Capítulo 7

1038 Palavras
O sol já havia se posto quando minha mãe veio me chamar para o jantar, mas eu recusei. Não estava com fome. Pelo menos, era isso que dizia a mim mesma. Na verdade, eu só não queria encarar aqueles olhares cheios de piedade de novo. Passei mais um tempo na varanda, deixando a brisa noturna bagunçar meu cabelo, sentindo a terra úmida e o cheiro de mato ao redor. Havia algo irritantemente acolhedor naquele lugar, e talvez fosse exatamente por isso que eu queria me manter distante. Mas não fui a única que decidiu ficar do lado de fora. O barulho de passos me fez virar a cabeça. E, claro, era ele. Juliano. Usava uma camisa simples, aberta nos primeiros botões, as mangas dobradas até os cotovelos, revelando os antebraços fortes. Vinha com o andar tranquilo de quem parecia se sentir dono daquele chão. — Você gosta de me perseguir, é isso? — perguntei, cruzando os braços. Ele riu, encostando-se na cerca outra vez. — Achei que gostasse de atenção. Trinquei os dentes. — Isso foi antes. Juliano assentiu, como se considerasse minhas palavras com calma. — Entendi. Então agora você prefere que ninguém olhe para você. Engoli em seco. A forma como ele dizia as coisas, sem rodeios, ia direto ao ponto, arrancando verdades que eu preferia esconder. — Não é sobre isso — murmurei, desviando o olhar. — Não? Minha respiração se aprofundou. — Eu só não quero que ninguém me veja como… — hesitei, porque dizer aquilo em voz alta tornava tudo mais real. Juliano esperou, mas quando viu que eu não continuaria, completou por mim: — Como frágil? Incapaz? Menos do que você era antes? Meus olhos se voltaram para ele, cheios de raiva. — Eu não sou incapaz. Ele apenas ergueu uma sobrancelha. — Então por que age como se fosse? Fiquei sem resposta. Meu coração martelava forte, meu peito se apertava. — Você não sabe nada sobre mim. — Sei o suficiente — ele disse, cruzando os braços. — Sei que está se escondendo, que acha que sua vida acabou porque não pode mais andar. Mas, adivinha só? A vida continua. Com ou sem suas pernas. As palavras dele me atingiram como um soco. E, ao mesmo tempo, me despertaram algo que eu não queria sentir. Raiva. — Que direito você tem de falar comigo assim? — minha voz saiu afiada, carregada de ressentimento. — Você não sabe o que é perder tudo da noite para o dia! Não sabe o que é olhar para o espelho e não reconhecer mais quem está ali! A intensidade do que eu disse fez um silêncio pesado se instalar entre nós. Juliano me olhou com atenção, seus olhos castanhos escuros analisando cada detalhe meu. Ele não parecia irritado, nem ofendido. Apenas… firme. — Você ainda é a mesma pessoa, Elizabeth — disse ele, devagar. — Só não quer enxergar isso. Desviei o olhar, sentindo minha garganta se fechar. — Vá embora. Ele ficou parado por um instante, como se quisesse me dizer algo mais. Mas então apenas soltou um suspiro leve e se afastou, desaparecendo no escuro da fazenda. Eu queria sentir alívio. Mas tudo o que senti foi um peso ainda maior dentro do peito. Naquela noite, não consegui dormir. As palavras de Juliano martelavam na minha cabeça, e o pior de tudo era que, em algum nível, eu sabia que ele estava certo. Eu me escondia. Me afundava no medo de que, se o mundo me visse assim, ninguém mais me quisesse. O pior era admitir que, no fundo, eu também não me queria. Me virei na cama, inquieta, até que desisti de tentar dormir. Peguei a cadeira de rodas e fui para a varanda de novo. A fazenda estava silenciosa, apenas o som dos grilos preenchia a noite. Fechei os olhos e respirei fundo, sentindo o cheiro da terra, da madeira, da grama recém-cortada. Eu tinha esquecido como o silêncio do campo podia ser… confortável. Passei a vida inteira correndo para longe daqui. E agora, esse era o único lugar que me restava. — Pensei que tivesse mandado eu ir embora. A voz me fez abrir os olhos num susto. Juliano estava ali de novo, encostado na mesma cerca de antes. — Você nunca ouve? — murmurei. Ele sorriu de leve. — Nem sempre. Revirei os olhos, mas, dessa vez, sem tanto rancor. Ele se aproximou, as botas pesadas afundando levemente na terra, e se apoiou no batente da varanda, me olhando como se tentasse entender algo que nem eu mesma compreendia. — Você costumava andar a cavalo quando era criança? — perguntou, do nada. Franzi a testa. — Sim. Mas por que…? — Então por que não tenta de novo? Me engasguei com minha própria saliva. — Você enlouqueceu? — Eu só fiz uma pergunta. Olhei para ele, incrédula. — Eu estou em uma cadeira de rodas, Juliano. — E? Fechei os olhos, inspirando fundo para não gritar. — Não consigo mais montar em um cavalo! Ele deu de ombros. — Talvez consiga. Só não tentou. — Porque seria impossível! Ele inclinou a cabeça para o lado, me analisando. — Sabe, eu já vi muitas pessoas caírem. Algumas se levantam rápido. Outras demoram. Mas sempre tem aquelas que nem tentam. Senti meu peito apertar. — O que você quer de mim? — perguntei, exausta. Juliano suspirou e olhou para o céu estrelado antes de responder: — Quero que você pare de se limitar. Minha garganta queimou. Porque, pela primeira vez, alguém estava me dizendo algo diferente. Todo mundo me olhava com pena. Juliano, por outro lado, me olhava como se eu ainda pudesse ser inteira. E isso era assustador. Ficamos em silêncio por um longo tempo. A noite seguiu seu curso, os sons da fazenda enchendo o vazio entre nós. Por um momento, me perguntei como seria tentar. Como seria, um dia, montar em um cavalo novamente. Mas então me lembrei da realidade. Eu não era mais aquela garota destemida. E, por mais que Juliano insistisse, talvez nunca voltasse a ser. Ainda assim, algo dentro de mim dizia que aquele homem não iria desistir tão fácil. E, para minha própria surpresa… uma pequena parte de mim não queria que ele desistisse.
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