NARRAÇÃO DE BELA...
O medo se esvaiu.
Eu temia a velocidade, a moto, tudo o que sempre ouvi dizer sobre riscos e imprudência.
Acredito que tudo começou a mudar depois de conversas singelas com Kaito. Foi ali que compreendi que ele não era mesquinho — era apenas tímido. Há uma diferença gritante entre essas duas coisas.
Por ser popular, tirei conclusões erradas a seu respeito. Julguei antes de conhecer. Ainda assim, criei coragem para falar sobre o quanto me sentia presa, como um pássaro engaiolado. E então ele me apresentou à liberdade de um jeito quase sublime. O vento batendo no rosto, a velocidade cortando o ar… abri os braços e senti, pela primeira vez, o verdadeiro significado de ser livre. Sem medo. Sem insegurança. Apenas vivendo a maior descarga de adrenalina da minha vida.
Eu gritei. Gritei mesmo.
Sentia-me como os pássaros que observava da janela da mansão — invencível. Não havia timidez, tampouco receio. Eu amava cada segundo daquele passeio.
Ouvi sua gargalhada, e naquele instante algo mudou. Pela primeira vez, senti-me íntima dele.
Kaito era legal. Não era um inimigo.
Quando chegamos ao centro da cidade, ele parou em frente a uma barraca de sorvete e retirou o capacete, sorridente.
— Esse lugar vende o melhor sorvete — disse.
Sorri animada e caminhei ao seu lado. Ele pediu chocolate com calda de morango; eu, morango com calda de chocolate.
Sentamos em uma pequena mesa e ficamos em silêncio, apenas apreciando o sabor. De repente, ele segurou o riso ao encarar meu sorvete.
— Você é do contra até nisso… Não bastam as famílias?
— Eu gosto de morango com calda de chocolate — dei de ombros, lambendo o sorvete.
Ele riu, negando com a cabeça, prestes a responder.
Mas minha alma quase saiu do corpo.
Do outro lado da pista, vi meu tio Stefan e minha tia Evelyn saindo de um restaurante, rindo, de mãos dadas. Em desespero, puxei Kaito pela blusa e o empurrei para trás de uma enorme amendoeira ao lado da barraca. Ele me olhava confuso, assustado, prensado contra o tronco da árvore.
— O que… — começou.
Tampei sua boca imediatamente.
— Cala a boca — sussurrei, nervosa.
Ele riu, mesmo com minha mão sobre seus lábios. Só respirei aliviada quando os vi entrarem no carro e partirem. Percebi então que ainda segurava sua blusa com força e o soltei, constrangida.
— Meu pai não faz ideia de onde estou — expliquei. — Ele acredita que estou estudando na casa de uma amiga.
Kaito riu, ajeitando a camisa.
— Estudando…? Então você matou aula hoje.
— Não precisa me lembrar — resmunguei.
Foi quando seu sorriso se desfez. Ele respirou fundo antes de falar.
— Preciso te contar algo. Algo que envolve nossas famílias… e é doloroso. Meu pai desconfia do seu.
Meu estômago revirou.
— O quê?
Ele me analisou por alguns segundos.
— Promete guardar segredo?
— Prometo — afirmei, impaciente.
— Eu tinha uma tia que morreu há muitos anos. Minha mãe estava grávida de mim na época. Nesse período, minha tia foi morar na mansão do seu pai, pois seria a pretendente dele. Mas tudo deu errado. Meu pai diz que o seu pai se envolveu com a empregada… sua mãe. Apaixonado, não mediu esforços para ficar com ela. E isso causou mortes.
Meu corpo gelou.
— Minha tia e meu avô foram encontrados mortos dentro de um carro. Meu pai acredita que o seu pai os matou para viver em paz com sua mãe.
Meu rosto adormeceu com aquela revelação. Nunca ouvi nada sobre isso. Afastei-me, negando.
— Meu pai tem caráter. Eu sei disso. Ele jamais faria algo assim.
— Eu não sei. Nem você — respondeu com firmeza. — Talvez eu esteja me precipitando, mas acredito que ele te protege… te esconde. Para que você nunca descubra o que aconteceu no passado.
Mesmo diante de tudo aquilo, eu me recusava a aceitar.
— Cresci naquele lar. Meu pai sempre foi amoroso, respeitador, gentil até com os funcionários. Ele apenas nos prende porque não confia no mundo lá fora.
— Ou não… — murmurou, afastando-se.
Pegou o sorvete e o saboreou como se aquela conversa não tivesse acabado de virar meu mundo de cabeça para baixo.
— Vamos — disse por fim. — Você não pode demorar para voltar para casa.
Respirei fundo, sentindo um embrulho no estômago. As palavras dele ecoavam na minha mente. Meu pai tinha fama de frio, calculista… e isso me atingiu em cheio.
Antes de subirmos na moto, ele parou diante de mim e me analisou com cuidado, colocando o capacete.
— Se eu estiver errado, serei o primeiro a pedir desculpas. Mas brigas do passado, problemas enterrados… sempre deixam perguntas. Eu só quero a verdade. Minha mãe carrega um luto que nunca conseguiu superar.
Engoli em seco.
— Eu entendo — respondi. — E uma coisa posso garantir: vou revirar o passado. Quero a verdade tanto quanto você.
Ele sorriu, grato.
Mesmo entre negações e revelações assustadoras, algo dentro de mim dizia que investigar fazia sentido. Talvez fosse o primeiro passo para quebrar de vez aquela rixa silenciosa.
E eu queria isso.
Porque Kaito não era superficial. Ele dizia o que pensava, mas apenas a quem fazia parte de seu círculo de confiança.
E, naquela noite, eu entendi: eu fazia parte dele.