Cítrico e amadeirado

1093 Palavras
NARRAÇÃO DE BELA... Ai, que vergonha… Qual é o problema do Lucas?! Ele não poderia ficar pelo menos calado até entrarmos no carro?! Ele surtou. Bastou me ver sair da garupa da moto do Kaito. Alterou a voz; ao redor, os jovens olhavam aquilo como se fosse um reality, onde a melhor parte acontece: confusão, discussão! Ele nem mesmo notou a herdeira da Croácia, Emma, olhando aquela cena constrangedora… Mandou Kaito ficar longe de mim. Sinceramente, não vou mais à festa nenhuma com esse palhaço! Era minha primeira festa, e eu saí envergonhada. Ele veio me repreendendo como se fosse meu pai. Ao entrar no carro, encarei ele irritada. — Obrigada por me envergonhar! Ele parou, olhou os jovens encarando o carro. Sua ficha caiu; até mesmo corou quando percebeu Emma observando, um tanto séria, cruzando os braços. Acho que ela sentiu ciúmes. Ele respirou pesado, fechou os olhos e tombou a cabeça no volante. Respirei fundo, aproveitei para observar Kaito. Sério, aquela loira é como um urubu! Foi eu sair e lá estava ela conversando com ele… Senti uma sensação esquisita. Ainda não sei explicar, mas sei que senti um belo embrulho no estômago. Lucas deu partida irritado. Já tinha acabado a nossa noite mesmo. Fiquei em silêncio, irritada… Foi quando a ficha caiu: o casaco dele ainda estava comigo, me aquecendo. Lucas estava tão irritado que nem mesmo notou a jaqueta de couro com um perfume gostoso. Bleu de Chanel, reconheci o cheiro… cítrico e amadeirado. Meu tio usava. Disfarcei ao puxar a jaqueta e cheirei de olhos fechados, me levando às lembranças daquela noite, à adrenalina com aquele perfume. O que mais me chama atenção nele é a sua educação. Achei tão fofo quando ele inclinou a cabeça ao agradecer pelo passeio; é como se eu estivesse dentro de um dorama. Lucas me encarou pelo retrovisor. — Se não quiser problemas na família, fique longe daquele japonês. — Ele é japonês mesmo? — juntei as sobrancelhas. — Tá, seus traços orientais são evidentes… Mas ele não nasceu no Japão, e sim nos Estados Unidos. Além do mais, o pai é francês, então tecnicamente ele é… — segurei o riso. — Vira-lata. Finalmente fiz Lucas rir, quebrando aquele clima pesado. — Fique longe do vira-lata. Estou falando sério! Isso pode ter consequências terríveis… Meu riso diminuiu. Percebi que não gostei dele chamar o Kaito de vira-lata. É… eu fiz uma péssima piada. — Não foi nada demais. Ele apenas me levou pra passear, tomamos um sorvete e retornamos. Ele é respeitador. E outra! Você o enxotou. Sabia que ele me defendeu quando um cara tentou me agarrar à força? Lucas freiou no mesmo segundo. Sua respiração ficou descompassada, apertou o volante e me encarou. — Quem tentou te agarrar, Bela?! Juntei as sobrancelhas, tentando me recordar do nome. — Kaito falou o nome dele… Acho que é algo do tipo Billy. Lucas socou o volante. Me assustei. Ai, Deus… o espírito de proteção da família falou alto. Está no sangue… — Eu sei quem é! Vou acabar com ele. — falou, tornando a dirigir. Sorri empolgada. Lucas briga mesmo… Ele já voltou outras vezes da escola com o rosto machucado. Nunca abaixou a cabeça. Acho que isso puxou o tio Stefan, que tinha fama de entrar em confusões no passado. E eu queria ver a briga. Não me julguem! Eu nunca vi uma briga de escola, deve ser muita adrenalina… E eu estarei lá como segurança. Se Lucas estiver perdendo, eu pulo nas costas do assediador e mordo a orelha dele até arrancar fora! Céus! Já estou louca para o segundo dia de aula. Ao chegar em casa, fui direto para o meu quarto. Arranquei a roupa às pressas e tomei uma ducha, ansiosa para a manhã seguinte. Ao me deitar na cama, olhei para a janela. A penumbra daquela noite e o silêncio me fizeram regressar àquelas palavras. A ligação que nossa família teve no passado, a tia morta. Revirei de um lado para o outro, tentando impedir que os pensamentos intrusivos me invadissem. Eu não queria pensar que meu pai fosse capaz de tal coisa. Foi difícil dormir naquela noite. Naquela manhã, fui despertada com o celular vibrando: o alarme. Levantei e me arrumei animada. Peguei a mochila e saí do quarto. Estranhei quando vi meu pai sozinho, tomando café mais cedo do que todos. Desci as escadas desconfiada. Ele sozinho… comendo seus waffles com mel, bebericando o café. Perdi o ar quando vi a jaqueta do Kaito sobre a mesa. Eu iria fugir. Ele pegou e deixou de propósito sobre a mesa. Mas antes que eu saísse, a voz do meu pai ecoou, me fazendo parar. — Bela, bom dia. Venha tomar café da manhã comigo. Cocei as sobrancelhas antes de me virar. Sorri. — Estou sem fome, pai… Vou aguardar o Lucas no carro. Eu iria dar o primeiro passo, mas ele me chamou novamente. — Espere… Quero saber de quem é esse casaco. Virei-me novamente. Ri — um riso carregado de pavor. O rosto adormeceu. — Como assim? — Ontem fui até o seu quarto para te dar boa-noite. Não vi quando havia chegado, então encontrei essa jaqueta no chão, ao lado do seu vestido. Arqueei as sobrancelhas, tensa. — Estava frio na hora de ir embora, então o irmão da minha colega emprestou a jaqueta… Apressei meus passos até a mesa e peguei a jaqueta, engolindo em seco, sentindo seus olhos vagarem em meu rosto. — Por que sua colega não emprestou a dela? Precisava ser do irmão dela? — Ela é muito magra… — menti. Meu pai entortou o cenho, olhou meu corpo, não acreditando nas minhas palavras. Afinal, sou magra também. — Ela é extremamente magra, fora do normal. Talvez tenha anorexia ou bulimia… eu não sei. Apenas estou deduzindo. Lucas pode confirmar. Falei tentando passar seriedade. Apertei a jaqueta contra o peito. — Vou devolver a jaqueta na escola. Vou esperar o Lucas no carro. Mantive um sorriso nervoso, ciente de que segurava a jaqueta do filho do seu inimigo. — Vigia, Bela… Evite pegar essas coisas. Garotos da sua idade podem entender errado, e eu não responderei por mim se algum deles começar a te assediar. — Pode deixar, pai. Sorri e, em seguida, fugi da mansão. Alívio. Senti alívio quando vi Lucas dentro do carro me aguardando. Ao menos meu pai não vai perguntar nada a ele… Agora, m*l espero chegar à escola, louca para ver o Lucas quebrar a cara do Billy e também devolver a jaqueta para Kaito.
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