Acordei com o som de um g**o cantando ao longe e, por um momento, desejei que tudo não passasse de um sonho. Que quando abrisse os olhos, estaria em meu apartamento na cidade, com lençóis de seda, o celular vibrando com mensagens de trabalhos e minha agenda lotada de compromissos. Que Arthur estaria ao meu lado, me chamando para um café, com aquele sorriso falso que eu achava que era amor.
Mas quando abri os olhos, só havia o teto de madeira, os lençóis simples e a brisa da fazenda entrando pela janela entreaberta.
A realidade caiu sobre mim como uma marreta. A cadeira de rodas continuava ao lado da cama, como um lembrete c***l de tudo o que eu tinha perdido.
Respirei fundo e, com a ajuda dos braços, me movi devagar até a beirada da cama. Meus movimentos ainda eram lentos, hesitantes. A adaptação estava longe de ser fácil. Tudo parecia exigir o dobro de esforço — físico e emocional.
Eu não queria sair do quarto, mas sabia que, se continuasse me escondendo, daria ainda mais espaço para a dor me consumir. E, apesar de tudo, eu estava cansada de ser consumida. Ainda que fosse em pequenas doses, eu precisava encarar o dia.
Me vesti com calma, escovei os cabelos e, pela primeira vez desde que cheguei à fazenda, passei um batom. Algo discreto, só para mim mesma. Talvez fosse um sinal de que, no fundo, eu não queria desaparecer completamente.
Quando cheguei à cozinha, minha mãe estava terminando de arrumar a mesa. Ela sorriu ao me ver.
— Bom dia, filha.
Assenti, sem vontade de falar muito. Sentei-me à mesa e aceitei uma xícara de café. O silêncio entre nós era confortável, quase cúmplice. Ela não insistia em conversas vazias, e isso era um alívio.
— O Juliano perguntou de você — disse ela, casualmente.
Revirei os olhos.
— É claro que perguntou.
Ela riu, como se reconhecesse a birra infantil na minha resposta.
— Ele tem sido uma bênção por aqui. Um homem trabalhador, gentil. E muito bonito, diga-se de passagem.
— Mãe...
— O quê? Eu posso elogiar. — Ela deu de ombros. — Mas o que mais gosto nele é que ele não desiste fácil.
Fiquei em silêncio, mas as palavras dela me acompanharam quando saí da cozinha.
Ele não desiste fácil.
E realmente não desistia.
Eu o vi no pasto, alimentando os cavalos com aquela tranquilidade irritante, como se o mundo inteiro pudesse desmoronar e ele continuaria ali, firme. Como se nada o abalasse.
Senti uma pontada de inveja.
Por que ele era tão forte? Por que ele conseguia sorrir quando eu m*l conseguia respirar direito?
Ele me viu e ergueu a mão, acenando como se fôssemos velhos amigos. Fingi que não vi. Girei a cadeira e fui na direção oposta. Mas ele não deixou por isso mesmo.
Em menos de cinco minutos, ouvi seus passos atrás de mim. Ele não corria, nem gritava meu nome. Só caminhava com aquela paciência que estava começando a me deixar desconfortavelmente... tocada.
— Fugindo de novo, Elizabeth? — ele perguntou, com aquele sorriso torto nos lábios.
— Eu só estou passeando — respondi, seca.
— Ah, claro. E o caminho oposto a mim foi coincidência?
Suspirei, irritada.
— Por que você insiste tanto? Não tem coisa melhor pra fazer?
— Tenho. Mas, no momento, essa é a melhor coisa que posso fazer.
— E o que exatamente é isso?
— Lembrar você de que ainda está viva.
Engoli em seco.
— Às vezes, não parece.
Houve um momento de silêncio entre nós. Ele se agachou ao meu lado, ficando na minha altura, os olhos castanhos escuros fixos nos meus.
— Eu entendo que esteja difícil. Eu não faço ideia da dor que sente, da perda que carrega. Mas... também já perdi coisas importantes na vida, Elizabeth.
— Como o quê?
Ele hesitou, olhou para o lado como se estivesse escolhendo as palavras.
— Minha irmã. Ela teve uma doença degenerativa. Eu cuidava dela sozinho, porque nossos pais morreram cedo. Ela era tudo pra mim.
Senti um aperto no peito.
— O que aconteceu?
— Ela não resistiu. Foram anos tentando, batalhando, e no fim... — Ele parou, respirou fundo. — Foi ela quem me ensinou que a vida é mais do que o que podemos ou não fazer. É sobre o que decidimos ser, apesar das perdas.
Eu não sabia o que dizer. Pela primeira vez, vi nos olhos dele uma dor que espelhava a minha. Diferente, mas igualmente devastadora.
— Sinto muito — murmurei, sincera.
— Eu também. Mas sobrevivi. E aprendi que às vezes, tudo o que uma pessoa precisa é de alguém que fique. Que não vá embora.
Aquelas palavras me desmontaram por dentro.
Arthur foi embora no pior momento da minha vida.
Juliano estava aqui.
Presente. Constante.
Por mais que eu tentasse afastá-lo, ele voltava. E, no fundo, isso mexia comigo mais do que eu queria admitir.
— Por que você se importa tanto? — perguntei, sem conseguir esconder a vulnerabilidade na minha voz.
Ele sorriu, mas não foi um sorriso zombeteiro. Foi... suave.
— Porque eu vejo em você uma força que nem você enxerga. E porque, desde o primeiro dia em que nos vimos, algo em você me tocou.
Meu coração bateu mais forte. Olhei para ele, sem saber como reagir. Aquilo parecia perto demais. Intenso demais.
— Eu não quero me apaixonar — confessei, em um sussurro.
— Quem disse que amor pede permissão?
Olhei para ele com os olhos cheios d’água.
— Eu não sou mais a mulher que costumava ser.
— Talvez não. Mas quem disse que a nova versão de você não pode ser ainda mais incrível?
Uma lágrima escapou antes que eu pudesse impedir. Abaixei o rosto, envergonhada, mas Juliano não fez nenhuma piada, nem tentou me consolar com palavras vazias. Ele apenas ficou ali. Comigo.
E naquele instante, percebi que havia algo muito mais valioso do que pernas que me levassem aonde eu quisesse.
Havia alguém disposto a caminhar ao meu lado, mesmo que eu não pudesse andar.
Mais tarde, fui até o celeiro. Não sei por quê. Talvez porque queria enfrentar meus próprios medos. Ou talvez porque, pela primeira vez, queria me permitir lembrar de quem eu era antes do acidente.
Os cavalos estavam calmos. O cheiro do feno, do couro das selas, da madeira antiga — tudo me envolveu como um abraço de memórias.
Juliano apareceu minutos depois, como se sentisse que eu estava ali.
— Veio ver os velhos amigos? — ele perguntou, se aproximando de um dos cavalos e acariciando a crina.
— Eu... costumava amar isso. Os cavalos. A liberdade. Era como voar.
Ele assentiu.
— Ainda pode ser.
Balancei a cabeça.
— Você é insistente demais.
— E você é teimosa demais.
— É uma combinação perigosa.
— Ou perfeita — ele rebateu, sorrindo.
Ri, pela primeira vez em dias. Foi um riso curto, abafado, mas verdadeiro.
Juliano então caminhou até mim, com calma, e se abaixou à minha frente.
— Um dia, quando estiver pronta, quero te mostrar algo. Um cavalo especial. Calmo, obediente. Perfeito pra recomeços.
— Eu não prometo nada — respondi, mas minha voz já não tinha a mesma resistência.
— Nem eu. Mas prometo que vou estar aqui.