Dias atuais...
Laura
Acordei desorientada, havia adormecido apenas de toalha.
Deus, eu estava um bagaço, notei que havia anoitecido e ouvia murmúrios vindos da
sala, levantei-me com o corpo dolorido e procurei por uma roupa sem me importar
em bagunçar a mala, teria que desfazê-la em algum momento.
Vesti um shorts e coloquei uma regata branca, fui em direção a sala, e sorri
largamente quando vi quem estava sentada à mesa.
-Lou! - Berrei, ela e a nossa mãe quase pularam da cadeira.
Imediatamente rodeei a mesa para abraçá-la, a alcancei no instante em que se levantou da
cadeira, tão rápido, que a cadeira caiu para trás.
-Sua maluca! Por que não me avisou!? A Marina vai me xingar, ela teria ido te buscar
no aeroporto!
Apertei os meus braços em torno do corpo esguio da minha irmã caçula, ela havia
crescido tanto. Acariciei uma mexa sedosa do cabelo liso, ela estava linda.
Sempre fomos elogiadas pela beleza, mas a dela era de longe superior, desde criança
sabia que ela teria um corpo lindo, aos 10 anos ela era esguia e definida como
uma atleta de ginástica olímpica, e o meu corpo era mais como o da minha mãe,
quadris largos, b***a proeminente, coxas grossas e s***s pequenos.
Ana Louisa era delgada e esguia, estava mais alta que eu, o cabelo alisado e
castanho escuro batia no meio das costas, a pele morena lustrosa e bem cuidada,
mesmo saindo debaixo de um sol de 40° diariamente, aos 21 anos ela estava
deslumbrante, e me orgulhava da aparência dela que não lembrava nada o nosso
pai, eu ficava feliz de não parecer com ele também, pelo menos, não
fisicamente.
—Você está tão linda! O seu cabelo cresceu... e meu Deus! - Ela ergueu a minha
mão e me fez dar uma volta completa. - o seu corpo está incrível, emagreceu?
-Minha assistente recém-contratada disse que eu tinha uma rotina muito sedentária, ela
me obrigou a praticar atividade física.
-Sua assistente está certa, aposto que ficava o dia inteira enfurnada em casa lendo
e escrevendo!
—Olha, trabalhei muito para poder conquistar essa vida! — dei um tapinha na
cabeça dela e ela sorriu. — Tenho que aproveitar!
—Bem, não vai querer infartar aos 30! Cuide-se!
-Está esquecendo que também sou enfermeira!? –lembrei presunçosamente, ela se sentou
e pegou a garrafa de café.
—Ainda é viciada em café?
—Fui enfermeira, agora sou escritora... — disse ao me sentar. — Café é minha
fonte de energia!
Nossa mãe balançou a cabeça resignada, mas vi um sorriso discreto adornar os seus
lábios quando começamos a rir e caçoar uma da outra, ela gostava da casa cheia,
percebia isso em cada feriado em que estava de folga e fazia uma chamada de
vídeo. Ela estava feliz com o ninho cheio novamente, e se dependesse de mim, seria sempre
assim daqui em diante.
Coloquei elas a par da minha nova rotina, se é que poderia chamar assim. Havia
trabalhado de enfermeira por três anos em um residencial para idosos na Itália,
pude estudar literatura e graças a isso aperfeiçoei a minha escrita, o que me
ajudou a lançar o meu segundo livro e me proporcionou dinheiro suficiente para largar
a área da saúde e finalmente viver da minha escrita, graças ao sucesso do
primeiro livro, pude escrever o segundo que foi lançado na Itália, mas agora
ele seria traduzido para português.
Eu estava feliz, gostava de ser enfermeira, mas a escrita... a escrita era minha
paixão.
E foi minha tábua de salvação em uma época em que quase desisti de tudo, começou
como um hobbie na adolescência, escrevendo fanfics, depois que alguém descobriu
o meu ID em uma plataforma de histórias e mostrou a professora Beatriz, ela me
aconselhou a escrever uma história original, e eu o fiz.
Foi difícil elaborar algo, mas depois que comecei o primeiro capítulo, o trabalho
fluiu, ela revisou tudo e consegui vender o livro usando um pseudônimo, e
graças a isso consegui me mudar para a Itália, não que precisasse de dinheiro,
mas não queria depender do meu padrinho. Não mais.
Eu não queria ter mais nada a ver com os Sampaio Côrrea, e voltei para o Brasil
com isso em mente.
Encarei a minha mãe e a minha irmã, sorri ao ver a felicidade delas, iria levá-las
comigo aonde quer que eu fosse. E ainda tínhamos que receber a herança da vovó,
já havia comprado uma casa a beira-mar em Sorrento, elas iriam adorar.
—Então...-comecei ao pousar a caneca de café na mesa, elas fizeram silencio e me
olharam ansiosas quando sorri timidamente, peguei o celular abrindo a galeria e
mostrando a foto da nossa casa a elas. — Comprei há alguns meses, estou
reformando.
-Uau, Laurinha. É uma belezura de casa!
-Caramba! Parece aconchegante e chique no último. -Louisa gracejou.
—Que bom que gostaram, iremos morar nela. — elas ficaram sérias, comecei a falar
das reformas que havia planejado, sobre o jardim, a biblioteca que sempre
sonhei em ter, mas o meu sorriso morreu lentamente nos meus lábios quando vi
uma troca de olhares pesarosa entre elas. — O quê?
—Mana... -Lou contorceu as mãos em cima da mesa, e me mostrou um sorriso
culpado, nossa mãe sorriu daquele jeito singelo que sempre fazia quando ia
dizer ou fazer algo que eu não iria gostar. — Não queremos nos mudar, gostamos
daqui.
—Também gosto, mas agora tenho dinheiro o suficiente para levar vocês, não
querem ficar comigo? -perguntei tentando não soar magoada.
-Bebê, você construiu uma vida lá, mas nossa vida é aqui. Os nossos amigos,
trabalho...
—Mãe! — chamei exasperada, só a chamava assim quando me irritava e já havia
passado desse ponto. — Estudei e trabalhei como uma jumenta para dar uma vida
melhor para vocês! Posso continuar fazendo isso, só que trabalhando menos, e a
senhora não precisa trabalhar, na verdade, devia ter parado há muito tempo! Por
que ainda está trabalhando?
—Sempre ganhei o meu dinheiro, posso trabalhar e não quero ser sustentada por
minhas filhas! Guardei tudo que me deu na poupança.
-Mãe!
—Ana Laura! — repreendeu e soube que viria um sermão por aí. — tenho orgulho de
você, além da conta. Mas não quero ser um peso, nasci e cresci aqui, a esta
altura não vou embora para um lugar em que nem entendo o que as pessoas dizem!
—Jesus Cristo, a senhora irá aprender…
—Não, já estou velha. — interrompeu e me olhou seriamente ao se levantar e
limpar a mesa, esse era seu ritual para encerrar uma conversa. — E eu não quero
ir, quero ficar e ser enterrada aqui, na minha terra e não em um lugar
estrangeiro.
—Mãe... — comecei novamente, mais suave, a mãe de Louisa cobriu a minha e ela
balançou a cabeça, o assunto estava encerrado. A nossa mãe foi para a cozinha
com o pano de prato no ombro e ri amargurada com o desfecho daquilo. Elas me
deixariam sozinha, de novo.
—Você também quer ficar aqui? — perguntei tensa.
—Lau... - ela suspirou e olhou ao redor do apartamento. — Esse é meu lugar, não há nada
para mim lá.
-Minha nossa senhora! Tem apenas 21 anos e uma vida cheia de possibilidades, pode
conquistar o que quiser!
—Tenho tudo que preciso aqui. — disse com um olhar sonhador e franzi o cenho, o
que perdi? Abri a boca para cavar mais fundo e no mesmo instante, alguém
começou a berrar o meu nome lá fora, revirei os olhos.
-LAURA! Mostre a cara, sua p*****a!
Mainha saiu da cozinha pisando duro e foi em direção a varanda compartilhada na frente
dos apartamentos.
—É melhor ir, antes que mainha jogue água gelada nela.
Levantamos e fomos correndo até a frente, a minha mãe praguejava, xingando Marina até
décima segunda geração, enquanto sussurrava e gritava para ela ficar quieta
para não incomodar os clientes da padaria. Sorri ao ver o semblante radiante de
Marina, ela ainda era uma doida varrida que adorava irritar a minha mãe.
—Espere aí, já vou descer!
—Menina gasguita! Só sabe gritar, como pode isso, meu Deus? Chamar a outra de
piranha? E isso porque são amigas! -minha mãe ralhou ao voltar para dentro, e
a minha irmã reprimiu o riso tentando acalmá-la.
Desci as escadas aos risos, atravessei a rua correndo e ela quase me derrubou ao se
jogar em meus braços.
-Sua vaca! — disse ao me apertar e beijar o meu rosto. — Porque não me avisou?
Teria ido te buscar!
—Queria fazer uma surpresa. — grunhi quando ela me apertou mais e me afastou a
distância de um braço para me avaliar. -Uau, o sol do mediterrâneo faz
milagres.
Estapeei seu braço divertida e ela se recostou no carro.
—Quenga. - ralhei de brincadeira, admirei o possante dela. Era um baita carro, um SUV
branco imponente. — Que carrão, hein! — assobiei e ela revirou os olhos como se
não fosse nada.
—Primeiro bem adquirido com o meu próprio dinheiro. — declarou orgulhosa.
Marina se formou em medicina, o pai dela, no entanto, não ficou feliz com a
escolha da filha já que ele queria que ela seguisse a mesma carreira que ele e
se tornasse juíza. Ele então a deserdou, não era algo incomum de se fazer nessa
cidade, aqui as pessoas seguiam certos padrões e geralmente os pais tinham
muitas expectativas nos filhos. E quanto mais ricos eram, mais altas eram as
expectativas, mesmo a minha mãe não era indiferente a isso.
—Estou orgulhosa de você, sua p*****a. — ela sorriu timidamente e mordeu o
lábio, uma obstetra renomada que já trouxe ao mundo centenas de vidas corou
diante de um elogio, ela ainda passava esse ar de candura, era tão fofa.
—Eu fiz a transferência há alguns dias. — disse orgulhosa e sorri.- depois da
uma conferida.
—Tenho certeza de que está tudo certo.
—Você tem que conferir!
Bradou irritada e sorri ainda mais ao ver as suas bochechas inflarem.
Ela montou uma clínica particular e precisava de dinheiro, não hesitei em
emprestar, havia acabado de receber o dinheiro da venda do segundo livro e ela
era minha única amiga de infância, e eu faria tudo por ela. Ela era como uma
irmã.
—Senti saudades dessa sua gritaria. — disse contemplativa, ela fez um bico
engraçado e alisou a saia tubinho. — Eu não grito, apenas falo energicamente...
às vezes.
-Ah tá.
—Enfim... comprei um carro novo, a minha melhor amiga está na cidade. Temos que
sair para comemorar, isso não é uma coisa que acontece sempre!
—Melhor não... -protestei cruzando os braços, ainda estava cansada e tinha uma
conversa para engatar novamente com a minha mãe, embora sair para beber pudesse
me fazer relaxar um pouco. Deus sabe como às vezes a dona Lúcia me fazia ter
ataque de pelancas com a sua teimosia.
-Ah qual é? Vamos lá, tem um lugar top que inaugurou perto das pizzarias.
—Marina...
—Por favor! -suplicou com as mãos juntas, bufei exasperada. -Está me devendo
por não ter me avisado!
— Tá bom, tá bom.- ergui as mãos derrotada e concordei exasperada.
—Então está combinado, te pego às oito! E vista algo... -ela me olhou de cima a
baixo com desgosto.- Não tão europeu. — concluiu e olhei confusa para meu
shorts cáqui soltinho de cintura alta e regata branca. A roupa me parecia bem
adequada ao clima escaldante daqui.
—Qual o problema da roupa?
-É careta. -disse ao entrar no carro e a encarei indignada.
Ok.
Eu não tinha o melhor gosto para roupas, mas era fácil se vestir em lugares
frios e a roupa era até que refrescante e leve, e era isso que importava no
nordeste. A olhei quando ligou o carro.
—É confortável. — argumentei ao atravessar a rua para a calçada da padaria.
—Não valoriza as suas pernas e deixa a sua b***a quadrada! — Ela manobrou o
carro para entrar na mão certa e protestei indignada.
-Minha b***a não é quadrada! — berrei enquanto se distanciava, ela acenou um
tchauzinho através da janela.
Os clientes da padaria me olharam curiosos, tentando ser discretos ao dar um
conferida, subi as escadas praguejando e com um motivo para desfazer as malas.
(...)
-Ah, me poupe. Não faz ** doce, as pizzarias nunca saem de moda.
Bufei uma risada, e desfiz a careta.
O lugar todo estava diferente, no pequeno centrinho ainda havia uma pizzaria em
cada esquina do cruzamento, mas agora também havia um barzinho no começo da
rua, onde antes era uma escola, e um barzinho com música ao vivo, mas não era
isso que me desagradava, não era do tipo de pessoa que rejeitava o seu país por
morar no exterior.
Eu amava o Brasil, e amava o Piauí, o problema é que mesmo crescendo, Picos ainda
era uma cidade pequena e as pessoas julgavam muito umas as outras, já era
chamada de metida quando saí daqui há alguns anos, e a notícia que estava de
volta logo se espalharia, e não queria esbarrar com pessoas do meu passado
desnecessariamente, uma em específico, era imprescindível evitar.
—Vem, Laurinha. Consegui uma mesa!
Seguimos um garçom cheio de risos, e sentei alisando a saia, o lugar era bem agradável,
eu não era a criatura mais sociável do planeta, mas ainda gostava de beber, e
muito, e para minha felicidade, havia muitos drinks interessantes no menu.
O garçom ainda não havia se afastado quando decidi o que iria beber.
—Uma lagoa azul, e uma porção média de coração de frango, por favor.
-Uau, pensei que iria pedir um daqueles vinhos metido a b***a. — ela riu e revirei os
olhos. — Uma blue hawaiian, por favor.
—Sabe, você fala isso, mas dentre nós, quem tem uma adega é você. E uma coleção
bem cara, diga-se de passagem.
—Eu não, meu pai. -esclareceu fazendo uma careta. — Isso foi só um surto, ele
queria ser mais classudo, sabe.
Gargalhei e ela segurou a minha mão por cima da mesa.
—Senti saudades.
—Eu também. — retribui o aperto, olhei ao redor admirando a movimentação nas ruas,
foi bom conseguirmos uma mesa fora, estava um calor de cozinhar os miolos.
—Então, voltou para ficar?
—Sabe que isso nunca esteve nos meus planos.
-Pensei que tivesse dito que queria ficar com a família?
—Eu disse, mas minha intenção era levá-las comigo para Sorrento.
Ela mordeu a bochecha daquele jeito que fazia sempre que tentava se conter para não
falar demais.
-Você não mudou nada. – o garçom chegou com os drinks e beberiquei o meu, delicioso,
sorri em aprovação e ele me lançou um sorriso estonteante, ele até que era
bonitinho. Olhei para Marina e ela estava me olhando com a expectativa
estampada nos olhos, parecia um filhote de cachorro. -Argh, fala logo.
-Você poderia ficar... -suspirei resignada e ela prosseguiu inabalável. -Pensei que
iria parar de fugir, já faz dez anos, Ana.
Ana.
Ela só usava esse nome quando queria que levasse as coisas á sério, pousei a taça,
joguei uns cachos para trás do ombro e a encarei ao colocar as duas mãos na
mesa e endireitar a postura.
—Quem disse que estou fugindo? Tenho uma vida boa em Sorrento.
-Você trabalha lá, isso não quer dizer que tenha uma vida lá.
-É exatamente isso que significa, se é esse trabalho, que me sustenta. Estou quase
finalizando a reforma de uma casa que acabei de comprar.
-E vai largar sua mãe aqui?
-Claro que não, irei levá-la comigo. -argumentei, ainda não havia me dado por vencida,
tinha alguns meses a disposição para convencê-la.
-E o que te faz pensar que ela irá?
-Não tem nada para ela aqui, a mulher irá caminhar na praia, ao sair para comprar pão,
passear na ilha de Capri, tomar vinho, comer salame e todos os tipos de
queijo, o que há de melhor aqui? E tem muitos italianos lindos para a Lou
crushar, ou seja lá o que se faz hoje em dia...
-Aqui é onde elas nasceram, cresceram, e tenho certeza de que é onde sua mãe quer ser
enterrada. E sua irmã... -ela bebericou a bebida e sorriu de um jeito
malicioso. -duvido que os italianos roubem a atenção dela no momento.
-O que está insinuando? -estreitei os olhos, ela desconversou abanando as mãos.
-Nada, apenas que ela tem um círculo de amigos aqui, está se formando e já deve ter
planos, ela está construindo a vida aqui e não irá a lugar algum. -cerrei os
dentes. – É só um palpite.
-Não há lugar para mim aqui, ela irá comigo, tenho certeza de que não quer ver nossa
mãe passar o resto da vida sendo explorada naquela padaria.
-As coisas mudaram, Ana...
-Não importa. E quanto aos 26 anos que ela foi explorada? Não quero minha mãe
naquele lugar.
-Tenho certeza de que sua mãe não vê dessa forma.
-É claro que não, minha mãe é do tipo que é tão boa que chega a ser b***a, isso
sempre me deixou fula da vida.
—Não, o que te irrita é que ela sempre viu um lado dele que você se negou a
reconhecer a existência, é isso que te irrita. Fora que tem uma pitada de
ciúmes aí também, sempre foi ciumenta, com
tudo.
Dele.
Deveria ter cronometrado para ver quanto tempo ela conseguiria manter uma conversa sem
mencionar ele.
-Marina,se vai começar com isso, vou embora, faz anos que não nos vemos e não quero
discutir sobre isso, ele não vale meu tempo, muito menos minha bebida.
Ela suspirou, começou a revirar os olhos quando parou o movimento e congelou ao
olhar pra mim, ergui a sobrancelha confusa.
-O que foi?
-Vai ser difícil não falar, olha quem acabou de chegar.
Me virei e gemi em desgosto ao ver quatro carros imponentes estacionando no meio
fio, passamos minutos tentando encontrar uma vaga e tivemos que estacionar em
uma rua lateral, mas é claro que eles teriam vagas reservadas no lugar mais
badalado da cidade, não é mesmo?
Bufei com desdém quando eles desceram do carro. Gabriel, Arthur, Bruno e Edu, eles
continuavam bonitos, se destacavam em qualquer lugar devido à altura, mas os
corpos, santa mãe de deus, eles agora eram homens feitos.
Como se sentisse o meu olhar, Edu se virou na minha direção e me encarou, um sorriso
presunçoso se espalhou no seu rosto e me virei contrariada na cadeira.
-Era só o que me faltava. -grunhi e entornei a bebida.
-Não olhe agora, mas parece que eles estão vindo para cá.-p**a que pariu.
Praguejei enquanto chamava novamente o garçom, ele veio todo sorridente, mas ficou pálido
como se tivesse visto o d***o, e deu meia volta em direção a cozinha, os
meus pelos se eriçaram e no instante seguinte Edu parou ao meu lado.
—Olha só quem voltou? -caçoou e seus amigos o ladearam. -O bom filho a casa torna,
não é mesmo?
Bufei entediada, e seus amigos sorriram ao me olhar, menos Gabriel. Ele permaneceu
sério, o olhar calculista cravado no meu rosto.
-Já nos vimos antes, seu comentário teria tido um efeito mais impactante se o
tivesse feito mais cedo.
-Parceiro, bem que você disse... -encarei Gabriel com frieza e ele não desviou o olhar.
-Não mudou nadinha.
-Não... não mesmo. – o garçom que havia sumido voltou com a nossa porção e Edu passou os
olhos nela sorrindo friamente.- Ainda é uma cretina devoradora de corações.
-Awn...-gemi ao espetar um coração e levá-lo a boca, sorri agradecida para o garçom e gemi
deliciada com o gosto, ele parou, estatelado na nossa frente e o encarei
sorrindo, desviei a minha atenção apenas para ver a reação de Eduardo.- ainda
magoado, Dudu?
Ele retesou, o olhar endureceu quando puxou uma cadeira e se sentou ao meu lado,
dispensando com um olhar glacial o garçom que ainda estava hipnotizado no
lugar, ele se tocou e saiu rapidamente.
-Eu? Por que ficaria magoado? Você foi apenas uma transa gostosa, nada mais.
O encarei, a ofensa atingindo o alvo.
Passei a língua nos dentes tentando me acalmar, eu não era mais uma adolescente idiota
que se ofenderia com suas baixarias.
-Que bom, achei que teria de recusar outro pedido de casamento.
Não precisava se rebaixar tanto, mas me dei por satisfeita
quando ele endireitou os ombros, claramente incomodado, olhei ao redor e seus
amigos pareciam surpresos, mas se recuperaram rapidamente e se mantiveram
impassíveis.
-Nunca me casaria com uma morta de fome. — declarou friamente, aquilo me cortou.
-Não foi o que disse enquanto galopava na sua cara.-rebati despreocupada, seus olhos incendiaram.
Marina ficou tensa, os meninos ficaram boquiabertos, olhei de esguelha para
ela mantendo-a no lugar com um olhar, poderia muito bem lidar com minhas
brigas.
Já não era uma morta de fome desamparada, ganhei dinheiro o
suficiente para comprar uma casa linda a beira-mar na Itália, sustentava minha
família e dei tudo do bom e do melhor desde que mudei de país, não me ofenderia
com seus insultos rasos, do que ele sabia afinal?
-E estou saciando minha fome no momento.
-Ótimo, tenho certeza que não se importa em dividir a mesa.
Declarou ao assentir para que seus amigos se sentassem, vi Marina revirar os olhos
quando Arthur sentou-se ao lado, sorrindo como se fosse o Natal.
-Feliz em me ver, doutora?
-Argh,se enxerga babaca.
E essa agora? O que rolava entre eles?
Estreitei os olhos quando ele bebericou o drink de Marina e pediu um igual, ela ficou
vermelha de raiva o fuzilando com o olhar e ele o rebateu a olhando com uma
adoração descarada.
Que p***a?
Olhei ao redor para ver se alguém além de mim estava vendo aquilo, Bruno se sentou na
ponta da mesa á frente de Gabriel que olhava ao redor como se procurasse
alguém.
-Acho que meu amigo gosta da sua amiga. -Edu sussurrou rente ao meu ouvido, me
retesei, e sibilei irritada.
-Sortuda. -murmurei ao beber o drink.- ele é o mais tolerável da turma.
-Sempre soube que gostava de mim, Laurinha. -Arthur murmurou piscando o olho e Marina
sorriu disfarçadamente. Oh c*****o.
Ela estava rindo como uma colegial.
-Olha só, parece que ela não é uma cretina arrogante como você.
-E Arthur não parece ser tão escroto quanto você. -rebati e o encarei, furiosa, ele
olhou em meus olhos, depois para meus lábios, exalou com força e olhou
novamente em meus olhos.
O que gostava em Edu, era como ele era fácil de ler, isso é, depois que você
tivesse o trabalho de conhecê-lo a fundo.
Apenas esse olhar me mostrou que ele ainda não havia me esquecido, Laura Macedo ainda
significava algo. A contragosto, quase sorri vitoriosa, quase, consegui
reprimir o riso, ele não desviou o olhar. Não, não era assim que as coisas
seriam, não mais.
-Por que não vai para casa? -ele sugeriu presunçosamente.
-Podemos ir a outro lugar, Ana.
-Não. -respondi concisa e sem desviar os olhos de Eduardo. -chegamos primeiro, não
seremos nós a sair.
Gabriel puxou a chave do carro da mesa e avaliou procurando o veículo na rua, cerrei os
punhos, não estávamos mais no ensino médio, i*****l.
-Devolva. -grunhi. Edu se acomodou na cadeira e passou os braços por cima da minha
cadeira, como se fosse dono do maldito lugar, afastei seus braços de meus
ombros, a raiva fervilhava em meu estômago. Sua mão voltou a envolver meus
ombros e me levantei bruscamente.
-Se me tocar novamente, irei esquecer que estamos em um lugar público e não me
importarei com as consequências. -rosnei baixo ao me inclinar em cima dele.
Recuei para me afastar da mesa, mas ele segurou minha mão, e disse ás minhas costas.
-Não vá. -Tentei me soltar e ele segurou firme.
-Fique.
-Não.
Me soltei dele e fui em direção ao caixa, ele berrou no meio do bar e todos
pararam o que estavam fazendo.
-Por que não? -gritou.
-Por que é imaturo. — resmunguei por cima do ombro e ele veio de encontro a mim.
-Mesmo depois de anos, quando me encontra a primeira coisa que faz é tentar me
humilhar ao invés de ter uma conversa civilizada. Podem muito bem ir para
qualquer lugar na cidade, mas tenho certeza que só estão aqui para me
atormentar. Vocês não têm mais o que fazer?
Ele me encarou, quando não falou nada, saquei o cartão para pagar a conta, mas ele
o tomou de mim, sorrindo para os amigos.
-Pessoal, deem o fora.
-Por quê? -alguém disse e não me virei para ver quem era. -só porque ela está
incomodada?
-Não, é porque estou mandando.
Semicerrei os olhos, vendo-o segurar meu cartão como um troféu, ah,
que lindo. Colocou o p*u na mesa.
Revirei os olhos, tomei o cartão da mão dele, ouvi o barulho das cadeiras se
arrastando, eles desapareceram na direção das pizzarias, insisti em
pagar a conta, mas o rapaz do caixa recusou, me virei para a mesa, mas ela
estava vazia.
Merda.
Levaram Marina.
Edu ainda estava ao meu lado e sorriu ao pegar uma bebida que o garçom ofereceu e
me entregou.
-Por conta da casa. -franzi o nariz, e a realidade me atingiu com força.
-O bar é seu?
-Meu e dos caras. -esclareceu com um sorriso arrogante, isso explica a reação do
garçom, voltei a me sentar na mesa, dividida entre ir atrás de Marina ou ir
embora, pesquei o celular e grunhi ao ver que tinha descarregado.
—Por que me odeia? -perguntou ao sentar em minha frente.
Me virei para a rua ignorando sua pergunta, levei o polegar a boca, tentada a
roer a unha.
-Por que voltou? Finalmente sentiu saudades?
Fiquei tensa, mas não olhei para ele, minhas pernas se mexiam inquietas e arfei quando
ele esticou as dele e afastou as minhas por baixo da mesa, o choque do contato
se espalhando pelo meu corpo como fogo em palha seca, o desgraçado sabia que
estava me deixando nervosa.
Me endireitei tentando manter as pernas quietas e tentei afastá-lo com um chute,
mas ele não se moveu, e ficou ali, com as pernas longas entre as minhas, apenas
me encarando.
-Por que não avisou sobre sua chegada?
Arqueei a sobrancelha, a resposta era óbvia.
Porque não queria que ele soubesse, esperava que estivesse fora da cidade, de férias,
em alguma ilha paradisíaca como Fernando de Noronha, mas aqui estava ele.
Peguei a bolsa e fiz menção de me levantar, a bebida chacoalhou quando ele de repente
abriu mais as pernas, afastando as minhas com brusquidão e quase me derrubando
no processo.
-Fique. -insistiu.
Senti um frio na barriga, a forma como a palavra soou autoritária, não gostava de
receber ordens, mas gostei de ouvir aquilo dele. Devagar, me aquietei e
coloquei a bolsa no colo.
-O que vamos fazer? -perguntei, ele não respondeu. -Beber e conversar? Relembrar
os velhos tempos? Eu irei sorrir com as lembranças de tempos felizes?
Ele não respondeu, seu olhar se focou em mim, o peito subindo e descendo rápido.
-O que esperava que acontecesse? -perguntei maneando a cabeça e de queixo erguido.
-Achou que iria me entregar a nostalgia e reviver os velhos sentimentos, ficar
feliz em vê-lo?
-Ainda podemos chamar seus amigos, dirigir até uma cidadezinha e festejar a noite
inteira, como antigamente. Isso o faria feliz?
Ele permaneceu em silêncio, me olhando, sem desgrudar os olhos dos meus.
-Dez anos e ainda estamos aqui. Vocês ainda são os mesmos filhinhos de papai,
destinados a se tornarem novas versões dos seus predecessores, tão previsível.
-O que esperava, sinceramente? -me inclinei para frente a fim de encarar seus
olhos de perto. -Achou que te deixaria me levar em casa e que me foderia em seu
carro e andaríamos de mãos dadas pela cidade no dia seguinte, eternizando nosso
amor juvenil?
Ele baixou a cabeça, finalmente entendendo aonde eu queria chegar.
Comecei a rir de sua ingenuidade e me endireitei.
-Fala sério, Edu. Achou mesmo que isso iria acontecer? Não somos parecidos, não posso
dar nada a você, sua vida é vazia e sem graça, patética, na verdade. Não quero
nada que venha de você.
Pesquei algumas notas na carteira e bati na mesa.
-Odeio você, odeio seus amigos, e odeio seus pais.
Sua mandíbula se contraiu, os olhos verdes se tornando repentinamente mais escuros,
desafiadores.
-Ainda não tem nada que eu queira. – disparei ao chutar suas pernas e me levantei, ele
sabiamente recolheu as dele para me deixar passar. -Pode conseguir tudo o que
quer, mas nunca me terá.
Me esquivei das cadeiras, mas parei no corredor de mesas quando ele disse as
minhas costas.
-Tive você uma vez. -disparou, me virei devagar. Seus olhos brilhavam em desafio. – E
terei novamente.
-Não, não terá. -declarei.
Fui em direção a saída, para a brisa quente da noite.
Virei à direita e segui em frente, sem querer passar em frente as pizzarias, virei a
direita uma quadra depois e fui em direção a ponte.O que ele estava
planejando? Por que ele simplesmente não parava de me perturbar, não tínhamos
mais 17 anos, aquilo não era um jogo, e não estava a fim de brincar. Ele não
deveria andar por aí exibindo uma loira siliconada ou algo do tipo?
Pessoas como ele não se importavam com pessoas como eu, ele estava me afetando, como
sempre.
Achei que depois de tanto tempo estaria a salvo, mas ele ainda me afeta da mesma
forma, talvez até mais. Mas não havia espaço para dúvidas, tomei uma decisão, não dava para voltar atrás e
mesmo se desse, eu escolheria a mesma opção.
Eu sempre escolheria salvar a mim mesma, ao invés dele, sempre. Eu continuava
sendo uma egoísta de merda, sorri amargurada ao atravessar a rua.
Algumas coisas nunca mudam, mas a miséria não gosta de solidão, não é mesmo?