NARRAÇÃO DE BELA...
Nunca pensei que um dia me enxergaria tão pequena, inválida, humilhada.
Eu estava escondida, sentada no chão do banheiro, sentindo meu corpo inteiro adormecer. A respiração vinha descompassada. Abraçava os joelhos, perguntando a mim mesma se conseguiria me levantar.
As lágrimas escorriam até o queixo. Bastava lembrar do que foram capazes de fazer comigo…
Horas antes, Kelly nos viu conversando naquela sala vazia. A raiva dela era clara. Devia ser difícil me ver sentada sobre o piano enquanto Kaito tocava e conversava comigo — trocando ideias, diálogos maduros. Coisas que ela mesma não conseguia ter com ele.
Pensei que tudo ficaria bem. Já imaginava chegar em casa e inventar aquela história de apresentar um amigo coreano.
Mas, após o primeiro intervalo, caminhei até o pátio e estranhei quando os olhares se fixaram em mim. Eu não gostava daquela atenção toda. A princípio, pensei que fosse por causa de Lucas ter me defendido, mas as risadas… Os olhares de nojo e julgamento me consumiam. Algumas garotas se aproximaram entre risos e deboche.
— Sério? Sexo anal na sala de piano…? Que nojo.
Meu rosto adormeceu. Perdi a voz. A respiração ficou ofegante. Meus olhos se encheram de lágrimas. Kaito não estava no pátio — provavelmente tinha matado aula de novo.
— Quem disse isso?! — perguntei, com o queixo tremendo, quando elas pararam à minha frente, me encarando com sarcasmo.
— Várias testemunhas… Que vergonha. Nem camisinha usou. Quer transmitir alguma doença pra dentro dessa escola?
Eu sabia me defender. Meu pai me ensinou, meu gênio sempre foi forte. Mas aquela garota falava alto — alto o suficiente para me humilhar. Tudo piorou quando as pessoas no pátio começaram a rir. Alguns tampavam a boca em expressão de nojo. O pátio parecia ter ficado pequeno demais.
— É mentira… — sussurrei.
As lágrimas vieram junto com a crise de pânico. Minhas pernas ficaram bambas.
— Tem fezes perto do piano. Você é nojenta — disse outra ruiva.
As risadas aumentaram. Procurei Lucas com os olhos, mas nem ele estava ali. Senti ânsia de vômito. Toquei a barriga e saí às pressas, ouvindo-os rir alto, dizendo o quanto eu era suja. Gritavam para eu ir tomar banho.
Corri para o banheiro. Nunca me senti tão humilhada, encurralada por uma mentira daquelas. Entrei em um dos boxes, ofegante, e me tranquei. Pensei que ficaria sozinha, mas um grupo enorme de garotas entrou logo depois. Começaram a jogar papéis no box onde eu estava. Tampei os ouvidos enquanto gritavam, socavam a porta e me xingavam com os nomes mais sujos que já ouvi.
Foi a primeira vez que me senti pequena.
Foi a primeira vez que senti vontade de voltar a ser a filhinha do papai.
Quis me trancar na mansão e nunca mais sair.
Tive um colapso. Sentei no chão e fiquei ali, de olhos fechados, chorando, com as mãos sobre os ouvidos. Em determinado momento, o tremor cessou. Todas saíram do banheiro, mas eu permaneci ali, inerte, sem forças para me levantar. Pelo menos os papéis que jogaram no box estavam limpos…
Depois de alguns minutos, ouvi alguém entrar no banheiro, batendo a porta com força. Fechei os olhos, achando que seria mais uma provocação. Então, um chute forte abriu a porta do box.
Kaito estava ali. Respirava ofegante, o rosto completamente vermelho, lágrimas nos olhos — e, ainda assim, a raiva era evidente.
— Eles estão sujando a minha imagem… — sussurrei, trêmula.
Kaito me puxou. Mesmo sem forças, conseguiu me colocar de pé. Em seguida, me abraçou com força. Chorei contra o peito dele, molhando sua blusa, incapaz de parar. Naquele instante, ele era minha única rocha, o único lugar onde eu me sentia segura para chorar e desabar.
— Isso não vai ficar assim. Vem.
Ele segurou minha mão e praticamente me arrastou pela escola. Eu já tinha fama de ter feito algo com ele, e andar de mãos dadas sob tantos olhares me causava ainda mais náusea. Ele parou em frente a uma sala e abriu a porta. O professor interrompeu a aula no mesmo instante.
— Professor, com licença!
A sala inteira ficou em silêncio, em choque. Entre tantos rostos, reconheci Kelly, que parou de rir com as amigas assim que viu Kaito se aproximar da mesa do professor.
Pegou todos de surpresa quando ele subiu sobre ela, pouco se importando com os objetos espalhados.
— GALERA, É O SEGUINTE! — falou alto. — AQUELA DESGRAÇADA!
Apontou para Kelly.
— ENCHE A p***a DO MEU SACO QUASE TODOS OS DIAS, MENDIGANDO ATENÇÃO, MENDIGANDO SEXO, MENDIGANDO QUALQUER COISA QUE EU NUNCA QUIS DAR. Tentei ser gentil. Tentei não ferir os sentimentos dela.
Ele riu amargo.
— Fui criado com princípios. Com respeito. Mas o que ela fez hoje… não merece o meu respeito. Tentou sujar a minha imagem e a da Bela. Inventou algo repulsivo. E o motivo? Simplesmente porque eu conversava com ela.
Fez uma pausa, respirando fundo.
— Ela é tão narcisista e manipuladora que é capaz de qualquer coisa para conseguir o que quer. Desta vez, quis humilhar e desestabilizar outra garota por se sentir ameaçada. Coisa que, ao meu ver…
Riu novamente, sem humor.
— É inútil. Eu nunca ficaria com alguém como ela. Desejo boa sorte ao homem que um dia for assumi-la. Vai precisar de muita coragem.
O silêncio era absoluto.
— Portanto, digo apenas uma coisa: quero que Kelly se retrate na frente de todos, peça perdão à Bela e a mim, ou tomarei medidas mais rígidas — incluindo a máfia Yakuza.
O olhar dele foi afiado.
— Não estou brincando. Você não faz ideia do que sou capaz.
Todos encararam Kelly, agora pálida, percebendo que o feitiço havia se virado contra ela.
— E-eu não inventei… Billy comentou como ela é fácil, gosta de ficar a sós com homens pra f********o…
— Vai à merda! — interrompi, rangendo os dentes, cerrando os punhos para conter o impulso de avançar.
Kaito pulou da mesa e foi até Billy. Inclinou-se na direção dele, que permanecia calado, encarando a carteira.
— Me perdoa — Billy disse antes que Kaito abrisse a boca.
— Você foi meu melhor amigo de infância. A partir de hoje, não dirija mais uma palavra a mim. Você perdeu um amigo de verdade, Billy.
O semblante de Billy caiu. Ele abaixou a cabeça.
A turma aplaudiu. Aquilo só tornava Kaito ainda mais popular — algo que ele odiava. A dor em seus olhos, ao ver um amigo de infância nos difamar, era maior que qualquer outra.
Kaito voltou até mim, segurou minha mão e me tirou daquela sala. Respirei aliviada. Ele havia retirado o peso das minhas costas.
Puxei-o novamente e o abracei com carinho. Quando o soltei, ele ainda estava tenso.
— Obrigada… — sussurrei.
Fui pega de surpresa quando ele me puxou para outro abraço. Apoiei a cabeça em seu peito, sentindo que, naquele momento, meu mundo inteiro cabia naquele gesto afetuoso.