Capítulo 4

1097 Palavras
Acordei com a claridade invadindo o quarto e por um segundo, esqueci de tudo. Esqueci que estava presa a uma cadeira de rodas. Esqueci que minha conta bancária havia sido esvaziada por alguém que um dia jurei amar. Esqueci que minha casa, aquele pequeno lar que lutei tanto para construir, estava ruindo aos poucos. Foi um daqueles segundos ilusórios onde a mente nos engana com um breve instante de normalidade. Mas logo olhei para o lado, vi a cadeira parada ao pé da cama e senti o peso da realidade me sufocar outra vez. Na noite anterior, Karina tinha insistido em me levar para sua casa. “Você não pode ficar aqui desse jeito, Liz. Essa casa já não é mais segura. E, sinceramente, você não deveria estar passando por isso sozinha.” — disse com aquela firmeza doce que só ela tem. Ela estava certa. As paredes rachadas, os fios expostos, o mofo subindo pelas bordas das paredes… a casa já não era mais um lar. Era só um lembrete doloroso de tudo que eu perdi. Suspirei fundo, tentando reunir forças para encarar o dia. Em pouco tempo, Karina apareceu à porta com seu sorriso caloroso e o mesmo brilho nos olhos de quando éramos adolescentes e sonhávamos com o futuro. — Pronta pra começar uma nova fase? — perguntou, já abrindo as janelas e arrumando algumas coisas, como se fosse a dona do lugar. — Não sei se “pronta” é a palavra certa — respondi, com um sorriso fraco. — Tudo bem. Eu levo você mesmo sem estar pronta. — Ela piscou, e apesar da dor dentro de mim, soltei uma risada pequena. Deus sabe o quanto eu precisava rir. Karina trouxe minha cadeira e com cuidado me ajudou a sentar. Não me senti um fardo em nenhum momento. Era estranho. Geralmente, qualquer tipo de ajuda me fazia me sentir menos, menor… mas com ela era diferente. Talvez por já termos enfrentado tantas coisas juntas, ou talvez porque ela simplesmente me via como eu era, sem pena. Saímos da casa. O sol estava forte, o céu limpo. O calor da manhã aquecia minha pele e o vento bagunçava os cabelos de Karina enquanto ela empurrava minha cadeira com leveza. — Vou colocar uma fita nesse cabelo — ela disse, rindo. — Está parecendo que você vai voar. — Pelo menos se eu voar, não preciso mais empurrar a cadeira — brinquei. — Aí, ó! Tá voltando a fazer piada. É um bom sinal. Eu sorri. Um sorriso verdadeiro, ainda que pequeno. Enquanto seguíamos pelas calçadas da vizinhança, notei olhares curiosos. Gente que não me via há semanas. Pessoas que costumavam me cumprimentar todos os dias. Agora, desviavam o olhar ou soltavam um “bom dia” apressado, carregado de pena. Karina percebeu e se inclinou até mim. — Deixa olharem. Vão ver que você é mais forte do que parecem entender. Ficamos em silêncio por um tempo. Caminhar ou ser empurrada, nesse caso me fez pensar em tudo que estava deixando para trás. Minha casa. Não era apenas concreto. Era história. Era o primeiro lugar onde morei sozinha, onde decorei cada canto com o pouco que tinha, onde chorei de felicidade quando consegui pagar. Mas agora, a estrutura não se sustentava mais, assim como minha vida ali. — Eu… coloquei a casa à venda. — confessei baixinho, como se dissesse um segredo vergonhoso. — Pelo menos consigo alguma coisa pra levar comigo. Karina parou por um segundo, me olhando nos olhos. — Liz, isso não é fraqueza. É coragem. Saber a hora de deixar algo para trás é uma das coisas mais difíceis que existem. E você está fazendo isso. Pare de só vê o lado negativo. Assenti, sentindo as lágrimas arderem nos olhos. Não chorei. Não ali. Ainda não. Chegamos ao prédio dela, um edifício simples, mas bem cuidado. Subimos pelo elevador, e ao entrar no apartamento, fui tomada por uma sensação de acolhimento imediato. Tudo ali tinha a cara da Karina: quadros coloridos nas paredes, almofadas descombinadas no sofá, plantas penduradas que pareciam conversar umas com as outras. Era um lar. — Bem-vinda ao meu humilde castelo — disse ela, abrindo os braços com exagero. — Eu agradeço por isso. De verdade. — Nada de formalidades. Você é minha irmã de vida, Liz. Aqui é sua casa agora, até você se sentir pronta para dar o próximo passo. Ela me mostrou onde ficaria meu quarto — na verdade, o dela. Sim, Karina estava me dando o quarto dela e dormiria no sofá. — De jeito nenhum, Karina. Eu fico no sofá. — insisti. — Ah, não. Primeiro, você precisa dormir bem. Segundo, eu adoro meu sofá. Ele abraça, é melhor que muito colchão caro. Terceiro, não discute comigo. — disse, apontando o dedo como uma professora brava. Não tive forças para discutir. E, para ser sincera, a cama parecia mesmo um paraíso naquele momento. Karina ajeitou os lençóis, colocou uma almofada extra para as costas e me ajudou a me acomodar. — Precisa de mais alguma coisa? — Só de você aqui… já é mais do que eu esperava. Ela sorriu, apertou minha mão e saiu do quarto. Fiquei ali, por longos minutos, ouvindo o barulho da cidade pela janela. Era diferente estar ali. Não era mais minha casa, minha rotina, mas havia um tipo de paz, mesmo no desconforto da mudança. Eu estava segura. E isso já era muito. Mais tarde, Karina fez um chá de camomila e trouxe biscoitos. Sentamos no tapete da sala, ela no chão, eu na cadeira e assistimos a um episódio de uma série antiga que costumávamos ver juntas. Rimos, fizemos piada dos personagens, e por algumas horas, consegui esquecer o buraco que ainda existia dentro de mim. À noite, me deitei no quarto que agora era meu e fiquei olhando para o teto. O silêncio ali era diferente. Não o silêncio do abandono que me sufocava na outra casa, mas o silêncio do recomeço. Ainda doía. Ainda havia medo, saudade, vergonha. Mas havia, também, uma faísca. Uma possibilidade. Eu estava em queda livre havia semanas, mas agora… alguém tinha segurado minha mão. Apoiada por Karina, talvez eu conseguisse encontrar uma nova versão de mim. Não a Elizabeth que tinha tudo sob controle, mas uma Elizabeth que, mesmo quebrada, ainda era capaz de amar, sorrir e, quem sabe um dia, voltar a caminhar. Mesmo que fosse com outros passos. Fechei os olhos, com o gosto doce do chá ainda na boca e uma lágrima escorrendo silenciosa. Mas depois de um tempo acabei pegando no sono.
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