Capítulo 10

1264 Palavras
O sol já passava do meio-dia quando decidi sair do quarto. As lágrimas da noite anterior secaram no travesseiro, mas a dor ainda latejava sob minha pele, como se cada palavra não dita tivesse deixado uma ferida invisível. Juliano não apareceu naquela manhã. Nem na tarde. E o silêncio que ele deixou em seu lugar doeu mais do que qualquer frase dura que ele já tenha dito. Passei a manhã revivendo o beijo. A sensação dos lábios dele nos meus, a força contida em suas mãos quando segurou as minhas. Não era só desejo, era afeto, era verdade. E eu joguei tudo fora por medo. Medo de me machucar outra vez, de decepcionar alguém, de arrastar outro homem para dentro do caos que minha vida se tornou. Mas e se... e se eu estivesse fazendo isso comigo mesma há mais tempo do que imaginava? Fui para a varanda, esperando encontrar minha mãe com seus bordados ou meu pai lendo o jornal antigo que insistia em assinar mesmo que ninguém mais o lesse. Mas encontrei os dois ali. Sentados lado a lado, me esperando. Reconheci o olhar nos olhos deles antes mesmo de qualquer palavra ser dita. Era o mesmo olhar que recebi no hospital, quando o médico me deu o diagnóstico definitivo: *lesão medular incompleta, paraplegia, sem previsões otimistas*. Era um olhar que misturava preocupação e amor, mas também cobrança. Eles estavam fartos da minha apatia. — Podemos conversar, filha? — perguntou minha mãe, dando um espaço ao lado dela. Me aproximei com cautela, parando a cadeira perto da rede onde os dois estavam. Assenti, mesmo sabendo que não seria uma conversa leve. — Estamos preocupados — começou ela. — Você está aqui há semanas, e até agora não vimos nenhuma tentativa real de mudança. Respirei fundo, me preparando para o discurso que, em algum nível, eu sabia que estava por vir. — Você veio pra cá porque não tinha mais nada — disse meu pai, direto. — E nós te acolhemos. Mas isso não é só sobre te dar um teto. É sobre ver você viver de novo, tentar. — Eu tentei — rebati, sentindo a raiva subir pela garganta. — Fiz aquela maldita fisioterapia uma vez, e foi um desastre. Vocês não entendem. Não sabem como é estar presa no próprio corpo! Minha mãe se inclinou para frente, os olhos marejados. — Não sabemos, filha. Mas sabemos o que é ver uma filha cheia de luz se apagar dia após dia. E isso... isso está nos matando também. Me calei. Ela chorava baixinho. Meu pai apertou a mão dela, mas mantinha o olhar firme em mim. — E o Juliano? — ele perguntou, de repente. — Vai empurrá-lo pra longe também? A menção ao nome dele fez meu coração pular uma batida. — Eu não pedi nada a ele. Foi ele quem se aproximou. — Sim. Porque viu em você o que talvez você mesma tenha esquecido — disse minha mãe, enxugando as lágrimas. — Ele não tá interessado na modelo de passarela, Liz. Ele vê a mulher por trás das capas de revista. E essa mulher... está escondida atrás do medo. As palavras dela me atravessaram como uma faca. Era verdade. Eu estava escondida. Me protegendo com uma muralha de sarcasmo, frieza e negação. Mas tudo o que eu conseguia era me manter sozinha, cada vez mais afundada na escuridão. — E se eu falhar de novo? — murmurei. — E se eu tentar e não conseguir nunca mais andar? Nunca mais me sentir inteira? Minha mãe se aproximou, ajoelhando ao meu lado. Segurou meu rosto entre as mãos como fazia quando eu era pequena e tinha medo do escuro. — A sua inteireza, filha, não está nas pernas. Está aqui — ela tocou meu peito, bem sobre o coração. — Você só precisa deixar esse coração bater de novo. As lágrimas vieram sem aviso, quentes, pesadas. — Eu estou tão cansada, mãe... — Então comece devagar. Um passo por vez. Uma tentativa por vez. Mas comece. Naquela noite, não dormi. Fiquei acordada revendo cada conversa que tive com Juliano. Cada gesto. O modo como ele me olhava não era de piedade. Era de admiração. E talvez... de amor. E eu o afastei. Como sempre fiz com tudo o que podia me dar esperança. Algo mudou em mim ali. Não foi um estalo, nem uma epifania cinematográfica. Foi uma decisão silenciosa, quase tímida. Mas era minha. Na manhã seguinte, pedi para que me levassem até o espaço de fisioterapia improvisado que havia sido montado em um dos antigos salões da casa. As esteiras, os pesos, as barras paralelas. Tudo me parecia ameaçador. Mas era ali que eu começaria. O fisioterapeuta, um rapaz gentil chamado Rafael, me recebeu com um sorriso sincero. Ele já tinha vindo antes, mas eu o afastava com desculpas e caras fechadas. Desta vez, não. — Está pronta? — ele perguntou, sem ironia. Apenas esperando a minha decisão. — Estou. E mesmo que eu não esteja... eu vou tentar assim mesmo. Os primeiros exercícios foram lentos. Dolorosos. Não fisicamente, mas emocionalmente. Ter que olhar para o meu corpo e reconhecer que ele não me obedecia era o mais difícil. Ver minhas pernas imóveis e lembrar de quando dançava, quando corria, quando rodopiava em cima de uma passarela com saltos de quinze centímetros... era como enfiar o dedo em uma ferida aberta. Mas a voz do Rafael era paciente. E suas palavras, firmes. — Seu corpo ainda está aprendendo. Não desista dele. Após uma hora de esforço, suor e frustração, conseguimos movimentar um dos pés levemente com estímulo. Não era muito. Mas era um começo. Me vi chorando de novo. Mas dessa vez... de orgulho. — Eu movi. Eu... eu movi. — Sim. E vai fazer muito mais. Um passo de cada vez, Elizabeth. Quando voltei para o quarto, minhas mãos doíam de tanto forçar as rodas. Mas minha alma... minha alma estava diferente. Sentei na frente do espelho. O mesmo onde passei tantas horas me odiando. Encostei os dedos na moldura e vi uma mulher ali. Cansada, sim. Ferida, sim. Mas viva. Peguei meu batom vermelho e o encostei nos lábios. Dessa vez, não para esconder a dor. Mas para lembrar quem eu sou. Do lado de fora, ouvi passos no assoalho da varanda. Fui até lá. Era Juliano. Ele estava de costas, olhando para os cavalos no pasto. Vestia a mesma camisa azul surrada que costumava usar para trabalhar, mas estava limpo, como se tivesse acabado de sair do banho. Talvez estivesse esperando por mim. — Juliano — chamei, a voz ainda trêmula. Ele se virou lentamente. O olhar dele me atravessou. — Pensei que queria distância. Engoli o orgulho. — Eu quis. Mas estava errada. Ele esperou. — Ontem eu fui c***l. Com você... e comigo. E hoje, quando consegui mexer o pé pela primeira vez desde o acidente, percebi que... talvez eu ainda esteja viva de verdade. Que ainda tenha algo dentro de mim que vale a pena. E... queria que você soubesse disso. Juliano deu um passo em minha direção. E depois outro. E parou bem à minha frente. — Eu sempre soube disso, Elizabeth. Só estava esperando você ver também. A emoção voltou, latejando nos meus olhos. — Eu não sei como seguir. Não sei como ser sua... assim. — Você não precisa saber. Só precisa tentar. Um passo de cada vez, lembra? Soltei uma risada trêmula. Estava me tornando alguém nova. E dessa vez... não tinha medo de mudar. Ele estendeu a mão. E pela primeira vez, eu a segurei sem hesitar.
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