NARRAÇÃO DE KAITO...
Apesar de sentir o peso da raiva e da mágoa do meu pai acumuladas dentro daquele quarto, eu compreendi a sua dor. O quanto guardou tudo em silêncio e transformou esse sofrimento em ódio e desprezo. Ainda assim, em seus olhos havia apenas tristeza.
Aproximei-me e o peguei de surpresa com um abraço carinhoso, em empatia à sua dor. Ele ficou surpreso, mas retribuiu o abraço em silêncio.
— Eu sinto muito por tudo o que passou… Agora entendo o porquê de querer tanto que eu fosse aceito por todos, o quanto você me monitorava para ter certeza de que eu estivesse bem. Eu sinto muito, pai.
Soltei-o. Seus olhos agora estavam submersos em lágrimas.
— Eu não permitiria que ninguém atacasse você. Ninguém, filho.
Franzi os lábios e me sentei ao seu lado. Mesmo fragilizado pela ferida, ele ainda parecia forte para falar sobre aquilo.
— Foram erros acumulados, coisas que você absorveu daquele falso amigo. Creio que Dom Dawson também seja vítima. Ele não te conhecia, apenas recebeu seu ataque por causa da plantação de ódio gerada pelo Josh.
Meu pai me encarou, irritado.
— Ninguém é vítima, Kaito. Todos estão sujeitos a colher aquilo que plantam. Assim como desejei ser a pior pessoa na vida dele, eu não fui vítima. Estava determinado. É a famosa frase: “Tudo o que plantamos, iremos colher”.
Eu colhi. As pessoas me enxergavam como vilão, mas um vilão não se transforma à toa. Hoje, quero apenas distância. Agora vá, preciso descansar.
E leve essa carta. Não suporto vê-la jogada no chão do meu quarto. Talvez eu o responda com sarcasmo… Faça-o tentar descobrir por conta própria quem realmente fez o que fez. Eu não estou disposto a ceder. - Desdenhou.
— Faça isso por mim, pai. Evite o sarcasmo. Apenas responda com a verdade, diga o que sentiu. Escreva por carta, assim como ele fez. Seria a conduta mais madura, afinal vocês não são mais adolescentes.
Meu pai permaneceu em silêncio, mas aquele silêncio demonstrava o quanto ele compreendia meu pedido. Talvez fizesse o que solicitei.
Respirei fundo, compreendendo seu desejo de descansar. Deixei-o no quarto, levando a carta comigo. Guardei-a em meu quarto e depois procurei minha mãe. Ela, sim, era casca dura. Cresceu sob um regime de regras j*******s; perdoar não era fácil — ao menos não naquele momento.
Não me enganei. Ela me deu um gelo o dia inteiro. Durante o jantar, perguntei se desejava alguma sobremesa. Seu silêncio era o meu castigo. Meu pai nos observava com preocupação; odiava nos ver naquela situação.
Como julgá-la? Eu a deixei preocupada o dia todo. Restava-me apenas dar tempo ao tempo.
Despedi-me deles e fui dormir, ansioso pelo dia seguinte.
Acordei ainda mais ansioso. Ansioso para ver Bela, contar tudo o que descobri e avisá-la sobre a ordem do meu pai: ela precisaria almoçar em nossa casa.
Ao sair de casa, a neve já transformava o lugar. Eu estava bem agasalhado e, ainda assim, dentro das luvas meus dedos pareciam congelar.
Ao chegar à escola, observei os colegas igualmente agasalhados, entre risos e brincadeiras, atirando punhados de neve uns nos outros.
Fui direto para a sala, evitando as garotas que tentavam me parar para puxar conversa
.
Senti alívio ao ver minha namorada secreta sentada ao lado de Lucas e de sua namorada. Aproximei-me, ansioso para contar tudo. Lucas me lançou um olhar afiado.
— Não vai se reverenciar, Seo-Jun?
Bela o repreendeu com o olhar.
— Lucas! Dá um tempo! — rosnou.
Segurei o riso.
Lucas e sua namorada riram juntos.
Sem precisar pedir, Bela se levantou e passou por mim em silêncio.
— Venha, Kaito. Vamos para a sala de piano.
Segui-a animado. Assim que entramos, ela se virou e beijou minha boca, aquecendo meu corpo naquela manhã fria. Puxei-a para mais perto e trocamos beijos escondidos, como quem tem sede no deserto.
Quando nos soltamos, notei seu rosto corado. Mordi os lábios.
— Tenho novidades, é muita coisa. Vou contar tudo em detalhes. Mas agora é oficial: hoje você precisa ir à mansão da minha família. Meu pai quer te conhecer. Ele acha que você é o motivo da minha rebeldia, então precisa se apresentar da forma mais gentil possível.
Suas vestes… — segurei o riso. — Eu disse que você é nerd, está fazendo intercâmbio. Acho que vou precisar te emprestar meus óculos de grau. E também seus cabelos. São lindos, longos e chamam atenção. Precisamos disfarçá-los. Faça uma trança.
O semblante dela caiu. Cruzou os braços, indignada.
— Nerd, Kaito?! Eu nem sou tão boa nos estudos. Acredito que minha irmã tenha mais potencial. Ela, sim, gosta de estudar.
Ri e neguei com a cabeça.
— Eu também odeio trabalhos e prestar atenção nas aulas, mas me sacrifiquei. Você consegue fazer isso também…? — perguntei com um meio sorriso, segurando seus dedos.
Ela sorriu, rendida.
— Está bem… Vou ser a nerd intercambista, de longas tranças e óculos de garrafa. Meu Deus… onde guardei minha dignidade?
Engasguei, segurando o riso.
— É por uma boa causa. Peça para Lucas avisar ao seu pai que você fez amizade com a namorada dele. Como Dom Dawson já a conhece, confia nela. Ele precisa dizer que você foi passar algumas horas na casa dela, para a tarde das garotas.
Bela riu, com brilho nos olhos.
— Vai ser moleza…
— Posso fazer as tranças no seu cabelo dentro do meu carro — aproximei-me, acariciando sua cintura.
— Em troca, quero fazer algo escondido com você na sua mansão.
Estufei o peito, apreciando aquele romance proibido. A carne gritava, querendo mais do que apenas beijos.
— O que deseja?
— Não sei… me apresente algo. Eu sou nova nisso… — falou baixo, sorriu de lado e saiu da sala, deixando faíscas crescerem em meu peito.
Porque, certamente, eu queria fazê-la revirar os olhos.
Algo extremamente proibido.