Capítulo 2

5000 Palavras
Dias atuais... Laura Acordei desorientada, havia adormecido apenas de toalha. Deus, eu estava um bagaço, notei que havia anoitecido e ouvia murmúrios vindos da sala, levantei-me com o corpo dolorido e procurei por uma roupa sem me importar em bagunçar a mala, teria que desfazê-la em algum momento. Vesti um shorts e coloquei uma regata branca, fui em direção a sala, e sorri largamente quando vi quem estava sentada à mesa. -Lou! - Berrei, ela e a nossa mãe quase pularam da cadeira. Imediatamente rodeei a mesa para abraçá-la, a alcancei no instante em que se levantou da cadeira, tão rápido, que a cadeira caiu para trás. -Sua maluca! Por que não me avisou!? A Marina vai me xingar, ela teria ido te buscar no aeroporto! Apertei os meus braços em torno do corpo esguio da minha irmã caçula, ela havia crescido tanto. Acariciei uma mexa sedosa do cabelo liso, ela estava linda. Sempre fomos elogiadas pela beleza, mas a dela era de longe superior, desde criança sabia que ela teria um corpo lindo, aos 10 anos ela era esguia e definida como uma atleta de ginástica olímpica, e o meu corpo era mais como o da minha mãe, quadris largos, b***a proeminente, coxas grossas e s***s pequenos. Ana Louisa era delgada e esguia, estava mais alta que eu, o cabelo alisado e castanho escuro batia no meio das costas, a pele morena lustrosa e bem cuidada, mesmo saindo debaixo de um sol de 40° diariamente, aos 21 anos ela estava deslumbrante, e me orgulhava da aparência dela que não lembrava nada o nosso pai, eu ficava feliz de não parecer com ele também, pelo menos, não fisicamente. —Você está tão linda! O seu cabelo cresceu... e meu Deus! - Ela ergueu a minha mão e me fez dar uma volta completa. - o seu corpo está incrível, emagreceu? -Minha assistente recém-contratada disse que eu tinha uma rotina muito sedentária, ela me obrigou a praticar atividade física. -Sua assistente está certa, aposto que ficava o dia inteira enfurnada em casa lendo e escrevendo! —Olha, trabalhei muito para poder conquistar essa vida! — dei um tapinha na cabeça dela e ela sorriu. — Tenho que aproveitar! —Bem, não vai querer infartar aos 30! Cuide-se! -Está esquecendo que também sou enfermeira!? –lembrei presunçosamente, ela se sentou e pegou a garrafa de café. —Ainda é viciada em café? —Fui enfermeira, agora sou escritora... — disse ao me sentar. — Café é minha fonte de energia! Nossa mãe balançou a cabeça resignada, mas vi um sorriso discreto adornar os seus lábios quando começamos a rir e caçoar uma da outra, ela gostava da casa cheia, percebia isso em cada feriado em que estava de folga e fazia uma chamada de vídeo. Ela estava feliz com o ninho cheio novamente, e se dependesse de mim, seria sempre assim daqui em diante. Coloquei elas a par da minha nova rotina, se é que poderia chamar assim. Havia trabalhado de enfermeira por três anos em um residencial para idosos na Itália, pude estudar literatura e graças a isso aperfeiçoei a minha escrita, o que me ajudou a lançar o meu segundo livro e me proporcionou dinheiro suficiente para largar a área da saúde e finalmente viver da minha escrita, graças ao sucesso do primeiro livro, pude escrever o segundo que foi lançado na Itália, mas agora ele seria traduzido para português. Eu estava feliz, gostava de ser enfermeira, mas a escrita... a escrita era minha paixão. E foi minha tábua de salvação em uma época em que quase desisti de tudo, começou como um hobbie na adolescência, escrevendo fanfics, depois que alguém descobriu o meu ID em uma plataforma de histórias e mostrou a professora Beatriz, ela me aconselhou a escrever uma história original, e eu o fiz. Foi difícil elaborar algo, mas depois que comecei o primeiro capítulo, o trabalho fluiu, ela revisou tudo e consegui vender o livro usando um pseudônimo, e graças a isso consegui me mudar para a Itália, não que precisasse de dinheiro, mas não queria depender do meu padrinho. Não mais. Eu não queria ter mais nada a ver com os Sampaio Côrrea, e voltei para o Brasil com isso em mente. Encarei a minha mãe e a minha irmã, sorri ao ver a felicidade delas, iria levá-las comigo aonde quer que eu fosse. E ainda tínhamos que receber a herança da vovó, já havia comprado uma casa a beira-mar em Sorrento, elas iriam adorar. —Então...-comecei ao pousar a caneca de café na mesa, elas fizeram silencio e me olharam ansiosas quando sorri timidamente, peguei o celular abrindo a galeria e mostrando a foto da nossa casa a elas. — Comprei há alguns meses, estou reformando. -Uau, Laurinha. É uma belezura de casa! -Caramba! Parece aconchegante e chique no último. -Louisa gracejou. —Que bom que gostaram, iremos morar nela. — elas ficaram sérias, comecei a falar das reformas que havia planejado, sobre o jardim, a biblioteca que sempre sonhei em ter, mas o meu sorriso morreu lentamente nos meus lábios quando vi uma troca de olhares pesarosa entre elas. — O quê? —Mana... -Lou contorceu as mãos em cima da mesa, e me mostrou um sorriso culpado, nossa mãe sorriu daquele jeito singelo que sempre fazia quando ia dizer ou fazer algo que eu não iria gostar. — Não queremos nos mudar, gostamos daqui. —Também gosto, mas agora tenho dinheiro o suficiente para levar vocês, não querem ficar comigo? -perguntei tentando não soar magoada. -Bebê, você construiu uma vida lá, mas nossa vida é aqui. Os nossos amigos, trabalho... —Mãe! — chamei exasperada, só a chamava assim quando me irritava e já havia passado desse ponto. — Estudei e trabalhei como uma jumenta para dar uma vida melhor para vocês! Posso continuar fazendo isso, só que trabalhando menos, e a senhora não precisa trabalhar, na verdade, devia ter parado há muito tempo! Por que ainda está trabalhando? —Sempre ganhei o meu dinheiro, posso trabalhar e não quero ser sustentada por minhas filhas! Guardei tudo que me deu na poupança. -Mãe! —Ana Laura! — repreendeu e soube que viria um sermão por aí. — tenho orgulho de você, além da conta. Mas não quero ser um peso, nasci e cresci aqui, a esta altura não vou embora para um lugar em que nem entendo o que as pessoas dizem! —Jesus Cristo, a senhora irá aprender… —Não, já estou velha. — interrompeu e me olhou seriamente ao se levantar e limpar a mesa, esse era seu ritual para encerrar uma conversa. — E eu não quero ir, quero ficar e ser enterrada aqui, na minha terra e não em um lugar estrangeiro. —Mãe... — comecei novamente, mais suave, a mãe de Louisa cobriu a minha e ela balançou a cabeça, o assunto estava encerrado. A nossa mãe foi para a cozinha com o pano de prato no ombro e ri amargurada com o desfecho daquilo. Elas me deixariam sozinha, de novo. —Você também quer ficar aqui? — perguntei tensa. —Lau... - ela suspirou e olhou ao redor do apartamento. — Esse é meu lugar, não há nada para mim lá. -Minha nossa senhora! Tem apenas 21 anos e uma vida cheia de possibilidades, pode conquistar o que quiser! —Tenho tudo que preciso aqui. — disse com um olhar sonhador e franzi o cenho, o que perdi? Abri a boca para cavar mais fundo e no mesmo instante, alguém começou a berrar o meu nome lá fora, revirei os olhos. -LAURA! Mostre a cara, sua p*****a! Mainha saiu da cozinha pisando duro e foi em direção a varanda compartilhada na frente dos apartamentos. —É melhor ir, antes que mainha jogue água gelada nela. Levantamos e fomos correndo até a frente, a minha mãe praguejava, xingando Marina até décima segunda geração, enquanto sussurrava e gritava para ela ficar quieta para não incomodar os clientes da padaria. Sorri ao ver o semblante radiante de Marina, ela ainda era uma doida varrida que adorava irritar a minha mãe. —Espere aí, já vou descer! —Menina gasguita! Só sabe gritar, como pode isso, meu Deus? Chamar a outra de piranha? E isso porque são amigas! -minha mãe ralhou ao voltar para dentro, e a minha irmã reprimiu o riso tentando acalmá-la. Desci as escadas aos risos, atravessei a rua correndo e ela quase me derrubou ao se jogar em meus braços. -Sua vaca! — disse ao me apertar e beijar o meu rosto. — Porque não me avisou? Teria ido te buscar! —Queria fazer uma surpresa. — grunhi quando ela me apertou mais e me afastou a distância de um braço para me avaliar. -Uau, o sol do mediterrâneo faz milagres. Estapeei seu braço divertida e ela se recostou no carro. —Quenga. - ralhei de brincadeira, admirei o possante dela. Era um baita carro, um SUV branco imponente. — Que carrão, hein! — assobiei e ela revirou os olhos como se não fosse nada. —Primeiro bem adquirido com o meu próprio dinheiro. — declarou orgulhosa. Marina se formou em medicina, o pai dela, no entanto, não ficou feliz com a escolha da filha já que ele queria que ela seguisse a mesma carreira que ele e se tornasse juíza. Ele então a deserdou, não era algo incomum de se fazer nessa cidade, aqui as pessoas seguiam certos padrões e geralmente os pais tinham muitas expectativas nos filhos. E quanto mais ricos eram, mais altas eram as expectativas, mesmo a minha mãe não era indiferente a isso. —Estou orgulhosa de você, sua p*****a. — ela sorriu timidamente e mordeu o lábio, uma obstetra renomada que já trouxe ao mundo centenas de vidas corou diante de um elogio, ela ainda passava esse ar de candura, era tão fofa. —Eu fiz a transferência há alguns dias. — disse orgulhosa e sorri.- depois da uma conferida. —Tenho certeza de que está tudo certo. —Você tem que conferir! Bradou irritada e sorri ainda mais ao ver as suas bochechas inflarem. Ela montou uma clínica particular e precisava de dinheiro, não hesitei em emprestar, havia acabado de receber o dinheiro da venda do segundo livro e ela era minha única amiga de infância, e eu faria tudo por ela. Ela era como uma irmã. —Senti saudades dessa sua gritaria. — disse contemplativa, ela fez um bico engraçado e alisou a saia tubinho. — Eu não grito, apenas falo energicamente... às vezes. -Ah tá. —Enfim... comprei um carro novo, a minha melhor amiga está na cidade. Temos que sair para comemorar, isso não é uma coisa que acontece sempre! —Melhor não... -protestei cruzando os braços, ainda estava cansada e tinha uma conversa para engatar novamente com a minha mãe, embora sair para beber pudesse me fazer relaxar um pouco. Deus sabe como às vezes a dona Lúcia me fazia ter ataque de pelancas com a sua teimosia. -Ah qual é? Vamos lá, tem um lugar top que inaugurou perto das pizzarias. —Marina... —Por favor! -suplicou com as mãos juntas, bufei exasperada. -Está me devendo por não ter me avisado! — Tá bom, tá bom.- ergui as mãos derrotada e concordei exasperada. —Então está combinado, te pego às oito! E vista algo... -ela me olhou de cima a baixo com desgosto.- Não tão europeu. — concluiu e olhei confusa para meu shorts cáqui soltinho de cintura alta e regata branca. A roupa me parecia bem adequada ao clima escaldante daqui. —Qual o problema da roupa? -É careta. -disse ao entrar no carro e a encarei indignada. Ok. Eu não tinha o melhor gosto para roupas, mas era fácil se vestir em lugares frios e a roupa era até que refrescante e leve, e era isso que importava no nordeste. A olhei quando ligou o carro. —É confortável. — argumentei ao atravessar a rua para a calçada da padaria. —Não valoriza as suas pernas e deixa a sua b***a quadrada! — Ela manobrou o carro para entrar na mão certa e protestei indignada. -Minha b***a não é quadrada! — berrei enquanto se distanciava, ela acenou um tchauzinho através da janela. Os clientes da padaria me olharam curiosos, tentando ser discretos ao dar um conferida, subi as escadas praguejando e com um motivo para desfazer as malas. (...) -Ah, me poupe. Não faz ** doce, as pizzarias nunca saem de moda. Bufei uma risada, e desfiz a careta. O lugar todo estava diferente, no pequeno centrinho ainda havia uma pizzaria em cada esquina do cruzamento, mas agora também havia um barzinho no começo da rua, onde antes era uma escola, e um barzinho com música ao vivo, mas não era isso que me desagradava, não era do tipo de pessoa que rejeitava o seu país por morar no exterior. Eu amava o Brasil, e amava o Piauí, o problema é que mesmo crescendo, Picos ainda era uma cidade pequena e as pessoas julgavam muito umas as outras, já era chamada de metida quando saí daqui há alguns anos, e a notícia que estava de volta logo se espalharia, e não queria esbarrar com pessoas do meu passado desnecessariamente, uma em específico, era imprescindível evitar. —Vem, Laurinha. Consegui uma mesa! Seguimos um garçom cheio de risos, e sentei alisando a saia, o lugar era bem agradável, eu não era a criatura mais sociável do planeta, mas ainda gostava de beber, e muito, e para minha felicidade, havia muitos drinks interessantes no menu. O garçom ainda não havia se afastado quando decidi o que iria beber. —Uma lagoa azul, e uma porção média de coração de frango, por favor. -Uau, pensei que iria pedir um daqueles vinhos metido a b***a. — ela riu e revirei os olhos. — Uma blue hawaiian, por favor. —Sabe, você fala isso, mas dentre nós, quem tem uma adega é você. E uma coleção bem cara, diga-se de passagem. —Eu não, meu pai. -esclareceu fazendo uma careta. — Isso foi só um surto, ele queria ser mais classudo, sabe. Gargalhei e ela segurou a minha mão por cima da mesa. —Senti saudades. —Eu também. — retribui o aperto, olhei ao redor admirando a movimentação nas ruas, foi bom conseguirmos uma mesa fora, estava um calor de cozinhar os miolos. —Então, voltou para ficar? —Sabe que isso nunca esteve nos meus planos. -Pensei que tivesse dito que queria ficar com a família? —Eu disse, mas minha intenção era levá-las comigo para Sorrento. Ela mordeu a bochecha daquele jeito que fazia sempre que tentava se conter para não falar demais. -Você não mudou nada. – o garçom chegou com os drinks e beberiquei o meu, delicioso, sorri em aprovação e ele me lançou um sorriso estonteante, ele até que era bonitinho. Olhei para Marina e ela estava me olhando com a expectativa estampada nos olhos, parecia um filhote de cachorro. -Argh, fala logo. -Você poderia ficar... -suspirei resignada e ela prosseguiu inabalável. -Pensei que iria parar de fugir, já faz dez anos, Ana. Ana. Ela só usava esse nome quando queria que levasse as coisas á sério, pousei a taça, joguei uns cachos para trás do ombro e a encarei ao colocar as duas mãos na mesa e endireitar a postura. —Quem disse que estou fugindo? Tenho uma vida boa em Sorrento. -Você trabalha lá, isso não quer dizer que tenha uma vida lá. -É exatamente isso que significa, se é esse trabalho, que me sustenta. Estou quase finalizando a reforma de uma casa que acabei de comprar. -E vai largar sua mãe aqui? -Claro que não, irei levá-la comigo. -argumentei, ainda não havia me dado por vencida, tinha alguns meses a disposição para convencê-la. -E o que te faz pensar que ela irá? -Não tem nada para ela aqui, a mulher irá caminhar na praia, ao sair para comprar pão, passear na ilha de Capri, tomar vinho, comer salame e todos os tipos de queijo, o que há de melhor aqui? E tem muitos italianos lindos para a Lou crushar, ou seja lá o que se faz hoje em dia... -Aqui é onde elas nasceram, cresceram, e tenho certeza de que é onde sua mãe quer ser enterrada. E sua irmã... -ela bebericou a bebida e sorriu de um jeito malicioso. -duvido que os italianos roubem a atenção dela no momento. -O que está insinuando? -estreitei os olhos, ela desconversou abanando as mãos. -Nada, apenas que ela tem um círculo de amigos aqui, está se formando e já deve ter planos, ela está construindo a vida aqui e não irá a lugar algum. -cerrei os dentes. – É só um palpite. -Não há lugar para mim aqui, ela irá comigo, tenho certeza de que não quer ver nossa mãe passar o resto da vida sendo explorada naquela padaria. -As coisas mudaram, Ana... -Não importa. E quanto aos 26 anos que ela foi explorada? Não quero minha mãe naquele lugar. -Tenho certeza de que sua mãe não vê dessa forma. -É claro que não, minha mãe é do tipo que é tão boa que chega a ser b***a, isso sempre me deixou fula da vida. —Não, o que te irrita é que ela sempre viu um lado dele que você se negou a reconhecer a existência, é isso que te irrita. Fora que tem uma pitada de ciúmes aí também, sempre foi ciumenta, com tudo. Dele. Deveria ter cronometrado para ver quanto tempo ela conseguiria manter uma conversa sem mencionar ele. -Marina,se vai começar com isso, vou embora, faz anos que não nos vemos e não quero discutir sobre isso, ele não vale meu tempo, muito menos minha bebida. Ela suspirou, começou a revirar os olhos quando parou o movimento e congelou ao olhar pra mim, ergui a sobrancelha confusa. -O que foi? -Vai ser difícil não falar, olha quem acabou de chegar. Me virei e gemi em desgosto ao ver quatro carros imponentes estacionando no meio fio, passamos minutos tentando encontrar uma vaga e tivemos que estacionar em uma rua lateral, mas é claro que eles teriam vagas reservadas no lugar mais badalado da cidade, não é mesmo? Bufei com desdém quando eles desceram do carro. Gabriel, Arthur, Bruno e Edu, eles continuavam bonitos, se destacavam em qualquer lugar devido à altura, mas os corpos, santa mãe de deus, eles agora eram homens feitos. Como se sentisse o meu olhar, Edu se virou na minha direção e me encarou, um sorriso presunçoso se espalhou no seu rosto e me virei contrariada na cadeira. -Era só o que me faltava. -grunhi e entornei a bebida. -Não olhe agora, mas parece que eles estão vindo para cá.-p**a que pariu. Praguejei enquanto chamava novamente o garçom, ele veio todo sorridente, mas ficou pálido como se tivesse visto o d***o, e deu meia volta em direção a cozinha, os meus pelos se eriçaram e no instante seguinte Edu parou ao meu lado. —Olha só quem voltou? -caçoou e seus amigos o ladearam. -O bom filho a casa torna, não é mesmo? Bufei entediada, e seus amigos sorriram ao me olhar, menos Gabriel. Ele permaneceu sério, o olhar calculista cravado no meu rosto. -Já nos vimos antes, seu comentário teria tido um efeito mais impactante se o tivesse feito mais cedo. -Parceiro, bem que você disse... -encarei Gabriel com frieza e ele não desviou o olhar. -Não mudou nadinha. -Não... não mesmo. – o garçom que havia sumido voltou com a nossa porção e Edu passou os olhos nela sorrindo friamente.- Ainda é uma cretina devoradora de corações. -Awn...-gemi ao espetar um coração e levá-lo a boca, sorri agradecida para o garçom e gemi deliciada com o gosto, ele parou, estatelado na nossa frente e o encarei sorrindo, desviei a minha atenção apenas para ver a reação de Eduardo.- ainda magoado, Dudu? Ele retesou, o olhar endureceu quando puxou uma cadeira e se sentou ao meu lado, dispensando com um olhar glacial o garçom que ainda estava hipnotizado no lugar, ele se tocou e saiu rapidamente. -Eu? Por que ficaria magoado? Você foi apenas uma transa gostosa, nada mais. O encarei, a ofensa atingindo o alvo. Passei a língua nos dentes tentando me acalmar, eu não era mais uma adolescente idiota que se ofenderia com suas baixarias. -Que bom, achei que teria de recusar outro pedido de casamento. Não precisava se rebaixar tanto, mas me dei por satisfeita quando ele endireitou os ombros, claramente incomodado, olhei ao redor e seus amigos pareciam surpresos, mas se recuperaram rapidamente e se mantiveram impassíveis. -Nunca me casaria com uma morta de fome. — declarou friamente, aquilo me cortou. -Não foi o que disse enquanto galopava na sua cara.-rebati despreocupada, seus olhos incendiaram. Marina ficou tensa, os meninos ficaram boquiabertos, olhei de esguelha para ela mantendo-a no lugar com um olhar, poderia muito bem lidar com minhas brigas. Já não era uma morta de fome desamparada, ganhei dinheiro o suficiente para comprar uma casa linda a beira-mar na Itália, sustentava minha família e dei tudo do bom e do melhor desde que mudei de país, não me ofenderia com seus insultos rasos, do que ele sabia afinal? -E estou saciando minha fome no momento. -Ótimo, tenho certeza que não se importa em dividir a mesa. Declarou ao assentir para que seus amigos se sentassem, vi Marina revirar os olhos quando Arthur sentou-se ao lado, sorrindo como se fosse o Natal. -Feliz em me ver, doutora? -Argh,se enxerga babaca. E essa agora? O que rolava entre eles? Estreitei os olhos quando ele bebericou o drink de Marina e pediu um igual, ela ficou vermelha de raiva o fuzilando com o olhar e ele o rebateu a olhando com uma adoração descarada. Que p***a? Olhei ao redor para ver se alguém além de mim estava vendo aquilo, Bruno se sentou na ponta da mesa á frente de Gabriel que olhava ao redor como se procurasse alguém. -Acho que meu amigo gosta da sua amiga. -Edu sussurrou rente ao meu ouvido, me retesei, e sibilei irritada. -Sortuda. -murmurei ao beber o drink.- ele é o mais tolerável da turma. -Sempre soube que gostava de mim, Laurinha. -Arthur murmurou piscando o olho e Marina sorriu disfarçadamente. Oh c*****o. Ela estava rindo como uma colegial. -Olha só, parece que ela não é uma cretina arrogante como você. -E Arthur não parece ser tão escroto quanto você. -rebati e o encarei, furiosa, ele olhou em meus olhos, depois para meus lábios, exalou com força e olhou novamente em meus olhos. O que gostava em Edu, era como ele era fácil de ler, isso é, depois que você tivesse o trabalho de conhecê-lo a fundo. Apenas esse olhar me mostrou que ele ainda não havia me esquecido, Laura Macedo ainda significava algo. A contragosto, quase sorri vitoriosa, quase, consegui reprimir o riso, ele não desviou o olhar. Não, não era assim que as coisas seriam, não mais. -Por que não vai para casa? -ele sugeriu presunçosamente. -Podemos ir a outro lugar, Ana. -Não. -respondi concisa e sem desviar os olhos de Eduardo. -chegamos primeiro, não seremos nós a sair. Gabriel puxou a chave do carro da mesa e avaliou procurando o veículo na rua, cerrei os punhos, não estávamos mais no ensino médio, i*****l. -Devolva. -grunhi. Edu se acomodou na cadeira e passou os braços por cima da minha cadeira, como se fosse dono do maldito lugar, afastei seus braços de meus ombros, a raiva fervilhava em meu estômago. Sua mão voltou a envolver meus ombros e me levantei bruscamente. -Se me tocar novamente, irei esquecer que estamos em um lugar público e não me importarei com as consequências. -rosnei baixo ao me inclinar em cima dele. Recuei para me afastar da mesa, mas ele segurou minha mão, e disse ás minhas costas. -Não vá. -Tentei me soltar e ele segurou firme. -Fique. -Não. Me soltei dele e fui em direção ao caixa, ele berrou no meio do bar e todos pararam o que estavam fazendo. -Por que não? -gritou. -Por que é imaturo. — resmunguei por cima do ombro e ele veio de encontro a mim. -Mesmo depois de anos, quando me encontra a primeira coisa que faz é tentar me humilhar ao invés de ter uma conversa civilizada. Podem muito bem ir para qualquer lugar na cidade, mas tenho certeza que só estão aqui para me atormentar. Vocês não têm mais o que fazer? Ele me encarou, quando não falou nada, saquei o cartão para pagar a conta, mas ele o tomou de mim, sorrindo para os amigos. -Pessoal, deem o fora. -Por quê? -alguém disse e não me virei para ver quem era. -só porque ela está incomodada? -Não, é porque estou mandando. Semicerrei os olhos, vendo-o segurar meu cartão como um troféu, ah, que lindo. Colocou o p*u na mesa. Revirei os olhos, tomei o cartão da mão dele, ouvi o barulho das cadeiras se arrastando, eles desapareceram na direção das pizzarias, insisti em pagar a conta, mas o rapaz do caixa recusou, me virei para a mesa, mas ela estava vazia. Merda. Levaram Marina. Edu ainda estava ao meu lado e sorriu ao pegar uma bebida que o garçom ofereceu e me entregou. -Por conta da casa. -franzi o nariz, e a realidade me atingiu com força. -O bar é seu? -Meu e dos caras. -esclareceu com um sorriso arrogante, isso explica a reação do garçom, voltei a me sentar na mesa, dividida entre ir atrás de Marina ou ir embora, pesquei o celular e grunhi ao ver que tinha descarregado. —Por que me odeia? -perguntou ao sentar em minha frente. Me virei para a rua ignorando sua pergunta, levei o polegar a boca, tentada a roer a unha. -Por que voltou? Finalmente sentiu saudades? Fiquei tensa, mas não olhei para ele, minhas pernas se mexiam inquietas e arfei quando ele esticou as dele e afastou as minhas por baixo da mesa, o choque do contato se espalhando pelo meu corpo como fogo em palha seca, o desgraçado sabia que estava me deixando nervosa. Me endireitei tentando manter as pernas quietas e tentei afastá-lo com um chute, mas ele não se moveu, e ficou ali, com as pernas longas entre as minhas, apenas me encarando. -Por que não avisou sobre sua chegada? Arqueei a sobrancelha, a resposta era óbvia. Porque não queria que ele soubesse, esperava que estivesse fora da cidade, de férias, em alguma ilha paradisíaca como Fernando de Noronha, mas aqui estava ele. Peguei a bolsa e fiz menção de me levantar, a bebida chacoalhou quando ele de repente abriu mais as pernas, afastando as minhas com brusquidão e quase me derrubando no processo. -Fique. -insistiu. Senti um frio na barriga, a forma como a palavra soou autoritária, não gostava de receber ordens, mas gostei de ouvir aquilo dele. Devagar, me aquietei e coloquei a bolsa no colo. -O que vamos fazer? -perguntei, ele não respondeu. -Beber e conversar? Relembrar os velhos tempos? Eu irei sorrir com as lembranças de tempos felizes? Ele não respondeu, seu olhar se focou em mim, o peito subindo e descendo rápido. -O que esperava que acontecesse? -perguntei maneando a cabeça e de queixo erguido. -Achou que iria me entregar a nostalgia e reviver os velhos sentimentos, ficar feliz em vê-lo? -Ainda podemos chamar seus amigos, dirigir até uma cidadezinha e festejar a noite inteira, como antigamente. Isso o faria feliz? Ele permaneceu em silêncio, me olhando, sem desgrudar os olhos dos meus. -Dez anos e ainda estamos aqui. Vocês ainda são os mesmos filhinhos de papai, destinados a se tornarem novas versões dos seus predecessores, tão previsível. -O que esperava, sinceramente? -me inclinei para frente a fim de encarar seus olhos de perto. -Achou que te deixaria me levar em casa e que me foderia em seu carro e andaríamos de mãos dadas pela cidade no dia seguinte, eternizando nosso amor juvenil? Ele baixou a cabeça, finalmente entendendo aonde eu queria chegar. Comecei a rir de sua ingenuidade e me endireitei. -Fala sério, Edu. Achou mesmo que isso iria acontecer? Não somos parecidos, não posso dar nada a você, sua vida é vazia e sem graça, patética, na verdade. Não quero nada que venha de você. Pesquei algumas notas na carteira e bati na mesa. -Odeio você, odeio seus amigos, e odeio seus pais. Sua mandíbula se contraiu, os olhos verdes se tornando repentinamente mais escuros, desafiadores. -Ainda não tem nada que eu queira. – disparei ao chutar suas pernas e me levantei, ele sabiamente recolheu as dele para me deixar passar. -Pode conseguir tudo o que quer, mas nunca me terá. Me esquivei das cadeiras, mas parei no corredor de mesas quando ele disse as minhas costas. -Tive você uma vez. -disparou, me virei devagar. Seus olhos brilhavam em desafio. – E terei novamente. -Não, não terá. -declarei. Fui em direção a saída, para a brisa quente da noite. Virei à direita e segui em frente, sem querer passar em frente as pizzarias, virei a direita uma quadra depois e fui em direção a ponte.O que ele estava planejando? Por que ele simplesmente não parava de me perturbar, não tínhamos mais 17 anos, aquilo não era um jogo, e não estava a fim de brincar. Ele não deveria andar por aí exibindo uma loira siliconada ou algo do tipo? Pessoas como ele não se importavam com pessoas como eu, ele estava me afetando, como sempre. Achei que depois de tanto tempo estaria a salvo, mas ele ainda me afeta da mesma forma, talvez até mais. Mas não havia espaço para dúvidas, tomei uma decisão, não dava para voltar atrás e mesmo se desse, eu escolheria a mesma opção. Eu sempre escolheria salvar a mim mesma, ao invés dele, sempre. Eu continuava sendo uma egoísta de merda, sorri amargurada ao atravessar a rua. Algumas coisas nunca mudam, mas a miséria não gosta de solidão, não é mesmo?
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