NARRAÇÃO DE KAITO...
Meus olhos ficaram presos àquela carta. Meu pai a olhou com pouco caso, provavelmente achando se tratar de algo banal. Ele entrou primeiro, segurando o envelope. Eu apenas o segui — precisava estar presente, a curiosidade me sufocava.
— Amor, vou mandar fazerem uma comida leve pra nós — disse minha mãe, seguindo para a cozinha.
Meu pai parou e deixou a carta sobre a mesinha de centro.
— Acho que vou me recolher. Frio e dor não combinam — falou sereno, caminhando até o quarto.
Voltei a fitar a carta, quase sem respirar.
— Pai, a carta! Não se esqueça. — Peguei-a, ansioso. Olhei rapidamente: não havia nome do remetente. Só podia ser ele…
Meu pai parou e me encarou com exaustão.
— Não estou no clima de trabalho, filho. Estou cansado.
— Mas às vezes pode não ser trabalho… — segui atrás dele, segurando a carta com firmeza.
Ele ignorou e entrou no quarto. Tentou se deitar sozinho, mas um gemido de dor escapou. Corri para ajudá-lo, colocando um travesseiro atrás de suas costas. Sorri, tentando parecer animado. Sua testa estava suada pela intensidade da dor.
— Ligue a TV, por favor, filho. Preciso me distrair com as notícias. Pelo visto, o tornado causou um estrago na cidade.
— Claro… — fui até a TV, mas parei no meio do caminho e me virei, inquieto. — Então me deixe ler para o senhor. Pode ser algo importante. Quem hoje em dia manda cartas…?
— Justamente por isso não me interesso. Provavelmente é trabalho exaustivo.
— Posso ler…? — forcei um sorriso, esperando sua permissão.
Ele suspirou, vencido pelo cansaço.
— Leia isso logo… — resmungou, quase revirando os olhos.
Abri a carta com ansiedade, como se fosse um presente. Logo no início, o nome:
“De Brady Dawson, para Dom Louis.”
Estufei o peito, pronto para ler.
“Dom Louis,
Estou enviando esta carta porque precisava arrancar qualquer peso da minha consciência. Escutei alguns conselhos sobre tudo o que aconteceu e uma lembrança me veio à mente.
Naquele dia em que o agredi na escola, após encontrar minha moto destruída, acreditei que fosse você o responsável. Eu confiava plenamente em Josh; ele afirmou ter visto você quebrando a moto.
Mas pensei bastante e sei que Josh nunca foi verdadeiro. Então, se por acaso fui injusto com você, por meio desta carta venho me retratar e pedir desculpas.
Entretanto, ainda não sei da verdade. E se, por acaso, tenha sido você o autor do vandalismo…
Espero que queime no inferno.
Com amor,
Brady Dawson.”
Li em voz alta e segurei o riso. Ele era sarcástico até para escrever “Com amor, Brady Dawson”.
Olhei para meu pai. Ele estava em choque, como se tentasse confirmar se tinha ouvido aquilo mesmo.
— Kaito! Não é possível… Me dê essa carta!
Entreguei, contendo a risada. Ele relia com os olhos quase saltando do rosto, absorvendo cada palavra, sem nem respirar.
— Pai… você quebrou a moto dele? — perguntei em voz baixa.
Ele me encarou, ainda perplexo.
— Nunca fiz isso. Brady Dawson é o homem mais burro que já conheci! Burro, corno, i****a, tapado…
— Tá! Já entendi — ri. — O que você sabia?
— Por que essa pergunta?
— Porque depois de ler essa carta, quero saber do passado de vocês.
Meu pai respirou fundo, impaciente, e jogou a carta no chão com desprezo.
— Como o conheceu, pai? — insisti.
— Na pré-adolescência. Eu era nervoso, moleque, tímido… acho que você puxou isso de mim. Mas aprendi a ser forte depois de tanta pancada da vida.
Ouvi falar de Brady Dawson e fiquei ansioso para conhecer o futuro Dom da máfia americana. Mas foi um desastre.
Ele era cercado como uma celebridade de Hollywood, só que na escola. Seu melhor “amigo”, Josh, o rondava como um urubu. Era ele quem aconselhava Brady, decidia quem podia se aproximar e quem devia se afastar.
Tentei me apresentar, queria ser respeitado, queria amizade. Mas Josh não gostou da minha cara. Como eu disse… era ele quem mandava.
Disse que eu era má influência. Um dia, sozinho no corredor, me encontrou e mandou eu me afastar. Disse que eu não era digno.
Brady, claro, se sentia o rei. Ali comecei a sentir ranço dos dois e me afastei. Mas certa vez, Brady pisou no meu pé ao entrar na escola. Passou de nariz empinado, incapaz de se desculpar. Fiquei cego… — meu pai riu, com prazer.
— Filho, foi satisfatório quando o puxei e soquei sua cara com toda a raiva acumulada por meses.
Ele continuou:
— Daí em diante foi só ladeira abaixo. Sempre brigávamos: na escola, no refeitório… Uma vez amassei minha bandeja de alumínio na cara dele. Ele me deixou cego de um olho por uma semana quando jogou uma maçã no meu olho direito.
No ginásio, no pátio… tudo virava ringue. Josh sempre incentivando a quebrar minha cara.
Mas… — apontou para a carta — essa briga em específico foi a que mais me machucou. As outras tinham motivos reais, mesmo que banais.
Nessa, eu desejei a morte dele. Eles me arrebentaram na saída da escola, me acusando de ter quebrado a moto. Eu o odiei profundamente…
E sabe de uma coisa? — ele riu amargo. — Eu amei.
Meu pai respirou fundo, os olhos distantes.
— Amei quando descobri que Brady descobriu a traição. Amei saber que ele matou o melhor amigo, Josh. Amei saber que ele entrou em depressão.
E eu só queria fazer da vida dele um inferno. Exigia a presença dele em reuniões por um único motivo: ver sua queda de perto.
Queria ver sua depressão diante de mim. Queria vê-lo todos os dias, destruído.
Ele me encarou novamente.
— Ele quer que eu queime no inferno… eu desejo o mesmo a ele.
Meu semblante caiu. Ficou claro que aquela bandeira da paz estava muito longe de ser levantada.