Feridas antigas

1108 Palavras
NARRAÇÃO DE KAITO... Meu corpo inteiro tremia. O silêncio dentro do carro fazia meus pensamentos gritarem. Eu já não sabia se tremia de frio ou pelo choque de ter visto meu pai entre a vida e a morte. O pior foi precisar lutar para esconder a dor, a tristeza que me consumia. Em determinado momento, Dom Dawson me olhou, tirou o sobretudo e o estendeu para mim. — Use isto. Você está em choque… Peguei o sobretudo em silêncio e o vesti. Mas o desejo não era me aquecer — era esconder de mim mesmo as marcas de sangue do meu pai, que ainda manchavam minha roupa. Olhei para Brady Dawson e inspirei lentamente, procurando palavras. — Percebi algo diferente em seu olhar quando viu aquele homem acidentado. Parecia carregar raiva. E, quando informou o nome dele no hospital, tive a constatação de que vocês já se conheciam. Dom Dawson soltou um riso amargo, como se eu tivesse tocado o fundo de uma ferida aberta. — Conheço… mas teria sido melhor não ter conhecido. A forma como seu corpo exalava raiva e rancor era evidente: rangia os dentes, apertava o volante, respirando fundo. — Pode me contar? — arrisquei. — Preciso me distrair. A imagem do tornado se formando tão próximo ainda me causa um grande desconforto. Ele me analisou por um instante. — É um inimigo — respondeu, seco. — O que ele fez? Dom Dawson riu novamente, mas se calou ao parar diante do portão da mansão. — Depois te conto em detalhes. Primeiro vá se trocar, tome um banho, tire essa roupa suja e beba algo quente. Você… rapaz, esteve quase no olho do tornado! Olhei novamente para minha blusa; o sangue já estava seco. Aquela visão me embrulhava o estômago. Eu me sentia culpado. Um péssimo filho. Não estive ao lado dele no hospital até ele acordar… Quando entramos na mansão, avistei Bela sentada no degrau da escada, visivelmente angustiada. Bastou Dom Dawson se afastar para que eu sentisse alívio. Ela era a única pessoa com quem eu podia desabafar, contar o que havia acontecido e como me sentia. Minha confidente. Aquela que fazia meu coração errar as batidas sempre que me abraçava com ternura. Bela fora criada com respeito e educação. Admirei vê-la tratar os empregados com gentileza, pedir educadamente que preparassem um chá de camomila. Um contraste enorme com o que estou acostumado. A maioria dos herdeiros é mesquinha, acredita ser melhor que os outros e transforma a vida dos empregados em um inferno. Até nesse pequeno detalhe, ela me fascinava. Eu já estava encantado quando entramos no quarto onde eu ficaria. Admirei o retrato deles e, pela primeira vez, em silêncio, admirei profundamente Brady Dawson. A cena dele carregando meu pai, levando-o às pressas ao hospital, implorando para que os médicos se apressassem… Aos poucos, construía dentro de mim uma admiração enorme por ele. Bela parecia orgulhosa por finalmente conseguir provar que seu pai era, de fato, um bom homem. E, por um momento, esqueci tudo: deles, da rivalidade, do desejo de entender cada detalhe. Bastou Bela morder levemente os lábios. Senti sede de beijá-la. Estar sozinho com ela naquele quarto era um convite tentador. Mas desviei o olhar quando a porta se abriu e Dom Dawson surgiu, chamando-me para conversar. Ele foi à frente. Aproveitei que estava de costas e, ao passar por Bela, encostei discretamente nossos dedos. Ela, claro, riu em silêncio. Segui Dom Dawson até seu escritório. Ele se serviu de uísque e então se virou para mim. — O que quer saber sobre essa rivalidade, Seo-Jun? — Como começou? Após minha pergunta, ele virou a bebida de uma vez e caminhou até a janela. — Quando nasce uma rivalidade, raramente ela deixa de existir… Com Dom Louis foi assim. Desde a infância — ou pré-adolescência, já nem sei mais. Sempre brigamos. Mas há uma cena que nunca esqueci, ainda no ensino médio. No dia em que cheguei de moto pela primeira vez… Estava orgulhoso. Um rapaz que eu acreditava ser meu amigo esteve ao meu lado o tempo todo, elogiando, puxando meu saco. Dom Louis, de longe, não disfarçava o desconforto. Sempre quis o que me pertencia. No fim do dia, ao sair da escola, encontrei os pneus da moto furados, a lataria riscada… Dom Dawson soltou outro riso amargo enquanto se servia de mais uísque. — Esse “amigo” me contou que fora Louis quem destruiu a moto. Foi… satisfatório ir atrás dele. Brigamos feio. Arrebentei a cara daquele desgraçado. Ele também quebrou um dente meu, mas isso foi fácil de resolver. Pisquei, incrédulo. Era difícil acreditar que meu pai fosse capaz de algo assim. — Tinha provas? Ele assumiu? Dom Dawson parou de sorrir, talvez desapontado por eu não elogiar sua atitude. — Nunca assumiu, mas havia uma testemunha. Franzi o cenho, quase irritado. — A testemunha era justamente o amigo traíra? Nunca pensou que talvez tenha sido ele? Dom Dawson parou. Me analisou. — Acredito que Josh era um amigo leal… até conhecer minha primeira esposa. Depois disso, se corrompeu. — Amigos leais não se corrompem, senhor Dawson. Às vezes, eles ficam ao nosso lado apenas para alimentar a raiva, destruir e roubar o que nos pertence. Dizem que falsos amigos próximos são piores do que inimigos distantes. Respirei fundo. — Quero ouvir mais dessa história. Mas agora preciso de um banho. A expressão de satisfação desapareceu. Talvez tivesse se surpreendido por eu não inflar seu ego. — Claro. Vou pedir para Lucas separar algumas roupas quentes para você. — Obrigado. Sorri e me curvei levemente antes de sair. Dom Dawson me chamou. Virei-me; ele sorria. — Foi bom conversar com você. Gosto da sua sinceridade. É um rapaz inteligente, Seo-Jun. — Também gostei de conhecê-lo, senhor Dom Dawson. Ele acenou. Finalmente estava livre para tomar uma ducha — embora ansioso para voltar ao escritório depois. Durante o banho, alguém bateu à porta. Enrolei-me na toalha e abri rapidamente. Era Bela, com um sorriso travesso, segurando as roupas. Não disfarçou ao olhar minha barriga antes de me entregar as peças e sussurrar: — Quando for para o seu quarto, deixe a porta destrancada. Quero ficar mais um pouco com você… Meu corpo se acendeu. Ela é louca. Ousada. E eu estava completamente envolvido. Mesmo com a adrenalina correndo pelas veias, aproximei-me e sussurrei: — Vou deixar destrancada, com a luz apagada. Estarei te esperando na cama. Ela riu, corando. Peguei as roupas e ela saiu tentando conter o riso. Meu sorriso, porém, diminuiu ao perceber Lucas me observando à distância, desconfiado. É… estou ferrado. Apaixonado pela princesa mais vigiada de toda a família.
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