Eu vou cuidar de você

941 Palavras
NARRAÇÃO DE KAITO... Apesar de Dom Dawson aparentar serenidade, era evidente que também era astuto. Dentro do carro, mantive um profundo silêncio. Ele dirigia enquanto apenas as luzes do farol clareavam a pista. Fiz questão de passar o endereço de um apartamento pertencente à família de um dos meus colegas. O lugar vivia vazio, mas eu era íntimo o suficiente para ficar lá. Respirei fundo, querendo quebrar o gelo. — Hum… ouvi dizer que o senhor tinha má fama no passado. O Dom de coração de gelo. Ele riu, mas foi um riso amargo. — As pessoas não cansam de falar do meu nome… — Foi por conta de uma traição, certo? Ele me lançou um olhar de relance, mas manteve a atenção na pista. — Por que quer saber disso? — Porque soube que foi um amigo de infância… recentemente aconteceu algo parecido comigo. — Duvido muito… — Dom Dawson voltou a rir, desacreditado. — Eu… estou gostando de uma garota, e o cara que eu considerava como um irmão, meu melhor amigo… primeiro tentou assediá-la e depois inventou calúnias ao nosso respeito. Talvez frustração por ver que eu me dou bem com ela. Ele parou de rir. Olhou para mim. — Isso não é um amigo de verdade. Afaste-se. — Já fiz isso… — suspirei, olhando pela janela. — E essa garota? Ela é… gentil? — É a garota mais autêntica, espontânea e engraçada que já conheci. Mas ela não me enxerga como alguém por quem possa se interessar. Talvez apenas um amigo confidente. — Tente demonstrar mais os seus sentimentos. E… — ele franziu o cenho ao encarar meu suéter. — Nunca mais use isso, pelo amor de Deus. Toquei no suéter, tentando conter o riso. — Ganhei de Natal do meu avô. Dom Dawson bufou. — Peça para seu avô nunca mais te dar presente de Natal, ou sofrerá bullying pelo resto da vida. Ri. Ele também riu quando parou no sinal vermelho. Me olhou com atenção, tamborilando os dedos no volante. — É o seguinte, vou pedir algo importante. Ajude o Lucas a vigiar minha filha na escola. Ela é muito emotiva e não está acostumada com as maldades dos adolescentes. — Pode deixar, senhor Dawson. Ele sorriu, orgulhoso, sem saber que eu já fazia isso. Quando parou em frente ao prédio, analisou o local. — Mora sozinho? — Sim. De vez em quando um amigo me visita. — Entendi. Então até amanhã, Seo-Jun. Saí do carro vitorioso. Ganhei sua confiança com facilidade. Sorri e acenei até ele desaparecer do meu campo de visão. Para o meu azar, meu colega saía do prédio com sua ficante. Ele parou e riu, desacreditado, retirando meus óculos, surpreso. — O que está fazendo aqui com essa roupa? Não é Halloween, Kaito. Peguei os óculos de volta. — Acabei de sair de uma festa à fantasia. — E por que não fui convidado? — Porque não fui eu quem organizou… Suspirei. — Cara, me dá uma carona até a mansão dos meus pais? Está tarde e meu pai não para de ligar. — Tá bom. Ele me olhou confuso, depois encarou o prédio. — E o que fazia aqui a essa hora? — Não importa… — resmunguei, seguindo até o carro. A ficante ria enquanto me encarava. Mesmo completamente ridículo, ela não disfarçava como trocaria seu ficante por mim. Ignorei os dois em silêncio até chegar à mansão. Me despedi, arranquei o suéter discretamente, guardei os óculos no bolso e entrei. Meus pais estavam na sala assistindo TV. Ambos me olharam quando fechei a porta. — Cadê sua blusa? — minha mãe perguntou, espantada. — Estava calor. — Kaito, sua mãe fez aquela carne assada que você gosta — disse meu pai. Antes de subir as escadas, sorri. — Estou sem fome, mas obrigado. Subi correndo e me joguei na cama, pegando o celular. Enviei uma mensagem para Bela, ansioso. Curiosamente, já sentia falta dela. KAITO: “Bela, já cheguei. Seu pai gostou de mim.” Sorri. Ela visualizou rapidamente, causando um frio intenso na minha barriga. BELA: “Ele não gostou de você, gostou do Seo-Jun, ô nerd.” Ri alto. Lembrei do conselho dele… eu precisava demonstrar mais meus sentimentos. KAITO: “Bela, adorei passar o dia com você…” Os segundos seguintes foram intensos. Meu coração acelerou. Ela parecia digitar e apagar. Por fim, respondeu: BELA: “Seo-Jun ou Kaito gostou da minha companhia?” Mordi os lábios, segurando o riso. KAITO: “Gostei da sua companhia desde o primeiro dia. Vou te defender e te proteger na escola. É um pedido do seu pai.” BELA: “Mentira! Meu pai?!” KAITO: “Juro. Vou cuidar de você.” Meu sorriso morreu. Ela não respondeu. Esperei por quase uma hora. Deitei olhando para o teto. Pela primeira vez, senti o coração apertar. A ansiedade pela companhia dela me sufocava. A dúvida c***l me corroía: será que me excedi? Queria ligar, mas a insegurança queimava no peito. Nesse período, liguei para um dos seguranças e exigi que arranjasse um passaporte falsificado de Seo-Jun. Para a máfia, isso era fácil. Confesso: Depois do banho, voltei enxugando o cabelo e peguei o celular, ainda esperançoso. Nada dela. Resmunguei e me deitei. Quando já estava pegando no sono, o celular vibrou. Peguei com o coração disparado. Meus olhos brilharam ao ler a mensagem: BELA: “Quero que cuide de mim, Kaito. Tenha uma ótima noite e até amanhã.” Ri. Um riso carregado de vitória. Nunca comemorei tanto por sentir que, aos poucos, eu começava — mesmo que indiretamente — a conquistar o coração de uma garota. Bela, a geniosa.
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