O despertador tocou às cinco da manhã.
Marcela não acordou na hora.
O corpo não respondeu.
A mente até tentou, mas era como se estivesse presa em algum lugar mais fundo, pesado demais pra subir rápido.
O som continuava insistente, cortando o silêncio do quarto pequeno, repetitivo, irritante… até que ela finalmente abriu os olhos.
Devagar.
Com dificuldade.
O teto branco parecia mais distante do que realmente era.
Ela piscou algumas vezes, tentando focar, enquanto o cansaço ainda pressionava o corpo inteiro como um peso constante. Não era só sono.
Era desgaste.
Era exaustão acumulada.
Era vida acontecendo rápido demais sem dar tempo de respirar.
Ela esticou o braço, desligou o despertador e ficou alguns segundos parada, olhando pro nada.
Pensando.
Ou tentando não pensar.
Porque quando pensava…
Tudo vinha de uma vez.
E ela não tinha energia pra isso logo cedo.
Soltou o ar devagar, sentou na cama e apoiou os cotovelos nos joelhos, levando as mãos ao rosto.
Ficou assim por alguns segundos.
Talvez minutos.
Nem ela sabia.
Até criar força pra levantar.
O apartamento era simples.
Pequeno.
Funcional.
Nada ali era luxo.
Mas também não era abandono.
Era o tipo de lugar que mostrava exatamente o momento da vida em que ela estava.
Recomeço.
Forçado.
Mas necessário.
No espelho do banheiro, Marcela se olhou com mais atenção.
Os olhos azuis ainda tinham aquele brilho natural, mas estavam cansados.
Mais fundos.
Marcados.
O cabelo loiro, normalmente bem cuidado, estava preso de qualquer jeito.
Prático.
Sem vaidade.
Sem tempo.
Ela passou água no rosto, tentando acordar de verdade.
Mas o que precisava acordar não era o corpo.
Era a força.
Enquanto se arrumava, o silêncio do apartamento era estranho.
Não vazio.
Mas carregado.
Porque aquele silêncio não era natural.
Era ausência.
Ausência de algo que um dia esteve ali.
E que deixou marcas.
O casamento.
Marcela fechou os olhos por um segundo.
E a memória veio sem pedir.
Como sempre.
No começo…
Não era assim.
Nunca é.
Ele era atencioso.
Presente.
Engraçado.
Do tipo que fazia ela rir fácil.
Do tipo que parecia seguro.
Confiável.
E ela acreditou.
Acreditou porque queria.
Porque fazia sentido.
Porque parecia certo.
Até não parecer mais.
As primeiras mudanças foram sutis.
Quase imperceptíveis.
Uma irritação aqui.
Uma resposta atravessada ali.
Nada grande.
Nada gritante.
Mas constante.
Depois vieram as ausências.
As saídas sem explicação.
As noites fora.
As mentiras m*l contadas.
E então…
O jogo.
No começo, era só “diversão”.
Uma aposta pequena.
Um dinheiro que não fazia diferença.
Segundo ele.
Mas começou a fazer.
E rápido.
Marcela lembrava da primeira vez que percebeu que aquilo era sério.
A conta conjunta.
Valores que não batiam.
Transferências estranhas.
E quando confrontou…
Veio a primeira discussão de verdade.
— Você tá exagerando.
A voz dele já não era a mesma.
— É só um momento r**m.
Mentira.
Porque não era momento.
Era vício.
E vício não negocia.
Não diminui.
Não espera.
Só cresce.
Com o tempo, o dinheiro começou a sumir.
Pouco a pouco.
Depois… muito.
Ela tentava segurar.
Organizar.
Controlar.
Mas era como tentar conter água com as mãos.
Escorria.
Sempre.
E junto com o dinheiro…
Veio o comportamento.
As discussões ficaram mais pesadas.
Mais frequentes.
Mais agressivas.
Nunca chegou a bater.
Mas não precisava.
O jeito de falar.
O tom.
As palavras.
Machucavam do mesmo jeito.
— Você não ajuda em nada.
— Você só sabe reclamar.
— Se não fosse eu, você nem tinha isso aqui.
Aquilo foi ficando.
Entrando.
Pesando.
Até o dia…
Em que ela viu o saldo da conta.
Zerado.
Não por necessidade.
Não por emergência.
Por aposta.
Ela ficou olhando aquela tela por minutos.
Sem reação.
Sem entender.
Sem conseguir processar.
E naquele momento…
Alguma coisa dentro dela decidiu.
Chega.
A separação não foi dramática.
Não teve grito.
Não teve cena.
Só fim.
Ele juntou o que restava.
Saiu.
E não olhou pra trás.
Mas sair…
Não significava recomeçar fácil.
Porque o estrago já estava feito.
Marcela terminou de se arrumar, pegou a bolsa e saiu do apartamento.
O dia já começava a clarear.
A rua ainda estava calma.
Mas dentro dela…
Não.
O hospital era outro mundo.
Sempre era.
Cheiro de álcool.
Gente andando rápido.
Macas passando.
Vozes misturadas.
Urgência em cada canto.
E ali…
Ela funcionava.
Colocava o jaleco.
Prendia o cabelo direito.
Respirava fundo.
E virava outra pessoa.
Mais firme.
Mais focada.
Mais forte.
Porque precisava ser. Marcela era a médica mais competente do hospital.
Os plantões eram longos.
Cansativos.
Sem pausa.
Sem descanso real.
Paciente atrás de paciente.
Problema atrás de problema.
Mas, de alguma forma…
Aquilo ajudava.
Porque mantinha a mente ocupada.
E longe…
Do que realmente doía.
Naquele dia, ela m*l parou.
Atendimento direto.
Correria.
Pressão.
E mesmo assim…
No meio de tudo…
Os pensamentos escapavam.
A casa.
—
A casa do pai.
—
A única coisa concreta que ainda restava.
—
Memória.
História.
Segurança.
Mas também…
Problema.
As dívidas.
Os papéis.
A burocracia.
E o golpe.
Ela apertou levemente os olhos enquanto terminava um atendimento.
A lembrança veio como um soco.
A empresa parecia perfeita.
Documentação.
Atendimento.
Confiança.
Tudo certo.
Tudo convincente.
Ela acreditou.
Pagou.
E sumiram.
—
Telefone desligado.
Escritório vazio.
Nenhuma resposta.
—
Dinheiro perdido.
—
Todo o esforço.
Todo o sacrifício.
—
Desapareceu.
—
Marcela apoiou as mãos na bancada por um segundo.
Respirando fundo.
Segurando.
Mas não era só isso.
Nunca era só uma coisa.
O celular vibrou no bolso.
Ela pegou.
Olhou a tela.
“Mãe”
O coração apertou na hora.
Ela atendeu.
— Oi, mãe…
A voz saiu suave.
Automática.
Do outro lado…
Silêncio.
E então…
— Filha…
Algo na voz…
Já dizia tudo.
E naquele momento…
Marcela soube.
Que ainda não tinha acabado.
Na verdade…
Estava só começando.
E dessa vez…
Ela não sabia como sair.