Meio caminho já tinha ido. Uma parada em posto de gasolina, ou melhor, na loja de conveniência dele e agora minhas mãos tinham um copo de café para segurar.
O céu escuro e a lua brilhante marcavam as oito da noite.
Nosso destino já estava escolhido, era claro que precisaríamos nos arrumar correndo para aproveitar um pouco, já que íamos chegar tarde na cidade. Por sorte, ela era pequena e a balada era na estrada para a zona rural, onde ficava a fazenda.
-Bailey, você não quebrou nada quando chegou bêbado ontem, certo? Ouvi uns barulhos estranhos no seu quarto.
Pigarreei baixo, quando ouvi sua mãe falando sobre a noite passada.
-Não, não quebrei nada. Eu...
-Levou alguma garota para seu quarto ontem a noite, May?- questionei, com um sorriso malicioso no rosto.
-É claro que não, até parece que eu levaria alguma garota para meu quarto.
-Algum garoto, então?- continuei a provocar, enquanto seu olhar sob mim queimava.
-Bailey não deixa ninguém entrar no quarto dele, além de nós três e dos amigos mais próximos- Shivani falou- Metade do nosso grupo de amigos nunca entrou lá.
Uhm, bom saber. Minha visitinha ao quarto do May era uma exceção à regra?
-Quarto é uma coisa muito particular- ele deu de ombros, tentando se justificar.
-Sei- foi a única coisa que saiu da minha boca.
Na verdade, eu estava morrendo de curiosidade de perguntar "onde você transa?". Não duvidava que ele levava todas para o quarto escondido, exatamente como fez comigo na noite passada. Ou seja, aquela conversinha provavelmente era de fachada, porque não deveria confiar em metade das pessoas que chama de amigo.
Ou será que ele tinha um lugar especial para isso? Talvez um fetiche. Era nojento, mas eu não duvidava.
Possivelmente seu carro era usado como motel, se bem que nem tinha muito espaço naquele camaro vermelho.
Mas pensando mais um pouco... No dia que ele me pegou conversando com Sina sobre a adoção de Shivani, ele me arrastou para um quarto que dizia ser seu, mas não era o mesmo da noite anterior. Qual era seu quarto de verdade e qual era seu quarto de transa?
Ou será que nenhum dos dois era seu de verdade? Não tinha porque me deixar entrar lá. Os dois tinham sacada, então nem era apenas para facilitar a minha entrada.
Eu era atenta aos detalhes. Comecei a pensar e analisar, o primeiro quarto não parecia ter closet, apenas um armário pequeno e a porta do banheiro, tinha uma escrivaninha cheia de livros e coisas de escola, uma cama grande e... Mas é claro, aquele parecia um quarto de visitas adaptado para os estudos dos irmãos, isso explicaria a decoração neutra e sutilmente mais feminina.
Por um segundo, pensei que o quarto da noite passada era destinado às "brincadeirinhas" dele, mas levando em consideração a quantidade de produtos no banheiro e suas roupas no closet, aquele era seu quarto de verdade. Até porque, sua irmã tinha batido naquela porta pela manhã.
Mas então, porque ele não tinha me levado para o mesmo quarto de antes? Se seu quarto fosse tão pessoal assim, ele podia claramente ter me levado para o outro.
- Eu... Eu não queria falar isso mas preciso fazer xixi.
-Mas já?- o encarei.
-Bailey, faz meia hora que paramos. Para de brincadeira- Shivani argumentou.
-Eu falei que não era para você beber tanto milkshake- foi a vez de Vanessa. Ele se encolheu entre os ombros, como uma criança pequena.
-Temos um problema- Matt conferiu o GPS do celular- Eu não posso parar aqui para você usar um matinho, não tem acostamento e a iluminação da estrada é h******l.
-Preciso aguentar por quanto tempo?
-Pensando de forma otimista e acima do limite de velocidade, meia hora até o acostamento, quarenta e cinco minutos até a próxima parada.
-Sem chance, eu não vou aguentar.
-Eu não acredito nisso- bufei, revirando os olhos.
-Desculpa- ele sussurrou.
Virei o último gole de café e abri a tampa, entregando na mão dele.
-Se divirta!- debochei.
-Você é um anjo, pelo menos não vai ser igual da outra vez que eu perdi minha garrafa personalizada, que tinha acabado de comprar na viagem- Shivani falou.
-Ele precisa ir no médico- falei baixo, como se não quisesse que ele ouvisse.
Evitei olhar aquela cena apreciável assim que Bailey colocou a mão no botão da calça. Me afastei o máximo possível, quase subindo em cima de Shivani e virando para o lado oposto, encarando a janela da garota fixamente.
Fiz careta quando ouvi o barulho do xixi, ele gemeu aliviado, ew.
-Não vou dizer nada para essa cara que você está fazendo- falou, me olhando.
Sua mãe riu fraco.
Se ele tivesse contado alguma coisa para ela, ele seria um homem morto.
-É melhor mesmo- o encarei de r**o de olho, antes de revira-los.
-Não entendi nada- a indiana, que não abria os olhos por nada, falou.
-Na volta, você vem de fralda- Matt disse, fazendo com que eu, Shiv e Vanessa começássemos a gargalhar escandalosamente.
-O que você vai fazer com seu pote de xixi? Eu deveria estar gravando isso.
-Isso- ele abriu a janela e jogou o copo para fora. Olhei para trás imediatamente, lembrando da cena de um filme onde um motoqueiro foi atingido pelo xixi.
Por sorte, não tinha ninguém atrás da gente.
-Ew- foi minha resposta- Não encosta em mim, sei muito bem onde você andou colocando a mão- fiz careta mais uma vez, pegando minha bolsa e a revirando, até encontrar álcool gel- Abre a mão- joguei um pouco do produto, respirando aliviada em seguida.
Nossa, Sabina tinha me tornado uma pessoa muito dramática.
-Sabia que Joalin iria nos divertir, mas não imaginava que ela seria tão útil- Vanessa comentou, me fazendo corar.
-É claro, Bailey é um bebezão- sua irmã provocou.
-Que nem saiu das fraldas- completei, levanto todos do carro, menos Bailey, a rirem mais uma vez.
Meu celular apitou.
"Eu não parecia um bebezão na última noite"
"Inclusive, eu 'coloquei as mãos' no lugar onde você colocou a boca, sem nojo algum"
Eu engasguei.
Me senti patética, mas não conseguia parar de tossir.
-Aconteceu alguma coisa?- Shivani perguntou, apontando para meu celular.
-Meu irmão fazendo piadas idiotas- dei uma desculpa, finalmente conseguindo me reestabelecer.
-Então parece que não é só na minha família, me sinto aliviada.
-Isso quando ele não age como se fosse meu pai, mesmo sendo só alguns minutinhos mais novo do que eu- continuei a ignorar o garoto ao meu lado, falando com sua irmã.
"Onde conseguiu meu número?" foi a única resposta que ele conseguiu de mim.
É, mas dessa vez eu perdi, porque tudo que ganhei foi um visualizado.
Aproveitei que estava com o celular para responder mensagens dos meus pais e irmãos. No nosso grupo, digitei um "Bailey May tem incontinência urinária" e enviei com letras em negrito.
Por fim, fui vencida pelo cansado de uma noite m*l dormida e apaguei pelos próximos quilômetros.
-Joalin- senti alguém me balançando de leve. Forcei a abrir os olhos, dando de cara com Shivani- Acabamos de chegar, a estrada estava vazia. São dez e meia.
Por um segundo, meu cérebro quase perguntou onde tínhamos chego. Raciocinando e juntando forças para me espreguiçar, saí do carro com a garota, vendo que Bailey estava arrastando minha mala junto com a sua, para dentro.
-Boa noite, sejam muito bem vindas- um garoto, que sem dúvidas não era muito mais velho que eu, falou assim que passamos pela porta, pouco depois dos outros três.
-Boa noite, obrigada!- respondemos juntas.
-Você viu o jeito que ele te olhou?- entrelacei meu braço ao de Shivani, sussurrando em seu ouvido.
-Tenho certeza que não foi para mim, quem ele olhou daquele jeito.
-Aposto que sim- pisquei para ela, antes que alcançássemos os adultos, no balcão de atendimento.
Entreguei minha identidade para Vanessa, que pediu para fazer o cadastro, enquanto observava o local. A sala de estar ficava ali, um casal de meia idade estava sentado de frente para televisão, observando o filho pequeno brincando, enquanto a mais velha, que deveria ter uns 14, estava deitada no tapete, com os olhos vidrados no celular. Alguns metros mais longe, havia mesa de sinuca e outra de xadrez, onde estavam dois casais de senhores.
-Joalin- Vanessa me chamou, puxando meu braço com delicadeza- O grupo que vinha, que iria ocupar os outros quartos, cancelou em cima da hora. Tem 5 quartos vazios, você quer que eu reserve um para você poder ficar mais a vontade?
-Não tem problema nenhum, eu fico com Shivani e Bailey. Estou bem assim, não precisa se preocupar- falei sincera. Ela assentiu, entregando minha identidade de volta e falando com a recepcionista.
-Algum problema?- a caçula me perguntou, quando voltei para o seu lado.
-Não, parece que seremos só nós e essas pessoas que estão aqui. Os outros quartos foram vagos de última hora.
-Ainda vai ficar com a gente?- Bailey se virou para mim, perguntando com as sobrancelhas levantadas.
-Sim, preferi não incomodar- respondi.
-Ei- sussurrei no ouvido da indiana, quando ele parou de prestar atenção em mim- Qual é o significado daquela coordenada geográfica tatuada no braço do seu irmão?
-É a coordenada do lugar onde eles me encontraram.
-Isso é fofo- admiti.
-Sim! Eu vou fazer uma no mesmo lugar, com a localização do hospital onde ele nasceu, já até marquei a sessão.
-Isso também é fofo.
-As suas tem significado?
-Todas elas! Tenho várias em conjunto com Josh, outras com Sofya, Sabina e Noah, outras com o grupo todo. Cada uma delas tem um significado especial.
-Que legal, acho que combina muito com você. Não consigo te imaginar sem elas.
-Nem eu- falei, rindo- As vezes vejo uma foto minha criança e fico me perguntando porque parece tão estranho, aí lembro que é porque eu não tinha tatuagens.
-Isso me lembra a capa do Mind of Mine do Zayn, deveria fazer isso nas suas fotos antigas.
-É uma boa ideia- sorri em sua direção.
-Aqui está, essa é do quarto de vocês- Vanessa entregou na mão de Bailey.
-O nosso é a porta da frente, mas acho melhor vocês irem subindo e se adiantando, se não, não vão conseguir sair- Matt falou, entregando a chave do carro na mão de Shivani- Você dirige!
Pelo que eu sabia, Shivani não bebia, então fazia todo sentido. Ela também deveria ser recém habilitada, o que justificava ainda não ter seu próprio carro.
-Se cuidem e tentem não voltar muito tarde, amanhã precisamos tomar café as 8, para seguirmos a programação!
-Tudo bem, boa noite- acenei para eles, pegando minha mala que até então estava com Bailey. Coloquei meu relógio para despertar sete da manhã e subi as escadas, atrás dos dois irmãos.
-Acho melhor a gente tomar banho só na volta, né?- ela me perguntou- Se temos que acordar às seis, vamos acabar passando pouco tempo na rua, então é melhor irmos logo.
-É, também acho- concordei, esperando Bailey destrancar a porta do quarto, da casa tipicamente rústica.
-É lindo- ele falou, nos dando passagem.
Todos os móveis tinham o mesmo tom de madeira, que combinava perfeitamente com o chão e o teto. As paredes e a roupa de cama branca também casavam entre si, tapetes, abajures e todo o resto da decoração imitava palha e uma fina e clara cortina cobria a porta da sacada. As duas camas de casal estavam perfeitamente forradas e o quarto tinha um aroma muito gostoso e aconchegante.
Bailey e Shivani foram para uma das camas, enquanto eu segui até a outra, apoiando minha mala e a abrindo, rapidamente. Como sabia que chegaríamos a noite, tendo chance de sairmos naquele horário, deixei o vestido de festa por cima e enquanto o filipino se trancou no banheiro, para se arrumar, eu e Shivani nos trocamos ali mesmo.
Enquanto meu vestido era preto, justo e deixava a mostra todo meu sutiã, o dela era mais delicado, em tom rosado e um chegando no meio das coxas, era um pouco mais largo, com um decote elegante nas costas.
Calcei os mesmos coturnos de antes, eu odiava viajar com muitos sapatos, então tentava ser funcional.
-O que achou do menino da portaria?- questionei, enquanto terminava de me arrumar, passando um pouco de corretivo, abaixo dos olhos, e batom vermelho na boca.
-Eu não sei, ele é muito lindo e eu com certeza ficaria com ele mas... Sou meio insegura com relação a isso. Tenho medo de ficar com alguém que não preste, mesmo que seja só por ficar.
-Sendo sincera, eu também. É óbvio que eu tenho meu histórico de babacas, principalmente quando fico sem conhecer, mas a regra é clara: se ele separa mulheres entre "para comer" e "para casar", ele não merece nem uma gota da sua saliva.
-É, você tem razão. Posso fazer uma pergunta indiscreta?
-Uhmm, claro!
-Você não tem medo de se apaixonar por Noah?
-Não- sorri, encarando seu reflexo pelo espelho- Eu sou apaixonada por Noah, mas de uma forma diferente, de uma forma especial e única demais para valer a pena transformar em um relacionamento. Ele é meu melhor amigo, sempre vai ser!
-E Sina?
-Quando fiquei com ela pela primeira vez, no aniversário de Any, não imaginava que iríamos ter uma amizade colorida um dia. Não consigo me ver tendo mais que isso, para falar a verdade, estou curtindo eles dois intensamente, nessas últimas semanas, porque acho que eles vão se envolver de verdade.
-É... Eles combinam- sorri com meus pensamentos.
-E quando eles finalmente começarem a namorar, o que não deve demorar, eu estou sozinha- ela gargalhou- Completamente sozinha, sem camas para invadir no meio da madrugada.
-Bem vinda ao clube!
-Vamos?- nem tinha percebido que Bailey já tinha voltado para o quarto, mas apenas assenti, pegando minha bolsa e passando os dedos pelo cabelo, tentando ajeitá-lo.
Descemos as escadas de maneira apressada e, quando cheguei no último degrau, percebi que o menino da portaria, que agora estava sem uniforme e parecia ir para casa, encarava Shivani.
Todas as outras pessoas ainda estavam ali, agora em volta da sala de estar. Vanessa e Matt tinham se juntado ao grupo e pareciam manter uma conversa animada.
-Pai- Segui os dois irmãos- Você esqueceu de me dar o documento do carro- em um segundo, passamos a ser o centro a atenção de todos por ali.
-Seu pai está ficando velho- ele falou, se referindo a si mesmo. Antes de procurar e entregar na mão da filha.
-Shiv, não deixe que eles bebam demais- Vanessa apontou para nós dois, piscando- Dirija com cuidado, ok?
-Pode deixar, mãe.
-Bailey, Joalin, sem bebês por enquanto!
E de novo eu me encontrava engasgada, tossindo no meio de vários desconhecidos. Senti minhas bochechas corarem violentamente, quando Bailey deu um t**a leve nas minhas costas.
-Pai, a mamãe bebeu?
Olhei em volta, cada alma viva me encarava.
-Já tive a idade de vocês, sabia que eu e seu pai também vivíamos brigando e se engalfinhando?
-Só na frente dos outros- ele completou.
-Esse não é bem o nosso caso- ele deixou claro, mesmo não sendo totalmente verdade.
-Desculpa Vanessa, eu amo você e sua família, menos o Bailey!
-Sei- os adultos sorriram entre si, até os que não nos conheciam.
-Estou brincando com vocês dois, caíram direitinho- Vanessa piscou na minha direção, nós dois rimos nervosos enquanto Shivani parecia não se controlar, de tanto que gargalhou- Se divirtam e fiquem amigos, é isso que importa!
Ela era engraçada, eu até teria me divertido se nunca tivesse rolado nada entre nós dois. Me culpei por ter deixado aquilo acontecer, mas não tinha como voltar atrás.
-Um segundo- pedi que os irmãos esperassem, fazendo Bailey revirar os olhos. Eu realmente precisava fugir daquela situação, então caminhei até o garoto da portaria e estiquei a mão na sua direção- Oi, eu sou Joalin!
-Sou Luke- ele sorriu simpático, encarando a indiana por cima dos meus ombros.
-Então, Luke... Eu e meus amigos, Bailey e Shivani, estamos indo em uma festa e estamos com um pouco de medo de ficarmos perdidos- menti, descaradamente- Vi que está saindo do trabalho e queria saber se não quer vir com a gente.
-Uhmm, eu não sei... Tenho que trabalhar amanhã cedo.
-Não se preocupe com isso, nós também vamos acordar cedo, então não vamos ficar por muito tempo.
-Se é assim, tudo bem- ele falou, guardando as chaves no bolso.
Matt tinha comentado que o hotel era de uma família, os donos moravam na casa ao lado e eles e os filhos trabalhavam ali, então eu imaginava que ele fosse um dos filhos.
-Gente, esse é Luke. Ele vai na festa conosco- falei, puxando ele na direção dos dois.
-Ah, que ótimo- Shivani sorriu entre os dentes, nitidamente nervosa- Estamos indo- ela se virou para os pais.
-Tchau Vanessa, tchau Matt!- acenei, vendo que Luke tinha puxado assunto com Shivani e eles foram caminhando até o carro, sorri orgulhosa.
-Já vai traçar ele?
-Deixa de ser b****a, arrumei para a sua irmã- falei, revirando os olhos.
-Hum- foi a única palavra que ouvi de sua boca.