Capítulo 3

5002 Palavras
10 anos atrás… Laura -Ana? -Hm? -respondi com o rosto amassado contra o travesseiro, tentava me mover o mínimo possivel, sabia que se ficasse quieta ela viria até mim. -Está dormindo desde que chegou. Tem que comer alguma coisa, filha. -Meus dentes doem, parece que irão cair a qualquer momento e o d***o está dançando axé no meu útero, não me disse que ficar menstruada doía tanto! Choraminguei me encolhendo e apertando a barriga, até minha virilha estava dolorida. -Não blasfeme! Não tenho cólicas, pensei que não teria também, mas é normal. -Prefiro continuar sendo criança. -Quem não prefere? -ela bufou, estreitei os olhos ao perceber que estava de uniforme, quanto tempo dormi? Ainda era noite. -Pra onde a senhora vai? -O padeiro está doente e irei no lugar dele. -Vai de mototáxi? -Não temos dinheiro, o vale não caiu. -Mãe! -Me mexi e alcancei a mochila, puxei uma nota de R$ 5 e entreguei a ela. -É seu dinheiro, filha. -protestou me empurrando a nota, fiz uma careta e abri sua mão, plantando o dinheiro ali. -É o nosso dinheiro, o que seria de mim e da Lou se acontecesse algo a senhora? -Está bem, deixei comida pronta, mas por via das dúvidas tem um miojo no armário. Tranque as portas e qualquer coisa me ligue, sua irmã e avó já jantaram. -Tá bom. Liga pro Nilson. -falei ao calçar os chinelos, me levantei da cama. -Pra onde vai? -Esperar com a senhora. -Você está de baby-doll! -O que é que tem? Não vou desfilar na rua, ficarei olhando do lado de dentro do portão. Ficamos no patamar da escada olhando a rua através dos tijolos vazados, estava tudo calmo e muito escuro, estavam acontecendo alguns assaltos por perto, e para quatro mulheres que moravam por aqui, sem nenhum homem na casa, todo cuidado era pouco. Me assustei quando a moto buzinou, descemos as escadas e abri o portão, fiquei do lado de dentro, sentia alguém me observando, olhei para cima e para baixo, mas não vi ninguém, me despedi de minha mãe e dei um tchauzinho discreto pro mototáxi. Nilson era um ex-namorada da minha tia Naná. Ela era um figura, sempre aparecia com namorados, mas não queria nada sério com ninguém, sabia que ele ainda era apaixonado por ela, de vez em quando até me dava uma carona e sempre perguntava dela, assisti ele manobrar a moto e descer a ladeira, me virei para entrar, tranquei o portão e subi as escadas, iria preparar o bom e velho miojo e talvez assistir algum filme no DVD. Escolhi um que havia comprado há alguns dias na feira, esteve no cinema há dois meses e esperava que não estivesse com imagens regravadas, mas não podia esperar muito de DVD's piratas, fui ao banheiro e assim que estava seca novamente fui a cozinha preparar o miojo. Esperei a água ferver no pequeno fogão de quatro bocas, gostava da nossa casa, tinha apenas quatro cômodos. Sala, cozinha e dois quartos. Havia um banheiro e uma pequena varanda na frente, tudo bem, ficava em cima da casa da minha avó, seria nossa enquanto ela vivesse por lá, minha irmã consequentemente passou a dormir com ela devido a idade avançada, isso significava que nossos dias ali estavam contados, porque depois que ela morresse, aquele bando de urubus que chamávamos de família iriam brigar por qualquer mísero centavo. Um dos quartos era dos meus pais, gostava de dormir na sala, ja que meu quarto estava lotado de tralhas de pescaria do meu pai, assim podia ler até tarde e assistir também. A água começou a ferver, ouvi um barulho seco, espiei através do corredor que levava até a sala, fiquei quieta, esperando ouvir mais, mas não ouvi nada. Talvez fossem os malditos gatos brigando no telhado, xinguei ao ver que metade da água havia evaporado em apenas alguns segundos, mensurei novamente com o copo medidor e acrescentei água, novamente ouvi outro barulho, como se uma ripa ricocheteasse em alguma coisa. -Quem está ai!? Um arrepio deslizou pelo meu corpo, olhei para o chão vermelho que brilhava refletindo a luz da cozinha, vi uma sombra se mover no final do corredor e perdi o folêgo, minha boca ficou seca e meu coração disparou. - Louisa? A água começou a ferver novamente, coloquei o macarrão e abaixei o fogo, atravessei o corredor conferindo o quarto da bagunça, acendi a luz e estava vazio, soltei a cortina e fui para a sala me sentindo mais segura ao deixar a luz acesa, o resto da casa estava escura, exceto pela luz suave que vinha da televisão, apertei as coxas reprimindo a vontade repentina de fazer xixi, pelo menos estava com absorvente caso algum acidente acontecesse. Quando estava quase chegando lá, me virei novamente em direção a cozinha, suspirei aliviada ao ver que as luzes continuavam acesas, era ridículo confiar nisso, mas as coisas são como são. De canto de olho vi umansombra se mover novamente e congelei, esperei, tirei os chinelos, os coloquei na mão, se precisasse correr estaria preparada, a sala estava na penumbra, apenas o descanso de tela pairando no monitor, a palavra “DVD” batendo de canto em canto na tv. Fui até a porta, espreitei através da janelinha, não havia nada nas escadas, outro barulho me fez virar, então houve um estalo seco, a luz da cozinha se apagou, meu coração errou as batidas, busquei pelo celular e gemi ao notar que havia deixado na cozinha, deveria ligar para alguém, para a polícia, talvez? O vulto se moveu pelo corredor, a luz do quarto se apagou, o desespero tomou conta, começei a sacudir a porta da sala com força, estava trancada, girei a chave, mas ela travou e grunhi em pânico, tentei mais uma vez e a chave cedeu, ouvi passos, abri a porta e me empurrei através dela descendo as escadas correndo, ao chegar ao portão percebi que não havia pegado a chave, me movi com intenção de subir as escadas, assim que subi dois degraus ele surgiu no patamar, muito maior do que esperava, talvez fosse por que estivesse na parte de cima. Recuei um degrau, olhei para cima, calça preta, casaco de couro preto e um capacete preto fosco. Eduardo. Quase relaxei ao saber quem era, mas então lembrei do que havia dito a professora e fiquei tensa, ele estava se vingando. Como se soubesse o que estava pensando, ele cerrou os punhos enluvados em couro, o material rangeu em protesto, olhei o portão novamente, de nada adiantaria ir por ali, estava trancado e não tinha a chave, a única forma de sair era por lá, mas para isso precisava da chave, a outra opção era pular o muro e descer até o quintal da minha avô, mas ainda teria de passar por ele. -Não tenho medo. -declarei. Ele inclinou a cabeça, a viseira do capacete refletiu a luz do poste que entrava pelos tijolos vazados. -Na verdade, estou p**a da vida. Meu miojo no fogo. Ele veio em minha direção e atirei um dos chinelos, ele ergueu o braço a tempo de bloqueá-lo e gemi quando o calçado caiu emborcado no chão, ele desceu outro degrau e atirei o outro, acertei o capacete dessa vez, ele continuou descendo, inabalável, deslizando os dedos silenciosos no corrimão da escada. Meu coração marretava minhas costelas, senti meu estomago se revirar à medida que ele se aproximava e o medo se infiltrava em mim. Encarei o capacete, a viseira espelhada escondia seus olhos, fiquei imóvel, e se não fosse o Edu? Parei, meu corpo de repente parecia pesado demais, ele desceu outro degrau, o olhei novamente, o porte com certeza era parecido, mas os amigos dele tinham corpos similares, olhei novamente para o capacete e fiquei perdida encarando a viseira, esperando ver os olhos musguentos que odiava, eles seriam bem-vindos agora. Mais um degrau, meu corpo aqueceu, não conseguia me mover. Outro degrau, ele estava praticamente em cima de mim, mesmo assim não me movi. Por que não me movia? Minha pulsação foi a mil, a sensação quase me fez sorrir, era uma coisa estranha não? Sorrir quando se está com medo, eu era uma aberração, e meio que... gostava daquilo. E se não fosse Eduardo? E mesmo que fosse, essa era uma brincadeira de muito mau gosto, ele invadiu minha casa! Algo despertou em mim e foi crescendo, minha respiração ficou ruidosa, queria que ele se aproximasse mais, queria ver o que iria fazer quando estivesse colado em mim, o que eu faria? Queria testar na prática, ele desceu o último degrau, não precisei me virar para saber que estava encurralada, sentia a iminência da parede pairando em minhas costas. -Bem, você está aqui. -sorri, fingindo um divertimento e uma superioridade que realmente não sentia, meu estomago afundou e minhas pernas bambearam. -É agora que grito? Ou devo implorar que me deixe ir? -ele inclinou a cabeça novamente me estudando, aquilo me irritou e meu sorriso diminuiu. -Ou talvez, devo soltar uma risadinha excitada, como aquelas bonequinhas que andam em sua garupa fazem. Ele ficou imóvel e parei de sorrir de vez. -Advinha só? Nunca terá isso de mim. -dei um passo a frente colando meu peito ao dele. -Não tenho medo de você. O empurrei, ele não saiu do lugar, o encarei, fiz menção de me esquivar pela esquerda, ele me impediu colocando um braço ao lado de minha cabeça e bloqueando minha passagem, fui pela direita e ele fez o mesmo, grunhi furiosa e num piscar de olhos me abaixei e passei por baixo de seus braços, me senti vitoriosa, mas ele estava me olhando por cima do ombro, as mãos ainda apoiadas na parede, os pelos de minha nuca se eriçaram. E corri. Ouvi o som de seus passos furiosos subindo a escada, corri mais rápido e fechei a porta, mas ele a segurou, fui em direção a cozinha o cabelo chicoteando meu rosto a medida que me aproximava, apertei o passo e cheguei a porta dos fundos, a abri, mas imediatamente ela se fechou com um estrondo e ele estava nas minhas costas, a mão acima da minha cabeça mantendo a porta fechada. De novo, tentei escapar, pela direita e depois a esquerda, quando me abaixei e pensei ter conseguido, mas ele enlaçou minha cintura e me empurrou contra a porta, minhas mãos se plantaram em seu peito, e merda, meu coração batia feito louco, minha respiração era difícil, e eu sorria como uma idiota... sorrindo. Sorrindo, não. Gargalhando. Por que estava sorrindo exatamente como disse que não faria? Meu sorriso se desfez, ele ergueu uma das mãos e soltou a fivela do capacete por baixo do queixo, quase sorri novamente ao ver os olhos musguentos me encarando através da a******a de uma touca ninja, como diabos ele conseguia usar tanta roupa com um calor de 30°? Pessoas que pilotavam moto eram estranhas. -Não era isso que pretendia, mas foi divertido, pitchula. O encarei, ergui o braço e puxei a touca, ele segurou em minha cintura enquanto a puxava da sua cabeça, libertando seu cabelo achocolatado que caiu graciosamente em sua testa, odiava aquele apelido, mas não queria falar e estragar tudo, pois naquele instante estavamos num lugar onde ele não era o herdeiro rico e eu não era a filha da salgadeira. E ali, naquele momento, eu não o odiava. Gostei dessa perspectiva, queria sair da prisão de seus braços, mas ao mesmo tempo queria ficar mais um pouco, só mais um pouco... Ele soltou o capacete no chão com um baque, despertei do meu transe, ele se inclinou e antes que perdesse o juízo novamente o acertei com uma joelhada, corri novamente para o corredor ao ouvir ele xingando, mas assim que cheguei escorreguei e caí, tive tempo de colocar as mãos à frente me impedindo de dar de cara com o chão encerado, uma mão se agarrou ao redor no meu tornozelo, puxei o pé e tentei acerta-lo com um chute, ele sorriu maliciosamente assistindo eu me contorcer como um gato levado para o banho. Meu coração batia rápido, pensei que estava a ponto e infartar, ele me puxou pelo pé e deslizei pelo chão, Edu escalou meu corpo, e prendeu minhas mãos acima da minha cabeça até que estivesse completamente esticada. Seu olhar estava focado em mim enquanto inclinava o rosto com um gigantesco sorriso vitorioso. -S-saia de cima de mim. -gaguejei entre risos, porque diabos, estava realmente gostando daquilo? Senti uma gota de suor escorrer em meu rosto, seu corpo de repente tão pesado em cima de mim, me cercando de calor, era dificil respirar, tentei engolir, mas não consegui, não consegui desviar de seu olhar também, meus braços me impediam de virar o rosto, aprisionando minha cabeça exatamente onde ele queria. Fiquei tentada a fechar os olhos, apenas para escapar daquele escrutínio, ele se inclinou mais, o nariz roçando no meu. Eu queria mais. Me odiava por querer mais. Fechei os olhos em agonia, seus lábios pairaram em cima dos meus, um pulsar desconhecido surgiu entre minhas pernas. Desejo... aquilo era desejo, eu o queria. Abri os olhos e o encarei, ele hesitou, aquilo foi o suficiente para me dar coragem, endureci meu olhar. -Você é ridiculo. -murmurei abraçando seu corpo com minhas pernas. -Tão previsível. Achou mesmo que o deixaria enfiar sua língua em mim? Ele congelou. -Isso pode funcionar com todas as outras, você é bruto, as assusta e isso as deixa excitadas, certo? Sempre acaba com elas na sua cama, minha mãe me conta sobre isso, sabia? A moça que limpa sua casa é amiga dela. Ele tentou se soltar, o agarrei com mais força, minhas coxas queimaram em protesto, não o soltei, tampouco ele soltou minhas mãos. -Isso não funciona comigo, não tenho medo de você. Mesmo que tivesse, isso não me levaria a sua cama, nada me levaria a isso. -Me solta. Exigi, Edu apenas me encarou, e ao invés de me libertar, seu agarre se intensificou e ele se pressionou contra mim, meu corpo se mesclando ao dele, até que senti algo rígido bem entre minhas pernas. -Por quê? -perguntou com a voz áspera. -Por quê? -como assim por quê? -Não queria te deixar com medo, nem excitada... mas por que não? -O quê? -Deveria rasgar esse shortinho indecente e afundar meu p*u na sua pequena b****a, só pra te mostrar que me quer, e sabe por que quero isso agora? Porque sei que está excitada, eu também estou e não é sua aversão que me excita... -Mentira. -rosnei. E soou ridículo. -É por isso que me odeia, não é? Mesmo depois de ter feito um monte de merda, você quer manter a pose de diferentona que odeia se divertir e não paga p*u para mim, e se odeia, por que mesmo que me odeie, também me quer, não é Laura? Ele se abaixou de vez, quase me esmagando, engoli um palavrão quando seus dentes capturaram meu lábio inferior, meu corpo retesou na hora, ele o puxou devagar, a ponta da sua língua passeou entre os dentes, me lambendo, provocando, e meu corpo inteiro formigou. Inferno, esse i****a acabou de me morder? c*****o. Ele gemeu, soltou o lábio, estava chocada demais, pisquei atordoada e notei uma fumaça sobre nossas cabeças. -Merda, o miojo! Ele se levantou em um pulo ao notar a fumaça e correu até o fogão, a água havia secado e meu miojo havia virado carvão. p***a. Corri até a porta dos fundos e abri para ventilar casa. Ótimo. Era só o que faltava. -Espere um pouco, não tranque as portas. -O quê? Ele saiu pelo corredor, ouvi quando a porta da sala se abriu, mas que p***a? O c*****o que não vou trancar, fui pisando duro até a sala e saí na porta olhando entre os tijolos vazados, vi que ele falava com alguém que estava em uma moto, tinha alguém ali o tempo todo? Fiquei na ponta dos pés tentando ver melhor, era uma Cb300 amarela, me abaixei quando ele se virou, merda, era Gabriel, o melhor amigo dele. Corri novamente para cozinha, coloquei a panela na pia, fingi que estava tentando lavá-la e me virei quando ouvi o farfalhar de uma sacola. -Você não trancou. -Saia daqui. -retruquei, ele continuou me olhando quando pousou suavemente a sacola na mesa. -É perigoso ficar sozinha, sua mãe estava preocupada. -Estou bem, saia. -Eu não te deixarei sozinha e com dor. -esclareceu. -Você caiu e bateu com a cabeça? Saia daqui, c****e! -Pedi pra Lurdinha fazer o caldo, fiz o pão preto, então, releve se estiver duro, não me irritou o suficiente hoje para que sovasse a massa direito. -Saia. -disse entredentes, ele puxou uma cadeira e se sentou. -Me obrigue. -Me endireitei. -O que disse? -Me.Obrigue. -sibilou, um meio sorriso lentamente se espalhou quando ele me viu cerrar os punhos, o infeliz esticou as pernas como se fosse dono do c*****o da casa e do mundo. -Deve estar muito entediado para vir me perturbar a uma da manhã! -Sente-se e coma. -disse ao puxar uma cadeira e acenar em direção a ela. Não me movi. –Pode trazer essa bundinha linda pra cá e comer a sopa e o pão que preparei com muita dedicação, ou sua mãe irá receber uma ligação dizendo que sua filhinha está brincando de pega-pega com um amiguinho enquanto ela derrama suor sovando massas de madrugada. -É você quem está aqui! -Sim, e mesmo que seja eu, acha que sua mãe ficará feliz com isso? Franzi o cenho, mainha ás vezes parecia gostar mais de Edu que de mim, não me surpreenderia se ficasse feliz em saber que rolava alguma coisa entre nós, como se ouvisse meus pensamentos, ele inclinou a cabeça sorrindo. – Ela não gosta tanto assim de mim. O fato é, meu pai ficará sabendo, ele dirá uma merda parecida com: “Prendam suas cabras, porque meu bode está solto.” No final, a bucha vai sobrar pra ti, como sempre. Bufei contrariada, puxei a cadeira com brusquidão e me sentei resignada, ele assentiu. -Viu? Não é uma pirralha tão má quanto quer que os outros pensem que é. O fuzilei com o olhar, queria quebrar seu pescoço, ele entrecerrou os olhos ainda sorrindo, abriu a marmita e desembrulhou o pão, o cheiro estava ótimo, caldo de carne. O caldo da ressaca que todos faziam fila por uma porção, principalmente quando tinha show de alguma banda nos clubes, era uma tradição amanhecer o dia na padaria tomando caldo. O pão preto estava lindo de doer, me senti culpada por querer devorá-lo, minha boca salivou, ele estendeu uma colher e franzi o cenho, nem notei quando se levantou para pegá-la. -Coma. (...) Depois de comer o pão mais delicioso e macio que já provei na vida, escovei os dentes com cuidado para tirar os restos de comida do aparelho, fiquei feliz ao ver que Edu não estava mais na cozinha. Graças a deus, ele foi embora. Apaguei as luzes e corri para a sala, era ridículo acreditar em demônios depois de tudo que aconteceu? De forma alguma. Depois de hoje coisas impossíveis se tornaram possiveis, cheguei à sala esbaforida e praguejei quando o vi sentado em minha cama, sem camisa e com o controle da tv nas mãos. -Oh inferno, vá embora! -A mulher de preto? Por que assiste essas merdas se é tão medrosa? -perguntou ignorando meu protesto. -Não sou medrosa! -Apagou todas as luzes e saiu correndo, se isso não é medo não sei o que é. -Eduardo. -exalei profundamente massageando as têmporas, se usasse o tom certo, poderia persuadi-lo a ir embora. – Vá embora, temos aula cedo e preciso dormir. -Eduardo? – sibilou irritado e colocou o controle na cama. – Te comprei remédios, cozinhei. c*****o, comprei absorvente pra ti! Sabe o quanto isso é constrangedor!? E tudo que ganho é um, Eduardo? -É o seu nome. -Sim é, mas odeio quando o fala desse jeito. -Que jeito? -Como se eu estivesse fazendo algo errado e torrando o c*****o da sua paciência. -Bem, você está! -f**a-se. -xingou se esticando e me puxando para a cama, aterrissei ao seu lado, me debati, mas ele se deitou me levando junto e me prendeu entre as pernas, ele puxou a coberta sobre nós, tentando afastar o rosto de minhas mãos, ele segurou meus braços com força e deu play no filme. Era impressionante como ele era ágil com todo aquele tamanho, ele me manejava como se eu fosse um boneca, cansada de lutar contra uma montanha, me aquietei, ele não iria embora dali a menos que quisesse, estava conseguindo me prender apenas com uma perna e um braço, e estava cansada demais para revidar, me resignei a assistir o filme e fiquei quieta. Depois de um tempo ele afrouxou um pouco seu agarre, como se testasse minha reação e quando não revidei, esticou o braço e apagou a luz. O barulho suave do ventilador girando era tranquilizador, mas não conseguia prestar atenção no filme, e a qualidade nem estava r**m, suspirei. -Por quê...? Quase pude ver ele franzindo a testa. -Porque me assustou se não queria me deixar com medo? -Está sempre olhando por cima do ombro, como se estivesse sendo perseguida, você afasta todo mundo, com um livro ou com um fone, quer ser inacessível... -E...? -incentivei, sem entender aonde ele queria chegar. -E, pensei que, talvez, você quisesse que alguém te alcançasse, derrubasse seus muros e te perseguisse, pensei que talvez gostasse de ser caçada. Eu gostei. Muito. E talvez ele estivesse certo, mas jamais deixaria esse alguém ser ele. Nunca. Ele não. -Não gostei. Não gosto. -enfatizei, ele se ajeitou, sua mão quente pousou em cima da minha barriga, trazendo alívio imediato para a cólica e quase gemi em agradecimento. -Talvez não. -disse soprando em minha nuca. -Mas por trás desse muro de arrogância e orgulho, vi algo... -Viu o que? -sussurrei sem fôlego, sentia seu sorriso rente a minha pele. -Durma, pitchulinha. Não queria dormir, queria conversar. Queria dizer a ele para me deixar em paz, que isso não daria em nada, não importa quanto esforço colocasse nisso. Sempre escolheria a mim mesma, independente de quem fosse, eu era egoísta, sempre me colocaria em primeiro lugar, alguém assim não pode e nem deve ter ninguém em sua vida, eu apenas o arrastaria para o fundo do poço. Então, arrume um outro alguém para brincar, uma menina que usa roupas justas e se importe com motos e carros caros, uma beldade que se preocuparia mais em manter o cabelo no lugar do que em alimentar o cérebro. Por favor, apenas se concentre em alguém que não sou eu, apenas um outro alguém. (...) -O prazo venceu ontem, conhece as regras. A cada dia de atraso, somaremos uma multa de R$ 5. Queria berrar com aquela velha, não estava com o maldito livro! Edu o tomou de mim, pensei em pedir de volta pela manhã, mas quando acordei ele já havia ido embora. Como ela achava que iria devolvê-lo se não estava comigo!? Queria quebrar alguma coisa, era fim de mês, a dispensa em casa estava vazia, tinha apenas uns trocados no bolso para o lanche de hoje, não queria deixar aquela dívida se acumular, e não queria que ligassem para minha mãe avisando que não havia entregado a porcaria do livro. Já tínhamos problemas demais, e quem iria acreditar em mim se dissesse que Edu o havia roubado? Para minha mãe, ele era um santo, se dissesse isso era capaz dela lavar minha boca com sabão de soda e me acusar de blasfêmia. Entreguei o dinheiro a contragosto e fiquei sem nada, um salgado custava R$ 2,50. Talvez tivesse algumas moedas na mochila, me despedi e fui ao terceiro andar, abri o armário e encontrei uma caixinha de suco de uva e uma barrade cereal de morango, era a minha preferida. Uma isca convidativa, era o que parecia. -Aquele filho da p**a. Peguei a caixinha enfurecida, conferi a embalagem da barrinha, parecia intacta, mas não ia arriscar. Sabia muito bem quem havia colocado aquilo ali, graças a quase tragédia de ontem, descobri quem tinha a senha. Já estava cansada dessa merda. Bati a porta do armário e desci as escadas correndo, meu velho all-star guinchando pelo piso brilhante e imaculado, a calça de malha azul escuro se atritava em minhas coxas conforme corria cada vez mais rápido. Entrei no refeitório, meus olhos vasculhando em busca dele, o avistei na mesa em que sempre ficavam, cercados de meninas, aquelas que usavam a camisa justas demais e enrolavam o cós da calça para que ficasse justa na b***a, que se lasque, atravessei o refeitório sentindo a caixinha se deformar com meu aperto. Minha visão se tornou um túnel, ele ficou sério quando notou minha aproximação, meus olhos percorreram seu corpo e foquei na jaqueta, ou melhor, na pontinha preta da brochura que espreitava para fora, era ela que me interessava, meus olhos voltaram a seu rosto, ele sorriu. O p****e, sorriu. Aquele sorriso sacana que quase me fazia arrancar os cabelos, surtei. -Não preciso de caridade. – disse batendo a caixinha na mesa junto com a barra de cereal, todos ficaram em silêncio. -Pessoas normais, costumam agradecer quando recebem uma gentileza, pitchulinha. -zombou. Sabia que não estava falando apenas do suco. -O preço da sua gentileza é caro demais, enfie ela no r**o. -uivos e risadas ecoaram e fizeram minhas pernas vacilarem, cerrei os punhos para esconder a tremedeira. Ele se levantou, o corpo se agigantando diante de mim e me tornando menor. -Devolva o livro. -Se tivesse sido gentil, até te daria, mas agora... não estou a fim. -Você é um i*****l, sabia? Se acha o fodão, com seu carro caro, sua moto de merda e suas roupinhas de marca, acha que pode fazer tudo o que quiser que não vai pegar nada. Atormenta os outros, pega a menina que quiser... mas aí, aparece alguém que não te dá moral, você ouve o primeiro não, e o que acontece? -sorri ironicamente e abri os braços, ciente da atenção de todos. -O mauricinho fica obcecado! -Tire esse maldito sorrisinho da cara. -rosnou. Meu sorriso se alargou, mascarando toda a insegurança que sufoquei ao cerrar a mandíbula e dar um passo a frente, mostrando a ele a coragem que sempre quis ter. -Posso ter sido gentil ontem, mas não sou assim o tempo todo. Pode continuar achando que sou um delinquente juvenil e que do nada, terei um estalo e irei me arrepender de todas as porcarias que fiz com você, mas advinha só? Não me arrependo de nada, e faria tudo novamente e a noite dormirei como uma pedra nos meus lençóis caríssimos e no meu travesseiro de penas de ganso. E talvez, se for uma boa menina eu a deixe arrumar minha cama no dia seguinte, até deitar nela... Não sabia se estava bufando ou rosnando, ou talvez rugindo, culpei os hormônios, eles estavam me deixando maluca! Mas avancei nele grunhindo feito um animal. -Seu filho da p**a! Por que não me deixa em paz!? Odeio você! Ele apenas inclinou o rosto para longe e segurou minhas mãos, como se estivesse se protegendo de uma criança fazendo birra. Estava esgotada, exausta e injuriada, cansada de tudo e de todos, me debati inutilmente contra ele, até que fiquei cansada demais e ele apenas ficou ali, me segurando, quando parei de gritar, me sentia cansada, tentei me soltar, consegui, mas ele me puxou pela gola da camisa. -Por que simplesmente não aceitou o suco? – deslizei minha mão em seu bolso e puxei o livro. -Me solta. Como se tivesse entendido a menção a comida, meu estômago roncou de uma forma horrorosa e meus olhos arderam de vergonha, por que tudo sempre ficava pior? Por que tudo se transformava em humilhação pública quando se tratava dele? Eu estava cansada, com dor e com fome. -Tomou café da manhã? -sussurrou para que somente nós dois ouvíssemos. Deus, eu queria chorar. Engoli o nó na garganta e cerrei os dentes, tentei me soltar mais uma vez sem querer que ele percebesse que havia pegado o livro, ele me puxou com mais força e me aprisionou contra seu corpo, passou um braço envolta da minha cintura enquanto o outro segurava firme minha nuca, me forçando a olhar para ele. -Porque sempre escolhe o caminho dificil? Não percebe que faria tudo por você? Tudo. Diga o que precisa, e terá. Diga quem tenho que surrar e eu farei. O que quiser, apenas me diga. Por que ele era assim? Ele me provocava, brigava comigo, me humilhava e depois aparecia em uma moto ou um carro para me resgatar, o salvador da pátria, defensor dos fracos, ele me deixava cada vez mais confusa e odiava isso, me fazia querer deixar ele entrar, apenas para saber o que predominava nele, mas não sabia o que poderia acontecer se fizesse isso. Por um momento fiquei em dúvida, apenas por um momento, até que olhei ao redor e me dei conta de onde estava, de quem era e do que estávamos fazendo há poucos segundos. E a raiva voltou com tudo. -O mundo não gira ao seu redor, e mesmo que girasse. -Me inclinei na ponta dos pés e olhei bem dentro dos seus olhos, ele era bonito, nunca neguei, o cabelo cor de chocolate, labios grossos e bem delineados, sobrancelhas escuras e aqueles olhos que sempre me impeliam a dar uma segunda olhada, apenas para confirmar a cor, tudo nele era atraente, como se fosse uma isca e eu fosse uma presa burra e ingênua. – Não há nada que eu queira de você.- seus olhos perderam o brilho e se tornaram hostis. -Dê o fora. -grunhiu ao me soltar, e tropecei em meus pés, o olhei uma última vez, seus olhos ficaram mais escuros, como se ele tivesse trancado a brecha que deixara transparecer. -Foi divertido. -declarei erguendo o livro que havia pegado, ele cerrou os dentes. – Babaca.
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