CRY

1956 Palavras
Encarei o cara na minha frente, eu tinha perdido um tempo para me arrumar, porque por mais que fosse um Pub, não deixava de ser um encontro. Precisei tomar um energético porque estava caindo de sono e depois de cinco minutos dentro de seu carro, percebo que ele é um i****a e que aquele esforço para sair não valeria nem um pouco a pena.   -Mas você não acha que essas tatuagens todas e essas roupas pretas te deixam com a aparência masculina?- questionou, assim que eu arregacei as mangas do meu casaco.  -Eu não acho que minhas roupas ou os desenhos na minha pele me façam menos mulher- revirei os olhos.  -Mulher que gosta de mulher! -Cara, eu já disse que sou bi. Vai por mim, se gostando de homem já está quase impossível continuar aqui, se eu fosse lésbica você nem me conheceria.  -Você não é daquelas feministas que vai vir com o papo de que eu sou machista e homofóbico, não é?- Alguém me segura, antes que eu dê na cara desse i****a sem escrúpulos.  -Olha cara, quer saber, você é daquele tipo que não serve nem para t*****r e depois fingir que não conhece- falei, me levantando da mesa.  -Onde você pensa que vai?- ele teve a audácia de me segurar pelo braço. Tentei me desvencilhar, mas ele apertou forte, me fazendo gemer de dor.  Mas para a minha sorte, ou não, alguém entrou no meio de nós. Alguém, Bailey May. -O seu encontro está te incomodando?- me perguntou, depois que afastou o cara de mim.   -O que você está fazendo aqui?- o encarei f**o. -Só passando, por acaso! O que esse cara fez?- voltou a questionar, não caí em sua mentira, ele sabia que eu estava aqui e veio porque quis. Será que sua intenção era me espionar e saber o que eu estava fazendo?  -Dá licença que eu e a garota vamos nos resolver- o desgraçado falou.  -A garota? Você está saindo com um cara que te chama de "A garota"?- o filipino me encarou, cheio de ironias.  Olhei em volta, que nenhum conhecido estivesse ali, por Deus.  -Para de se meter mano- O cara continuou, o provocando.  -Mano?- Bailey se virou para ele, o empurrando e tentando iniciar uma briga.  Ele conseguiu o socar duas ou três vezes e escapou ileso de suas tentativas. Me desesperei, chamando os garçons para se colocarem no meio e não deixarem eles se matarem, mas ambos pareciam consumidos pela raiva. -PARA- gritei, vendo o cara fugir do Pub sorrateiramente, como um covarde. Eu queria vomitar, só de olhar para a cara dele.   -Eu só estava te defendendo, Joalin- Bailey tentou argumentar, quando viu minha expressão de poucos amigos, em sua direção. -EU NÃO TE PEDI NADA- Gritei com ele- Não se mete na minha vida!  Eu estava fora do eixo, aquela situação tinha me deixado completamente perturbada.  -Ei, volta aqui- ele segurou meu braço de maneira delicada, muito diferente do contato do outro cara.  -Bailey me deixa, eu preciso chamar um táxi e ir para casa- mexi nos meus cabelos, irritada, nervosa e estressada. -Ei, senta aqui. Bebe uma água e se acalma, que eu te levo para casa- ele puxou a cadeira da minha antiga mesa. Cocei os olhos e me joguei ali, enquanto ele falava com um dos garçons.  -O que ele fez, em?- voltou para mesa, junto com o funcionário que trazia um copo de água em cima da bandeja.  -Uma série de coisas, mas a gota d'água foi falar das minhas tatuagens e dizer que isso e me vestir de preto me deixam masculina.  -Masculina? Ele é cego ou o que?  -O pior nem foi isso- bebi o copo d'água em uma única golada- Quando eu disse que nada disso me faz menos mulher, ele disse que eu sou mulher que gosto de mulher. Dei uma resposta atravessada dizendo que se eu não fosse bi, ele nem me conheceria, por fim ele me perguntou "se eu não era uma daquelas feministas e que ia dizer que ele é machista e homofóbico".  -Ok, ele é machista, homofóbico e um b****a.  -Eu sei- soltei meu cabelo, respirando fundo e me perguntando porque aceitei sair com ele e porque estava ali com Bailey, quando já devia ter ido para casa- Eu espero que ninguém veja a gente aqui- disse, olhando para as mesas em volta de nós. -Por que?- eu precisava de uma distração, eu só queria esquecer o i****a com quem eu tinha saído e, principalmente, a vontade de matá-lo.  -Por que não temos nada- eu disse óbvia- E eu não quero que você, nem ninguém, pense que a gente tem alguma coisa. E nesse momento, eu não sei se você está entendendo isso muito bem. -Só porque eu te defendi?  -Primeiro que você veio atrás de mim, sabia que eu estava aqui e queria espionar meu encontro. -Eu só senti que as coisas não iam sair como o planejado e decidi aparecer- ele deu de ombros- Se eu não tivesse visto ele tentando te machucar, eu ia ficar quieto no meu canto e você nem ia saber que eu estive aqui.  -Você deveria ter me pedido desculpas pelo escândalo. Anda sempre atrás de mim e eu não estou interessada! -Não está interessada, Joalin? Quem você acha que engana?  -Acho que vou chamar o garçom para sair- falei, olhando para o cara na mesa ao lado. Queria ver como Bailey reagiria naquela situação, ou melhor, queria me distrair em cima da sua reação, já que aquela parecia uma saída cômica para uma noite trágica.  -Você não vai fazer isso na minha frente, não é? -Por que não? Não temos nada, você não tem que ter ciúmes.  -Por uma questão de respeito.  -Respeito pelo que, se nós não temos nada?- continuei provocando, enquanto acenava para o homem, tentando chamá-lo para a nossa mesa. -Para de fazer isso- ele pediu.  -Ficou com ciúmes?- levantei as sobrancelhas, o encarando de maneira cínica.  -Ficar fazendo isso é jogo baixo. Na verdade, você é baixa, Joalin! -Você é baixo! Quer saber- me levantei da mesa, com um nó formado na garganta, peguei minha bolsa e dei alguns passos para trás- Todos os homens são baixos- falei, talvez alto demais, saindo do pub. Caminhei rapidamente, tentando sair daquele lugar, voltar para casa, sei lá. -JOALIN- Bailey me gritou, mas não dei ouvidos.  Apenas deixei que as lágrimas lavassem meu rosto de forma quase desesperada. Eu só, estava cansada.  Não aguentava mais ser colocada em situações como com o cara de mais cedo, não suportava ter que limitar minhas vontades, desejos, anseios, por medo do que um homem poderia fazer contra mim.  Cruzar com o cara errado, sair com o carra errado, namorar, casar com o homem errado. O cara errado estava ali assombrando a mente de cada mulher, que sentia medo de fazer algo por causa dessa "espécie". Esse tipo de homem, sempre dava um jeito de arruinar as histórias e uma mulher sempre corria o risco de sair machucada, física ou emocionalmente. Muitas vezes ainda, carregando culpa. -Espera aí, o que que foi?- Bailey surgiu atrás de mim, segundos depois. Ele me puxou pelo braço para a calçada, já que eu estava no meio da rua tentando entrar em qualquer táxi.  -De repente eu me senti assim, frágil- ele enxugou uma lágrima que escorreu- Me deu uma sensação de que eu nunca vou amar ninguém, que nunca vou encontrar a pessoa certa, ou ter confiança o suficiente nela. Eu me senti tão sozinha.  -Vem cá, vem. Deixa eu te proteger- ele colocou a mão nos meus cabelos, me puxando para um abraço e deixando eu chorar em seu ombro. Quando foi que eu deixei as coisas chegarem nesse ponto?- Vai ficar tudo bem, eu prometo- olhou nos meus olhos e mais uma vez enxugou minhas lágrimas, me dando um selinho e me puxando para mais um abraço.  -Só... Vamos embora daqui, por favor- Praticamente implorei.  -Vem, eu te levo para casa- ele me abraçou pela cintura, esperando o sinal fechar para que a gente atravessasse a rua- Você me pediu por favor duas vezes, em dois dias. Devo estranhar?- ele brincou, tentando deixar o clima mais leve e me guiando até o local onde seu carro estava estacionado.  Ri baixo, mais uma vez passando os dedos por baixo dos olhos. Encarei em volta pela primeira vez, ainda bem que o fiz, porque avistei Hina e Heyoon, caminhando tranquilamente do outro lado da rua.  -Shii- pedi silêncio para Bailey, o puxando em direção ao muro da casa pela qual passávamos. Abaixei minha cabeça na altura de seus ombros, me encolhendo e me enfiando dentro de seus braços, enquanto com minha mão na sua nuca, abaixei sua cabeça, de forma que nossos rostos estavam escondidos o suficiente para que parecêssemos apenas alguns adolescentes foguentos.  -O que está acontecendo?- ele sussurrou. -Hina e Heyoon estão do outro lado da rua- suspirei- Essa cidade é muito pequena- reclamei. -A cidade não é pequena, o problema é que vivemos no mesmo bairro e frequentamos os mesmos lugares. -Será que elas já passaram?- levantei minha cabeça, mas elas estavam paradas na frente de uma vitrine- Ainda não- bufei.  -Você está melhor?- ele questionou, colocando uma mecha do meu cabelo para trás da minha orelha.  -Estou, eu só... Sei lá, nem eu sei o que aconteceu.  -Está tudo bem. Ninguém precisa ser forte o tempo inteiro e- ele segurou no meu queixo, me dando um beijo leve. -Vamos embora? Elas já foram e eu- suspirei, eu nada. Eu não queria ficar mais tempo com ele e precisar admitir que estava gostando de sua companhia.  -Vem, vamos- ele me puxou pela mão, entrelaçando nossos dedos e destravando o camaro vermelho. Suspirei aliviada quando finalmente chegamos na frente do carro. Ele abriu a porta para eu entrar e, assim que o fiz, agradeci com um murmuro e coloquei o cinto de segurança. Encostei a cabeça no vidro e apenas deixei que mais algumas lágrimas rolassem, no curto trajeto até a minha casa.  -Chegamos- Bailey falou, assim que estacionou na frente da porta- Tem certeza que está bem?  -Sim- sussurrei- Obrigada por ter me trago em casa.  -Tudo bem, não tem problema. Se precisar de alguma coisa, me liga.  -Ok- engoli o bolo na minha garganta- Até amanhã, Bailey.  -Até amanhã- ele me respondeu com um sorriso fraco, quando eu saí do carro e fui para dentro de casa, sem olhar para trás.  -O que aconteceu? Por que que Bailey quem te trouxe para casa?- Josh me questionou, assim que eu entrei na sala.  Apenas arrastei meu corpo pela porta fechada, atrás de mim, deixando que o choro alto escapasse da minha boca. Meu irmão correu em minha direção, me abraçando com toda a força.  -Eu- tentei falar, mas os soluços não deixavam. -O que aquele desgraçado fez? Eu vou acabar com a cara dele. -Bailey não fez nada- falei pausadamente, com um pouco de dificuldade- Eu tive um encontro h******l, ele por acaso estava no mesmo lugar e me trouxe para casa- deitei minha cabeça no seu ombro, tentando colocar todas as minhas emoções para fora.  -Eu falei que não era para você sair com esse cara, Jojo. -Eu sei. Eu devia ter te ouvido. Ele... Ele foi machista e homofóbico, criticou minhas tatuagens, minha roupa preta.  -Tá tudo bem agora, você nunca mais vai precisar olhar para a cara desse filho da mãe. -Eu estou com fome- resmunguei.  -Vem, vamos tomar sorvete- ele me ajudou a levantar, me colocando enroscada no seu colo, como um bebê, e esperei que ele me levasse até a cozinha.  -Você é o melhor irmão do mundo, sabia?  -Eu sei disso- me fez dar uma risada fraca, entre as lágrimas. 
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR