NARRAÇÃO DE KAITO...
Um alto risco, mas eu estava disposto a correr.
Nunca me senti tão ansioso.
Tudo começou quando saí da mansão da minha família. Deixei a roupa dentro da mochila, tudo milimetricamente calculado. Estava pronto para trocar de roupa em qualquer banheiro público da cidade. Precisava de total discrição.
Mas foi difícil. Quando entrava no carro, notei o veículo do meu pai entrando na propriedade.
Dirigi tentando parecer indiferente. Ao passar por ele, meu pai parou e abaixou o vidro. Fiz o mesmo, forçando um sorriso.
— Filho, onde vai?
— Preciso fazer um trabalho escolar. — Meu pai arqueou as sobrancelhas, sem desconfiança.
— Volte antes de anoitecer. Gosto de jantar com toda a família reunida.
— Claro…
Saí tranquilo. Dirigi até parar em um banheiro público. Entrei em um box com a roupa estilosa e saí como um perfeito nerd. Algumas pessoas estranharam, se entreolharam. Naquele momento, quis saber o que se passava pela cabeça delas. De qualquer forma, foi divertido…
Segui até o endereço da mansão dos Dawson. Na entrada, os seguranças me barraram, mas bastou dizer meu nome — o falso, é claro: Seo-jun. Os portões foram abertos.
Raramente sinto nervosismo, frio na barriga e o coração disparado ao mesmo tempo. Mas senti quando o próprio Dom Dawson abriu a porta, com o olhar tomado pela desconfiança. Sorri de lado; foi o suficiente. Ele relaxou os ombros, abriu mais a porta e disse:
— Seja bem-vindo, Seo-jun.
Me reverenciei sem pressa. Quando levantei o rosto, Bela parecia mais pálida do que o normal, logo atrás dele.
— Obrigado… — respondi, esforçando-me para manter um sotaque forte.
— Entre — Bela pediu, nervosa. — Vamos fazer o trabalho na biblioteca.
Sorri ao ouvir seu pedido, mas Dom Dawson a encarou com um olhar afiado.
— Não. Vocês podem fazer o trabalho no meu escritório, assim posso ver como…
— Pai, pelo amor de Deus… — Bela resmungou, afastando-se.
Eu ia entrar, mas lembrei dos costumes coreanos. Retirei meu cropped. Dom Dawson encarou meus pés, cobertos apenas por meias. Parecia estranhar. Quando olhou nos meus olhos, senti outra onda de calafrios. Para fugir do seu olhar, me reverenciei novamente e passei por ele. Fiz questão de reverenciar todos que estavam ali, até mesmo o mordomo.
O que não sou capaz de fazer para descobrir a verdade?
Reconheci Lucas junto da namorada; ambos seguravam o riso. Me reverenciei para eles. Ouvi Lucas engasgar tentando conter a gargalhada. Xinguei-o mentalmente.
— Você é de qual lugar da Coreia? — Dom Dawson perguntou, sereno, com as mãos nos bolsos.
— Ilha de Jeju. Meus pais me criaram com dificuldades, na área rural. Meu pai era pescador, minha mãe, vendedora. Mas tive sorte de ter uma madrinha rica. Ela pagou meus estudos aqui nos Estados Unidos.
Notei Dona Sara me olhar com pesar, franzindo os lábios, acreditando piamente que minha vida havia sido difícil. Dom Dawson parecia estudar cada expressão minha.
— Seu inglês é muito bom. Muito fluente…
— Estudo essa língua desde os sete anos de idade — respondi, ajustando os óculos.
— Tenho interesse em conhecer mais do seu país, Seo-jun — disse ele com serenidade.
Reparei Bela subir as escadas, revirando os olhos. Ela parou ao lado da irmã, que estava na sacada da mansão, me observando de cima, desconfiada.
— Posso falar um pouco do meu país, senhor Dawson — disse, reverenciando novamente.
Ele riu e subiu as escadas.
— Venha, Seo-jun. Vou lhe apresentar meu escritório.
Estufei o peito, mais confiante. Ao passar por Lucas, ele olhou meus pés e riu ainda mais. Ignorei. Afinal, coreanos são educados e não costumam mandar as pessoas tomar no cu.
Segui Dom Dawson. Bela caminhava ao meu lado; seus olhos pareciam dizer: Está indo bem.
Ao entrar, ele foi até a mesa.
— Que tipo de trabalho vão fazer?
— Uma enquete. Acho que vamos precisar de cartolina e papel almaço. É um trabalho que vale muitos pontos. E eu… eu gosto de ser o melhor aluno.
Dom Dawson me olhou. Agora parecia sentir orgulho. Sorriu de lado, sem nenhuma desconfiança.
— Vou mandar o mordomo buscar tudo o que precisam. Também pedirei para servirem um lanche.
Ele passou por mim, dando leves tapas no meu ombro.
Cheque-mate. Ganhei pontos com ele.
Sorri até ele sair do escritório. Depois, respirei aliviado. Bela foi até a poltrona do pai e se sentou.
— Sério? Ilha de Jeju? Pai pescador? — sussurrou.
Pedi silêncio. Ela riu, mas conteve o riso quando a irmã apareceu à porta do escritório.
— Irmã, precisa de alguma coisa? — perguntou, encarando-me desconfiada.
— Não, está tudo tranquilo por aqui…
Em seguida, o mordomo apareceu com canetas e folhas de anotação.
— Digam-me do que precisam para o trabalho, por favor.
Respirei fundo, entediado. Diferente do que Dom Dawson pensa, odeio trabalhos escolares — principalmente um que não existe. Então Bela respondeu:
— Um livro de história, cartolina… Será um trabalho sobre Hitler.
Encarei Bela, entediado. Peguei o celular e pesquisei o básico.
Ficamos ali. Dom Dawson parecia nos vigiar a cada cinco minutos. Entrava no escritório com desculpas, caminhava ao nosso redor com as mãos para trás, observava em silêncio. Ao menos, eu aprendia um pouco de história — algo que nunca me interessou.
Percebi o anoitecer pela janela. Meu pai ligava, mas deixei o celular vibrando. Quando Dom Dawson saiu do escritório, enviei uma mensagem avisando que não chegaria a tempo do jantar.
Depois de bloquear a tela do celular, notei Bela em silêncio, concentrada no trabalho. O cabelo caía de lado, revelando a nuca, os fios finos. Ela mordia a ponta do lápis distraída, relendo o que havíamos estudado.
Senti vontade de tocar sua nuca. Seus lábios rosados, o cheiro de café — parecia vir dela. Atraente. Minha boca salivou. Mas a xícara estava à minha frente…
Estranhamente, ambos me atraíam da mesma forma.
Desviei o olhar quando Dom Dawson retornou ao escritório. Ele me observou com serenidade.
— Está tudo certo aí?
— Sim, senhor. Mas ainda há muito a fazer. Como está ficando tarde, posso retornar amanhã…?
— Você mora com quem?
— Moro de aluguel, em um apartamento.
— Certo. Vamos, vou lhe dar uma carona.
Ele saiu do escritório. Encarei Bela, preocupado, e sussurrei:
— Ele não sabe que vim de carro…?
— Ele acha que você é pobre, Seo-jun! Vai logo! Eu mando o Lucas levar seu carro para a escola amanhã.
Ri, desacreditado — porém e******o, eufórico para conhecer Dom Dawson mais a fundo.
Quando me virei para sair, Dom Dawson parou ao meu lado e colocou a mão em meu ombro.
— Seo-jun…
Meu coração falhou por um segundo.
— Amanhã, traga seu passaporte. Gosto de conhecer bem quem entra na minha casa.
Sorri, reverenciei…
Mas, pela primeira vez naquela noite, tive certeza de uma coisa:
ele não é bobo.