Nathaly
Conhecer Aurora me fez muito bem. A pequena menina de sete anos e uma rochinha invejável. Tão nova e lutando feroz pela vida me fez sentir o quanto eu sou fraca e me entrego à depressão.
Em tratamento de leucemia, ela está magra e parece ter menos idade. Mas isso não deixou que ela perdesse a vontade de viver.
- Você é tão bonita Nathaly. Seu cabelo é lindo. O médico disse que vai demorar, mas o meu cabelo vai crescer. Eu vou deixar ela ficar grande igual o seu.
O tempo todo ela falava do meu cabelo e mesmo careca, magra e doente, suas palavras eram doces e não perdia a esperança.
Sua mãe me disse o quanto ela fica m*l com a quimioterapia e ainda assim sempre sorrindo. Eu entendi que meus problemas não eram nada diante de sua luta pela vida. De alguma forma, ela me fez ter fé e esperança para seguir em frente.
- Vai sair Sra?
- Vou sim. Mas não se preocupe, vou até a praça aqui perto.
- O Sr Thales pediu para não sair sem um segurança.
- Tudo bem. Ontem, conheci uma menina. Quero ver se a vejo de novo, peça ao segurança para manter distância. Não quero que ela se assuste.
Passei a ir à praça todos os dias para ver a Aurora, gostei muito dela e se pudesse, queria ajudar. Mas não tenho dinheiro e não vou pedir ao Thales, eu nunca pedi nada a ele e Brigitte era a responsável pelas compras. Para uso pessoal não faltava praticamente nada.
Nas idas e vindas a praça, descobri uma loja precisando de vendedora e feliz me candidatei a vaga..
- Gostamos de você Nathaly. Por falar português e espanhol, além do inglês, você é nosso melhor candidata.
- Que bom! Não vou te decepcionar.
- Você é bonita e simpática, tenho certeza que será uma ótima vendedora.
- Quando começo?
- Se puder vir amanhã, Seu horário é das nove as seis e você tem duas horas de almoço. Ou se quiser, pode fazer uma hora e meia e meia hora de intervalo a tarde. Faremos um teste de quinze dias e se der tudo certo, traga seus documentos e assinamos o contrato.
- Para mim está ótimo! Então estarei aqui amanhã às dez.
- Ainda não falei o salário. Você terá um fixo e cinco por cento da valor que vender. Se bater a meta um alimenta dois e meio por cento. Conforme as metas vai aumentando até no máximo quinze por cento.
Sai feliz e no dia seguinte fui a primeira a chegar. Thales saia as oito para o trabalho e eu podia sair vinte para as nove, não tinha como ele saber porque também chegava bem antes dele. Era perfeito e eu estava dando pulos de alegria.
- Bom dia Nathaly!
- Bom dia Sra Lins!
- Me chame de Jô, ninguém me chama de Sra. me sinto uma velha aos trinta e oito anos.
Joslins era a gerente que me contratou e de cara gostei dela.
Mal abrimos a loja e os clientes já foram chegando. Minha função era mostrar as roupas e assessórios e encaminhar para o caixa. O trabalho era muito fácil e a maioria das clientes, fácil de lidar.
Saí para almoçar ao meio-dia e fui para casa. Não resisti e contei para Brigitte quando ela me perguntou onde estive.
- Arrumei um trabalho aqui perto.
- Pelo amor de Deus Sra. o Sr Thales não vai gostar.
- Não precisamos dizer a ele. Vou estar em casa nos horários que ele estiver.
- Isso não vai dar certo. Ele vai ficar furioso comigo, pode até me demitir.
- Você diz que não sabia, eu assumo a responsabilidade.
A parte da tarde foi ainda mais movimentada que a manhã e eu queria meia hora de café para ver Aurora, não consegui e ainda tive o azar de atender Júlia que apareceu no meio da tarde.
- Nathaly Orsini? Thales sabe que você trabalha aqui?
- Não, mas agora tenho certeza que vai saber.
Para chamar a atenção, ela falava em voz alta e eu não podia me irritar.
- Quem diria hein? Você precisando de um empreginho de atendente.
- Srta Barrot, tenho certeza que a Sta acha que você tem educação, mas não é educado falar tão alto.
- Aposto que Thales te chutou para estar mendigando assim. Se for boazinha, vou comprar bastante para engordar sua comissão.
Minhas colegas de trabalho já estavam todas atentas a ela.
- Thales não me chutou. Apenas quis ocupar meu tempo com algo útil. Acho degradante ficar procurando homens para pagar minhas contas.
Vi o rosto dela escurecer de ódio e sabia que iria tentar revidar. m*l ela levantou a mão e eu a ameacei outra vez.
- Tem certeza que quer fazer isso? Já deixei avisado da outra vez e não mudei de ideia.
- Você vai me pagar por isso!
Agora ela falou baixinho e eu me senti na obrigação de levantar a minha.
- Vamos deixar combinado Sta Barrot, você não mexe comigo e eu finjo que você não existe.
Ver Júlia engolir a arrogância e marchar para fora não tinha preço. No entanto, eu sabia que não iria terminar por aí.
- Nathaly, o que foi isso?
- Essa mulher não perde uma oportunidade de me provocar. Sempre que a encontro, arruma um jeito de chamar a atenção.
- Pode deixar Nathaly, quando ela aparecer, a gente atende.
- Não tenho problema nenhum em atender ela. Desde que se comporte.
Voltei a guardar as roupas que estavam fora do lugar.
Depois de abrir o jogo com meu pai, pedi para que vendesse o Donatello. Mas já se passou quase um mês e ele ainda não foi vendido. Com a venda do meu carro, eu poderia reservar o dinheiro para uma passagem de avião para São Paulo e dar o resto para Aurora. Me encantei com a pequena.
Passei pelo parque mas ela não estava mais lá, espero poder vê-la amanhã e vou para casa em seguida.
No dia seguinte trabalhei normalmente na parte da manhã e ao voltar do almoço escuto um burburinho na entrada da loja.
Thales estava entrando, acompanhando Júlia e eu sabia que estava encrencada.
- Obrigada por me acompanhar, querido. Foi muita gentileza de sua parte.
Ao me ver, Thales veio em minha direção com o rosto sério.
- Amor, o que está fazendo aqui?
- Acho que eu deveria fazer essa pergunta.
Respondi antes dele me pegar pelo braço e me levar até o carro.