NARRAÇÃO DE BELA...
Dedos suados, olhos focados na professora enquanto ela explicava a matéria — mas eu não prestava atenção em absolutamente nada do que dizia. Meus sentidos estavam inteiramente voltados para Kaito, ao meu lado: seu perfume, sua perna próxima da minha, sua respiração. Eu queria contato, e ele parecia entender, pois propositalmente encostava a perna na minha, balançando discretamente, causando atrito entre nossos jeans.
Eu não queria estar emocionada demais, mas agora sentia que ele desejava o mesmo que eu. A tensão entre nós começava a gritar.
Quando o sinal tocou, consegui finalmente sair dos meus devaneios. Kaito sorriu enquanto guardava o material.
— Vamos lanchar no pátio?
Sorri e apenas confirmei com a cabeça. Guardamos as mochilas nos armários da escola e seguimos lado a lado, ignorando os cochichos e olhares curiosos.
No caminho até o refeitório, senti uma onda de frio. Encolhi-me e resmunguei. O inverno estava a caminho. E eu o odiava profundamente: neve, frio, céu cinza, roupas úmidas, nevascas. As árvores pareciam mais pesadas sob o excesso de neve, os pássaros desapareciam, e a solidão combinava demais com esse tipo de tempo.
Pegamos nosso lanche e, ao chegarmos ao pátio, observei o céu ficar cinza aos poucos. Sentamos em torno de uma mesa. Reparei em Kaito segurando sua maçã verde; ele inspirou fundo e sorriu.
— Eu adoro o inverno… já estava com saudades.
Entortei o cenho.
— Você é, definitivamente, o meu oposto.
Reclamei, mordendo minha maçã. Ele sorriu. Olhei ao redor, incomodada.
— Eles não cansam de nos encarar…?
Kaito riu, terminando de mastigar.
— Uma hora cansam. Estão só curiosos. Querem saber se somos amigos ou namorados… Depois que descobrirem, a curiosidade acaba e eles passam para outro assunto.
Respirei fundo, criei coragem e me inclinei, sorrindo, enquanto acariciava seu rosto. Ele congelou, claramente em choque com minha atitude. Alguns alunos passaram perto.
— Meu bebê, me leva para tomar um chá quente depois da aula…? Eu gosto de chá quente no tempo frio.
Segurei a vontade de rir. Os curiosos até pararam de andar. Kaito era tímido, mas, naquele momento, ele me surpreendeu. Perdi a voz quando ele se inclinou e acariciou meu rosto também.
— Claro, meu amor. Eu faço tudo o que você quiser…
Travei quando ele depositou um beijo na minha testa. Por um instante, esqueci até de respirar. Algumas garotas se entreolharam com indignação, os rapazes pareciam em choque. Mas deu certo: aos poucos, pararam de nos encarar. Foi divertido fingir ter um namorado por alguns segundos.
O vento gelado começou a incomodar. Kaito rapidamente tirou o casaco e o colocou sobre meus ombros.
— Vou ligar para o seu pai. Vou pedir permissão para te levar para casa.
Um frio percorreu meu estômago. O motivo era um só: ficarmos a sós na biblioteca da mansão.
Ele me olhou, tentando conter o riso.
— Por que você não gosta do inverno? Passeio de esqui, snowboard, Park City, até patinação no gelo…
— O único lazer que já tive no inverno foi fazer bonecos de neve e tomar chá quente com a família em uma pousada. O resto… tédio.
— Bonecos de neve também são legais. Mas neste inverno você vai ter muito mais aventura. Faço questão.
Levantei, segurando o riso.
— Vamos ver se você consegue me convencer de que o inverno pode ser bom.
— É bom. Melhor ainda quando se tem alguém para aquecer, conversar, rir… viajar.
Ri alto.
— Eu nunca viajei sem meus pais, Kaito.
— Tudo tem a primeira vez…
Parei, respirei fundo e peguei o celular.
— Vou ligar para ele. Acho melhor eu falar.
Kaito deixou de sorrir quando iniciei a ligação. Não demorou para meu pai atender.
— Oi, filha.
— Pai, como Seo-Jun vai para a mansão, você poderia enviar um motorista para nos buscar? Assim terminamos o trabalho mais cedo.
— Claro. Vou precisar sair para uma reunião fora de casa, então sua mãe vai ajudar vocês. Não devo demorar.
Mordi os lábios, eufórica. Era tudo o que eu precisava: ficar a sós com Kaito e conversar com minha mãe sobre o passado.
— Está bem.
Olhei Kaito de relance.
— Ah! Pai, o Seo-Jun pediu para agradecer pelos conselhos sobre como se vestir. Ele disse que as risadinhas pararam por onde ele passava.
Ouvi meu pai rir, orgulhoso, confiante de que ajudava um pobre nerd sofrido.
— Não precisa agradecer. Acho que, quando eu voltar da reunião, vou presenteá-lo com algumas peças de roupa novas.
Tampei a boca para não gritar. Kaito se afastou, rindo, entendendo perfeitamente o quanto eu podia ser insana.
— Obrigada, pai…
Falei com a voz trêmula, tentando conter o riso. Meu Deus… meu pai já o enxergava como um filho.
— Preciso desligar, estou saindo agora.
Quando a ligação terminou, eu e Kaito nos encaramos e não resistimos: gargalhamos. Era cômico, mesmo sendo um pouco trágico.
Passei a ficar ansiosa durante as últimas aulas. Nunca desejei tanto voltar para casa com ele.
Quando finalmente saímos, o motorista particular já nos aguardava. Entramos sérios. Kaito colocou rapidamente os óculos de grau e retirou as correntes, evitando parecer estiloso demais. O motorista era profissional e sequer olhava pelo retrovisor.
Eu estava tranquila. Minha mãe não me sufoca como meu pai. Julie é parceira, Lucas é boca de túmulo, e a biblioteca é vazia — sem câmeras de segurança. Podemos conversar a tarde toda. Posso admirar sua beleza em silêncio, sem culpa.
E como eu quero.