NARRAÇÃO DE KAITO...
Eu sou muito na minha, quem me conhece sabe o quanto sou calmo e reservado, o máximo possível. Evito a todo custo qualquer escândalo ou briga. Mas não pise em meu calo. Facilmente apresento o pior de mim.
Quando cheguei no pátio e descobri das falsas acusações, não perdi tempo. De longe, Kelly me olhava, mas de um jeito diferente, como se estivesse satisfeita. Carregada de vingança apenas em seu olhar. Foi fácil saber onde Bela estava, os cochichos não paravam, dizendo que ela havia se escondido no banheiro. Invadi aquele banheiro feminino sem medir as consequências. E o que encontrei partiu meu coração.
Ela estava escondida em um dos boxes do banheiro, muitos papéis sobre sua cabeça, quase cobrindo o véu dos seus cabelos.
Despertaram o pior de mim. Meu peito se inflou, acho que por um momento me esqueci do problema que carrego com contato, pois a abracei forte. Eu não estava suportando vê-la passar por muita coisa. Ela não havia feito nada e, ainda assim, a feriram covardemente.
Fiz o que meu coração mandou. Expus Kelly, falei diante de todos o quanto exigia uma retratação. Kelly tentou tirar o dela da reta, já Billy… a decepção foi como um tapa na cara. Fiquei sem rumo quando ele inventou calúnias ao nosso respeito, principalmente sobre a Bela. Perdi um amigo de longas datas…
Kelly pensa que saiu impune, mas isso não vai acontecer. Não mesmo…
Depois de todo o ocorrido, no corredor eu senti algo grave. Grave mesmo… Meu coração, pela primeira vez, senti bater descompassado, um desejo gritante de cuidar dela, desejo de prometer, queria dizer todos os dias que tudo ficaria bem, pois eu estava ali ao seu lado e jamais me calaria pra lhe defender.
Porém, o silêncio me findou até escutá-la se acalmar. Ela sorriu, enxugou suas bochechas com as costas da mão e falou:
— Eu estou bem agora. Vou procurar o meu primo e retornarei pra casa mais cedo… — ela falou ao se afastar, mexendo em seu celular. Mesmo relutante com sua dor, a chamei.
— Me passe o seu número! Independente do que fizeram com nós dois esse dia, desejo continuar com a nossa estratégia. Eu preciso muito descobrir a verdade, Bela… — soltei uma lufada de ar exausto. — Eu preciso disso, vai ser a resposta, respostas essas que não tive a vida toda, que me culmina todos os dias. — Assumi algo que sempre me corroeu a vida toda. Perguntas e motivos pra essa rivalidade, respostas reais da morte da minha tia e avô… Era estranho confiar em uma garota da minha idade que conheci em pouco tempo.
Ela apenas sorriu, tocou no corrimão e respondeu:
— Eu te devo essa, honrou meu nome. O mínimo que posso fazer é te ajudar a descobrir as verdades, pra ser sincera, vai nos ajudar, pois desejo o mesmo… — Então, naqueles segundos, ela passou o seu contato.
Ela sorriu. Me olhou de uma forma que fez meu coração errar as batidas.
— Sim, Seo-Jun, eu vou te ajudar… — Ela desceu aos risos, empolgada. Ri também, mas antes que ela sumisse do meu campo de visão, gritei:
— EU NÃO VOU FINGIR SER GAY!!!
— ENTÃO UM NERD AO EXTREMO!!! INSUPORTÁVEL!!! — Gargalhei ao escutar sua voz ecoar sobre as escadas, sumindo do meu campo de visão.
Senti um imenso frio na barriga, inspirei fundo, sentindo a adrenalina junta. Mordi os lábios, eufórico.
Claro que não fiquei na escola, fugi daquele lugar sufocante. Segui para a praia onde Bela me salvara dias antes. Contive o riso ao me lembrar do nosso dia: risadas, planejamentos, ela sentada sobre o piano de forma respeitosa enquanto tocava. Foi sublime… Bela é Bela de verdade…
Quando anoiteceu, retornei para a mansão. Minha mãe sorriu ao me receber, avisou que meu pai havia ido a alguma reunião. Respirei em alívio, assim ele não me perguntaria do dia na escola.
Deixei minha mãe na sala conversando com o mordomo. Ao entrar no quarto, procurei um suéter mais feio do guarda-roupa. Um verde chamativo, um óculos fingindo ser de grau, uma calça larga e sem moda. Me vesti e, por um momento, segurei o riso ao me ver no espelho. Um perfeito nerd com cara de i****a, ela vai me adorar…
Segurei o riso orgulhoso quando guardei a roupa em minha mochila. Estava pronto pra entrar na mansão do inimigo do meu pai.
Em poucos minutos, recebi sua mensagem vibrando no celular.
Sorri ainda mais. Ela salvou meu contato.
— Amanhã, depois da aula, podemos fazer um trabalho aqui, Seo-Jun. — Sorri vibrando, apertei o celular com força antes de responder.
— Combinado, dona Bela. — Encerrei mordendo o dedo, tentando passar o mais respeito possível.
Confesso: naquelas horas não parei um segundo. Passei horas estudando e relembrando a língua coreana, estudava seus modos, como falar mesmo com sotaque americano. Mas o foco era apenas um… Ganhar confiança do Dom Dawson, quero o conhecer a fundo. Mesmo ciente que no começo será difícil…