A brisa da manhã entrava pela janela do meu quarto, carregando o cheiro de terra molhada. Choveu durante a madrugada e agora a fazenda parecia mais viva, mais verde, mais... intensa. A natureza parecia respirar com um tipo de liberdade que eu havia esquecido como era. E, talvez pela primeira vez desde o acidente, eu não acordei com aquela sensação de desespero entalada no peito. Não era felicidade, nem alívio. Mas era algo. Um começo.
Levantei devagar, ajeitando meu corpo na cadeira com cuidado. Já não sentia mais aquela resistência absurda nas mãos ao tocar as rodas. Meu corpo ainda não me obedecia como antes, mas minha mente começava a voltar ao meu controle. Ou pelo menos, era o que eu queria acreditar.
Depois do que Juliano me disse ontem... alguma coisa se mexeu dentro de mim. Eu não sabia exatamente o quê. Ele não usava palavras bonitas ou frases ensaiadas. Mas tudo nele era genuíno. A forma como falava, a maneira como olhava nos meus olhos, como se pudesse enxergar até os pedaços de mim que nem eu queria admitir que existiam.
E era isso que mais me assustava: ele estava conseguindo me ver.
Enquanto me arrumava, peguei o batom novamente. Vermelho, como eu usava nos meus desfiles mais importantes. Quase hesitei. Aquela não era mais a mesma Elizabeth. A passarela foi trocada por um chão de madeira antiga e terra batida. As câmeras, por olhares curiosos de vaqueiros e funcionários da fazenda. E os saltos? Agora repousavam em caixas, como lembranças de uma vida que parecia tão distante quanto um sonho m*l contado.
Mas passei o batom mesmo assim.
Se eu ia encarar aquele novo dia, que fosse com um pouco da coragem da mulher que fui.
Na cozinha, encontrei meu pai com o chapéu já na cabeça, pronto para sair.
— Bom dia, filha. Dormiu bem?
— Melhor do que esperava — respondi, tomando meu café com as duas mãos. — E o senhor?
Ele deu de ombros, mas sorriu com sinceridade.
— Sempre dormi melhor com a casa cheia. Sua mãe diz que você e essa cadeira de rodas fazem mais barulho do que uma boiada inteira.
Revirei os olhos, mas não consegui evitar o riso. Esse era o jeito dele de dizer que estava feliz por eu estar ali, mesmo que tudo fosse diferente. Mesmo que eu estivesse quebrada.
Juliano entrou logo depois, com os cabelos ainda úmidos e o rosto corado pelo vento da manhã. Quando seus olhos cruzaram os meus, senti um frio estranho no estômago. Ele parou por um instante, me observando com mais atenção do que eu gostaria.
— Tá diferente hoje — disse ele, encostando-se à pia com um sorriso de canto.
— É o batom — respondi, tentando disfarçar a súbita aceleração do meu coração.
— Não. Não é só isso. É o jeito que tá se olhando. Parece mais... você.
Engoli em seco.
Como ele podia notar essas coisas?
(...)
Mais tarde, saí para tomar um pouco de ar. Escolhi um caminho de terra que levava até uma parte da fazenda que costumava ser meu refúgio na adolescência. Um pequeno galpão onde guardavam selas, arreios e ferramentas de montaria. Lá dentro havia uma janela larga que dava para o campo, e eu passava horas ali, escrevendo em meus cadernos secretos, desenhando vestidos ou simplesmente sonhando com uma vida além daquele lugar.
Fazia anos que eu não voltava ali.
Cheguei com algum esforço. O caminho não era exatamente fácil para as rodas da cadeira, mas Juliano havia ajeitado a entrada do galpão tempos atrás e, felizmente, o chão estava nivelado.
Quando entrei, as lembranças me atingiram como uma avalanche.
Era tudo igual.
O cheiro da madeira antiga, as cordas penduradas, o banco encostado na parede... Só eu havia mudado.
E mesmo assim, havia um conforto ali. Um acolhimento silencioso que me fez respirar mais fundo.
Senti a presença de alguém e, claro, era ele. Juliano. Outra vez.
— Você tem um faro impressionante — murmurei, sem me virar.
— Digamos que eu conheço seus lugares de fuga. Descobri que gosta de se esconder.
Virei para encará-lo. Ele estava com as mangas da camisa dobradas e carregava uma caixa com algumas ferramentas.
— E você gosta de me encontrar.
— É. Gosto mesmo.
Ele colocou a caixa no canto e se aproximou com calma. Seus olhos estavam mais sérios hoje. E havia algo no ar. Uma tensão nova, diferente da que costumava pairar entre nós. Não era mais apenas a resistência. Era como se houvesse algo prestes a explodir.
— Elizabeth — ele disse, parando diante de mim —, por que ainda me trata como se eu fosse um estranho?
A pergunta me pegou desprevenida.
— Porque você é — rebati, mas minha voz saiu fraca.
Ele se ajoelhou à minha frente, como da outra vez. Os olhos presos nos meus.
— Eu sei que tá com medo. Eu vejo isso todos os dias. Mas também vejo outra coisa. Vejo você querendo lutar. E eu tô aqui, todos os dias, dizendo com cada gesto que você não tá sozinha. Mas você ainda olha pra mim como se eu fosse sumir a qualquer momento.
— E não vai?
— Não.
Ele pegou minha mão. Suas mãos eram calejadas, firmes, e ainda assim tão gentis.
— Eu sou o tipo de homem que fica, Elizabeth.
Um silêncio se instalou. Um silêncio denso, carregado. E antes que eu pudesse pensar, antes que qualquer barreira mental pudesse me impedir, eu me inclinei para frente.
Nossos rostos estavam a poucos centímetros de distância. Eu sentia sua respiração, quente e calma. E então... ele se aproximou mais.
O beijo aconteceu de forma súbita.
Não foi um beijo planejado, calculado ou tímido. Foi o impacto de dois mundos em colapso. Meu coração disparou. Minhas mãos tremiam. E, por um instante, me deixei levar.
Mas logo o medo se infiltrou pelas frestas do meu peito. Como uma sombra fria, ele me envolveu e me fez recuar. Afastei meu rosto, meu corpo, meus sentimentos.
— Não — murmurei, quase sem ar. — Isso não pode acontecer.
Juliano me olhou com os olhos confusos, mas não tentou me tocar de novo.
— Por quê?
— Porque eu sou um fardo, Juliano. Eu não posso te dar uma vida normal. Não posso andar. Não posso dançar com você, correr com você, montar um cavalo ao seu lado. Eu... eu sou só metade do que era.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Mas foi o silêncio mais pesado que já suportei.
— Elizabeth, você é muito mais do que imagina. Mas se é isso que sente... — Ele se levantou, com a expressão endurecendo. — Então eu não vou te pressionar.
Virou-se para sair, e meu peito se apertou. Uma dor inexplicável me rasgou por dentro.
— Juliano... — chamei, mas ele já estava indo.
E dessa vez, ele não olhou para trás.
(...)
Chorei por horas.
Chorei pela dor física, pela dor emocional, pela saudade de mim mesma.
Chorei porque, pela primeira vez desde o acidente, senti algo que me deu vida. E por medo, eu empurrei aquilo para longe.
E agora, sozinha no galpão, entre memórias de uma adolescência sonhadora e a mulher quebrada que me tornei, eu entendi que meu maior inimigo não era a cadeira.
Era eu.
Minha própria recusa em aceitar que o amor ainda podia existir.
Que alguém podia me amar.
Não apesar das minhas cicatrizes, mas junto com elas.