NARRAÇÃO DE KAITO...
Me aproximei do Dom Dawson, ele olhava a carta com um certo desprezo.
— Agora iremos descobrir se de fato ele foi o culpado… Posso abrir? — perguntei, observando ele caminhar até sua poltrona. Suspirou e sentou, acendendo seu cigarro.
— Fique à vontade, mas não pense que irei acreditar nas palavras daquele homem. — Ri, abrindo a carta. Então comecei a ler em voz alta.
“De Dom Louis para Dawson.
Caro Brady, me surpreende saber que depois de tantos anos conseguiu usar o seu cérebro, me surpreende ainda mais receber uma carta sua a respeito de algo que fizera comigo depois de algumas décadas. Me diga? Quem te fez pensar? Eu te conheço… Sozinho não conseguiria. Assim como no passado você não enxergava quem te traía, foi preciso ver os dois na cama pra entender. O que te fez querer me mandar aquela carta?
Quer saber a verdade? Certamente contarei. Aquele dia, em específico, foi o pior dia da minha vida. Eu estava com minha mãe doente na p***a de um leito, fui para a escola obrigado. E vocês me pegaram na covardia fora da escola, cada chute, cada soco ficou marcado em minha memória. Tenho uma cicatriz na sobrancelha pra não me fazer esquecer. Voltei pra casa mancando, gemia de dores, uma costela estava quebrada, mas ninguém se preocupou, pois ao retornar para casa, todos estavam em luto. Meu pai chorava na varanda, sendo consolado pelos amigos. Eu não precisei perguntar, eu sabia que minha mãe havia morrido no quarto, ela estava em estado terminal.
Mesmo ferido, mesmo quebrado e sangrando, me despedi dela. Segurei em sua mão fria, observei o contraste dos meus dedos feridos com sua pele pálida, então jurei que faria da sua vida um inferno. E se eu pudesse voltar no passado, aaah, se pudesse… quebraria sua moto apenas pra fazer jus ao que me acusara. Agora, espero que depois de saber de toda a verdade, você se f**a.
Atenciosamente,
Dom Louis.”
Eu parei por um instante, melancólico. Fiquei olhando aquela carta com o peito apertado. Meu pai nunca havia contado isso, apenas falava que sua mãe partiu cedo demais…
Ergui meus olhos para Dom Dawson, agora com tristeza, por saber que ele machucou meu pai no pior dia da sua vida. Mas não precisei acusá-lo em pensamentos, ele estava com um olhar distante, o cigarro queimava sozinho.
— Dom Dawson? — finalmente ele saiu do transe e me olhou.
— Ham… Sim…?
— O que acha dessa carta? Acredita que ele teria coragem de inventar sobre a situação da falecida mãe? — Ele me olhou, mas parecia carregar tristeza.
— Ele não mentiu. Me lembro quando avisaram sobre a morte dela, por um instante senti pena dele, pois eu também havia perdido minha mãe há pouco tempo. Sabia da dor que ele iria sentir. Mas essa pena desapareceu imediatamente, pois ele se tornou ainda pior, mais revoltado, se juntou com o seu grupo e eu fiz o meu. A rivalidade cresceu até ficar insuportável… — Segurei a carta com mais força.
— Ele se despediu da mãe com a costela quebrada… Ele… sofreu — falei, sentindo a dor do meu próprio pai. — E você deveria… você sabia como era perder uma mãe. — Dom Dawson olhou para o chão, agora sim sentia seu arrependimento. Meus olhos ficaram úmidos. Fui até sua mesa e deixei a carta sobre ela.
— Precisa se desculpar com ele pessoalmente. É importante. — Mesmo com tristeza, ele riu, amargo.
— Eu não vou até ele. Estou há dezoito anos sem vê-lo, é melhor assim.
— Cure, assim você também será curado — implorei com os olhos. Ele me encarou, por fim respirou fundo.
— Tá. Posso me encontrar com ele pessoalmente, sem as famílias saberem. Posso ver, e você precisa estar ao meu lado. Pois é um bom conselheiro, apesar da pouca idade. — Meu coração disparou.
— Claro, só marque o dia… — Fui até a fileira de livros e achei uma folha em branco. — Escreva pra ele, peça esse encontro. — Ele hesitou, mas mesmo em negação pegou o papel.
— Eu preciso ir embora agora, quando marcarem o encontro, me avise, por favor. — Ele assentiu. E antes que eu saísse do escritório, ele chamou.
— Seo-Jun… não deixe mais ninguém te machucar na escola. — Juntei as sobrancelhas, ele apontou para o meu pescoço. Arqueei as sobrancelhas, constrangido.
— Claro, obrigado. Até mais… — Praticamente fugi do seu escritório.
Eu não entendia… Meu coração apertava, sentia vontade de chorar. Pensei que seria fácil entender o motivo de toda inimizade, mas descobrir a fundo o quanto meu pai sofreu estava me machucando, pois ele sempre transpareceu ser forte, mas na carta ele colocou tudo pra fora… Até mesmo detalhou a cicatriz em sua sobrancelha. Uma vez perguntei o motivo daquela cicatriz, e ele apenas respondeu que não era uma boa lembrança. Não era mesmo…
Desci as escadas com um enorme nó na garganta. Bela estava junto com sua irmã no sofá, entre risos, olhando as fotografias de família, mas bastou seus olhos me encontrarem para que seu sorriso diminuísse. Ela já me conhece bem… Soltei uma lufada, tentando segurar o choro na garganta.
— Eu preciso ir… — quase sussurrei, tocando em meu peito. Ela balançou a cabeça, compreendendo. Saí da mansão e me despedi brevemente.
Ao entrar no táxi, lutei contra minha angústia. O motorista me observava em silêncio.
Quando cheguei em nossa mansão, meu pai estava do lado de fora, encolhido, se escondendo em seu casaco, ordenando trabalhos aos seguranças.
Saí do carro e me apressei, a cada passo meus pés afundavam na neve. A lembrança da carta… segurou a mão da mãe com seus dedos feridos. Machucado por fora, e ferido por dentro. Ele me olhou e sorriu, mas eu chorei e o abracei forte.
— Kaito… Filho, você está me assustando!
— Eu te amo, pai. Eu te amo demais — falei entre os soluços. Os seguranças se afastaram em respeito. E ali, naquela tarde fria, apenas permaneci abraçado a ele. E claro, ele retribuía o abraço, mesmo sem entender o motivo das minhas lágrimas.