O toque proibido

1041 Palavras
NARRAÇÃO DE KAITO... Gostei dela. Apesar de sentir medo do perigo, ela gostava. Sentia-se desafiada. Ainda assim, me pegou de surpresa quando me colocou contra a árvore. Ela me tocou diversas vezes naquele único dia. Para ela, pode ser normal. Para mim, não. Fui criado sob as regras da máfia japonesa: evitamos toques, cumprimentos são feitos apenas com uma inclinação de cabeça. A maioria respeita a forma como fui criado. Claro que existem exceções, como Kelly, que já me agarrou contra a minha vontade. Ela acredita que, por ter passado uma única noite comigo, tem algum poder sobre o meu corpo. Não enxerga o quanto isso me incomoda, como suga minha alma, como me sinto enclausurado quando me toca. Bela é diferente. Não é oferecida, é espontânea. Não carrega malícia em seus atos. Quando me salvou na praia, permitiu que eu descansasse em suas pernas. Quando se sentiu assediada, segurou firme minha mão, como se pedisse socorro. Eu senti… Seus dedos suavam e tremiam. Por fim, quando me pressionou contra a árvore, parecia ter enlouquecido — até eu entender o motivo. Ela me escondia, nos escondia, como se eu fosse seu maior pecado. Mesmo tão próxima, com a mão sobre minha boca, seus olhos não carregavam desejo, e sim pavor. Medo de ser descoberta. Gostei disso. É gostoso sentir a adrenalina do proibido, mesmo que fosse algo tão banal quanto tomar um sorvete no centro da cidade. Ficou claro o quanto ela estava nervosa. Decidi, então, retornar para a festa com ela. Ao parar a moto, aquele rapaz que anda com ela estava na entrada, nervoso, de braços cruzados. Encarou Bela saindo da garupa, irritado. Aproximou-se ignorando completamente minha presença. — QUAL É O SEU PROBLEMA?! Procurei por você. Disseram que você saiu com… com… — lançou-me um olhar afiado. — Você não pode se aproximar dela! — Lucas, eu não sou nenhuma criança… Para com isso. — Bela resmungou. Entregou-me o capacete e sorriu. — Obrigada pelo passeio, eu gostei. Sorri e a cumprimentei inclinando a cabeça. Lucas respirou fundo, segurou-a pelo braço. — Vamos pra casa! Eu te liguei várias vezes! Qual é o seu problema? Quer me meter em confusão? O tio Brady arrancaria minha cabeça! Ele se afastou com ela. Ri sozinho. Ele dava bronca, enquanto ela apenas resmungava, bufava, até entrar no carro. Meu sorriso morreu quando Kelly parou diante de mim. Estava um pouco reclusa, abatida. Segurava a ponta do próprio dedo enquanto estudava minha expressão. — Kaito, podemos conversar? Eu estava prestes a colocar o capacete, deixando claro o quanto não estava a fim. Mas ela o segurou. — Eu sou apaixonada por você… Doeu ver aquela novata subindo na sua moto… — olhou para o chão, pensativa. — Estou há dias esperando o seu pedido de namoro. Respirei fundo. Olhei para o céu, precisava escolher cada palavra para não machucá-la mais do que o necessário. Franzi os lábios antes de encará-la novamente. — Acredito que você vai encontrar alguém à sua altura. Alguém que te valorize, te respeite, te ame. Mas eu… — Não começa com isso! — interrompeu. — Quando transamos a noite toda, não foi isso que você me passou! — Na verdade… eu não te respeitei, Kelly. E não me respeitei. Foi sexo após muita bebida. Tenho apenas lembranças vagas… Ela cruzou os braços e encarou o carro em que Bela havia entrado, observando-o partir. — Está encerrando o que tivemos por uma carne nova? — Como posso encerrar algo que nem chegou a existir? Após aquela pergunta, ela perdeu a voz. Movia os lábios, mas nenhum som saía. Coloquei o capacete. — Fique bem, Kelly. — Isso não vai ficar assim… Eu sou uma herdeira, não uma qualquer que pode ser usada, Kaito! Dei partida, ignorando seus surtos. Ao menos, depois daquela conversa, eu me livraria de vez. Sou extremamente antissocial. Odeio ser tocado contra a minha vontade; isso me causa arrepios. Talvez eu tenha algum problema — não é normal as pessoas se sentirem assim. Retornei para a mansão dos meus pais. Ao passar pela sala, meu pai parou de ler o livro em sua poltrona e olhou o relógio, um pouco desapontado. — Não são nem nove horas… — Foi o bastante. Eu me diverti. — Quem se diverte em apenas uma hora numa festa, Kaito? Parei antes de subir as escadas. — Eu me diverti. Defendi uma garota de ser assediada, levei-a ao centro da cidade, apresentei o melhor sorvete, voltei para a festa e tive uma pequena DR com outra garota que quer algo comigo, mas eu não quero… Acho que foi suficiente. Meu pai sorriu, orgulhoso. — Então está bem. Quem é a garota que você defendeu? — Uma novata… Já não me lembro do nome. — Menti. No fundo, eu gostava da adrenalina de ser amigo da filha do inimigo. Subi as escadas, mas parei novamente. Olhei para meu pai, que ainda parecia orgulhoso. — Pai… aquele inimigo… Brady Dawson… — Esse nome não é bem-vindo nesta casa. — Ele ficou sério e voltou a ler. — Só queria entender o real motivo… Disseram que ele não é tão r**m assim. Meu pai me encarou, agora irritado. Levantou-se, fechou o livro com força e subiu as escadas até parar à minha frente. — É a pessoa mais arrogante que já conheci. Na escola, sempre fazia questão da última palavra. Pisava nos meus pés e não conseguia pedir desculpas. Tinha pavio curto. Sempre que discutíamos, ele começava me agredindo. Passei a tratá-lo da mesma forma. Eu o irritava quando podia, percebia suas mentiras. E a morte da minha cunhada e do meu sogro? Isso não me desce. O homem que matou sua tia e seu avô não é bom. E não quero que você se aproxime dessa família. A última vez que o vi, ele não respeitou nem sua mãe. Ela estava grávida quando viu ele apontar um revólver para o meu rosto. Sua mãe precisou se colocar na frente. Ele não é bom. E eu não quero mais ouvir esse nome nesta casa. Estamos entendidos? Respirei fundo. — Sim, senhor. Abaixei a cabeça em sinal de respeito. Mas, no fundo, eu sabia que não iria obedecer. Não queria me afastar da herdeira Dawson.
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