentou arrasando tudo dentro de mim. — Não preciso de você! Não preciso da p***a dos seus remédios ou do seu pão de merda, não preciso e não quero a sua atenção! — Eu me aproximei empunhando a mochila como se fosse uma arma. — Tu acha que isso vai me fazer esquecer todas as merdas que fez? Acha que bancar o santo vai dar algum resultado?! — Ele continuou em silêncio e travei os dentes. — Pare de me seguir por aí como um viralata no cio, não vou abrir as minhas pernas para você, prefiro arrastar a b***a no asfalto quente a ter qualquer coisa com um merdinha mimado que nem tu!
O meu corpo tremeu, senti as lágrimas se acumularem atrás dos meus olhos, a garganta quase fechada e doendo, aqui não, agora não p***a!
— Então me deixe em paz. — Sussurrei a beira das lágrimas, ele não disse nada, em nenhum momento Eduardo tentou se defender ou me insultar, eu merecia, mereceria quaisquer palavras maldosas, odiava ficar com raiva por que sempre perdia o controle, eu era como uma panela de pressão cheia demais, vapor e água escaldante vazando por todos os lados e prestes a explodir.
Comecei a caminhar a passos furiosos, eu iria me atrasar.
Iria me atrasar por ter um pai de merda que me achava uma filha de merda, nada era suficiente, as boas notas, o handebol, o trabalho, o cursinho a limpeza da casa... eu estava cansada, p***a, eu estava tão cansada.
Me agachei no meio fio quando as lágrimas nublaram a minha visão, pressionei as palmas nos olhos até ver pequenos pontos de luz, eu não ia chorar, ele não ia me fazer chorar, eu não vou chorar!
Não percebi o carro até que ele parou perto de onde estava de cócoras, eu fiquei ali pressionando os olhos com a palma da mão, tentando impedir os meus olhos de deixar aquelas lágrimas caírem, tentando não cair aos pedaços no meio da rua, eu não sabia se alguém estava vendo... merda, alguém com certeza devia estar vendo, alguém sempre via alguma coisa nessa cidade de merda. Um tremor violento sacudiu o meu corpo, a panela de pressão prestes a explodir...
Até que braços me rodearam e me puxaram para o lado, para a calçada, eu continuei pressionando os olhos até que só via a escuridão salpicada de luzes vertiginosas, até que as lágrimas pararam de se acumular e secaram voltando para o lugar de onde nunca deveriam ter saído, mas eu ainda não queria ver, não estava pronta.
Demorou.
Demorou muito tempo até que tirei as mãos, até que a minha visão se iluminou e se adaptou a claridade, e eu fiquei encarando a rua deserta, as casas com portões fechados, as árvores nas calçadas, eu já estava longe o suficiente, caminhei sem rumo até chegar ao bairro vizinho, as casas nesse bairro eram melhores, mais caras, silenciosas e sem bêbados resmungando sobre a sua família na ponta da calçada.
Eu não conseguia encarar Eduardo.
A lembrança de tudo que eu disse, ás vezes ficava tão irritada que me esquecia de coisas que falava, acho que ficava tão descontrolada que o meu cérebro não tinha tempo de registar tudo, devia desculpas a ele, sabia disso, mas não queria pedir, estava envergonhada e odiava pedir desculpas, odiava estar errada por que passava grande parte do tempo me esforçando para ser perfeita, para ser um exemplo e pedir desculpa era como declarar que eu não era um exemplo, não era perfeita e eu errava.
A bile subiu a minha garganta, nos encaramos em silêncio e o pedido de desculpas não saia, ele também não queria quebrar aquela atmosfera estranha, por fim ele suspirou, me soltou e se levantou, subiu no carro e esperou, eu estava muito atrasada, nós estávamos muito atrasados, muito mesmo.
E eu estava cansada de ser proibida de fazer tudo, de ser julgada mesmo sem fazer nada, de não poder fazer nada para tirar a minha família dessa situação, às vezes eu imaginava-me indo embora para um lugar distante, um lugar em que não haveria julgamento, nem gritos ou xingamentos ou ameaças e esse lugar ás vezes era na capital Teresina, em São Paulo ou na Europa, mas não importa a localização dele na terra, pois para mim sempre significaria o paraíso.
E havia alguém aqui para me levar a um paraíso temporário, alguém que não iria me perguntar sobre os meus problemas, alguém que fingiria que não escutou a gritaria do meu pai enquanto me esperava, alguém que iria ignorar as minhas p*****************s e a minha raiva, eu queria berrar e dizer novamente que não o queria aqui, que não pedi que viesse, que não precisava dele e que ele deveria ir atrás de outra, mais fácil, alguém com mais liberdade, alguém que não vivesse numa masmorra de falso moralismo, alguém que não fosse eu, mas estava atrasada e sabia que nada do que diria seria verdade, seriam apenas mais mentiras furiosas e ressentidas.
Só por que estou atrasada, disse a mim mesma ao levantar da calçada, só por que estou atrasada, repeti ao abrir a porta e me sentar no banco do carona, mas eu m*l havia fechado a porta quando ele me puxou e caí montada em seu colo e nem foi preciso me ajustar, nos encaixávamos bem demais para pessoas que não significavam nada uma para a outra.
— Eu não preciso...
— Eu sei, mas eu preciso. Então fique quieta, só um pouco. — Sussurrou enfiando o rosto nos meus cabelos.
Ele estava exatamente onde eu precisava, passei os braços ao redor do seu pescoço, me atrevi a acomodar o rosto no tecido macio da camisa preta, no seu peito quente, ele sempre se vestia de preto, tinha curiosidade de saber como ficaria usando outras cores, verde-escuro ficaria bonito nele, o aroma amadeirado e de vinho envelhecido invadiu o meu nariz, o cheiro familiar do perfume da Boticário fez o meu corpo relaxar, não deveríamos nos encaixar tão bem assim, estava tentando me livrar dele, droga.
Por que tudo mudava de figura assim que nos tocávamos?
— Vamos perder o ônibus. — Murmurei encabulada contra o seu peito, ele me apertou mais e suspirou afrouxando os braços e me permitindo sair de seu colo, deu partida quando me sentei e afivelei o cinto.
— O ônibus não vai a lugar nenhum sem nós.
(...)
Eu passei direto pela porta, não me dei ao trabalho de encarar os olhares hostis, não valia a pena.
Não valia a pena tentar explicar ao time que até mesmo um pedido simples para sair de casa se tornava uma questão de estado-maior, extremamente cansativa e ás vezes infrutífera.
Estava cansada de tudo ser tão difícil, às vezes queria desistir, havia momentos em que a percepção de que a vida de todos era mais fácil me destruía, me fazia sentir coisas ruins, raiva, inveja, frustração, nesses momentos percebia que queria estar me divertindo como os outros, mas que jamais poderia por que estava muito ocupada tentando sobreviver ao caos que era meu pai, então, a diversão ficaria para depois, quando fosse independente o suficiente para ganhar mais dinheiro e sair de casa, fiz isso durante toda a minha infância e agora ela acabou, estou fazendo isso durante a adolescência e um dia irá acabar também, é como se eu fosse um passageiro na janela observando a minha vida ficar para trás sem ter vivido nela, apenas passando, passando, passando, rápido demais.
Ví que havia um lugar vago ao lado de Marina, mas simulei o que seria um sorriso de desculpas, ainda estava com raiva, eu não era boa companhia quando estava com raiva e não queria magoar a única amiga que tinha, vi Karen sorrir do outro lado do corredor, também sozinha, na janela do lado direito do corredor, me perguntava se ela se sentia como eu, apenas uma eterna passageira em sua própria vida, jamais a condutora.
Me sentei no fundo do ônibus, peguei o livro, um exemplar gasto de Morro dos ventos uivantes, eu ganhei da professora Beatriz, ela disse que comprou um novo, uma edição de luxo para colecionador, mais bonito e de capa dura, disse que não gostaria de ficar com dois, por isso me perguntou se eu queria, acho que era mentira, o exemplar estava novinho, acho que ela comprou para mim e disse isso com medo que eu rejeitasse, ela sabia que odiava desperdícios e sabia que aceitaria essa desculpa.
Ou talvez ela tenha realmente comprado outra edição, me perguntava se as pessoas que tinham dinheiro faziam realmente isso -não as ricas, mas pessoas que trabalhavam e ganhavam um salário mínimo - comprar versões melhores de coisas que já possuí parecia uma extravagância, eu lutava para ter apenas o básico, uma versão bem enxuta do básico, e nunca consegui incluir livros nisso, então costumava baixar cópias na internet, geralmente em pdf e salvava no computado de uma das casas em que trabalhava cuidando de um menino de seis anos, também lia os livros da biblioteca da escola, mas a oferta era escassa diante do meu apetite para leitura, pelo menos os gêneros que gostava eram escassos.
Então comecei a escrever, escrevia muito mais depois de...
Parei, a lembrança do rosto de Edurdo enquanto ele dirigia ontem, taciturno, triste e pesaroso, nunca havia visto aquela expressão em seu rosto, nunca, e odiei, odiei saber que havia causado aquilo de alguma forma, me senti enjoada exatamente como quando se come algo estragado e fica com náusea, mas o vômito nunca vem para aliviar a situação e você fica naquela impasse, enjoo e iminência de vômito, a bile sobe, mas o vómito não sai, não até que ponha o dedo na garante e se alivie.
E escrever aquele bilhete foi como levar o dedo a garganta para vomitar, e eu vomitei.
Vomitei as palavras de Emilly Brontë, ditas por Catherine Earnshaw, sempre me identifiquei mais com o Heathcliff, mas talvez eu sempre tenha odiado Catherine por que via muito de mim nela, a mesquinhez e o egoísmo eram semelhantes.
Ergui a cabeça e vi Edu, Bianca se levantou oferendo a ele o lugar na janela no primeiro assento, eles eram mais espaçosos e Eduardo era muito alto, era de se esperar que ele sentasse ali, mas ele caminhou em frente despreocupadamente em direção ao fundo do ônibus, ignorando completamente que Bianca ainda estava em pé, esperando por ele, grunhi, sabia onde ele ia sentar, não foi surpresa quando se acomodou ao meu lado, mas para o resto da nossa turma foi e la no fundo da minha alma mesquinha, egoísta e vaidosa, eu fiquei um pouco feliz.
Eu vi a expressão de Bianca se contorcer de raiva, ela piorou quando senti os dedos dele no meu rosto o virando para ele gentilmente até que Bianca saiu do meu foco e alguém muito mais bonito e enigmático entrou no lugar, as palavras que saíram dos meus dedos ontem não eram mentiras ou uma distração, ou um pedido de desculpa por ter sido uma cretina com ele, eram a verdade, a verdade que não queria enxergar, a verdade que Catherine também não quis enxergar, ou melhor que rejeitou para buscar algo melhor.
Será que eu faria o mesmo? Não sabia, porque nesse momento não conseguia imaginar nada e nem ninguém melhor que ele.
Assim como Heathcliff e Catherine, eu e Edu éramos feitos da mesma coisa.
E eu estava apaixonada por ele.
Suspeitava a algum tempo, mas ontem quando ele não desistiu mesmo enquanto pisava em seu orgulho, pisava nos seus sentimentos mesmo que ele não tenha verbalizado, eu era inteligente o bastante para ler as entrelinhas, sabia o que estava acontecendo e eu sabia que aquilo não podia acontecer, pessoas como eu não devem amar porque elas tendem a levar os outros a ruína, e isso é r**m por que somos como baratas que se acostumam a tudo e sobrevivem nas atmosferas mais hostis, até mesmo uma bomba atômica, e eu estava fadada a levar Edu a ruína, assim como Catherine levou Heathcliff e vice-versa.
Fechei o livro, não conseguia me concentrar o suficiente para encarar as nuances sombrias de Heathcliff e de Eduardo.
Não com ele me tocando e me olhando daquela forma, nenhum de nós falou, ele virou o meu rosto de um lado para o outro, avaliando, olhou as minhas mãos que seguravam o livro, quando a sua vistoria acabou ele soltou meu rosto, se inclinou e passou o cinto na minha cintura, depois fez o mesmo e se recostou no banco colocando um dos fones dele no meu ouvido, lentamente cada um dos alunos virou-se para frente esquecendo de nós, vi ele digitar algo no celular, depois ele inclinou a tela na minha direção.
— Se não quer que nos ouçam, é melhor passar o seu número.
O encarei, ele não sorriu.
Eu não queria conversar, mas isso não significava que não queria escrever e geralmente me expressava melhor escrevendo, talvez essa ideia tenha me convencido a passar o meu telefone para ele, apenas Marina tinha meu número, e não pude deixar de pensar no absurdo daquela situação, o ônibus começou a se mover enquanto salvava o meu número nos seus contatos, e a lista dele, para minha surpresa, também e era escassa.
Por sorte minha mãe havia colocado créditos em meu celular e gastando apenas cinquenta centavos eu conseguia mandar SMS o dia todo.
A ideia de trocar SMS com Edu esfriou minhas entranhas, o celular vibrou, uma mensagem dele chegou quando Paramore surgiu nos fones, eu conhecia aquela música.
Essa é nossa música.
Decode. Eu conhecia a letra.
Ele curtia Paramore? Não combinava muito com ele, e eu gostava dessa música por que tocou como trilha de crepúsculo, e... ele estava me vencendo pelo cansaço, estava cansada de resistir, de me privar de coisas apenas por que não poderia tê-las, eu aproveitaria enquanto pudesse, mesmo sabendo que não iria durar, ao menos isso, eu poderia ter ao menos isso não? Os momentos... fugazes, limitados... não era isso que tornava tudo mais intenso, mais bonito?
Não foi isso que eternizou o amor de Romeu e Julieta.
Rápido, intenso e trágico.
Era isso que me aguardava, mas gora, no presente eu iria aproveitar, iria viver mesmo sabendo que ambos iríamos sair machucados no final.
Combina.
Escrevi e enviei a mensagem, ele sorriu pela primeira vez.
Nós vamos nos fazer de idiotas.
Escrevi um trecho da música, ele sorriu ainda mais e se virou para mim.
— Yeah, yeah. — Cantarolou, ele deixou um beijo atrás da minha orelha direita se levantou.
Meu corpo ainda estava arrepiado com o beijo quando ele sacou uma coberta felpuda do guarda volume, ele nos cobriu enquanto o ônibus deslizava pela BR-316 rumo a Teresina, a sua mão buscou a minha por baixo do cobertor, me aninhei no calor dele, enquanto o meu corpo se arrepiava em intervalos cada vez mais curtos, ainda sentindo o eco daquele beijo atrás da orelha, era um lugar esquisito para se beijar, um lugar esquisito para ser tão sensível, mas eu era completamente esquisita e aquilo era uma coisa esquisita nova, uma coisa nossa, nada de beijos na testa, na boca, nas bochechas ou nas mãos, um beijo na orelha era esquisito, mas um atrás da orelha era peculiar demais e soube que aquilo me marcaria para sempre.
Pronto, eu estava condenada, jamais esqueceria dessa peste.
Tentei me afastar para perto da janela, ele entrelaçou nossos dedos por baixo da coberta e segurou firme, o encarei irritada e ele sustentou meu olhar, tentei puxar a mão e ele apertou numa recusa silenciosa, ele não iria me soltar, e eu estava cansada demais pra arengar com ele, eu estava tão, tão, tão cansada, suspirei e me virei para a janela observando a paisagem, ela oscilava entre verde folhoso, alaranjando terroso e cinza, não o cinza das nuvens carregadas, cinza de madeira seca, variedade, eu adorava viajar por causa disso, não que viajasse muito, costumava passar as férias no interior onde a família da minha mãe morava, e ficava a apenas uma hora de carro, algo em torno de 50km de distância, mas eu amava ficar olhando a paisagem, me dá uma sensação de paz.
Nesse ínterim sempre me imaginei indo embora para outro lugar, isso é normal? Quer dizer, todo adolescente sonha em ir embora de casa aos 18 e morar sozinho? Acho que não.
E mesmo quando me atrevo a dizer esses pensamentos em voz alta e as pessoas tentam matar eles como se fossem insetos, dizendo coisas como: "Você pensa que é fácil?" "Vai viver do que?" "Tem casa, comida e um teto, não é o suficiente?" "Vai quebrar a cara e voltar correndo."
Eu não voltaria.
Eu não voltarei.
Se conseguir sair daqui, não voltarei.
Nem que eu passe fome, não darei o braço a torcer, nunca.
Por que eu mereço mais, por que qualquer coisa é melhor do que se sentir inútil insuficiente, qualquer coisa é melhor do que não ter paz em sua própria casa, qualquer coisa, ser insultado e desprezado por um estranho é r**m, só não é tão r**m quanto ser negligenciada, insultada e diminuída pelo próprio sangue, por quem deveria te proteger do mundo, não é saudável quando o mundo te ensina a sobreviver a quem deveria te proteger, isso é contra a ordem das coisas...
— No que está pensando?
Ele aperta minha mão e engulo em seco sem desgrudar os olhos da janela, observando os olhos aguçados através do reflexo oscilante de seu rosto, e talvez por não estar encarando-o diretamente respondo.
— Estou pensando que tem algo errado com as pessoas. — Sussurro. — Que talvez não seja apenas eu, que talvez todo mundo tenha que enfrentar algo assim em casa, não exatamente igual, mas ainda assim alguma coisa. — Engulo o choro quando ele ameaça me sufocar e calar minha voz. — Talvez as pessoas de antigamente também tivessem os mesmos problemas e foram ensinadas a não falar sobre isso, a não deixar transparecer, e isso é triste, porque eu tenho apenas 17 anos e estou cansada, tenho uma alma velha. Imagina passar a vida inteira engolindo isso?
Me virei para ele, Eduardo me encarava com uma expressão resignada, mas, ao mesmo tempo cúmplice, e calorosa, ele me entendia percebi, sabia do que eu estava falando e não estava surpreso, isso me deixou encabulada e triste.
— Eu não consigo. — Admiti. — Não consigo ser como as pessoas de antigamente, não sou perfeita, nem motivo de orgulho, nem resiliente, não o suficiente, porque mesmo sendo flexível, com o tempo até mesmo o elástico fica gasto e arrebenta, não consigo mais fingir que está tudo bem por que estou cansada demais, não vou conseguir, vou arrebentar.
— Não deixe isso acontecer.
— O quê?
— Estamos longe agora. Pode ser o que é de verdade, pode ser o que quiser. A viagem é uma competição, mas também é para nos divertimos, esperamos muito por isso e merecemos, todos nós. Deixa eu te mostrar como pode ser divertido...
— Alguém vai contar...
— Ninguém vai contar.
— Ninguém pode saber, ninguém, entendeu?
— Vai deixar, Pitchula?
Perguntou acariciando o meu rosto, o polegar roçando a minha bochecha deixando um rastro de calor no seu encalço, prendi o fôlego.
— Me deixa ser seu Heatcliff.
Meus olhos pareciam prestes a explodir.
— Leu o livro? — Ele aquiesceu. — Tu sabe que Heathcliff é um canalha desprezível?
— Catherine o tornou um canalha.
— Não, a falta do amor de Catherine o tornou um canalha porque o amor dela era a única coisa boa nele.
— Então me ame e serei uma versão porreta de Heathcliff.
— Tá bom. — Concordei, ele me abraçou, mas não consegui sorrir, não de verdade e fiquei feliz por ele não poder ver, porque ele saberia que era um sorriso falso.
Ele sempre sabe.
Ele é gentil por dentro, como aqueles bombons de chocolate recheado com marshmallow, duro por fora e macio por dentro.
Ele é bom e merece alguém melhor.
Porque ele não é como Heathcliff, mas eu sou como Catherine, talvez até pior.