Capítulo 1 Heitor

967 Palavras
A p***a da noite aqui no Complexo do Império não é feita de silêncio; é feita de uma ausência de som que agride os tímpanos, um vácuo maldito que te avisa, a cada respiração, que a morte tá logo ali na esquina, encostada no muro de chapisco, fumando um e escolhendo qual alma vai arrastar pro ralo primeiro. É aquele intervalo desgraçado entre o dedo apertar o gatilho e o corpo do o****o beijar o asfalto quente, soltando aquele último suspiro que ninguém ouve. O poste na entrada da viela principal tá naquela frequência doentia, uma luz amarela e cansada que pisca igual olho de quem tá tendo um derrame cerebral, revelando por milésimos de segundo os vira-latas sarnentos que rosnam pras sombras, sentindo o cheiro da carniça que ainda nem caiu, mas que já tá encomendada. A garoa que cai sobre o morro não serve pra purificar p***a nenhuma; ela só serve pra misturar o bafo de lixo queimado com aquele aroma ferroso e insuportável de sangue antigo que nunca vai embora de verdade, encrustado nas frestas do asfalto, nas paredes de tijolo baiano e na própria alma de quem mora aqui. No meu Império, nada dorme. O sono é um luxo de quem não tem pecado nas costas, e aqui, até as pedras vigiam pra não virarem alvo de fuzil. O vento sopra encanado entre os becos, trazendo o som de um rádio de pilha lá longe tocando um funk antigo, mas o ritmo que manda aqui é o da batida do meu coração frio, constante e sem um pingo de hesitação. No centro desse tabuleiro de concreto, zinco, esgoto e ódio, tô eu. Heitor. Mas se tu quer ter a chance de ver o sol nascer no horizonte amanhã, tu fecha essa tua boca imunda e só me chama de Feroz. Tenho trinta e dois anos e o meu currículo foi escrito com tinta de pólvora e letra de fome. Aprendi cedo pra c*****o, lá no pé do morro, que sentimento é o câncer do poder, um vício de o****o que corrói o juízo e te faz virar alvo fácil pra quem quer o teu lugar. Eu não gasto um centavo de emoção com ninguém. Não lembro a última vez que o frio do medo subiu pela minha espinha, e a p***a da culpa é um conceito que nunca encontrou morada na minha cabeça. Eu não sou um eco que se perde no labirinto dessa favela; eu sou a p***a da voz que decreta quem continua puxando o ar e quem vira estatística no jornal das oito. Onde eu piso, o chão racha sob o peso da minha história. Onde eu olho, o mundo queima até virar cinza. Meu boné tá baixo, enterrado na testa, escondendo o olhar que muitos descrevem como o de um animal que já morreu por dentro e só esqueceu de fechar os olhos. A tatuagem de espinhos sobe pelo meu punho, enrolando no braço até sumir na manga da camisa, simbolizando cada filha da p**a que eu já mandei pro colo do capeta. E essa cicatriz que corta minha bochecha esquerda, descendo até perto do queixo? É a assinatura de um contrato que eu fiz com a morte há muito tempo, e ela sabe que eu sou o melhor cliente dela. No meu domínio, a regra é gravada no chumbo: traiu? Não morre rápido. Morre devagar, no conta-gotas da agonia, servindo de aula prática pras próximas gerações de ratos que acharem que o crime compensa a traição. O pátio de concreto atrás do galpão de desmanche, um lugar onde o cheiro de óleo de motor se mistura com o de carne podre, é o meu tribunal particular nessa madrugada fria. Os dois blindados os monstros de aço que a gente chama de "Caveirões do Império" tão com os faróis altos ligados no máximo, formando uma meia-lua de luz branca, artificial e violenta que cega qualquer um que tiver no centro. O André tá do meu lado, com aquela cara de mármore de quem comeu defunto no café da manhã, o fuzil 7.62 cruzado no peito como uma extensão natural dos braços dele. O Tuca tá lá na entrada, varrendo o perímetro com a precisão de um radar militar, enquanto o Pingo tá dissolvido na escuridão das caçambas, pronto pra ser o pesadelo de quem tentar dar uma de esperto e fugir. No alto de um contêiner enferrujado, a Duda tá operando o tablet com a agilidade de um hacker de elite, os dedos voando na tela e o fone isolando ela do resto da humanidade. Ela é a inteligência, o Wi-Fi da destruição; eu sou a lâmina que corta a conexão de vez. No centro desse círculo de luz, de joelhos, tá o Ramos. Um verme maldito que nasceu aqui, cresceu comendo das sobras da nossa lealdade, jogou bola comigo no barro e achou que podia vender o mapa das nossas rotas pros alemão do g**o por um punhado de notas sujas e promessas de proteção na pista. O desgraçado tá tremendo tanto que o som dos dentes dele batendo parece uma metralhadora engasgada. O rosto dele tá uma massa de carne moída, cortesia do André, que não tem paciência pra X9. O sangue mistura com o suor e a urina que já escorreu pela calça dele, empoçando no chão de cimento frio. A fumaça do meu baseado sobe lenta, ignorando o desespero que emana desse arrombado. Eu dou um trago longo, sentindo o veneno relaxar meus ombros enquanto mantenho o cano da minha peça encostado na nuca dele, só pra ele sentir o beijo do ferro frio avisando que a sentença já foi assinada lá no quinto dos infernos. O Ramos tenta balbuciar alguma p***a, um pedido de clemência que soa como um porco sendo esfaqueado no matadouro.
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