Capítulo 6

2019 Palavras
O barulho dos pneus esmagando a terra seca fez meu estômago revirar. Eu sabia que esse momento chegaria, mas nada me preparou para a sensação de estar de volta à fazenda. Cruzei os braços, tentando ignorar o cheiro familiar de mato e terra molhada que invadia o carro. Anos atrás, sair daqui foi minha maior conquista. Agora, voltar parecia a maior derrota. Quando o portão de madeira rangeu ao se abrir, avistei a casa principal, igualzinha à última vez que a vi. O telhado de telhas vermelhas, a varanda espaçosa, a pintura branca já um pouco desgastada pelo tempo. Tudo parecia congelado no passado – tudo, menos eu. Meu pai estava parado na varanda, os braços cruzados, a expressão dura. Minha mãe, ao lado dele, tinha os olhos marejados e as mãos entrelaçadas, como se lutasse contra o impulso de correr até mim. O carro parou, e o silêncio me engoliu. Eu sabia que esperavam algo de mim um sorriso, uma palavra, qualquer coisa que tornasse esse reencontro menos pesado. Mas eu não tinha nada para dar. — Chegamos — disse meu irmão, Eduardo, ao meu lado. Ele saiu primeiro e foi abrir minha porta. Fiquei imóvel por um momento, odiando a ideia de precisar de ajuda. Antes do acidente, eu sairia desse carro em um salto, ergueria a cabeça e caminharia com confiança. Agora… agora dependia de mãos alheias para fazer até as coisas mais simples. Eduardo ajeitou minha cadeira de rodas e estendeu a mão para mim. Engoli o orgulho e aceitei, sentindo cada olhar cravado em mim como navalhas. — Filha… — A voz embargada da minha mãe fez algo dentro de mim se apertar. Mas eu não queria chorar. Não queria parecer fraca. Então apenas assenti, desviando o olhar. — Vamos entrar — disse meu pai, seco, antes de se virar e desaparecer pela porta. Respirei fundo e empurrei as rodas da cadeira, movendo-me para frente. Minha mãe caminhou ao meu lado, como se quisesse me amparar sem tocar em mim. Atravessar aquela porta foi como ser engolida por um túnel do tempo. O cheiro de café fresco, os móveis rústicos, os retratos antigos pendurados na parede… Nada havia mudado. Mas eu não pertencia mais àquele lugar. Então, ouvi passos no corredor. — Então é verdade… Levantei o olhar e encontrei um par de olhos castanhos intensos me observando. Ele era alto, forte, e tinha um jeito despreocupado, com um meio sorriso no rosto e um chapéu de couro inclinado sobre a testa. Juliano Morais. Lembrava dele vagamente, de anos atrás, quando era só um garoto magricela correndo pelo pasto. Agora, o menino se tornara um homem. Um homem que parecia me analisar com interesse… e algo mais. — Parece que a princesinha voltou para casa — ele disse, cruzando os braços. Meu sangue ferveu instantaneamente. — Não me chame assim. A sobrancelha dele arqueou, divertido. — E como devo te chamar, então? A vontade de revidar ficou presa na minha garganta. Eu não devia me importar, mas aquele tom despreocupado me irritou profundamente. — Juliano, poderia levar a bagagem dela para o quarto? — minha mãe interveio, provavelmente sentindo a tensão no ar. Ele assentiu, pegando minhas malas com facilidade, mas sem desviar os olhos de mim. — Bem-vinda de volta — murmurou antes de sair. Não respondi. Não queria estar ali, não queria lidar com aqueles olhares, e muito menos queria a compaixão de um homem que não sabia nada sobre mim. Girei as rodas da cadeira, seguindo pelo corredor até meu quarto. Assim que cruzei a porta, tranquei-a atrás de mim. Se era para ficar ali, que pelo menos pudesse sofrer em paz. (...) A noite caiu cedo. O céu escureceu em tons de azul profundo, e o som dos grilos preenchia o silêncio do meu quarto. Eu não conseguia dormir. Talvez fosse o colchão diferente, o cheiro de madeira antiga ou simplesmente o peso do que significava estar aqui de novo. Eu odiava essa sensação. Essa impotência que me consumia desde o acidente, desde que minha vida virou de cabeça para baixo. Passei os dedos pelo braço da cadeira de rodas, sentindo a textura do metal frio contra minha pele quente. Estava cansada de me sentir assim, mas não conseguia evitar. Uma batida leve na porta me tirou dos meus pensamentos. — Elizabeth? — Era minha mãe. Fechei os olhos, respirando fundo antes de responder. — O que foi? — O jantar está pronto. Meu estômago revirou, mas não de fome. Não queria descer, não queria encarar os olhares cheios de pena, as conversas forçadas. — Não estou com fome. Silêncio do outro lado. — Filha… — A voz dela era carregada de preocupação. — Estou cansada, mãe. Só quero dormir. Mais silêncio. Então, um suspiro. — Tudo bem. Qualquer coisa, estarei na cozinha. Ouvi seus passos se afastando e soltei o ar devagar. Voltar para cá foi um erro. (...) Na manhã seguinte, o cheiro de café fresco e pão assado me despertou antes mesmo de abrir os olhos. Fiquei um tempo encarando o teto, tentando reunir forças para sair do quarto. Mas ficar ali para sempre não era uma opção. Empurrei as rodas da cadeira, abrindo a porta e deslizando pelo corredor em direção à cozinha. Minha mãe estava de costas, mexendo em algo no fogão. Meu pai, como sempre, lia o jornal em silêncio. — Bom dia — murmurei, hesitante. Minha mãe se virou imediatamente, um sorriso aliviado nos lábios. — Bom dia, meu amor! Dormiu bem? — Sim — menti. Ela se apressou em preparar um prato para mim, mas antes que pudesse colocar a comida na mesa, ouvi passos pesados atrás de mim. — Ora, ora, achei que ia ficar trancada no quarto para sempre. Revirei os olhos antes mesmo de me virar. Juliano. Ele estava encostado no batente da porta, segurando um chapéu de couro em uma mão e um copo de café na outra. O sol da manhã iluminava seu rosto, destacando a barba por fazer e o sorriso carregado de provocação. — Não se preocupe, Juliano. Sei que você adoraria me ver longe, mas vou tentar não incomodar. Ele soltou uma risada baixa, sacudindo a cabeça. — Não foi isso que eu disse. — Não precisa. Eu entendi. Empurrei a cadeira de rodas até a mesa e comecei a comer, tentando ignorar sua presença. Mas ele não parecia disposto a me deixar em paz. — Vai ficar trancada dentro de casa até quando? — ele perguntou, se sentando no outro lado da mesa como se fosse dono do lugar. Minha paciência, que já não existia em abundância, se desgastou no instante em que ele abriu a boca. — Qual é o seu problema? — retruquei, largando o garfo no prato. Juliano ergueu uma sobrancelha, tomando um gole do café antes de responder: — Nenhum. Só estou curioso para saber se você pretende conhecer a fazenda ou se veio só para reclamar da vida. Minha mãe engasgou levemente com o café, enquanto meu pai finalmente ergueu os olhos do jornal, franzindo a testa. A ousadia daquele homem me deixou sem palavras por um instante. Quem ele achava que era para falar comigo assim? Eu não o conhecia. Ele não sabia nada sobre o que eu tinha passado. — Você não sabe nada sobre a minha vida — retruquei, mantendo o olhar firme no dele. Ele apoiou os cotovelos na mesa, inclinando-se um pouco para frente. — Sei que, se continuar se escondendo, vai se afundar ainda mais. O silêncio na cozinha ficou denso, carregado de expectativas. Minha mãe tentou amenizar: — Juliano, talvez esse não seja o melhor… — Está tudo bem, mãe — cortei, sem desviar os olhos dos dele. Eu queria que ele soubesse que suas palavras não me afetavam, que eu era impenetrável, inatingível. Mas a verdade era que algo dentro de mim tremia, porque ele tocava exatamente onde doía. Juliano segurou meu olhar por alguns segundos, então deu de ombros, como se estivesse satisfeito com minha reação. — Bom. Se mudar de ideia, estarei lá fora. Ele pegou o chapéu e saiu, deixando um rastro de irritação no ar. Eu ainda não sabia exatamente o que ele queria de mim, mas tinha certeza de uma coisa: eu não precisava de ninguém me dizendo o que fazer. ⸻ Passei o resto do dia no meu quarto, tentando ignorar a fazenda do lado de fora, mas não era fácil. O vento trazia o cheiro da terra molhada, o som distante dos cavalos no pasto, das vozes dos trabalhadores, das rodas da carroça passando pela estrada de terra. Eu fechei os olhos e tentei me convencer de que estava em qualquer outro lugar. Mas a verdade era que a fazenda me envolvia, me puxava para um passado que eu não queria revisitar. Eu nunca fui uma menina do campo. Sempre sonhei em sair dali, conquistar o mundo, brilhar. E eu consegui. Durante anos, fui Elizabeth Vasconcelos, a modelo de sucesso. Agora, eu era apenas Elizabeth, a mulher que perdeu tudo. A porta do quarto se abriu devagar. — Filha? Minha mãe. — O que foi? — perguntei, sem esconder a impaciência. Ela entrou e fechou a porta atrás de si, sentando-se na beirada da minha cama. — Eu sei que não é fácil para você estar aqui — começou, com aquela voz gentil que sempre usava quando queria que eu cedesse em algo. Fiquei em silêncio, esperando. — Mas… talvez seja o que você precisa. Soltei uma risada curta. — Você também vai começar com esse papo motivacional? Ela suspirou, passando a mão pelos cabelos, um hábito antigo de quando ficava nervosa. — Não estou dizendo que vai ser fácil, mas talvez seja bom para você sair um pouco desse quarto. Conhecer a fazenda com outros olhos. — Outros olhos? — repeti, cruzando os braços. — Eu cresci aqui, mãe. Sei exatamente como é essa fazenda. — Não, filha. Você conheceu essa fazenda como alguém que queria ir embora. Agora… talvez seja hora de vê-la como alguém que precisa de um recomeço. Aquelas palavras me incomodaram, porque parte de mim sabia que ela estava certa. — Pense nisso — disse ela, antes de se levantar e sair do quarto. Eu pensei. E odiei admitir que, pela primeira vez em muito tempo, me senti tentada a fazer algo diferente. ⸻ No final da tarde, empurrei as rodas da minha cadeira até a varanda. O ar estava quente, e o céu tingido de laranja indicava o começo do pôr do sol. Juliano estava perto do curral, encostado na cerca, observando os cavalos. Ele não me viu de imediato, o que me deu tempo para analisá-lo. Ele não era como os homens que eu costumava conhecer. Não usava ternos caros, não tinha aquele ar polido e ensaiado da cidade. Ele era real. E, de algum jeito irritante, parecia confortável com quem era. Finalmente, ele se virou e me viu. Um sorriso apareceu no canto de sua boca. — Achei que fosse ficar trancada lá dentro para sempre. Revirei os olhos. — Só estou pegando um pouco de ar. Ele se aproximou, encostando-se na grade da varanda, de frente para mim. — Que bom. O ar daqui é melhor do que o de um quarto fechado. Cruzei os braços, encarando-o. — Você sempre se mete na vida dos outros assim? Ele deu de ombros. — Só quando acho que vale a pena. Senti meu rosto esquentar, mas me recusei a demonstrar qualquer reação. — E como você sabe que vale a pena? Ele sorriu de um jeito lento, como se tivesse acabado de encontrar algo interessante. — Porque, por mais que tente se esconder, ainda tem fogo nos olhos. Minha respiração falhou por um instante. Eu queria responder algo afiado, jogá-lo para longe com palavras cortantes, mas tudo o que consegui fazer foi manter o olhar firme no dele. Juliano era um desafio que eu não sabia se estava pronta para enfrentar. Mas uma coisa era certa. Ele estava me obrigando a olhar para mim mesma de um jeito que ninguém mais fez. E isso era assustador.
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