Maldade humana

1024 Palavras
NARRAÇÃO DE BELA... Lucas riu ao ver a jaqueta em meus braços. Ligou o carro, mas, antes de dar partida, falou: — Eu vi quando o tio Brady ficou na mesa, observando a jaqueta. Praticamente fugi antes que ele me visse e questionasse alguma coisa, mas percebi que analisou cada detalhe. Será que tem alguma sigla do sobrenome da família inimiga? Meu coração disparou. Enquanto eu checava o interior da jaqueta à procura de qualquer sinal de perigo, Lucas apenas riu. Acabei desistindo de procurar. — Eu disse pra se afastar dele… — falou, dando partida no carro. Entortei os lábios, relutante. Como eu poderia me afastar dele, se acordo todos os dias ansiosa para vê-lo? Ao chegar à escola, Lucas estacionou e ficou encarando Billy entrar com seu grupo de amigos, cumprimentando os colegas. Misteriosamente, Kaito não estava junto, como antes. — Fique no carro! — disse, saindo já focado em briga. Como sou desobediente, saí e o segui. Billy estava de costas, rindo, quando Lucas o puxou pelo ombro. Não houve tempo para reação: um soco seco o fez perder o controle, quase caindo no chão. Mas Billy era grande. Tocou os lábios, viu o sangue nas pontas dos dedos e encarou Lucas, irritado. Antes que pudesse revidar, recebeu outro soco, cambaleando para o lado. Segurei o riso, mordendo os lábios, admirando meu primo me defender. — Na próxima vez que se aproximar da Bela, eu arranco todos os seus dentes! Billy não ousou reagir. Apenas abaixou a cabeça, tocando o nariz, sentindo o impacto — o preço por ter me tocado à força. Alguns professores se aproximaram, preocupados, mas Lucas sorriu, erguendo as mãos. — Não precisam fazer nada… já foi resolvido. Vamos, Bela. O segui, orgulhosa. Todos ficaram em profundo silêncio. Eu estava ansiosa para chegar à sala; queria ver Kaito a todo custo. A jaqueta em mãos era um pretexto perfeito para falar com ele. Mas, no caminho, Emma estava na entrada, encarando Lucas com irritação. Passou por nós em silêncio. Claro que Lucas correu atrás dela feito um cachorrinho. Segui até a sala. Meu coração disparou quando o vi sentado sozinho em seu lugar, distante, lendo mensagens no celular. Senti um frio intenso na barriga ao entrar. Seus olhos encontraram os meus; ele guardou o celular, sério. Respirei fundo, sentindo meus dedos suarem a cada passo. Ele se levantou, olhando para a jaqueta. Estendi-a, forçando um sorriso. — Obrigada… Ele analisou a peça, suspirou fundo e olhou pela janela. — Preciso desabafar com você… Fiquei atenta. Olhei para a porta; infelizmente, aos poucos, os colegas de turma entravam distraídos, rindo e conversando. — Venha… — disse, passando por mim. O segui em silêncio. Notei quando entrou na sala onde havia o piano que tocara no dia anterior. O lugar era discreto, provavelmente seu refúgio preferido. Deserto. As enormes cortinas pesadas escondiam a luz, e o ambiente empoeirado fazia as partículas dançarem na fresta entre os tecidos. Ele caminhou até o piano e parou, passando o polegar pela madeira, como se pudesse retirar a poeira. Ainda de costas, falou: — Ontem, quando voltei da festa, perguntei ao meu pai… na verdade, questionei sobre essa rivalidade. Claro que ele foi seco. Não aceita ouvir o nome do seu pai. Então, antes de dormir, procurei minha mãe. Ela sempre foi silenciosa a respeito da morte da minha tia. Mas eu perguntei… olhando dentro dos olhos dela… se desconfiava do seu pai. Kaito se virou, ainda sério, e continuou: — Ela não acredita nisso. Conheceu sua mãe. Disse que é uma pessoa doce e receptiva. Por um período, foram amigas, compartilharam experiências durante a gravidez… — riu, vago, olhando para a fresta da cortina. — Mas romperam os laços por causa da rivalidade dos nossos pais. Minha mãe disse que uma vez sentiu você na barriga… chega a ser estranho. Ele franziu as sobrancelhas, pensativo. Ficava ainda mais bonito daquele jeito. — Meu pai segurou sua jaqueta — falei, segurando o riso. — Ele ficou analisando cada detalhe. Kaito me olhou, surpreso. — E não desconfiou? Dentro da jaqueta existe uma sigla. As iniciais do meu nome e sobrenome. Meu sorriso diminuiu. — Acho que não. Se ele desconfiasse, certamente entraria em surto. — Quero conhecer o seu pai. Ri alto e caminhei até o piano, sentando-me sobre ele. — Não diga isso nem brincando… Ele se aproximou, sentou-se no banco e começou a tocar lentamente. — O herdeiro da Yakuza… popular, sempre estiloso, colecionador de anéis, correntes e piercings. É assim que me conhecem. Parou de tocar e ergueu os olhos para mim. — Quero que me convide para ir à sua mansão. Sei me comportar. Diga que sou um… — franziu as sobrancelhas, pensativo — um coreano. Vou me vestir com mais discrição, talvez um suéter de lã, óculos de grau… sem esses acessórios. Mostrou os dedos carregados de anéis de prata. — Você é louco… Ele sorriu de lado. — Sou louco pela verdade. Quero conquistar seu pai e saber a fundo sobre o passado. Inclinei-me, perto o suficiente para analisar seu rosto. Toquei seu queixo, observando seus traços. — Acho que você vai ficar fofo fingindo ser um nerd coreano. Mas meu pai vai te testar. Provavelmente vai perguntar sobre sua família, o idioma… — Sou fluente. E diga que meu nome é Seo-Jun. Entortei o cenho. — Seo-Jun…? Ele suspirou. — É… um nome coreano aleatório. Ponderei antes de responder. Um frio enorme tomou conta do meu estômago só de imaginar enganar meu pai. Mas, pensando bem… eu já estava mentindo mesmo. — Tá. Hoje vou falar com ele que fiz amizade com um nerd coreano… e gay. Porque, se for hétero, ele vai implicar! Kaito gargalhou. Rimos juntos até a porta se abrir. Meu sorriso evaporou ao ver Kelly parada ali, como se o vigiasse. Kaito saiu em silêncio, passando por ela sem qualquer contato. Ela continuou me encarando; a raiva em seus olhos só crescia. Mas eu pouco me importava. Não tenho medo. Saí em silêncio, achando que aquele dia seria mais tranquilo. Eu aprenderia, porém, da pior forma, que a maldade humana ultrapassa limites.
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