Capítulo 5

1166 Palavras
Capítulo – O Peso da Despedida Arrumar as últimas coisas para deixar a casa de Karina foi um processo silencioso. Eu não gostava de admitir, mas estava exausta. Cada movimento que antes era automático agora exigia planejamento. Empurrar a cadeira de rodas pelo apartamento pequeno não era tão difícil, mas pensar em sair dali, encarar o mundo… isso era outra história. Minha mala estava arrumada ao lado da porta, e Karina andava de um lado para o outro, tentando disfarçar sua preocupação. — Você tem certeza que quer ir sozinha até a rodoviária? — Ela perguntou, cruzando os braços. — Eu já disse que sim. Não quero te dar mais trabalho. Ela suspirou, revirando os olhos. — Você não é um fardo, Liz. Eu levaria você até a fazenda se pudesse. Sorri de leve, mas não respondi. Eu me sentia um fardo, sim. Mesmo sabendo que Karina nunca diria isso em voz alta. Respirei fundo e empurrei a cadeira até a porta. As rodas deslizaram facilmente pelo chão liso do apartamento, mas quando cheguei ao corredor, um desafio simples se apresentou: a soleira da porta. Deveria ser algo insignificante. Algo que nunca notei antes. Mas agora, era uma barreira. — Droga… — murmurei, tentando impulsionar a cadeira para frente. Ela travou no desnível. Antes que eu pudesse insistir, Karina já estava ao meu lado, segurando as alças da cadeira. — Me deixa ajudar. Queria negar, dizer que eu conseguia sozinha. Mas a verdade era que não conseguia. Pelo menos, não sem lutar contra a gravidade e talvez cair de cara no chão. Assenti em silêncio, e ela me ajudou a passar pela porta. Cada metro percorrido pelo corredor do prédio parecia um lembrete c***l do quanto minha independência havia sido arrancada. Antes, eu descia essas escadas correndo quando estava atrasada. Agora, precisava esperar pelo elevador, dependendo de mecanismos para me movimentar. Karina ficou comigo até a entrada do prédio. — Você quer que eu vá com você? — Não, Karina. Eu preciso fazer isso sozinha. Ela me olhou com os olhos cheios de incerteza, mas assentiu. — Me liga quando chegar. Empurrei a cadeira para fora, sentindo o vento da manhã tocar meu rosto. Pela primeira vez, eu realmente estava sozinha. A cidade parecia maior, os sons mais altos, as pessoas mais rápidas. Eu sempre andei apressada, correndo entre os carros, atravessando ruas sem pensar duas vezes. Agora, cada movimento precisava ser calculado. O primeiro desafio surgiu quando cheguei à calçada. O rebaixamento da rampa estava ali, mas ainda era íngreme. Eu tentei me inclinar para frente e empurrar as rodas com força, mas o esforço foi em vão. Meu coração disparou. Se eu errasse o movimento, poderia cair. Respirei fundo, preparando-me para tentar novamente, mas antes que eu pudesse reagir, senti uma mão no meu ombro. — Precisa de ajuda? Um rapaz, não muito mais velho do que eu, olhava para mim com um sorriso educado. Engoli meu orgulho e assenti. Ele me ajudou a descer a calçada com facilidade, e eu murmurei um “obrigada” antes de seguir em frente. Cada obstáculo parecia uma lembrança c***l do que eu tinha perdido. Subir no ônibus foi outra batalha. O motorista baixou a plataforma para cadeirantes, e o processo demorou mais do que eu gostaria. Eu sentia os olhares em mim, as pessoas esperando, algumas impacientes, outras curiosas. Quando finalmente me acomodei no banco reservado, senti as mãos tremendo. Eu estava indo embora. Minha casa já não era minha. Eu não tinha mais nada na cidade. Era oficial. A viagem foi longa. O movimento do ônibus me deixou enjoada, e a paisagem passando rapidamente pela janela fazia meu peito apertar. Eu costumava ver a estrada como um caminho para a liberdade. Agora, era um retorno ao passado. Quando meu telefone tocou, levei alguns segundos para pegá-lo. O nome da minha mãe brilhava na tela. Respirei fundo antes de atender. — Oi, mãe. — Elizabeth… por que você não me contou? Minha garganta secou. Meu coração disparou. — Contar o quê? — Sobre o acidente… sobre o que aquele homem fez com você. Fechei os olhos. Meu corpo ficou tenso. Karina. Ela contou. — Mãe, eu ia contar. — Você perdeu tudo, Elizabeth! Como pôde esconder isso de mim? Havia mágoa na voz dela. Mágoa e preocupação. — Eu não queria preocupar vocês. — Não preocupar?! Você quase morreu, minha filha! A respiração dela estava instável, como se estivesse segurando o choro. — Eu estou indo para casa, mãe. A gente conversa quando eu chegar. — Sim, você vem para casa. Mas entenda uma coisa: você não está sozinha. Nunca esteve. Eu queria acreditar nisso. Mas naquele momento, tudo o que eu conseguia sentir era vazio. Encostei a cabeça no vidro e fechei os olhos. O passado estava esperando por mim. E eu não tinha mais para onde fugir. Lembrança do passado — Eu sei que pode parecer precipitado, mas… Elizabeth, eu quero você na minha vida. Arthur estava ajoelhado na minha frente, segurando uma pequena caixa de veludo azul. O restaurante estava cheio, as luzes amareladas refletindo em nossos rostos. Algumas pessoas já olhavam em nossa direção, sorrisos curiosos se formando nos rostos desconhecidos ao redor. Meu coração batia tão rápido que eu m*l conseguia respirar. Eu olhei para aquele homem que, até então, parecia o meu porto seguro. Arthur era gentil, carinhoso, dizia que me amava de um jeito que me fazia acreditar. E eu acreditei. — Liz, você aceita namorar comigo? A plateia improvisada esperou, ansiosa pela minha resposta. Eu engoli a emoção e ri, assentindo rapidamente. — Sim! Ele deslizou o anel no meu dedo e se levantou para me beijar. As pessoas ao redor aplaudiram, e eu senti meu rosto esquentar. Mas no fundo, aquele calor era felicidade pura. Naquele momento, eu não poderia estar mais certa de que havia encontrado alguém que nunca me machucaria. A batida da música fazia o chão vibrar sob meus pés enquanto eu caminhava pela passarela iluminada. O vestido longo e dourado deslizou suavemente pelo meu corpo com cada passo firme. As luzes piscavam, os flashes das câmeras criavam pequenos relâmpagos ao meu redor. Eu conseguia ouvir os aplausos, os murmúrios de admiração. Eu era desejada. Eu era admirada. Meu coração acelerava, não de nervosismo, mas de puro êxtase. A sensação de estar ali, sob os olhares atentos da plateia, era viciante. Ao final da passarela, posei para os fotógrafos, um sorriso de leve nos lábios. O mundo me observava, e eu estava no controle. Eu sabia que era bonita. Sabia que minha presença causava impacto. E eu adorava isso. Quando saí dos holofotes e voltei para os bastidores, minha equipe me abraçou, comemorando o sucesso do desfile. — Liz, você estava incrível! — O estilista me segurou pelos ombros, os olhos brilhando de orgulho. — Eu me senti incrível. E eu realmente me sentia. Naquela noite, quando me deitei na cama do hotel luxuoso, olhei para o teto e sorri sozinha. Eu estava feliz.
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